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sábado, 18 de janeiro de 2025

TEATRO: "Frágua de Amor"



TEATRO: “Frágua de Amor”,
de Gil Vicente
Encenação | António Augusto Barros
Tradução dos versos em castelhano | José Bento
Direcção musical e música original | Hugo Sanches
Cenografia | João Mendes Ribeiro, Luísa Bebiano
Figurinos e adereços | Ana Rosa Assunção
Interpretação | Ana Teresa Santos, Carlos Meireles, Igor Lebreaud, Maria Quintelas, Miguel Magalhães, Mónica Camaño, Nuno Meireles, Ricardo Kalash, Sérgio Ramos
Música | Eunice Abranches D’Aguiar, Irene Brigitte, Patrícia Silveira, Carlos Meireles, Sérgio Ramos, Hugo Sanches, Xurxo Varela, Carlos Sánchez, Rita Rógar
Produção | A Escola da Noite, O Bando de Surunyo
60 Minutos | Maiores de 14 Anos
Teatro Carlos Alberto
17 Jan 2025 | sex | 15:00


As peças de Gil Vicente têm-se constituído presença assídua na programação do Teatro Carlos Alberto, e ainda bem. Pela forma como retratam a sociedade portuguesa, pelo carácter moralizador e satírico, pela sua enorme comicidade e sentido de humor, mas sobretudo pelo seu humanismo, são peças sempre cativantes, divertidas e capazes de oferecer momentos verdadeiramente prazerosos. Assim é com “Frágua de Amor”, tragicomédia representada no desponsório do rei D. João III com a rainha D. Catarina, em Évora, no ano de 1524. Começando por celebrar tão faustoso acontecimento, a peça tem Cupido como principal protagonista. Com a ajuda de quatro robustos ferreiros - Mercúrio, Júpiter, Saturno e o Sol -, Cupido apresenta uma frágua capaz de transformar em realidade os sonhos daqueles que a ela se submetam. O primeiro a experimentá-la é um negro apaixonado por Vénus e que ambiciona tornar-se branco. Segue-se a Justiça, uma velha deformada que pretende alterar a imagem. Finalmente Rodrigo, um frade criticado pela sua falta de vocação e que deseja voltar a ser leigo. A peça termina com uma alegre canção, o que não é de somenos, visto a música assumir lugar de destaque ao longo de toda a representação.

Sabemos que Gil Vicente juntava às suas qualidades de dramaturgo as de compositor. As didascálias que, embora escassas e genéricas, é possível encontrar em algumas das suas peças deixam entender de forma clara que é esse o programa do teatro: finalizar com música. Mas a música no teatro de Gil Vicente está longe de ser confinada ao papel de um elemento de remate. Seja exclusivamente instrumental, seja cantada ou bailada, no elenco das suas peças a música ocupa um lugar de protagonista. “Frágua de Amor” surge nesta linha-charneira do teatro vicentino, surpreendendo pela estranheza de um texto linguisticamente distante, mais do que bilingue, e que precisa da cenografia, dos figurinos, da fala e jogo dos actores para se abrir à compreensão e adesão emocional dos espectadores. Mas, surpresa maior, vai ser justamente a alegria e a sofisticação carreadas pela música, pelos músicos e cantores, e pela sua interacção com as actrizes e os actores, a fazer-nos sentir o arrebatamento de uma acção que faz apelo à transformação, à metamorfose, e que, politicamente, nos diz, ainda hoje, como Gil Vicente apelava já a um urgente “desejo de mudança”.

Encantadora, a peça encenada por António Augusto Barros e que tem em Hugo Sanches o responsável pela parte musical permite-nos apreciar algo de verdadeiramente incomum e que podemos classificar como um musical vicentino. Posta em cena desta forma, com a componente lírica a assumir uma tão grande preponderância, a peça faz jus à ideia de um teatro a ampliar-se e a separar-se dos momos e chacotas, composto agora por monólogos, diálogos, música tocada, cantada e bailada, sagrada e profana, popular ou palaciana, como ensina Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Aliás, muito deste modus faciendi está patente em indicações textuais do dramaturgo, que também foi músico e autor de canções, como é o caso de “Muy graciosa es la doncella” e “El que quisiere apurar-se”, desta mesma tragicomédia, interpretadas com brio pelos elementos d'O Bando de Surunyo, investidos também em actores e pelos actores d'A Escola da Noite, que assumem igualmente o papel de músicos. Tudo aqui é Gil Vicente, mas convenhamos que é um luxo poder assistir a uma peça com tanto encanto e beleza e tão extraordinariamente bem interpretada.

