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quarta-feira, 21 de maio de 2025

CONCERTO: “Iste Confessor Domini – Música franco-flamenga e portuguesa do séc. XVI”



CONCERTO: “Iste Confessor Domini – Música franco-flamenga e portuguesa do séc. XVI”
Musurgia Ensemble
Direcção musical | João Francisco Távora
Com | António Godinho (flauta de bisel), Emma Reynaud (flauta de bisel), João Francisco Távora (flauta de bisel), Robert Ehrlich (flauta de bisel), Sofia Pedro (soprano), Luís Toscano (tenor)
Apresentação | Ana Isabel Nistal Freijo
Maio do Azulejo 2025
Igreja Matriz de Válega
17 Mai 2025 | sab | 18h00


“Unha lingua é máis ca unha obra de arte; é matriz inesgotábel de obras de arte”.
Castelao

Antes de falar do extraordinário momento que foi “Iste Confessor Domini” e do olhar que o Musurgia Ensemble abriu sobre a música franco-flamenga e portuguesa do século XVI, falarei de um projecto que merece a minha admiração e ao qual este concerto, ainda que programado no âmbito do Maio do Azulejo, se encontra intimamente ligado. Falo de “Inovar as Letras”, residência artística de Ana Isabel Nistal Freijo que tem como sede e laboratório de criação o Museu Júlio Dinis – Uma Casa Ovarense. É a partir do mais representativo símbolo literário da cidade que a investigadora, natural da Galiza e a residir entre nós, se propõe abordar, de forma inovadora, o sonoro e o musical na literatura portuguesa, ao mesmo tempo contribuindo para a promoção da imagem de Ovar como cidade criativa. O amor às letras e à língua portuguesa e a sua experiência pedagógica nos campos da estética e da hermenêutica, fazem de Ana Freijo a pessoa certa no lugar certo, para júbilo maior daqueles que se mostram dispostos a abraçar uma agenda rica de propostas e conteúdos e que se prolongará no tempo até finais de Março do próximo ano.

O projecto “Inovar as Letras” foi apresentado na tarde de domingo na acolhedora sala do Museu Júlio Dinis, o mesmo lugar que nos dias anteriores recebera os músicos numa residência artística desenvolvida pelo Musurgia Ensemble, sob a orientação de João Francisco Távora. Este facto deixa clara a ligação entre dois momentos de enorme significado e alcance, com cinco dos sete elementos envolvidos no concerto a marcarem presença no dia seguinte e a oferecerem, no decurso da apresentação do projecto, um momento musical que a todos encantou. Olhemos, enfim, para o concerto de sábado, não sem antes admirarmos a beleza do interior da Igreja Matriz de Válega e a riqueza azulejar que encerra, propiciadores das condições ideais para a fruição de uma música de cariz litúrgico. Este concerto foi o culminar do trabalho de investigação do manuscrito P-Cug MM 2, do século XVI, repositório de onze Missas dos mais prestigiados compositores franco-flamengos da época e de um Credo - na verdade incompleto e de autor desconhecido - que podemos encontrar na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

Parte integrante do manuscrito referido, a Missa “Iste Confessor Domini” presidiu ao programa do concerto, o qual incluiu também um conjunto de três peças instrumentais de compositores portugueses e franco-flamengos do mesmo período: “Verso do 4.º Tom”, de Heliodoro de Paiva, “Ricercar 6”, de Jacques Buus, e “Tento do 2.º Tom”, de António Carreira. Dividido em duas partes, o concerto foi apresentado por Ana Freijo, com o intuito de contextualizar o trabalho artístico e laboratorial em causa. A investigadora começou por destacar um repertório representativo do que de melhor se pode achar no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, mas também o facto de estarmos perante um consorte de flautas, todas elas réplicas de instrumentos do século XVI, período a que se reportam as composições seleccionadas. A escuta dos diferentes tons de cada uma das flautas e uma leitura do conteúdo da Missa por Sofia Pedro predispuseram o público para os dois momentos - o “Kyrie” e o “Gloria” - que abriram o concerto e se revelaram preciosos, tanto pela limpidez de vozes dos solistas quanto pela graça e requinte do consorte de flautas. Intrometendo-se entre dois instrumentais, o Credo foi um momento sublime, a harmonia das vozes e das flautas a elevarem o concerto a um patamar de qualidade ímpar.

