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domingo, 15 de março de 2026

CONCERTO: "Retorno" | Mário Laginha



CONCERTO: “Retorno”
Mário Laginha
Auditório de Espinho - Academia
13 Mar 2026 | sex | 21:30


O palco do Auditório de Espinho voltou a acolher um músico que ali regressa com a familiaridade de quem reconhece o lugar e a sua respiração. Mário Laginha apresentou “Retorno”, o seu mais recente trabalho discográfico, assumindo-o como um gesto de reencontro com o piano a solo quase duas décadas depois do lançamento de “Canções e Fugas”. Este não foi, porém, um regresso nostálgico, antes um movimento natural de um artista que, tendo percorrido inúmeros territórios de partilha musical, decide agora regressar a essa solidão criativa que, como o próprio reconhece, nunca lhe foi propriamente estranha. Sentado ao piano, Mário Laginha revelou as suas qualidades de compositor versátil e imaginativo, de executante exímio capaz de transformar cada frase numa pequena narrativa sonora. Num espaço onde afirma sentir-se “uma energia fantástica”, estabeleceu com o instrumento uma simbiose rara, como se cada tecla fosse a extensão imediata do pensamento. O concerto adquiriu, assim, um carácter de íntima revelação, pontuado por um diálogo cúmplice com o público, feito de breves comentários e de um humor discreto, sobretudo ao explicar a origem ou o título de cada peça. Essa leveza, longe de quebrar a intensidade musical, contribuiu para aproximar ainda mais a plateia de um universo sonoro que oscila entre a disciplina da composição e a liberdade do instante.

Entre os vários momentos que desenharam a arquitectura da noite, destacaram-se os dois improvisos que abriram, com fulgor quase inaugural, cada uma das metades do concerto. Neles se percebeu com particular nitidez a filosofia que atravessa “Retorno”: a fascinante possibilidade de se sentar ao piano sem saber exactamente o que virá a seguir. As peças nasceram diante do público com uma vitalidade imediata, como se a música estivesse a descobrir-se a si própria no momento da execução. Esse impulso criativo encontrou eco em temas de grande carácter. “Santo Amaro”, inspirado na pequena localidade costeira da ilha do Pico onde o músico costuma passar férias, revelou um lirismo ondulante, quase marítimo, deixando no ar uma melodia que parecia avançar e recuar como a própria maré. Já “Another Kind of Strike”, “Fogato Baião” e “Batuque” trouxeram para o centro do palco uma energia rítmica contagiante, o pianista a fazer valer um sentido de pulsação que tanto deve ao jazz como às múltiplas geografias musicais que tem atravessado. Ao longo destas peças, a escrita e a improvisação entrelaçaram-se com naturalidade: ora a música pareceu seguir um trilho cuidadosamente delineado, ora se libertou dele com uma espontaneidade luminosa. Nesse equilíbrio instável, mas sempre controlado, residiu grande parte do fascínio do concerto.

A atmosfera mudou de cor em “Retorno”, peça que deu nome ao álbum e que trouxe consigo uma doçura quase contemplativa, como se o pianista abrisse um espaço de recolhimento no meio da exuberância rítmica que atravessou a noite. A interpretação deixou perceber também as influências mais recentes do seu percurso, em particular o diálogo que manteve com o universo do fado através da colaboração com Camané, influência que o próprio reconhece ter deixado entrar, lentamente, na sua linguagem musical. Já no “encore”, Mário Laginha ofereceu ao público “Mãos na Parede”, homenagem delicada a Carlos Paredes, por alturas do centenário do seu nascimento, um gesto de memória que foi acolhido com emoção pelo publico. A fechar o concerto surgiu “Tanto Espaço”, composição originalmente editada no álbum “Espaço”, aqui revisitada num formato depurado que revelou novas transparências na escrita do compositor. Foi um final à altura de uma noite memorável, um concerto onde a técnica, a imaginação, a improvisação e a maturidade artística se fundiram num discurso profundamente humano. Mais do que apresentar um disco, Mário Laginha confirmou aquilo que “Retorno” já deixava adivinhar: que regressar, as mais das vezes, é apenas uma outra forma de seguir em frente.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

CONCERTO: "Øcre" | Filipe Raposo



CONCERTO: “Ocre” | Filipe Raposo
Teatro Aveirense
22 Jan 2022 | sab | 21:30


Ensaio sobre as clássicas cores vermelho, preto e branco, “Øcre” é o primeiro trabalho de uma trilogia na qual Filipe Raposo se propõe tornar reconhecível todo um universo harmónico que reside na cor, bem como o vasto conjunto de cinestesias daí resultantes. Com a pandemia a determinar o cancelamento ou o adiamento de inúmeros concertos de apresentação do álbum, dar a conhecê-lo ao grande público resultou numa caminhada errante, a qual chegou ao fim na noite do passado sábado num Teatro Aveirense particularmente despido de público. Em palco, a sós com o seu piano, o músico ofereceu aos presentes, sob a forma de trechos inspirados e de rara beleza, um conjunto de reflexões sobre o vermelho e as suas variações, associando-o ao fogo, o princípio de tudo, e ao sangue, a essência da vida. Mas também, recuando mil séculos, ao nascimento da arte.

