Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Música. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Música. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2026



CONCERTOS & CONVERSAS: Ovar Expande 2026
Com | Mafalda, Samuel Úria & Os 12 ao Todo, RAY, Homem em Catarse, Sean Riley and The Slowriders, Rita Cortesão, Ezekiel e PAUS
Escola de Artes e Ofícios
14 a 17 Out 2026


Nascido em 2020 com a firme vontade de contribuir para o desconfinamento da nova música portuguesa e de abrir um espaço de descoberta, afirmação e proximidade com o público, o Ovar Expande tem sabido construir, edição após edição, uma identidade própria no panorama cultural nacional. Partindo da ambição de dar a conhecer o que de melhor se vem fazendo entre nós, o festival cresceu sem perder de vista os princípios que estiveram na sua génese, apostando na qualidade e diversidade da programação, no diálogo entre artistas e espectadores e na criação de experiências que ultrapassassem o espaço convencional do concerto. A renovação do formato, a integração de conversas, oficinas e masterclasses e a atenção dispensada aos processos de criação e às metamorfoses que dão forma à música, têm contribuído para consolidar um projecto diferenciador e que é hoje uma referência incontornável na divulgação de novos talentos. Subordinada ao tema «Dos Primeiros Esboços às Metamorfoses», esta sétima edição confirmou a maturidade de um festival que continua a saber conjugar descoberta e reconhecimento, proximidade e exigência, mantendo-se fiel ao propósito de revelar a riqueza e a vitalidade da música que se faz no presente.

A primeira noite colocou em diálogo dois percursos distintos, unidos pela força da palavra e pela singularidade das propostas. Na Sala Galeria, Mafalda apresentou, em ante-estreia, “Gosto Muito de Estar Aqui”, álbum de estreia sob o seu nome de nascimento, integralmente cantado em português e dedicado à identidade, à pertença e à transformação pessoal. Depois do percurso iniciado como Mathilda, a artista revelou um universo intimista e sensorial, apoiado em sonoridades evocativas da natureza e, numa voz envolvente, soube encontrar espaço tanto para a serenidade como para o movimento. Na Sala Expande, Samuel Úria subiu ao palco na companhia de “Os 12 ao Todo”, num concerto em que a riqueza da escrita e a expressividade vocal assumiram o protagonismo. Entre canções emblemáticas, arranjos corais e momentos de inesperada explosão, o cantautor demonstrou como um repertório reconhecido pelo simbolismo das palavras pode ganhar novas dimensões sem perder a sua identidade. O carisma e a cumplicidade entre palco e plateia fecharam a noite num ambiente de celebração, confirmando a capacidade do festival para juntar diferentes gerações e as mais distintas sensibilidades musicais.

O segundo dia do Ovar Expande afirmou-se como um encontro de diferentes sensibilidades musicais, unidas pela força da palavra, pela expressividade e pela liberdade criativa. Coube a Ray, projecto a solo de Luís Raimundo, abrir a jornada, num concerto despido de artifícios, em que a voz e a guitarra deram corpo às canções de “Buffalo”, álbum editado em 2025. Entre a delicadeza e a intensidade, o músico construiu um momento de proximidade e partilha, percorrendo temas como o amor, a paternidade, a morte e a reinvenção pessoal. Seguiu-se Homem em Catarse, alter ego de Afonso Dorido, que trouxe a Ovar o universo ecléctico de “Catarse Natural”, disco onde a folk, o shoegaze, o pós-fado e outras paisagens sonoras se cruzam com inquietações sociais e políticas. Da crise da habitação à esperança num mundo mais justo, as canções revelaram um autor comprometido com a palavra, sem abdicar da experimentação e da intensidade emocional. A encerrar a noite, Sean Riley recuperou a trajectória dos Sean Riley And The Slowriders, projecto incontornável da música portuguesa das últimas duas décadas. Entre folk, rock e blues, o cantautor revisitou um repertório marcado pela contenção, pela escrita intimista e pela elegância dos arranjos, confirmando a consistência de uma obra que continua a encontrar na simplicidade a sua maior força.

O derradeiro dia do Ovar Expande começou com a intimidade de Rita Cortezão que, entre o sintetizador e as canções de “Tudo, Um Pouco”, o seu álbum de estreia, revelou uma voz autoral em pleno desabrochar. A aparente fragilidade deu rapidamente lugar à segurança interpretativa, à versatilidade vocal e a uma presença cativante, num concerto em que histórias pessoais se transformaram em experiências partilhadas. De «Lisbolha» a «O tempo que fica», a artista percorreu temas como a pertença, a passagem dos dias e os laços que resistem à memória, encerrando com “Só para Mim” uma actuação marcada pela proximidade e pela generosidade. Seguiu-se Ezekiel, projecto instrumental do músico residente em Ovar, que encontrou na guitarra lap steel Weissenborn o ponto de partida para uma viagem que combinou a folk, a country e outras tradições sonoras. Com carta branca para chamar para junto de si a multi-instrumentista e cantora italiana Irene Brigitte, o músico começou a solo, antes de alargar o espectro sonoro com a guitarra, o adufe e a voz da convidada. “In Riva” e “Menta” abriram caminho a sonoridades triestinas, enquanto “A Gente Vai Continuar” proporcionou um dos momentos mais luminosos da noite, com o público a juntar-se à homenagem a Jorge Palma, que nos deixou muito recentemente. A fechar o festival, os PAUS trouxeram a Ovar o peso simbólico de uma despedida anunciada. Na derradeira digressão, que acompanha o álbum “Enterro” e assinala o fim de dezoito anos de percurso, o quarteto voltou a afirmar uma identidade singular, entre o rock e a experimentação rítmica. Num concerto intenso, o grupo transformou o fim em matéria artística, deixando no Ovar Expande a marca de uma banda que soube sempre escapar às fronteiras dos géneros.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

CONCERTO: "Cancioneiro de Fausto" | Coimbra Jazz Ensemble



CONCERTO: “Cancioneiro de Fausto”
Coimbra Jazz Ensemble
Direcção artística | Rui Lúcio
Arranjos e direcção musical | Luís Figueiredo e João Mortágua
Com | João Mortágua, Rafael Lopes, Alexandre Madeira, João Silva e Rodrigo Neves (saxofones), Nuno Rodrigues, Adriano Franco, João Serrano e Daniel Tapadinhas (trompetes), Andreia Santos, João Sêco e Pedro Santos (trombones), Luís Figueiredo (piano e percussão), Ismael Silva (vibrafone e percussão), João Cação (contrabaixo), Rui Lúcio (bateria), José Santos e Carolina Cardetas (voz)
Estarrejazz 2026
Auditório do Centro Paroquial de Avanca
10 Out 2026 | sab | 21:30


As viagens começam muito antes do soltar amarras. Na penúltima noite da 21.ª edição do Estarrejazz, a viagem proposta pelo Coimbra Jazz Ensemble partiu do sonho de revisitar o cancioneiro de Fausto Bordalo Dias, criador maior de uma música portuguesa onde a História, a consciência política e a tradição popular se entrelaçam com uma liberdade sem fronteiras. As obras em curso no Cine-Teatro de Estarreja obrigaram o Festival a procurar outros portos de abrigo, pedindo ao jazz que encontrasse o seu lugar em diferentes espaços do Concelho. Coube ao Auditório do Centro Paroquial de Avanca acolher esta travessia e proporcionar a primeira surpresa da noite: uma sala com excelentes condições, cuja descoberta merecia, por si só, uma muito maior afluência. Mas só fez falta quem lá esteve. Fundado em 2014, o Coimbra Jazz Ensemble, sob a direcção artística de Rui Lúcio, encontrou em Luís Figueiredo e João Mortágua os arquitectos de uma prodigiosa reinvenção. Esconder os temas em intróitos de apurado engenho e dinamismo, suspendendo o reconhecimento até à chegada das primeiras palavras, foi o primeiro sinal de uma noite em que o jazz, a bossa nova, as sonoridades de inspiração árabe, o fado e até a música clássica se fundiram numa linguagem tão livre quanto fiel ao espírito de Fausto.