[Excertos do texto construídos a partir da Folha de Sala da peça, a qual pode ser lida na íntegra em https://storage.googleapis.com/assets.tnsj.pt/documents/d29935bd-tnsj_2025-01-13_fragua-de-amor_programa-de-sala_af_web.pdf]

segunda-feira, 12 de junho de 2023

CONCERTO: "Que Sonoramente Canta"



CONCERTO: “Que Sonoramente Canta” | O Bando de Surunyo
Participação especial | Musurgia Ensemble
Direcção artística | Hugo Sanches
Com | Eunice Abranches d’Aguiar, Raquel Mendes (soprano); Patrícia Silveira (alto); Carlos Meireles (tenor); Sérgio Ramos (baixo); Hugo Sanches (alaúde); Pedro Martins* (alaúde); Hélder Sousa* (cravo); João Távora*, Silvia Cortini* (flauta); (*elementos Musurgia)
Produção | Artway
Organização | Divisão da Cultura e Desporto da Câmara Municipal de Ovar
60 Minutos | Todos os públicos
Capela do Calvário, Ovar
11 Jun 2023 | dom | 16:00


Foi um momento verdadeiramente singular aquele que, na tarde de ontem, pudemos escutar na Capela do Calvário, em Ovar. Replicando a música tocada na corte, em casas senhoriais ou em espaços religiosos nos séculos XVI e XVII, dando a ouvir os poemas que estão na sua génese, O Bando de Surunyo ofereceu um concerto onde à qualidade e virtuosismo souberam juntar a graça e a harmonia. Ao longo do concerto, com eles esteve o Musurgia Ensemble, projecto ovarense dedicado à música portuguesa e europeia dos séculos XV a XVIII, e ainda dois convidados especiais, também eles ovarenses - Beatriz Amaral e Ezekiel Martins -, que integraram os conjuntos num dos temas interpretados. Convidado a recuar cerca de quinhentos anos, o público teve a oportunidade de embarcar numa autêntica viagem no tempo, embalado por tonos e responsórios, letrilhas, vilancicos e ensaladas, ao encontro de “um universo musical em que religião e humanismo se fundem numa rica e variada paleta de géneros devocionais, teatrais e poéticos”.

“Que Sonoramente Canta” é um escaparate da música magistralmente escrita pelos cónegos regrantes do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, com finalidade ora litúrgica, ora lírica, ora teatral, ora de todas em simultâneo. Importa salientar que o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra foi um dos principais centros musicais da Península Ibérica durante o século XVII e que, no decurso dos últimos anos, O Bando de Surunyo se tem dedicado à redescoberta da vastíssima colecção de música aí produzida e que, felizmente, resistiu às agruras do tempo e chegou aos nossos dias. Ao trazer esta música de volta à vida, volvidos quase quatro séculos, o grupo oferece-nos a possibilidade de perceber o quanto ela mantém “o poder de encantamento que seguramente teria quando primeiro foi escutada.” É essa a sensação que temos quando, emocionados, escutamos “La justa”, de Mateo Flecha El Viejo, peça que abriu o concerto e que, na sua essência, nos mergulha no ambiente do combate mortal entre o bem e o mal, Deus de Israel e Lucifer, a Salvação das gentes como prémio anunciado.

O concerto prosseguiu com quatro peças produzidas no Mosteiro cerca de 1640/50, todas elas carregadas de um forte lirismo e tendo como tema principal o amor, as suas causas e consequências. Depois de “Beata viscera Mariae”, tema instrumental que é um responsório para o Natal, escutou-se “Dexad al Niño que Llore”, uma deliciosa letrilha onde os açoites propostos para calar o Deus menino prenunciam já os sofrimentos que virá a padecer até ao Calvário. Para o final estavam guardadas duas preciosidades - “A Minino Tam Bonitio” e “Antoniya! Flaciquia! Gazipá!” -, dois vilancicos de negro que remetem para a adoração do Menino Jesus e cujas letras guardam a componente da língua crioula. É no primeiro destes temas que encontramos a expressão “bando de surunyo” e que parece poder ser traduzida por “bando de estorninhos”. É também aqui que Raquel Mendes brilha a grande nível, juntando à beleza da sua voz uma enorme expressividade. A mesma expressividade e belíssima voz que encontramos em Patrícia Silveira no tema derradeiro, da autoria de Filipe da Madre de Deus, o qual inclui um bem humorado momento teatral. Teatro, poesia e música num concerto inesquecível.