A dar início à segunda metade do concerto, Ana Freijo falou das peças instrumentais e de que forma as podemos encontrar nos respectivos manuscritos, por vezes reescritas, ainda que com algumas discrepâncias. São vários os ensinamentos que se podem retirar destes factos, desde logo a função didáctica dos manuscritos, um conjunto de peças não sujeitas a uma interpretação rígida, tal como os instrumentos utilizados que poderiam ser outros. Estamos, pois, perante um repertório aberto em todos os sentidos, ao contrário da ideia comum de que uma peça só tem uma forma de ser interpretada. Daí que o programa seja uma proposta de interpretação e não uma recriação exacta de como seria esta música tocada no Mosteiro de Santa Cruz em pleno século XVI. “É sempre bom termos consciência que os próprios músicos do século XVI tinham esta flexibilidade perante o repertório”, concluiu Ana Freijo. Passando à música, a segunda parte teve no Sanctus, da Missa “Iste Confessor Domini” novo momento alto, com Sofia Pedro a impressionar pela beleza de timbre e afinação irrepreensível, enquanto Luís Toscano evidenciava uma superior dinâmica de interpretação. A terminar, o “Agnus Dei” foi a coroa de glória de um concerto marcado pela profunda entrega interpretativa de todos os elementos sem excepção e de um som limpo, harmonioso e muito belo.

segunda-feira, 17 de março de 2025

CONCERTO: "Baroque Masterpieces"



CONCERTO: “Baroque Masterpieces”
Com | Robert Ehrlich (flauta de bisel), Alexander von Heißen (cravo)
Músico convidado | João Francisco Távora (flauta de bisel)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Capela do Calvário
16 Mar 2025 | dom | 18:00


A encerrar um fim-de-semana rico e variado em torno da Música Antiga, o CasterAntiqua elevou a fasquia ao ponto mais alto com a proposta de um programa dedicado às obras-primas do período Barroco. Expectativas ao rubro, a Capela do Calvário revelou-se pequena para acolher um vasto público que encontrou no concerto a oportunidade de escutar obras de alguns dos mais consagrados compositores de setecentos, interpretadas por dois músicos de relevo no panorama internacional da música antiga. Robert Ehrlich e Alexander von Heißen são ambos professores na Hochschule für Musik und Theater “Felix Mendelssohn Bartholdy”, em Leipzig, da qual Ehrlich foi reitor durante nove anos. Ambos têm no currículo a conquista de alguns dos maiores prémios em concursos internacionais, um vasto conjunto de digressões por todo o mundo e também a gravação de inúmeras obras como solistas e como membros de ensemble. Para este concerto convidaram João Francisco Távora, mestre em Música Antiga pela referida Escola de Leipzig, na classe do Professor Robert Ehrlich, e um dos directores artísticos do CásterAntiqua.

Foi um concerto de emoções, aquele a que pudemos assistir ao final da tarde de ontem. Emoções fortes, diga-se, desde logo pelo local escolhido para o concerto - um dos mais representativos do nosso património religioso -, sereno pela própria natureza de um espaço de culto, mas de uma enorme carga simbólica pela inquietação e dramatismo do Cristo crucificado e de todas as figuras que o rodeiam, dos soldados que jogam as suas vestes aos dados, a uma mãe também ela em agonia ante a morte eminente do seu filho. De um lado a santidade, do outro a heresia. Um sagrado e um profano contrastantes e cuja presença foi evidente no conjunto de peças musicais escolhidas para o programa deste terceiro dia do Festival, de um mundano e efusivo Händel a abrir, a um Bach profundamente espiritual a fechar. De emoções fortes, ainda, porque trazer para o concerto uma “parada de estrelas”, onde se incluem George Frideric Handel, Jacob van Eyck, Matthew Locke, Arcangelo Corelli e Johann Sebastian Bach, é tudo menos fácil, ainda que o possa parecer. A interpretação das obras-primas destes mestres exige entrega, rigor e um enorme virtuosismo. E foi precisamente aqui que o concerto atingiu os mais altos patamares de excelência, graças à mestria dos intérpretes, à sua técnica exímia, ao seu enorme talento, à sua forte cumplicidade.

A par de uma lição de música de altíssimo nível, “Baroque Masterpieces” foi também uma lição de História. Ciceroneado por Robert Ehrlich, o público bebeu nas suas palavras apaixonadas o sabor da viagem, ao mesmo tempo que se foi cruzando com nomes importantes da história da música, do compositor e flautista francês Jacques-Martin Hotteterre, a Frans Brüggen, maestro neerlandês que devolveu a nobreza de estatuto à flauta de bisel, dando a conhecer ao mundo o seu fascinante repertório da Renascença e do Barroco. A jornada teve início numa Londres pacificada e próspera, onde Handel triunfou graças à genialidade das suas composições, nomeadamente óperas sobre as quais se construiu uma multiplicidade de arranjos e variações. Não tardaríamos a ver a mesma Londres mergulhada em guerras fratricidas e assolada pela peste, disso sendo testemunhas as composições de Matthew Locke. Em Roma, centro do mundo musical à época, deparámo-nos com Arcangelo Corelli, outro dos génios do Barroco, e com a sua maravilhosa Sonata em Lá Maior, Op. 5 No. 9. A viagem terminou em Leipzig, por volta do ano de 1730, no ambiente celestial que só as composições de Bach logram criar. Concluída a primeira parte deste CásterAntiqua, o sentimento é o da maior satisfação, havendo expectativas fundadas de que os quatro últimos dias do Festival serão apoteóticos. Mil bravos!