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sábado, 7 de março de 2026

CONCERTO: “No Salão de Bach” | William Carter



CONCERTO: “No Salão de Bach”
Com | William Carter (alaúde)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela do Calvário
05 Mar 2026 | qui | 21:00


No arranque da segunda metade do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar, a organização elegeu o ambiente intimista e de recolhimento da Capela do Calvário para a apresentação a solo do consagrado alaudista norte-americano William Carter. Depois de aqui termos escutado, no ano passado, um conjunto de obras-primas do Barroco na flauta de bisel de Robert Ehrlich e no cravo de Alexander von Heißen, este foi um retomar da viagem a um dos mais fascinantes períodos da história da música, tendo sido possível apreciar o quanto de subtileza, graça, harmonia e beleza a música pode conter quando devolvida em acordes de rara mestria e virtuosismo. Tornada espaço de afinidades electivas e de emoções contidas, a Capela do Calvário foi palco privilegiado de evocação de um tempo em que os acordes reverberaram na intimidade dos salões, alimentando uma respiração comum entre William Carter e todos aqueles que tiveram o privilégio de o escutar. Instrumento de murmúrios e sombras luminosas, o alaúde foi a voz de uma conversa que atravessou séculos, oferecendo-se com a naturalidade de quem fala com fluência uma língua antiga, feita de madeira, cordas e silêncio.

O programa já insinuava a ideia de reinvenção, a música como matéria viva capaz de se reimaginar e de voltar ao convívio do público sempre livre e renovada. Foi isto que pudemos apreciar “no salão musical de Bach”, uma viagem que teve o seu início muito antes de Bach e que se prolongou para além dele, como se o compositor alemão surgisse no centro de uma constelação de mestres do alaúde. Nesta fascinante viagem, foi a arquitectura sonora do compositor que se impôs como pedra de toque. Para quem raramente escreveu a pensar nas limitações do intérprete, antes imaginou uma música que fosse além das fronteiras naturais dos instrumentos, Bach soube, como ninguém, transportar para o alaúde obras originalmente concebidas para violino ou violoncelo, criando verdadeiras transmutações sonoras que trouxeram uma nova vida musical a um vasto conjunto de peças. Foi nesse território que William Carter se moveu com rara elegância. O seu toque, de uma serenidade quase contemplativa, fez sobressair a continuidade melódica e a subtileza das danças escondidas na escrita bachiana, da leveza de um Adágio à tensão de uma Fuga ou à vertigem de um Presto.

As páginas de Esaias Reusner franquearam as portas do salão com a elegância austera do século XVII, prelúdios e pavanas a ensaiarem a respiração de uma dança processional lenta, solene e majestosa. A música de Sylvius Leopold Weiss trouxe ao programa a plenitude do instrumento, espalhando acordes, ora meditativos, ora cintilantes, capazes de reverberações medievalistas num universo de dança e fantasia. Mais atrás no tempo, o repertório de Ennemond Gaultier evocou a delicadeza francesa do alaúde barroco, cada acorde desenhado com o sentido de suspender o tempo. A pouco conhecida “La Cascade”, uma “chaconne” alegre e plena de lirismo no seu desígnio de mostrar até que ponto definhamos sem um pouco de música (e de vinho), foi um momento de felicidade suprema conduzido por William Carter de forma intensa, entusiástica e sensível. E assim o concerto terminou tal como começara, envolto numa atmosfera encantatória, onde cada nota pareceu suspensa no ar por instantes mais longos do que o tempo. No dedilhar subtil do alaúde, nada pareceu demonstrativo em William Carter; tudo soou simples, fluido, inevitável. E a música, simplesmente, aconteceu.

segunda-feira, 17 de março de 2025

CONCERTO: "Baroque Masterpieces"



CONCERTO: “Baroque Masterpieces”
Com | Robert Ehrlich (flauta de bisel), Alexander von Heißen (cravo)
Músico convidado | João Francisco Távora (flauta de bisel)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela do Calvário
16 Mar 2025 | dom | 18:00