De “A Chusma Salva-se Assim” a “Por Este Rio Acima”, a travessia abriu-se sob o signo da tragédia e da esperança. Primeiro, a violência de um mundo em naufrágio, no qual a sobrevivência se confunde com a desumanidade. Depois, o sonho de uma terra em harmonia, atravessada por rios onde vogam especiarias, memórias e a possibilidade de um destino comum. Antes de o concerto se aproximar de geografias mais íntimas, “Atrás dos Tempos” ergueu-se como uma declaração de resistência, lembrando-nos que o futuro não se espera, conquista-se. Em “Porque Me Olhas Assim”, talvez o ponto mais alto da noite, o desejo desenhou cidades, pontes e encontros, enquanto “Porque Não Me Vês” devolveu o amor à sua condição mais vulnerável, feita de saudade, abandono e marés interiores. Seguiu-se “Como Um Sonho Acordado”, mergulho inquietante nas sombras do medo, antes de “Na Ponta do Cabo” transformar o palco num oceano revolto, onde ventos, destroços e gritos pareceram ganhar corpo na própria arquitectura sonora do ensemble. Aqui se revelou, em toda a sua dimensão, o trabalho de Luís Figueiredo e João Mortágua, a sua escrita musical que não se limita a vestir as canções, antes lhes descobre novas profundidades, fazendo da harmonia e do ritmo matéria narrativa. Os solos sucederam-se com assinalável qualidade, com Rafael Lopes, Rodrigo Neves, Andreia Santos e João Serrano, entre outros, a acrescentarem personalidade e fulgor a uma formação de notável coesão. Ao piano, Luís Figueiredo conduziu a viagem com sensibilidade e rigor; no saxofone, João Mortágua afirmou uma voz que tanto soube iluminar o percurso como oferecer-lhe espaço para respirar.

Com “O Cortejo dos Penitentes”, a viagem entrou num território de severidade quase ritual, expondo o paradoxo de uma fé que glorifica o sofrimento e se alimenta da culpa alheia. Mas era ainda o mesmo mundo de Fausto, esse lugar onde a beleza convive com a violência, a liberdade com a opressão, o sonho com a sua ruína. E foi dessa tensão que nasceu “Lembra-me um Sonho Lindo”, momento de suspensão e entrega em que a memória, o desejo e a fragilidade humana se encontraram numa melodia de extraordinária força evocativa. A voz de Carolina Cardetas elevou o tema com uma expressividade que roçou o território do fado, sem perder a delicadeza nem a contenção, enquanto José Santos contribuiu para a identidade vocal do projecto. “O Barco Vai de Saída” encerrou o alinhamento como quem torna a içar velas, devolvendo-nos ao mar de aventuras, perigos e contradições que atravessa tantas das canções de Fausto. O inevitável regresso, em encore, a “Lembra-me um Sonho Lindo” não foi mera repetição, antes soou a despedida adiada, à vontade de permanecer mais um pouco num lugar onde tudo pareceu perfeito. O que o Coimbra Jazz Ensemble conseguiu em Avanca foi, mais do que reinterpretar dez canções, saber reuni-las numa narrativa contínua, de geografias concretas e paisagens sensoriais, em que cada tema prolongou o anterior e preparou o seguinte. Uma celebração irreverente no melhor dos sentidos, capaz de ampliar os horizontes de uma obra singular e de provar que os grandes cancioneiros não se encerram no tempo: continuam a navegar, desde que haja músicos dispostos a sonhar com eles.

domingo, 4 de outubro de 2026

PERFORMANCE POÉTICA E MUSICAL: “As Palavras Procuram Lugar” | Filipa Leal



PERFORMANCE POÉTICA E MUSICAL: “As Palavras Procuram Lugar”
Ideia original | João Martins
Com | Filipa Leal (voz), João Martins (composição, teclados, sopros), Óscar Marcelino da Graça (piano)
XII Festival Literário de Ovar
Centro de Artes de Ovar
16 Set 2026 | qua | 22:30


Há um gesto feliz em inaugurar um Festival Literário perguntando às palavras se querem abandonar o lugar que lhes está destinado. “E se as palavras procurassem um outro lugar?” foi a pergunta que deu origem à criação de João Martins, cuja estreia absoluta teve lugar no Centro de Arte de Ovar. Terno e generoso, frequentemente brilhante, o espectáculo preferiu pôr as palavras em trânsito e deixar aos espectadores a tarefa de responder à questão. Filipa Leal trouxe consigo cidades esquecidas, rios exactos, quintas-feiras adiadas, corpos sem intervalo, aves que recusam pousar no coração, poetas que não aceitam que lhes cortem a língua. João Martins, nos teclados e sopros, e Óscar Marcelino da Graça, ao piano, fizeram o resto. Longe de acompanharem os poemas, no sentido subalterno que a palavra “acompanhamento” tantas vezes encerra, preferiram por-se ao lado de Filipa Leal e escreverem com ela. Houve poemas que a música empurrou para a vertigem e outros que obrigou a respirar mais devagar. Houve palavras que pareceram nascer do silêncio e silêncios que adquiriram uma densidade quase verbal. O poema tornou-se música não porque tivesse sido musicado, mas porque se revelou feito também de ritmo, pausa, repetição, respiração. E a música tornou-se escrita porque inscreveu nos poemas uma outra sintaxe, feita de avanços e recuos. Nesse território comum, a premissa “ouvir é a maneira mais pura de calar” deixou de ser verso para se tornar método.

Se fosse possível retirar da noite um único poema, ele talvez começasse numa janela. Ela diria: sou uma cidade esquecida. Ele responderia: sou um rio. Entre os dois haveria ar, telefone, mãos libertas e a dificuldade imensa de dizer adeus. Depois chegaria uma quinta-feira - não esta, a próxima - porque o amor precisa de tempo extra para arranjar o cabelo, o coração, a lista do que ainda há por fazer. Paris seria talvez demasiado cara; Guimarães serviria. E, se nem Guimarães fosse possível, haveria palha, cordas, lona, uma cabana aprendida no Youtube e a esperança de encontrar um lugar seguro. Mais adiante, esse poema atravessaria todas as casas que já não são as mesmas, todas as camas, cidades, línguas, músicas, crenças e paisagens que mudámos para descobrir que mudar quase tudo pode ser uma forma de permanecer no mesmo lugar, no interior de alguém. O corpo, entretanto, dançaria por dentro, sem intervalo, até ao fim. E o poeta, noctívago, pediria que não lhe cortassem a língua, porque há coisas que só podem ser salvas se forem ditas. Nos dias tristes, contudo, não se falaria de aves; pedir-se-ia lume como quem pede um coração novo. E, no limite desse poema, apareceria a morte, não como acontecimento mas como ensaio: morrer muitas vezes, por medo de morrer, dormir virado para o lado que permita continuar vivo mais uma noite. Talvez seja esta a súmula secreta dos textos trazidos a Ovar: tudo o que amamos contém já a ameaça da perda, e tudo o que perdemos continua, de alguma maneira, em busca do lugar certo onde a palavra melhor se possa exprimir.