Na sua mistura de ritmos, géneros e estilos, “No Princípio Era o Fogo” abriu o concerto da melhor forma, propondo a visão de um universo carregado de força vital, de energia criadora, aberto num todo caótico feito de um céu riscado por mil relâmpagos, ventos ciclónicos e rios de magma, com tanto de horrível como de belo. Seguiu-se “Blombos Cave”, um tema que remete para uma caverna situada cerca de 300 km a leste da Cidade do Cabo, na África do Sul, o primeiro lugar identificado pelos arqueólogos onde o óxido de ferro foi misturado com osso queimado e óxidos vegetais para produzir o ocre que depois era guardado em conchas. É um tema cujos trechos iniciais são de um lirismo surpreendente, que nos convidam a espraiar a vista pelo espaço em volta antes de penetrarmos nesta caverna onde homens e mulheres aprendem a domesticar o fogo e se entregam à árdua tarefa de sobreviver. “Mefistófeles”, a peça seguinte, é um precioso divertimento que remete para a busca da verdade e do conhecimento e nos traz os ambientes clássicos do cinema mudo enquanto nos sussurra ao ouvido: “Sou o espírito que deseja eternamente o mal, mas faz eternamente o bem”.

Entre o sagrado e o profano, “Romances e Litanias” é mais um tema precioso, filiado na tradição popular com origem em Trás-Os-Montes e cujo trecho inicial é do mais belo que jamais um piano me ofereceu. “A Um Deus Desconhecido” desce até sul do Tejo ao encontro de Endovélico, divindade céltica ligada à natureza e às colheitas, mas também às bebidas inebriantes. “Ritos e Encantamentos” cruza-se com Zeca Afonso e “Alegria da Criação” para nos dizer, em acordes feitos poema: “Feiticeira / Mãe de todos nós / Flor da espiga / Maldita para tiranos / Amorosa te louvamos / Tens mais de um milhão de anos / Rapariga”. A música de inspiração popular voltou a mostrar-se por inteiro no delicioso “Ó Meu Bem”, um tema açoriano, e “Uncertainly Lost In Stockholm”, tema que faz a ponte com o álbum “Inquietude” (2015) fechou o alinhamento do concerto. No “encore”, Filipe Raposo recuou ao seu segundo álbum, “A Hundred Silent Ways”, oferecendo-nos a sua versão de “Ó Bento Airoso”, desta forma homenageando a cidade de Aveiro onde esse trabalho nasceu em 2013. Foi a cereja no topo do bolo de uma noite mais que perfeita.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

RECITAL DE PIANO E POESIA: Maja Stojanovska e Pedro Guilherme-Moreira



RECITAL DE PIANO E POESIA: Maja Stojanovska e Pedro Guilherme-Moreira
Festival Literário de Ovar 2021
Escola de Artes e Ofícios
10 Set 2021 | sex | 22:30


“É difícil mas é necessário.” Estas palavras de Pedro Guilherme-Moreira quiseram preparar-me (e prepará-lo) para uma hora de coração aberto. No final, tomado pela emoção, pude perceber o real valor desta sua advertência. Talvez por isso tenha demorado tanto tempo a agarrar naquilo que, no fecho do terceiro de cinco dias do Festival Literário de Ovar, foi uma verdadeira “lavagem da alma”. Precisei de me distanciar para ver melhor, para sentir melhor. Um mês passou, mas não houve um só dia em que não pensasse naquilo que escutei e vi, um só dia em que não continuasse a sentir as palavras e a música dentro de mim, a inundar-me até que o corpo não aguentasse mais e transbordasse em lágrimas grossas. Ainda que digam que o tempo cura tudo e essa seja a maior mentira do mundo, é tempo de regressar a essa noite, de falar dela com afecto e gratidão, de voltar a senti-la como se de volta ao meu mais aconchegante pedaço da casa, envolto num calor bom, a paz e a tranquilidade a tomarem-me por inteiro.

E assim vou, como Pedro Guilherme-Moreira, falar de “uma noite egoísta de três artistas que ficou por nascer dois anos, quando as máscaras não caíam”. Uma noite que encerra uma homenagem, a homenagem de um filho a uma mãe, ele o Pedro, ela a Mena. A mesma Mena que morreu em Novembro de 2019, a um mês dos primeiros boatos da pandemia, e que, altiva, se mostra hoje na sala, cavalete onde jaz um quadro imperfeito, a dolorosa interrupção visível na ausência de cores fortes e de brilhos faiscantes, os caminhos do efémero dominados pela ironia, pelo desconcerto e pela traição. Apesar da violência da composição, onde figuram também as tintas e os pincéis, o todo diz-nos que ninguém acaba realmente com a morte. Assim nasce o “Pequeno Tratado Sobre o Amor”, princípio e fim de um espectáculo incomum, fusão da pintura, com a música e a literatura, que arrasta consigo um “Requiem” e um “Post mortem”.