A encerrar um fim-de-semana rico e variado em torno da Música Antiga, o CasterAntiqua elevou a fasquia ao ponto mais alto com a proposta de um programa dedicado às obras-primas do período Barroco. Expectativas ao rubro, a Capela do Calvário revelou-se pequena para acolher um vasto público que encontrou no concerto a oportunidade de escutar obras de alguns dos mais consagrados compositores de setecentos, interpretadas por dois músicos de relevo no panorama internacional da música antiga. Robert Ehrlich e Alexander von Heißen são ambos professores na Hochschule für Musik und Theater “Felix Mendelssohn Bartholdy”, em Leipzig, da qual Ehrlich foi reitor durante nove anos. Ambos têm no currículo a conquista de alguns dos maiores prémios em concursos internacionais, um vasto conjunto de digressões por todo o mundo e também a gravação de inúmeras obras como solistas e como membros de ensemble. Para este concerto convidaram João Francisco Távora, mestre em Música Antiga pela referida Escola de Leipzig, na classe do Professor Robert Ehrlich, e um dos directores artísticos do CásterAntiqua.

Foi um concerto de emoções, aquele a que pudemos assistir ao final da tarde de ontem. Emoções fortes, diga-se, desde logo pelo local escolhido para o concerto - um dos mais representativos do nosso património religioso -, sereno pela própria natureza de um espaço de culto, mas de uma enorme carga simbólica pela inquietação e dramatismo do Cristo crucificado e de todas as figuras que o rodeiam, dos soldados que jogam as suas vestes aos dados, a uma mãe também ela em agonia ante a morte eminente do seu filho. De um lado a santidade, do outro a heresia. Um sagrado e um profano contrastantes e cuja presença foi evidente no conjunto de peças musicais escolhidas para o programa deste terceiro dia do Festival, de um mundano e efusivo Händel a abrir, a um Bach profundamente espiritual a fechar. De emoções fortes, ainda, porque trazer para o concerto uma “parada de estrelas”, onde se incluem George Frideric Handel, Jacob van Eyck, Matthew Locke, Arcangelo Corelli e Johann Sebastian Bach, é tudo menos fácil, ainda que o possa parecer. A interpretação das obras-primas destes mestres exige entrega, rigor e um enorme virtuosismo. E foi precisamente aqui que o concerto atingiu os mais altos patamares de excelência, graças à mestria dos intérpretes, à sua técnica exímia, ao seu enorme talento, à sua forte cumplicidade.

A par de uma lição de música de altíssimo nível, “Baroque Masterpieces” foi também uma lição de História. Ciceroneado por Robert Ehrlich, o público bebeu nas suas palavras apaixonadas o sabor da viagem, ao mesmo tempo que se foi cruzando com nomes importantes da história da música, do compositor e flautista francês Jacques-Martin Hotteterre, a Frans Brüggen, maestro neerlandês que devolveu a nobreza de estatuto à flauta de bisel, dando a conhecer ao mundo o seu fascinante repertório da Renascença e do Barroco. A jornada teve início numa Londres pacificada e próspera, onde Handel triunfou graças à genialidade das suas composições, nomeadamente óperas sobre as quais se construiu uma multiplicidade de arranjos e variações. Não tardaríamos a ver a mesma Londres mergulhada em guerras fratricidas e assolada pela peste, disso sendo testemunhas as composições de Matthew Locke. Em Roma, centro do mundo musical à época, deparámo-nos com Arcangelo Corelli, outro dos génios do Barroco, e com a sua maravilhosa Sonata em Lá Maior, Op. 5 No. 9. A viagem terminou em Leipzig, por volta do ano de 1730, no ambiente celestial que só as composições de Bach logram criar. Concluída a primeira parte deste CásterAntiqua, o sentimento é o da maior satisfação, havendo expectativas fundadas de que os quatro últimos dias do Festival serão apoteóticos. Mil bravos!

segunda-feira, 12 de junho de 2023

CONCERTO: "Que Sonoramente Canta"