Há na autora a tentação do quotidiano, da frase sentenciosa, da pequena revelação moral, como se a banalidade das coisas - o supermercado, o IRS, o computador, o cabelo, os dias da semana - se contentasse em anunciar uma profundidade que o poema não chega a construir. A observação pode até ser pertinente enquanto exercício íntimo de leitura, mas o palco introduz uma perturbação decisiva nessa economia. A frase deixa de ser apenas frase: ganha voz, duração, respiração; a sentença pode desfazer-se em música; a imagem, que na página parece querer encerrar um sentido, pode, no palco, permanecer aberta porque o som se recusa a fechá-la. Não se trata de a música absolver a poesia, mas de lhe revelar zonas que a leitura silenciosa pode deixar em surdina. Filipa Leal, João Martins e Óscar Marcelino da Graça levaram-nos a descobrir que estes poemas, tão povoados de coisas concretas, são também poemas de intervalos, seja entre duas pessoas, entre uma cidade e um rio, entre o amor e a sua recusa, entre a vida e a morte ou entre aquilo que se diz e aquilo que apenas se escuta. Os dois músicos perceberam-no com uma delicadeza rara. Não cobriram os poemas, antes abriram-lhes espaço. E Filipa Leal, ao dizê-los, pareceu procurar esse espaço com o público. As palavras tinham, afinal, encontrado outro lugar. Não no interior dos livros, mas no lugar preciso onde a literatura deixa de ser apenas palavra e arrasta consigo a emoção.

domingo, 12 de julho de 2026

CONCERTO: Martín Sued & Orquestra Assintomática com Yamandu Costa



CONCERTO: “Saga” | Martín Sued & Orquestra Assintomática com Yamandu Costa
Com | Yamandu Costa (violão de sete cordas), Martín Sued (bandoneón, arranjos e direcção), Gustavo Cabrera (violino), Sandra Martins (violoncelo), Cristian Basto (contrabaixo), Sergio Escalera (piano), Alan Plachta (guitarra)
FIME – 52.º Festival Internacional de Música de Espinho
Auditório de Espinho – Academia
10 Jul 2026 | sex | 21:30


O concerto de Martín Sued e da Orquestra Assintomática, com a participação especial de Yamandú Costa, constituiu um dos momentos mais singulares da primeira metade da 52.ª edição do Festival Internacional de Música de Espinho. No centro das atenções esteve “Saga”, projecto discográfico que remonta a 2023 e que faz da exploração da identidade musical sul-americana o seu grande desígnio. Embora o bandoneón de Martín Sued evoque inevitavelmente o universo do tango, a sua linguagem composicional vai muito além dessa referência, integrando elementos da música de câmara, do jazz, da improvisação e de diversas expressões populares das músicas da América do Sul. Criada pelo próprio músico argentino, a Orquestra Assintomática funciona como um verdadeiro laboratório sonoro, em cujo cerne cada instrumento assume a construção de narrativas ricas em contrastes, alternando momentos de grande delicadeza com passagens de intensa energia rítmica. O resultado é uma música profundamente expressiva, cinematográfica e contemporânea, que se mostrou capaz de transportar o público através de diferentes paisagens emocionais, num todo de enorme coerência artística.

A presença de Yamandú Costa acrescentou uma dimensão muito especial a este projecto. Reconhecido internacionalmente como um dos maiores intérpretes do violão de sete cordas, o músico brasileiro distingue-se não apenas pelo virtuosismo extraordinário, mas também pela forma como alia técnica, sensibilidade e imaginação. Em “Saga”, contudo, o seu papel vai muito além da participação de um solista convidado. As composições apresentadas são da sua autoria, tendo sido desenvolvidas e orquestradas por Martín Sued para esta formação, criando um diálogo permanente entre o violão, o bandoneón e o restante ensemble. Em vez de uma sucessão de momentos de exibição individual, o que emerge é uma verdadeira conversa musical, em que cada intervenção contribui para um todo maior. Inspiradas na tradição do sul do Brasil, as composições convivem de forma natural com as influências argentinas, uruguaias e bolivianas, enquanto os espaços dedicados à improvisação surgem integrados na arquitectura das obras, dotando-as de uma permanente sensação de descoberta, espontaneidade e liberdade.

Marcado pela cumplicidade entre os músicos e por um equilíbrio perfeito entre o rigor da escrita e a liberdade criativa, o concerto afirmou-se como um excelente exemplo da linha artística que o FIME tem vindo a consolidar nas últimas edições: uma programação que valoriza o encontro entre diferentes culturas, linguagens e formas de criação musical. “Saga” não procurou reproduzir modelos tradicionais nem revisitar repertórios conhecidos. Antes propôs uma visão atual da música sul-americana, aberta ao diálogo com a música erudita contemporânea, o jazz e outras formas de expressão instrumental. Foi quase hora e meia de espectáculo pensado para ser vivido como uma peça em contínuo, cada tema ligado ao seguinte através de uma narrativa musical cuidadosamente construída. Os apreciadores da intensidade emocional de Astor Piazzolla encontraram certamente ecos desse universo, mas descobriram igualmente uma linguagem própria, marcada pela elegância dos arranjos, pela riqueza tímbrica da orquestra e pela capacidade de surpreender a cada momento. Mais do que um concerto de tango, de jazz ou de música popular, esta foi uma celebração da criatividade, da escuta e do encontro entre músicos que partilham uma visão artística profundamente contemporânea, oferecendo ao público uma experiência envolvente e sofisticada. Memorável!

quarta-feira, 25 de março de 2026

TERTÚLIA | CONVÍVIO: Finissage das Exposições da Residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”



TERTÚLIA | CONVÍVIO: Finissage das Exposições da Residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”
Com | Ana Isabel Nistal Freijo, Solange Azevedo e Hélder Sousa
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
22 Mar 2026 | dom | 16:00


Sensível e íntimo, instigante e provocador, assim foi a finissage das exposições da residência “À Escuta da Literatura de Júlio Dinis”, momento de convívio e de memória feito de emoções e afecto. Com “um pé no passado e outro no futuro”, Ana Isabel Nistal Freijo, fez uma retrospectiva daquilo que foi o “Inovar as Letras - À Escuta da Literatura”, projecto cultural e residência artística que agora chega ao fim. Em ambiente de grande familiaridade, percebemos que o projecto não nasceu da fria arquitectura do pensamento, mas de um impulso íntimo, quase indizível, onde o coração se impôs como princípio e fim de todas as coisas. Com tudo o que foi acrescentando, o percurso foi marcado pelo reencontro com raízes biográficas e espirituais, nesse lugar onde a literatura e a música se entrelaçam na experiência de quem escuta e recria. Do deslumbramento inaugural pela palavra à maturidade da escuta contemporânea, ergueu-se uma ponte onde o ensino, a criação e a memória fluíram, dando corpo a uma ideia que encontrou no Museu Júlio Dinis não apenas um espaço físico, mas uma casa plural aberta ao sonho e à metamorfose.

“Toda a alma precisa de um corpo para se manifestar, e esse corpo é para nós o Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense”. Foi nesse corpo, vivo e acolhedor, que a alma do projecto se manifestou plenamente, sustentada pelo encontro entre impulsos criativos e vontades institucionais. O Museu revelou-se como lugar de confluência, a herança dinisiana projectada no presente através da experimentação artística. Entre Abril de 2025 e o passado domingo, as artes dialogaram de múltiplas formas, da celebração de projectos contemporâneos à encomenda de novas obras, das exposições às instalações sonoras que transformaram o espaço em matéria sensível. Cada gesto criativo - fosse nas composições, nas artes plásticas ou na palavra dita e cantada - constituiu um prolongamento desse legado, fazendo ressoar vozes que, mesmo ausentes, permanecem vivas na tessitura do projecto. Assim, o “Inovar as Letras” afirmou-se como território de criação partilhada, no qual tradição e invenção coexistiram num delicado equilíbrio, alimentado pelo estímulo e pela confiança de todos quantos nele acreditaram.