Absolutamente factuais, as palavras jorram em torrentes de amor e dádiva. Duras, cruas, elas encerram “a morte de todas as mães” e estão destinadas a “mover, mexer, incomodar, arrebatar”, como de facto moveram, mexeram, incomodaram, arrebataram. Não fora assim e não teriam servido para nada. Com a morte da mãe já em palco, tomo consciência da dificuldade em gerir a beleza e o medo da minha própria existência. Os acordes da “Sonata ao Luar” sublinham não uma vida extraordinária mas uma morte extraordinária. Composto por quem se sente um menino pequenino que não quer que levem o corpo da mãe da capela mortuária, o “requiem” transporta-me ao quarto 3, do piso 10, do Internamento Multidisciplinar do IPO do Porto, as luzes da Asprela acesas numa noite chuvosa e fria, feita dos barulhos da cidade, de lábios humedecidos com esponjas, pacotinhos de bolacha Maria molhados no chá com a força de um último desejo e as vozes de Kenny Rogers e Lionel Richie num sussurro: “In my eyes I see no one else but you / There's no other love like our love / And yes, oh yes, I'll always want you near me / I've waited for you for so long”. Então, contra todas as lógicas da anatomo-fisiologia, o coração aperta-se até ficar pequenino. Tão pequenino…

“Se não há pessoas iguais, não há vidas iguais, não há mortes iguais, não há lutos iguais”. Uns olhos em busca da vida, mas a deixá-la, são impossíveis de esquecer. Um cabelo que se afaga, um fugaz vislumbre de momentos tão cheios e tão bons, uma saudade. Um raio de sol sobre um Pai-Nosso. O primeiro episódio da terceira temporada do “The Crown” que ficou por ver naquele domingo. A enfermeira Joaninha “que te protegeu e protegerá sempre”. Fico-me por aqui. Era suposto, um mês depois, ter já “estofo” suficiente para escrever algo sobre este recital sem ter de estar sempre a levantar-me, a enxugar as lágrimas, a respirar fundo e a insistir em continuar. Não vou continuar. Quem sabe dentro de um mês regresse a este pequeno tratado sobre o amor. Por ora fico-me, mais a admiração pelo Pedro Guilherme-Moreira que é absoluta. Como conseguiu conter as emoções durante uma hora é um mistério para mim. Escuto ainda a sua voz onde pressinto ansiedade e medo. Tomo dele palavras que me inquietam e, paradoxalmente, me confortam: “Deve ser uma coisa grandiosa deixar a vida, mamã.”

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

PALESTRA-RECITAL: "On Playing Mozart", por Alfred Brendel



PALESTRA-RECITAL: “On Playing Mozart”,
por Alfred Brendel
Casa da Música, Porto
21 Out 2018 | dom | 18:00


Jovem enfermeiro em início de carreira, assisti a duas mesas num Congresso de Ortopedia onde se abordavam as novas e revolucionárias técnicas de cirurgia do joelho. Desses momentos, passados quase trinta anos, restou a enorme frustração por não possuir os conhecimentos necessários a processar a informação recebida e a torná-la minimamente prestável. Recordo hoje esta experiência pouco simpática porque foi exactamente assim que me senti na palestra-recital proferida ao final da tarde de ontem, na Casa da Música, pelo pianista Alfred Brendel. Eu e, certamente, muitos outros, entre os quais aqueles que foram abandonando a sala desde os minutos iniciais.

“On Playing Mozart” foi apresentado ao público como uma palestra-recital. Ancorado na prestigiada figura de Alfred Brendel – um regresso ao palco onde inaugurou a primeira temporada de piano da Casa da Música, em 2005 -, o programa prometia a visão e os conselhos de um célebre intérprete de Mozart sobre a obra de um compositor genial que marcou o classicismo vienense, tudo isto complementado com os vários apontamentos pianísticos que sustentariam as ideias de Brendel. E é aqui que as coisas se complicam, primeiro porque a prédica não era para todos os públicos, exigindo um conhecimento prévio da obra de Mozart e das múltiplas formas como pode ser interpretada, e depois porque os (poucos) acordes tocados ao piano não foram além da mera ilustração, parecendo-me abusivo aplicar-lhe o termo de “recital” com que foi anunciado.

Foi tempo perdido? Certamente que não, pelo menos não totalmente. Brendel provou que Mozart não era um hippie, embora os seus contemporâneos achassem os seus contrastes desagradáveis e as contradições desnecessárias. Embora extravagante, era extremamente dotado e podemos considerá-lo um compositor “cantabile”, que fazia o piano cantar. Mas depois vêm questões relativas à notação, até que ponto deve ser literalmente interpretada, ou de que forma se comparam as suas poucas obras em tons menores com as muitas em tons maiores, ou da segunda nota tocada mais suavemente que a primeira, ainda os tempos 6/4 ou a K. 545, K. 589 ou K. 570 que toda a gente devia conhecer mas que só alguns conheceriam, o interesse a ceder rapidamente lugar ao tédio. A rematar, diria que pôr duas peças a tocar no “giradiscos” durante largos minutos só ajudou a fazer crescer na ideia a palavra “logro”.