CONCERTO: “Que Sonoramente Canta” | O Bando de Surunyo
Participação especial | Musurgia Ensemble
Direcção artística | Hugo Sanches
Com | Eunice Abranches d’Aguiar, Raquel Mendes (soprano); Patrícia Silveira (alto); Carlos Meireles (tenor); Sérgio Ramos (baixo); Hugo Sanches (alaúde); Pedro Martins* (alaúde); Hélder Sousa* (cravo); João Távora*, Silvia Cortini* (flauta); (*elementos Musurgia)
Produção | Artway
Organização | Divisão da Cultura e Desporto da Câmara Municipal de Ovar
60 Minutos | Todos os públicos
Capela do Calvário, Ovar
11 Jun 2023 | dom | 16:00


Foi um momento verdadeiramente singular aquele que, na tarde de ontem, pudemos escutar na Capela do Calvário, em Ovar. Replicando a música tocada na corte, em casas senhoriais ou em espaços religiosos nos séculos XVI e XVII, dando a ouvir os poemas que estão na sua génese, O Bando de Surunyo ofereceu um concerto onde à qualidade e virtuosismo souberam juntar a graça e a harmonia. Ao longo do concerto, com eles esteve o Musurgia Ensemble, projecto ovarense dedicado à música portuguesa e europeia dos séculos XV a XVIII, e ainda dois convidados especiais, também eles ovarenses - Beatriz Amaral e Ezekiel Martins -, que integraram os conjuntos num dos temas interpretados. Convidado a recuar cerca de quinhentos anos, o público teve a oportunidade de embarcar numa autêntica viagem no tempo, embalado por tonos e responsórios, letrilhas, vilancicos e ensaladas, ao encontro de “um universo musical em que religião e humanismo se fundem numa rica e variada paleta de géneros devocionais, teatrais e poéticos”.

“Que Sonoramente Canta” é um escaparate da música magistralmente escrita pelos cónegos regrantes do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, com finalidade ora litúrgica, ora lírica, ora teatral, ora de todas em simultâneo. Importa salientar que o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra foi um dos principais centros musicais da Península Ibérica durante o século XVII e que, no decurso dos últimos anos, O Bando de Surunyo se tem dedicado à redescoberta da vastíssima colecção de música aí produzida e que, felizmente, resistiu às agruras do tempo e chegou aos nossos dias. Ao trazer esta música de volta à vida, volvidos quase quatro séculos, o grupo oferece-nos a possibilidade de perceber o quanto ela mantém “o poder de encantamento que seguramente teria quando primeiro foi escutada.” É essa a sensação que temos quando, emocionados, escutamos “La justa”, de Mateo Flecha El Viejo, peça que abriu o concerto e que, na sua essência, nos mergulha no ambiente do combate mortal entre o bem e o mal, Deus de Israel e Lucifer, a Salvação das gentes como prémio anunciado.

O concerto prosseguiu com quatro peças produzidas no Mosteiro cerca de 1640/50, todas elas carregadas de um forte lirismo e tendo como tema principal o amor, as suas causas e consequências. Depois de “Beata viscera Mariae”, tema instrumental que é um responsório para o Natal, escutou-se “Dexad al Niño que Llore”, uma deliciosa letrilha onde os açoites propostos para calar o Deus menino prenunciam já os sofrimentos que virá a padecer até ao Calvário. Para o final estavam guardadas duas preciosidades - “A Minino Tam Bonitio” e “Antoniya! Flaciquia! Gazipá!” -, dois vilancicos de negro que remetem para a adoração do Menino Jesus e cujas letras guardam a componente da língua crioula. É no primeiro destes temas que encontramos a expressão “bando de surunyo” e que parece poder ser traduzida por “bando de estorninhos”. É também aqui que Raquel Mendes brilha a grande nível, juntando à beleza da sua voz uma enorme expressividade. A mesma expressividade e belíssima voz que encontramos em Patrícia Silveira no tema derradeiro, da autoria de Filipe da Madre de Deus, o qual inclui um bem humorado momento teatral. Teatro, poesia e música num concerto inesquecível.