Mas foi sobretudo na comunidade que o projecto encontrou o seu centro de gravidade. Oficinas, conversas, ensaios abertos e concertos fizeram do público parte integrante do processo, assumindo-se como presença activa, cúmplice e transformadora: “Verdadeiros espectadores emancipados”, capazes de dar o seu contributo para uma obra colectiva em permanente construção. E, como num ciclo que se cumpre sob o signo das flores - símbolo de esperança, ilusão e efemeridade -, o projecto encerra levando consigo um delicado ramo de memórias. “Há flores assim que só os sentidos muito delicados lhes reconhecem o perfume”, escreveu Júlio Dinis em carta endereçada a sua tia. Assim parte esta experiência, e com ela uma nómada que deixa atrás de si uma fragrância leve, nesse gesto de partida residindo a promessa de que o que foi vivido continuará a ecoar, subtil e indelével, no coração de quem o escutou. Mas nele residindo também a certeza de que este não é “o fim do encantamento”. O gracioso virginal, cópia fiel de um instrumento de início do século XVII e cuja sonoridade Hélder Sousa tão delicadamente mostrou, é a prova de que “a procissão ainda vai no adro”.

domingo, 15 de março de 2026

CONCERTO: "Retorno" | Mário Laginha



CONCERTO: “Retorno”
Mário Laginha
Auditório de Espinho - Academia
13 Mar 2026 | sex | 21:30


O palco do Auditório de Espinho voltou a acolher um músico que ali regressa com a familiaridade de quem reconhece o lugar e a sua respiração. Mário Laginha apresentou “Retorno”, o seu mais recente trabalho discográfico, assumindo-o como um gesto de reencontro com o piano a solo quase duas décadas depois do lançamento de “Canções e Fugas”. Este não foi, porém, um regresso nostálgico, antes um movimento natural de um artista que, tendo percorrido inúmeros territórios de partilha musical, decide agora regressar a essa solidão criativa que, como o próprio reconhece, nunca lhe foi propriamente estranha. Sentado ao piano, Mário Laginha revelou as suas qualidades de compositor versátil e imaginativo, de executante exímio capaz de transformar cada frase numa pequena narrativa sonora. Num espaço onde afirma sentir-se “uma energia fantástica”, estabeleceu com o instrumento uma simbiose rara, como se cada tecla fosse a extensão imediata do pensamento. O concerto adquiriu, assim, um carácter de íntima revelação, pontuado por um diálogo cúmplice com o público, feito de breves comentários e de um humor discreto, sobretudo ao explicar a origem ou o título de cada peça. Essa leveza, longe de quebrar a intensidade musical, contribuiu para aproximar ainda mais a plateia de um universo sonoro que oscila entre a disciplina da composição e a liberdade do instante.

Entre os vários momentos que desenharam a arquitectura da noite, destacaram-se os dois improvisos que abriram, com fulgor quase inaugural, cada uma das metades do concerto. Neles se percebeu com particular nitidez a filosofia que atravessa “Retorno”: a fascinante possibilidade de se sentar ao piano sem saber exactamente o que virá a seguir. As peças nasceram diante do público com uma vitalidade imediata, como se a música estivesse a descobrir-se a si própria no momento da execução. Esse impulso criativo encontrou eco em temas de grande carácter. “Santo Amaro”, inspirado na pequena localidade costeira da ilha do Pico onde o músico costuma passar férias, revelou um lirismo ondulante, quase marítimo, deixando no ar uma melodia que parecia avançar e recuar como a própria maré. Já “Another Kind of Strike”, “Fogato Baião” e “Batuque” trouxeram para o centro do palco uma energia rítmica contagiante, o pianista a fazer valer um sentido de pulsação que tanto deve ao jazz como às múltiplas geografias musicais que tem atravessado. Ao longo destas peças, a escrita e a improvisação entrelaçaram-se com naturalidade: ora a música pareceu seguir um trilho cuidadosamente delineado, ora se libertou dele com uma espontaneidade luminosa. Nesse equilíbrio instável, mas sempre controlado, residiu grande parte do fascínio do concerto.

A atmosfera mudou de cor em “Retorno”, peça que deu nome ao álbum e que trouxe consigo uma doçura quase contemplativa, como se o pianista abrisse um espaço de recolhimento no meio da exuberância rítmica que atravessou a noite. A interpretação deixou perceber também as influências mais recentes do seu percurso, em particular o diálogo que manteve com o universo do fado através da colaboração com Camané, influência que o próprio reconhece ter deixado entrar, lentamente, na sua linguagem musical. Já no “encore”, Mário Laginha ofereceu ao público “Mãos na Parede”, homenagem delicada a Carlos Paredes, por alturas do centenário do seu nascimento, um gesto de memória que foi acolhido com emoção pelo publico. A fechar o concerto surgiu “Tanto Espaço”, composição originalmente editada no álbum “Espaço”, aqui revisitada num formato depurado que revelou novas transparências na escrita do compositor. Foi um final à altura de uma noite memorável, um concerto onde a técnica, a imaginação, a improvisação e a maturidade artística se fundiram num discurso profundamente humano. Mais do que apresentar um disco, Mário Laginha confirmou aquilo que “Retorno” já deixava adivinhar: que regressar, as mais das vezes, é apenas uma outra forma de seguir em frente.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO: "Cores e Sons para Júlio Dinis" | Solange Azevedo



EXPOSIÇÃO: “Cores e Sons para Júlio Dinis”,
de Solange Azevedo
INoVAR as LETRAS
Museu Júlio Dinis - Uma Casa Ovarense
02 Nov 2025 > 22 Mar 2026


“O nosso pensamento, à semelhança de um vaso metálico, ressoa por muito tempo, quando, embora de leve, percutido; como ondas sonoras, as nossas recordações, movidas por uma palavra, por um som, por uma flor, por um perfume, sucedem-se, dilatam-se cada vez mais vastas, cada vez mais suaves.”
Júlio Dinis, in “Serões da Província”

A exposição “Cores e Sons para Júlio Dinis” oferece-nos um duplo desafio: olhar a natureza através da palavra e escutá-la através da matéria. Dois poemas do escritor - “Nuvens” e “Dai-me do Campo” -, aliados ao herbário adquirido por Júlio Dinis numa das suas estadias na ilha da Madeira, funcionam como sementes de um processo criativo que se desdobra entre a pintura e a composição musical. Na sala polivalente do Museu, as telas organizam-se como se de um percurso sensorial se tratasse: próximas ou afastadas, as formas tendem a diluir-se, suspensas num território onírico onde a cor é estado e atmosfera. À medida que o olhar desce, a mancha condensa-se, o contorno emerge, e aquilo que parece ilusão revela-se presença. Tal como nas nuvens observadas à distância - belas, promissoras -, também aqui a proximidade transforma o encantamento em verdade material. São obras que derivam da observação do herbário, reinterpretando-lhe tonalidades e texturas, vendo nas marcas do tempo sinais de envelhecimento e de permanência, mas também valiosos elementos plásticos e poéticos. A pintura é, assim, gesto de preservação, um modo de fixar o instante antes que ele se desfaça.

No corredor do Museu, o visitante é convidado a entrar no avesso das obras graças a um curioso e vasto conjunto de esboços, anotações, experiências e inquietações. Este espaço funciona como um caderno aberto, onde se revelam as ideias de permanência, longevidade e eternidade associadas ao herbário e aos poemas e que consubstanciam o processo criativo. Para Solange Azevedo, “o herbário tem a capacidade de nos transportar para o sítio de onde vieram as plantas”, assim também uma obra de arte pode funcionar como uma viagem ao ponto zero da criação. Na análise que faz do poema “Nuvens”, a artista introduz o contraste entre realidade e ilusão, juventude e finitude, numa leitura atravessada pela biografia de Júlio Dinis, marcada pela doença e pela consciência precoce da fragilidade da vida. A distância, observa a artista, enfeita as coisas de esperança; a proximidade revela-lhes a substância. Esta transição - do contorno para a matéria, do sonho para o corpo - atravessa toda a exposição, ecoando em notas soltas: Olhar as nuvens como se olham os sonhos, perguntar se dói desabrochar, reconhecer no azul um estado de espírito e não apenas uma cor.

