Nascido em 2020 com a firme vontade de contribuir para o desconfinamento da nova música portuguesa e de abrir um espaço de descoberta, afirmação e proximidade com o público, o Ovar Expande tem sabido construir, edição após edição, uma identidade própria no panorama cultural nacional. Partindo da ambição de dar a conhecer o que de melhor se vem fazendo entre nós, o festival cresceu sem perder de vista os princípios que estiveram na sua génese, apostando na qualidade e diversidade da programação, no diálogo entre artistas e espectadores e na criação de experiências que ultrapassassem o espaço convencional do concerto. A renovação do formato, a integração de conversas, oficinas e masterclasses e a atenção dispensada aos processos de criação e às metamorfoses que dão forma à música, têm contribuído para consolidar um projecto diferenciador e que é hoje uma referência incontornável na divulgação de novos talentos. Subordinada ao tema «Dos Primeiros Esboços às Metamorfoses», esta sétima edição confirmou a maturidade de um festival que continua a saber conjugar descoberta e reconhecimento, proximidade e exigência, mantendo-se fiel ao propósito de revelar a riqueza e a vitalidade da música que se faz no presente.
A primeira noite colocou em diálogo dois percursos distintos, unidos pela força da palavra e pela singularidade das propostas. Na Sala Galeria, Mafalda apresentou, em ante-estreia, “Gosto Muito de Estar Aqui”, álbum de estreia sob o seu nome de nascimento, integralmente cantado em português e dedicado à identidade, à pertença e à transformação pessoal. Depois do percurso iniciado como Mathilda, a artista revelou um universo intimista e sensorial, apoiado em sonoridades evocativas da natureza e, numa voz envolvente, soube encontrar espaço tanto para a serenidade como para o movimento. Na Sala Expande, Samuel Úria subiu ao palco na companhia de “Os 12 ao Todo”, num concerto em que a riqueza da escrita e a expressividade vocal assumiram o protagonismo. Entre canções emblemáticas, arranjos corais e momentos de inesperada explosão, o cantautor demonstrou como um repertório reconhecido pelo simbolismo das palavras pode ganhar novas dimensões sem perder a sua identidade. O carisma e a cumplicidade entre palco e plateia fecharam a noite num ambiente de celebração, confirmando a capacidade do festival para juntar diferentes gerações e as mais distintas sensibilidades musicais.
O segundo dia do Ovar Expande afirmou-se como um encontro de diferentes sensibilidades musicais, unidas pela força da palavra, pela expressividade e pela liberdade criativa. Coube a Ray, projecto a solo de Luís Raimundo, abrir a jornada, num concerto despido de artifícios, em que a voz e a guitarra deram corpo às canções de “Buffalo”, álbum editado em 2025. Entre a delicadeza e a intensidade, o músico construiu um momento de proximidade e partilha, percorrendo temas como o amor, a paternidade, a morte e a reinvenção pessoal. Seguiu-se Homem em Catarse, alter ego de Afonso Dorido, que trouxe a Ovar o universo ecléctico de “Catarse Natural”, disco onde a folk, o shoegaze, o pós-fado e outras paisagens sonoras se cruzam com inquietações sociais e políticas. Da crise da habitação à esperança num mundo mais justo, as canções revelaram um autor comprometido com a palavra, sem abdicar da experimentação e da intensidade emocional. A encerrar a noite, Sean Riley recuperou a trajectória dos Sean Riley And The Slowriders, projecto incontornável da música portuguesa das últimas duas décadas. Entre folk, rock e blues, o cantautor revisitou um repertório marcado pela contenção, pela escrita intimista e pela elegância dos arranjos, confirmando a consistência de uma obra que continua a encontrar na simplicidade a sua maior força.
O derradeiro dia do Ovar Expande começou com a intimidade de Rita Cortezão que, entre o sintetizador e as canções de “Tudo, Um Pouco”, o seu álbum de estreia, revelou uma voz autoral em pleno desabrochar. A aparente fragilidade deu rapidamente lugar à segurança interpretativa, à versatilidade vocal e a uma presença cativante, num concerto em que histórias pessoais se transformaram em experiências partilhadas. De «Lisbolha» a «O tempo que fica», a artista percorreu temas como a pertença, a passagem dos dias e os laços que resistem à memória, encerrando com “Só para Mim” uma actuação marcada pela proximidade e pela generosidade. Seguiu-se Ezekiel, projecto instrumental do músico residente em Ovar, que encontrou na guitarra lap steel Weissenborn o ponto de partida para uma viagem que combinou a folk, a country e outras tradições sonoras. Com carta branca para chamar para junto de si a multi-instrumentista e cantora italiana Irene Brigitte, o músico começou a solo, antes de alargar o espectro sonoro com a guitarra, o adufe e a voz da convidada. “In Riva” e “Menta” abriram caminho a sonoridades triestinas, enquanto “A Gente Vai Continuar” proporcionou um dos momentos mais luminosos da noite, com o público a juntar-se à homenagem a Jorge Palma, que nos deixou muito recentemente. A fechar o festival, os PAUS trouxeram a Ovar o peso simbólico de uma despedida anunciada. Na derradeira digressão, que acompanha o álbum “Enterro” e assinala o fim de dezoito anos de percurso, o quarteto voltou a afirmar uma identidade singular, entre o rock e a experimentação rítmica. Num concerto intenso, o grupo transformou o fim em matéria artística, deixando no Ovar Expande a marca de uma banda que soube sempre escapar às fronteiras dos géneros.