É precisamente desse encontro entre gesto e escuta que surgem as duas instalações sonoras que preenchem a parte final do percurso. Enquanto pintava, Solange Azevedo percebeu que o som seco do pincel sobre a tela a acompanhava, transformando o acto pictórico numa experiência audível. Daí nasce o “Herbário Sonoro”, uma instalação onde a tela se converte em instrumento: os sons produzidos durante a pintura são recolhidos, preservados e traduzidos em símbolos e instruções, convidando o visitante a tocar, a ouvir e a reflectir sobre a relação entre matéria e som. A instalação “Ecos e Gestos” amplia esse princípio, funcionando como uma partitura visual que articula os diferentes modos de interacção com o herbário sonoro, tornando visível a escrita do som. Tal como na pintura, a música constrói-se pela soma de partes: formas que se prolongam, ritmos que se complementam, silêncios que respiram. O silêncio da natureza, o silêncio do herbário e o silêncio entre as notas coincidem num mesmo espaço de escuta. Entre fragilidade e permanência, palavra, imagem e som encontram-se. E o tempo, ainda que apenas por um instante, torna-se visível.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

CONCERTO: Luís Represas - 50 Anos



CONCERTO: Luís Represas - 50 Anos
Com | Luís Represas (voz, guitarras), Carlos Garcia (direcção musical, teclados, voz), Tiago Oliveira (guitarras), Cícero Lee (baixo), Daniel Vieira (saxofone), Alexandre Ferreira Alves (bateria)
Cineteatro António Lamoso
10 Jan 2026 | Sab | 21:30


O concerto que assinalou os 50 anos de carreira de Luís Represas foi uma celebração da memória e da permanência. Esgotado há semanas, o António Lamoso recebeu o músico com um entusiasmo que se percebeu logo ao primeiro acorde de “Chave dos Sonhos”, de 1996, canção cujo simbolismo “abriu a porta e a varanda” de uma noite onde o tempo pareceu suspenso. A partir daí, Represas conduziu o público por uma viagem através de cinco décadas de canções, ao longo da qual o legado do Trovante foi presença constante e estruturante. “A Hora do Lobo” marcou o tom de comunhão que atravessaria todo o concerto - “se estamos juntos, não somos demais” - e abriu caminho a um alinhamento que combinou o reencontro com temas incontornáveis como “Balada das Sete Saias”, “Feiticeira”, “Perdidamente”, “Prima da Chula” ou “Saudade”, numa articulação entre o lirismo da palavra e a energia do colectivo que acompanhou o músico.

A revisitação do repertório não foi um exercício de nostalgia, mas de reinvenção, com Represas a mostrar que as suas canções continuam a ser lugares vivos, atravessados por emoção, memória e uma crença permanente na força da música. Entre canções da carreira a solo - “Da Próxima Vez”,“Foi Como Foi” ou “Eu Dou”, sem esquecer o seu mais recente álbum com “Miragem” e “A Cobra dos Mares” - e os clássicos do Trovante, o concerto afirmou um continuum artístico assente na coerência e na autenticidade. Madura e polida pelos anos, a voz de Luís Represas revelou uma intensidade rara, ora quente e terna, ora cortante e precisa, capaz de transformar a palavra em gesto e o gesto em emoção partilhada. Poesia e música cruzaram-se em palco sob múltiplas assinaturas - Florbela Espanca, Manuel da Fonseca, António Aleixo, Francisco Viana, Manuel Faria, João Gil e o próprio Represas -, num diálogo entre gerações e sensibilidades onde a canção se fez território de encontro.

Acompanhado por músicos de excelência, o cantor alcançou o equilíbrio perfeito entre o rigor interpretativo e a espontaneidade, construindo um espectáculo em crescendo, emocionalmente denso e plenamente vivido com o público. Com “Memórias de um Beijo” e “125 Azul”, o “encore” consumou o ritual de comunhão entre palco e plateia, um reencontro que ultrapassou o mero concerto e se aproximou da celebração de uma história colectiva. Esse abraço recíproco explica a longevidade e a relevância de Luís Represas: mais do que um intérprete, ele é um narrador do quotidiano, alguém que dá corpo e voz às emoções de sucessivas gerações. Na noite do passado sábado, no António Lamoso, celebrou-se não apenas uma carreira de 50 anos, mas o poder contínuo da música como forma de resistência à brevidade e à impermanência. Quando as luzes se apagaram, ficou a sensação de que cada canção, ali, ganhou uma nova vida. Luís Represas continua a cantar connosco e para nós, como quem sabe que a música, quando é verdadeira, em vez de envelhecer torna-se mais profunda.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

CONCERTO: "Inspirar" | Danças Ocultas



CONCERTO: “Inspirar”
Danças Ocultas
Com | Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo, Francisco Miguel
Misty Fest 2025
Teatro Aveirense
12 Dez 2025 | sex | 21:30


Há mais de três décadas que os Danças Ocultas ocupam um lugar singular no panorama da música portuguesa, erguendo o acordeão diatónico, de instrumento associado ao folclore, para uma linguagem de câmara subtil e profundamente emotiva. Fundado em 1989 por Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel, o quarteto tem sabido construir uma obra coerente e exigente, onde o minimalismo e o lirismo se vestem de contenção expressiva e de um virtuosismo envolvente e sedutor. A sua música, tantas vezes descrita como “folk impressionista”, vive de equilíbrios delicados entre o popular e o erudito, entre o enraizamento na tradição e uma vocação universal que os tem levado a percorrer as mais diversas geografias e a pisar dezenas de palcos um pouco por todo o mundo. Ao longo de álbuns como “Ar”, “Pulsar”, “Amplitude” ou “Dentro Desse Mar”, e de colaborações com coreógrafos, orquestras e músicos de diferentes latitudes, os Danças Ocultas foram afinando uma gramática própria, feita de escuta mútua, emoção colectiva e uma rara inteligência do silêncio. Não tocam para danças existentes, mas para movimentos ainda por inventar, nessa suspensão residindo grande parte do seu magnetismo.

Foi com esse património artístico bem presente que os Danças Ocultas regressaram a um Teatro Aveirense completamente esgotado, ao mesmo palco onde se estrearam em maio de 1989 num Sarau Académico. A apresentação de “Inspirar”, o seu décimo álbum de estúdio e o primeiro após um ciclo marcado por colaborações mais expansivas, soou como um regresso à essência: quatro músicos, quatro cadeiras em semicírculo, e uma música que respira para dentro antes de se expandir no ouvido de quem escuta. A abertura com “Pulsar” estabeleceu desde logo o tom meditativo do concerto, seguida de “Pedra do Sol” e da recuperação de temas como “Tarab”, “Bulgar” ou “Alento”, num alinhamento que cruzou o presente com diferentes momentos de uma extraordinária carreira. Houve especial destaque para “Amplitude”, álbum charneira, de onde surgiram seis temas, culminando num final com “Diatónico”, recebido com o mais longo e caloroso aplauso. Atento e cúmplice, o público soube responder com uma escuta quase ritual, quebrada apenas por manifestações de entusiasmo destinadas a agradecer não só a música, mas também a fidelidade a uma visão artística sem concessões.

A música dos Danças Ocultas nunca é sombria, mesmo quando se move na melancolia. Nela encontramos sempre uma fresta de luz, uma promessa de clareza no meio da contenção. Não é música para consumo rápido, mas para escuta profunda, exigente e, paradoxalmente, reconfortante. Mais do que um simples concerto, o que se viveu no Teatro Aveirense foi uma experiência de partilha sensível, onde os acordes pareceram procurar um lugar íntimo na memória daqueles que tiveram o privilégio de os escutar. Inspirar, como o título bem sugere, foi gesto de recolha, de interiorização, contrastando com a trilogia de álbuns anteriores, mais voltados para fora, para o “respirar” como movimento de saída. Na noite da passada sexta-feira, em Aveiro, confirmou-se uma evidência antiga: poucas formações conseguem transformar um instrumento de limitações técnicas assumidas num território tão vasto de emoção partilhada. Daí o espanto, daí o aplauso devido a um agrupamento apostado em provar que a tradição, quando pensada com rigor e imaginação, não é um lugar de nostalgia, mas de empatia. Um espaço vivo, contemporâneo, aberto ao mundo e a cada um de nós.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

CONCERTO: “Na Natureza de Júlio Dinis” | Solange Azevedo | FRA Ensemble



CONCERTO: “Na Natureza de Júlio Dinis”,
de Solange Azevedo
FRA Ensemble
Direcção musical | Marco Pereira
Interpretação | Ana Rosa (soprano), Eduardo Seabra (clarinete), Rodrigo Allen Pinho (percussão), Marta Nabeiro (violoncelo)
INoVAR AS LETRAS
Escola de Artes e Ofícios
15 Nov 2025 | sab | 17:00


“Repara: — a imóvel crisálida
Já se agitou inquieta,
Cedo, rasgando a mortalha,
Ressurgirá borboleta.”
Julio Dinis, in “Metamorfose”

Música, palavra e performance marcaram o encerramento das II Jornadas Dinisianas. Como quem rasga uma fenda no tecido do tempo, o FRA Ensemble caminhou rumo ao interior da natureza de Júlio Dinis, numa viagem que abriu ao romantismo oitocentista a possibilidade de respirar no peito da contemporaneidade. Nos passos do poeta que em Ovar encontrou prazeroso refúgio, o agrupamento fez da Escola de Artes e Ofícios um prolongamento vivo do Museu Júlio Dinis, projectando um corredor invisível ao longo do qual palavra e música se ergueram em graça e beleza. Perspicaz e audaciosa, Solange Azevedo soube cruzar a leveza da poesia dinisiana com a matéria silenciosa de um herbário, os vestígios do pólen secular com o sopro vivo de uma escrita impetuosa. Entre palavras e folhas, as suas composições foram ao encontro de uma vida muito jovem mas já marcada pela doença, fazendo alternar os momentos de êxtase criativo com os frémitos sombrios da incurável tuberculose. A tradução de estados de alma tão díspares teve no FRA Ensemble um interlocutor de excelência, capaz de estabelecer um diálogo improvável da voz e dos instrumentos convencionais, com o rumor subtil dos objectos recolhidos no Museu, transformando um momento de vincada improvisação numa forma de arqueologia sensorial fortemente inspiradora.

Na sua riqueza e complexidade sonora, o concerto revelou-se precioso no que encerrou de risco artístico, oferecendo às Jornadas Dinisianas uma última e tão necessária respiração. Laboratório fecundo, Ovar foi palco do cruzamento do gesto plástico e compositivo de Solange Azevedo com o pensamento curatorial de Ana Isabel Freijo, das sonoridades subterrâneas de Tiago Schwäbl com a pulsação exploratória do FRA Ensemble. Um a um, criadores e músicos pareceram escutar o interior de cada objecto antes de o tocar, interrogando-se que histórias guardariam, que ressonâncias carregariam em si na viagem entre o Museu e a Escola. Desse diálogo do convencional com o inesperado, do instrumento com o artefacto, emergiu uma espécie de metamorfose sonora, talvez anunciada pelo poema homónimo que incendiou toda a segunda metade do concerto. A cada nota do clarinete ou do violoncelo, a cada som arrancado aos objectos do Museu ou a cada inflexão vocal, era o próprio Júlio Dinis que observava, discreto, a reinvenção da sua natureza. Ainda que por instantes, a literatura fez-se música, a música fez-se imagem e a imagem fez-se reminiscência, o todo fluindo como um rio que cava novos leitos sem nunca perder a noção da nascente.

E porque a cultura se faz arriscando, criando e renovando, o concerto não se limitou à simples apresentação de uma obra enquanto resultado de uma residência artística no âmbito desse projecto maior que é o INoVAR AS LETRAS, com curadoria de Ana Isabel Freijo e que se estenderá até finais de Março do próximo ano. Ele foi antes um gesto de escuta profunda, as raízes do passado como manancial criador de novos conceitos e linguagens. A residência artística foi estufa onde se cultivaram possibilidades, onde o realismo dinisiano repousou ao lado do romantismo, as crónicas conversaram com a poesia e o silêncio, esse lugar de espera e de suspeita, se viu convertido em impulso criativo. Apesar da sua juventude enquanto agrupamento, o FRA Ensemble mostrou que a improvisação pode ser, não uma ruptura, antes um modo de continuar o tanto que há por dizer. Do cruzamento dos espaços, do entrelaçar dos tempos, uma verdade simples parece aflorar à superfície: Há obras que só se cumprem quando ousam atravessar fronteiras. “Na Natureza de Júlio Dinis” é uma delas, dando a ver o instante em que o escritor se desvela e mostra que a leveza da sua escrita não é ausência de peso, mas algo de mais profundo que só a consciência de uma vida breve saberá explicar.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

CONCERTO: “Entre Paredes” | Bernardo Moreira Sexteto & Orquestra de Jazz de Espinho


CONCERTO: “Entre Paredes”
Bernardo Moreira Sexteto & Orquestra de Jazz de Espinho
Com | Bernardo Moreira (contrabaixo), Tomás Marques (saxofone), Mário Delgado (guitarra), João Moreira (trompete), João Silva (bateria), Ricardo Dias (piano)
Artista convidada | Estela Alexandre (piano)
Orquestra de Jazz de Espinho
Direcção musical | Carlos Azevedo
Novembro Jazz 2025
Casa da Criatividade
01 Nov 2025 | sab | 21:30


Celebrar o centenário de Carlos Paredes é, inevitavelmente, revisitar uma das vozes mais singulares da música portuguesa. No concerto que marcou a abertura da sétima edição do Novembro Jazz 2025, na Casa da Criatividade, Bernardo Moreira retomou esse diálogo iniciado há mais de duas décadas, quando editou “Ao Paredes Confesso” (2002) e, mais tarde, “Entre Paredes” (2021). Desta vez, porém, a homenagem ganhou nova dimensão através da parceria com a Orquestra de Jazz de Espinho, sob a direcção de Carlos Azevedo. Os arranjos, assinados por jovens nomes como Estela Alexandre e Tomás Marques, e por figuras consagradas como Pedro Moreira e o próprio Azevedo, revelaram uma orquestra em pleno domínio expressivo, capaz de cruzar o rigor da escrita com o sopro da improvisação. Neste ambiente de silêncio e vertigem feito, a música de Carlos Paredes encontrou um corpo colectivo, forte e solidário, que teve no contrabaixo de Bernardo Moreira a sua âncora poética e um poderoso dínamo emocional.

Falar de Carlos Paredes é falar de liberdade — e foi precisamente essa ideia que atravessou todo o concerto. A guitarra portuguesa de doze cordas, reinventada por ele como voz e não mero acompanhamento, ressoou na linguagem do jazz como se ambos partilhassem um mesmo código genético: a improvisação como forma de pensar o mundo. Mesmo sem estar presente, o espírito de Paredes pareceu guiar os músicos nesse território de harmonia e risco, onde o jazz se afirma como espaço de encontro entre tradição e modernidade. As reinterpretações de “Mudar de Vida” e “Canto de Amor”, os dois temas que abriram o concerto, ou os icónicos “Verdes Anos” ou “António Marinheiro”, não buscaram a fidelidade literal, mas antes a reinvenção, o gesto de tocar de novo como se de uma primeira vez se tratasse, algo que, afinal, o próprio Paredes fazia. A Orquestra de Jazz de Espinho tornou-se, assim, extensão desse espírito improvisador, convertendo o fado em matéria orquestral e o jazz em língua franca da emoção e fascínio.

O resultado foi um concerto de densidade rara, em que o lirismo se aliou à experimentação sem perder o sentido de pertença. Mais do que um tributo, tratou-se de uma reflexão em forma de música sobre o que significa ser português e contemporâneo, à luz de um legado que não cessa de nos estimular e inspirar. Se Carlos Paredes procurava “a verdade no som”, Bernardo Moreira e a Orquestra de Jazz de Espinho mostraram que essa verdade permanece viva, transmutando-se, abrindo-se a novos timbres e a novas cores. Na noite do passado sábado, o público de São João da Madeira foi brindado com a possibilidade de sentir essa vibração suspensa no tempo, algures entre a memória e o instante, entre o rigor da escrita e a respiração da improvisação - notável o exercício intenso e livre de “Serenata no Tejo” que encerrou o concerto. No final, quedamo-nos com a certeza de que o jazz português não é um género em si mesmo ou uma categoria estilística, antes uma atitude estética e ética: a de quem, como Carlos Paredes, faz da liberdade uma forma de arte.

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

CONCERTO: Meredith Monk



CONCERTO: Meredith Monk
Com | Meredith Monk (voz e teclados), Katie Geissinger (voz), Allison Sniffin (voz, violino e teclados)
Auditório de Espinho – Academia
14 Out 2025 | ter | 21:30


““I still have my hands / I still have my mind / I still have my money / I still have my telefone / Hello, hello, hello?
I still have my memory / I still have my gold ring, / beautiful, I love it / I still have my allergies / I still have my philosophy.”
Meredith Monk, “The Tale”


Que extraordinário serão, o da passada terça-feira na companhia de Meredith Monk, uma artista que, aos 82 anos, permanece determinada em continuar a escavar a própria origem da voz e do som. Nascida num meio musical — a sua mãe era cantora profissional —, Meredith Monk sempre entendeu a voz como um instrumento ilimitado. A sua obra cresceu numa Nova Iorque fértil em experimentação artística, ao lado de figuras como Philip Glass ou Steve Reich, com quem partilhou o minimalismo como ponto de partida, mas que ultrapassou ao focar-se não tanto na repetição rítmica, antes na expressão corporal e vocal pura. Pioneira do que hoje se designa por “técnica vocal alargada” e “performance interdisciplinar”, as suas influências encontram-se tanto no Oriente como no Ocidente – do canto tibetano ao teatro Noh, da música medieval europeia às tradições indígenas —, não por uma fusão estilística, mas por um reconhecimento de que o som, antes de ser linguagem, é rito e respiração. Nela é claro esse impulso de regressar às fontes do som, explorando a voz como um território sagrado, íntimo e ilimitado, onde o tempo parece suspenso e o corpo é o primeiro instrumento da alma.

Atentemos nos primeiros momentos do concerto. Sozinha em palco, com as suas enormes tranças e um belo sorriso no rosto, começou por entoar “Wa-lie-ho”, um tema da maturidade apesar do seu meio século, abrindo-nos a imensidão do deserto do Novo México e a infinidade de sons que associamos às emoções, mais do que os sons que o próprio deserto nos devolve. O que à primeira escuta pode parecer uma música “simples”, revela-se, na verdade, como um refinado processo de despojamento, reduzindo a composição ao essencial, na busca de uma forma de pureza quase espiritual. Depurada ao máximo, esta, como todas as restantes peças que compuseram o concerto, não conta uma história no sentido narrativo convencional, antes convoca sensações, estados de alma, geografias interiores. A voz, esse enorme instrumento, é moldada com uma liberdade quase xamânica — como se Monk quisesse cantar antes das palavras, antes da gramática, antes mesmo da consciência de ser. Há algo de poeira e terra molhada, de vento nas montanhas, de infância da humanidade em cada composição. Cada emissão vocal, cada gesto ou respiração, convoca algo de profundo, atávico, como se estivéssemos a escutar a primeira tentativa de comunicação entre dois seres.

Primeiro com Katie Geissinger e depois com Allison Sniffin em palco, as músicas foram-se derramando não apenas em beleza ou emoção estética, mas também como experiência sensorial e espiritual total. Temas como “Gotham Lullaby”, “Scared Song”, “Simple Sorrow”, “Happy Woman” ou, já no “encore”, “The Tale”, são viagens imersivas onde corpo, som e silêncio se entrelaçam. Viagens que convidam a uma presença, não como espectadores passivos, mas como testemunhas de uma exploração da memória colectiva e corporal. Apesar de muitas das obras lidarem com temas como a transitoriedade e a fragilidade, a morte e o renascimento, há nelas, sempre, uma luz que brilha através da dor, uma aceitação radical da impermanência. E há, também, uma ética ecológica implícita: Em Meredith Monk, a comunhão com a natureza não é uma metáfora, mas uma vivência sensível, quase litúrgica. O canto torna-se ponte entre o humano e o mundo natural, um gesto de escuta e humildade. Por isso, escutar Monk é aceitar que a arte pode ser semente, oração e vestígio de civilizações esquecidas. A sua música não pertence a um tempo, antes ecoa em muitos tempos. Inclusive em tempos que estão para chegar.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

CONCERTO: "Steve Reich Highlights" | Drumming - Grupo de Percussão



CONCERTO: “Steve Reich Highlights”,
de Drumming - Grupo de Percussão
Direcção artística | Miquel Bernat
Com | André Dias, João Miguel Braga Simões, Lígia Madeira, Luís Duarte, Miquel Bernat e Pedro Góis
Casa de Mateus, Vila Real
27 Set 2025 | sab | 18:00


A celebrar 25 anos de actividade artística, o Drumming - Grupo de Percussão regressou à obra-talismã de Steve Reich, um dos criadores maiores da chamada música minimal / repetitiva, cuja energia rítmica, clareza formal e poder comunicativo abriram novas vias para a modernidade sem recorrer a complexidades opacas. No concerto do passado sábado, no bonito espaço do Barrão da Casa de Mateus, o grupo propôs uma retrospectiva concisa que percorreu diferentes fases do universo de Reich, com a percussão, o seu instrumento, em diálogo com dois pianos. Encomendada especificamente para uma coreógrafa e para um filme, “Dance Patterns” (2002), abriu o concerto da melhor forma, dando a ouvir o estilo minimalista característico de Reich, com padrões repetitivos, deslocamentos rítmicos (phasing) e uma estrutura clara, matemática e hipnótica. Embora breve e menos conhecida que as grandes peças como “Music for 18 Musicians” [ver crítica AQUI], “Dance Patterns” impressionou os presentes pelo seu ritmo intenso e clareza estrutural, ao mesmo tempo que chamou a atenção para a qualidade interpretativa dos músicos, capazes de recriar uma música envolvente e complexa mesmo em formatos mais concisos.

Percussionista de renome Tim Ferchen assinou “Three Marimba Duets: I”, o segundo momento do concerto. A escolha deste compositor teve a ver, conforme explicou Miquel Bernat, director artístico do Drumming GP, com a colaboração estreita que manteve com Steve Reich, mas também com a oportunidade de ampliar o repertório do grupo (quando Bernat chegou a Portugal, em 1998, havia apenas duas obras para percussão erudita disponíveis; hoje são mais de 170). A peça parte da diversidade de interpretações que uma determinada composição pode suscitar e a sua interpretação, desafiante a todos os títulos, pôs os dois músicos a pensar como uma só pessoa, soando como as mãos direita e esquerda de um pianista só. “Music for Pieces of Wood” (1973) foi um momento encantador, aquele que mereceu do público o mais sentido aplauso. Composição para cinco músicos, usando claves afinadas, a peça apresenta uma estrutura rítmica baseada em “construções”, substituindo as pausas por tempos. Steve Reich escreveu-a para criar música a partir dos instrumentos mais simples, como a sua obra anterior, “Clapping Music”, e a sua complexidade rítmica transforma-a numa das obras mais notáveis do compositor.

“Sextet” (1984), originalmente intitulada “Música para Percussão e Teclados”, foi a peça escolhida para encerrar o concerto. Estruturada em cinco andamentos contínuos, a peça oscila entre ritmos rápidos, moderados e lentos, com mudanças súbitas de tempo através de modulação métrica. Reich procurou ultrapassar os limites naturais da percussão - sons breves e efémeros - explorando o vibrafone com arco como voz contínua e reforçando os registos graves com piano, sintetizador e bombo. Esta combinação cria texturas mais ricas, especialmente nos andamentos centrais, onde o acompanhamento se transforma em melodia e vice-versa. A composição retoma técnicas presentes em obras anteriores: a substituição de batidas por silêncios pra gerar tensão, cânones em velocidades distintas e ambiguidades rítmicas inspiradas em tradições africanas. Mais do que confundir, estas ambiguidades transformam a percepção do ouvinte, conferindo à repetição movimento, surpresa e vitalidade. Apesar da sua curta duração, o concerto foi de uma riqueza enorme, com o público a aplaudir entusiasticamente a prestação do agrupamento, ciente de ter vivido uma experiência enriquecedora a todos os títulos, tanto pela clareza estrutural que os músicos souberam imprimir às peças, como pela sua extraordinária energia rítmica e carga expressiva.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

CONCERTO: "Canções para Beber com Pessoa" | Ana Deus e Luca Argel



CONCERTO: “Canções para Beber com Pessoa”,
de Ana Deus e Luca Argel
XI Festival Literário de Ovar
Escola de Artes e Ofícios
18 Set 2025 | qui | 22:30


Fernando Pessoa fez-se forte presença no Festival Literário de Ovar na música e na voz de Ana Deus e Luca Argel. Intitulado “Canções para Beber com Pessoa”, o concerto da dupla fechou o serão do segundo dia do certame, dando a ver uma das facetas menos conhecidas, mas não menos importantes, do poeta, ensaísta, dramaturgo, inventor, crítico literário e publicitário: a de tradutor. Desde a Pérsia do século XI, os “Rubaiyat” do poeta Omar Khayyam atravessaram quase um milénio de tempo e de linguagem até chegarem às mãos de Fernando Pessoa, pela recriação inglesa de Edward FitzGerald. Mais do que uma simples tradução, o encontro de Pessoa com os “Rubaiyat” transformou-se numa experiência literária e sensorial, um jogo livre de reinterpretação onde o vinho, a dúvida e o deslumbramento se entrelaçam numa contemplação do mundo que tanto revela a sua beleza efémera como se abre num abismo ontológico, onde nem mesmo Deus parece alcançar razão. Um século depois, estes poemas ressurgem reinventados pelas vozes de Ana Deus e Luca Argel, mergulhando nos delírios filosóficos e hedonistas do poeta e vestindo-os com uma roupagem contemporânea, onde palavra, som e silêncio se entrelaçam numa nova forma de escuta e celebração.

Não é a primeira vez que Ana Deus e Luca Argel investem o seu talento na obra pessoana. Versos, estrofes e toda uma panóplia de histórias de Fernando Pessoa ganharam uma nova vida no álbum “Ruído Vário”, a convite da Casa Fernando Pessoa, editado em 2017. Poemas bem conhecidos como “Liberdade”, “Na Ribeira Deste Rio”, “Entre o Sono e o Sonho” ou “Ó Sino da Minha Aldeia” ganharam assim uma nova dimensão, ampliando e colorindo a obra daquele que é amplamente considerado como um dos maiores poetas portugueses do Século XX. Regressar a Pessoa foi quase uma “obrigação” para a dupla, fascinada com o trabalho de tradução livre do poeta sobre os “Rubaiyat”, considerado o livro que contém mais notas manuscritas por Pessoa, em toda a sua biblioteca particular. No pequeno palco da Escola de Artes e Ofícios, em formato intimista (duas vozes e uma guitarra), a intensidade e presença cristalina da voz de Ana Deus juntou-se à delicadeza e doçura, já bem conhecidas, da interpretação de Luca Argel, convidando o público a saborear quinze canções praticamente inéditas, nas quais as palavras de Fernando Pessoa foram servidas em pequenas doses refrescantes.

Tema inaugural do concerto, “O Som das Águas” serviu de aperitivo a uma noite de sedução e encanto. As canções seguintes - “É Inútil Dizer”, “Ouvi os Sábios” e “O Grande Espaço Azul” - pareceram querer dizer: Bebe! Bebe! Um beber que, nas palavras e na música de Ana Deus e Luca Argel, se traduz em alegria, tranquilidade e amor. Na dolência de uma valsa ou no frenesim de um samba, é o carácter hedonista, contemplativo e profundamente filosófico do poeta persa que se revela, passando á prática essa ideia fundamental de aproveitar o presente, “pois o tempo é breve e a morte é certa”. “Fingi quem Fui”, “Endoidecendo”, “Melancolia” e “Não Fiz Nada” falam-nos mais de Pessoa que de Khayyam, tal como “Autopsicografia”, interpretado já no “encore” - “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”. Desenhado com cuidado e bom gosto, o concerto oferece um conjunto de registos em vídeo que evocam a ideia de centriptismo, que atrai o público para o seu interior e o convida a pede que se deixe seduzir pela doce libação das palavras e da voz. Uma experiência sensorial deveras inebriante, que a todos tocou.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

CONCERTO: Pedro Moutinho



CONCERTO: Pedro Moutinho
Com | André Dias (guitarra portuguesa), Pedro Soares (guitarra), Ni Ferreirinha (baixo acústico), Pedro Moutinho (voz)
Festival do Pão de Ló de Ovar
Jardim Almeida Garrett
26 Jul 2025 | sab | 21:30


Em jeito de lançamento dos dois concertos que preencheram uma boa parte do programa do terceiro dia do Festival do Pão de Ló de Ovar, a tarde do passado sábado foi dedicada “à escuta do fado”, conversa integrada no extraordinário projecto que é o InOvar as Letras - À Escuta da Literatura. Neste seu desígnio de criar laços entre a música popular e a chamada música erudita, a “tertúlia de fado”, moderada por Ana Isabel Nistal Freijo, mostrou-se particularmente oportuna, não apenas pela possibilidade de reunir à volta do tema três personalidades fortemente envolvidas com o fado, mas também porque Ovar é uma referência no género, como Dino Marques tão bem lembrou ao mencionar os nomes do letrista António Campos e dos fadistas Clara d’Ovar, Zeni d’Ovar e Maria Albertina. Em ambiente descontraído, entre histórias e memórias, muitos temas vieram à baila, das diferenças entre o fado de Lisboa e o de Coimbra à experiência colectiva singular que são as casas de fado, de referências tão importantes como Ana Rosmaninho, Francisco Maurício, Alfredo Marceneiro ou Carlos Rocha, à constatação de que “os fados são primos”.

Coube a Pedro Moutinho a responsabilidade de preencher o serão, com um concerto feito de temas tradicionais do fado e uma ou outra piscadela de olho à canção dita ligeira. Nascido no seio de uma família com fortes ligações ao fado, irmão dos consagrados Hélder Moutinho e Camané, Pedro Moutinho propôs um alinhamento que percorreu uma discografia com mais de vinte anos - “Primeiro Fado” (Som Livre, 2003) foi o seu primeiro trabalho de estúdio -, fazendo as delícias do público graças ao seu talento, à emoção que se desprende da sua voz e à beleza dos temas escolhidos. “Lisboa mora aqui e as portas da cidade / Abrem-se à voz que sou com a chave duma rima”. “Lisboa Mora Aqui” foi o tema de abertura do concerto, com Pedro Moutinho a homenagear, por seu intermédio, grandes referências do fado, que viriam estender-se a Martinho d’Assunção, Carlos Rocha, Amália ou Carlos do Carmo. Conquistado, o público escutou “Maldição”, “Olhos Estranhos” e “Meu Amor sem Direcção”, atrevendo-se a dar a deixa ao fadista no refrão do “Fado da Contradição” - “se eu digo sim, tu dizes não / se eu digo não, tu dizes sim”.

Apesar de um ambiente menos adequado a escutar-se o fado nas condições que ele merece e exige, condicionando a desejável empatia entre o fadista e o público, o concerto teve momentos extraordinários, sendo de realçar a interpretação de temas como “A Rua da Esperança”, “Veio a Saudade”, “Um Resto de Mouraria” e, sobretudo, “Alfama”. Nestes, como noutros fados, ficou bem patente a apetência do artista para combinar modernidade e tradição, daí resultando um estilo único, uma assinatura inconfundível feita de talento, brilho e sentimento. Ao encontro de um universo de poemas e músicas, onde cabem os nomes de Amélia Muge, Manuela de Freitas, Maria do Rosário Pedreira, João Monge, Carminho, Teresinha Landeiro, Tiago Torres da Silva, Hélder Moutinho ou Aldina Duarte, Pedro Moutinho fez do tempo do concerto uma viagem por ruas e becos da cidade branca, narrando uma delicada história onde se cruzam saudades e maldições, amores e contradições, imprevistos e inquietações. Os músicos cotaram-se a bom nível e os dois temas do “encore” foram particularmente aplaudidos. As raras e delicadas nuances do fado a fazerem as delícias de muitos, que nem só de Pão de Ló vive o homem.