Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Guilherme-Moreira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Guilherme-Moreira. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | André Domingues



TERTÚLIAS LITERÁRIAS: “Conversas às 5”,
com André Domingues
Participação especial | Pedro Guilherme-Moreira
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Centro de Reabilitação do Norte
25 Out 2023 | qua | 17:00


Era uma vez… Todas as histórias deveriam começar assim, ao encontro das mais gratas memórias de infância, quando os nossos pais nos embalavam com a sua voz doce e nos ofereciam imaginários de sonho e encantamento que se impunham até sermos vencidos pelo sono. Mas, dizia eu: Era uma vez… um menino que, pressentindo a nobreza da sua missão, se abeirava da cama do avô e lia para ele. O menino cresceu e cresceu também o seu gosto pela leitura. Também pela escrita. Da escrita, como da leitura, ergueram-se duas paixões. Onde tantos hesitam, ousou e deu um primeiro passo do qual resultou um pequeno-grande livro, ao qual chamou “Dramas de Companhia”. Foi o início de uma bela jornada que, quero acreditar, só agora está no seu início. Do seu mais recente livro - pequeno-enorme livro -, diria que é portentoso e promete dar que falar. Chama-se “Porto ou a Insurreição do Olhar” e o seu autor, André Domingues, foi o convidado da 12ª sessão das “Conversas às 5”, evento literário que, de forma regular, toma conta do espaço do Centro de Reabilitação do Norte, para um tempo (sempre curto) de beleza e fascínio à volta dos livros.

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Literatura e Cultura Comparadas, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, locutor, tradutor e copywriter, André Domingues foi um extraordinário interlocutor, sempre generoso na partilha de ideias e experiências. Falou dos seus tempos de infância, recordando que “escrevia sempre para as pessoas mais velhas”. Depois, jovem adulto, de como fugiu do jornalismo (“uma espécie de negação da literatura”), da mesma forma que se aproximou dele e, por via disso, da própria língua portuguesa. Enfim, da publicação tardia, já depois dos quarenta anos, do seu primeiro livro, ao qual se seguiram três outras obras num relativamente curto espaço de tempo. Falou da sua admiração pela “flash fiction” e pelos seus cultores, “espanhóis e americanos”, ao mesmo tempo que criava o blogue “Do Amor Mau”, onde reunia as suas primeiras experiências no género. Foram dois anos intensos e ricos de (micro) aventuras literárias, das quais saíram mais de centena e meia de textos e, quatro anos mais tarde, “Dramas de Companhia”, editado pela Companhia das Ilhas.

“Literatura para Vampiros”, breve crónica deste livro inaugural, chegou aos ouvidos dos presentes na voz bem colocada e plena de sentir de André Domingues, naquele que constituiu o primeiro momento de leitura da tarde. O “levar os lábios à página e começar a ler” abriu aplausos na plateia e abriu, igualmente, espaço à apresentação de um segundo convidado desta sessão, Pedro Guilherme-Moreira, um “quase veterano” das “Conversas às 5”. Conterrâneo, vizinho e par de André Domingues nesta “doença dos livros”, Guilherme-Moreira falou do começo de uma relação que tem na defesa da Literatura o seu vínculo mais forte e no “gosto de arranjar discípulos” um propósito comum. Há também “Porto ou a Insurreição do Olhar” a ligar ambos os escritores, ou não fosse Pedro Guilherme-Moreira o autor do prefácio deste livro. Mas isso ficará para o parágrafo já a seguir. Antes, “Rapina”, livro “crepuscular” surgido em plena pandemia, livro de poemas que são como que “excedentes” ou “réplicas” do seu livro anterior, “Tempestade das Mãos”. Livro ao qual André Domingues foi buscar “Las Armas de Ayer” e cujas palavras, entre “sigilos imperfeitos”, “superfícies inertes”, “épocas cruéis” e “lugares de onde não se recebe um benefício claro do paraíso”, tocou fundo em todos os presentes.

Tocou-se, enfim, nesse “Porto ou a Insurreição do Olhar”, começando por um prefácio que encerra, nas palavras de Pedro Guilherme-Moreira, “uma história incrível, exemplar, do pior.” Não acreditando na forma como se apresentam os livros e, tão pouco, em prefácios, foi “quase com um não” que respondeu ao convite para fazer uma coisa ou outra em relação a este “Porto (…)”. Só que… “Começo a ler o livro (…) e sabia o que estava a ler. E sabia, dado que leio muito, que não havia nada assim neste país. O que o André fez aqui é muito parecido com o que o Ruskin fez em Veneza, com a vantagem de ser menos pomposo e mais literário.” Depois de se ter “desconvidado”, Guilherme-Moreira liga ao amigo e diz-lhe: “Reconvido-me e, por este livro, estou disposto a tudo.” Mas o que tem o livro, afinal, de tão singular, de tão genial, para ser assim visto com tanta admiração? As impressões do moderador podem ser vistas no blogue [AQUI], enquanto a visão de Pedro Guilherme-Moreira está num sentido prefácio onde se lê, a linhas tantas: “A escrever o André tem uma mão subtil, elegante, original, visceral. E como eu gosto dos (poucos) viscerais entre nós. Por isso tenho urgência em dizer ao leitor, como Proust de Ruskin, olha!, olha!, vai por aqui que é maravilhoso.”

Na toada de “Porto ou a Insurreição do Olhar”, percebe-se que a conversa caminha para o final. Fala-se das frases que salvam livros e leitores, de intimidade que “pode ser fulgurante entre leitores verdadeiros”, do Porto como “uma das raras cidades desmedidas”, da “multidão incansável no seu afã de redefinir o vazio”. Ao correr das ideias, abre-se espaço à leitura das crónicas e, enquanto Pedro Guilherme-Moreira conta o “Verão dos Poetas”, André Domingues deixa-nos uma pequena provocação com “Agramonte”, nele “um gato que dorme sob a guarda de um anjo, ou talvez seja um poeta disfarçado, nunca se sabe”. Também uma pergunta: “O que é que eu faço às cinco horas da tarde, num esplêndido dia de Verão, no cemitério de Agramonte?” Lá fora, a chuva e o vento outonais não param de fustigar as vidraças. São quase seis e meia e põe-se um ponto final em mais umas “Conversas às 5”. Nos olhos de todos, nas palavras, nas palmas, a gratidão por tanta dádiva e tanta partilha. Do talento e das mãos delicadas da fisioterapeuta Isabel Caldeirinha nasceram duas peças de cerâmica que são oferecidas ao convidado desta sessão. Prolonga-se o momento num café, numa troca de impressões, numa improvisada sessão de autógrafos. Partimos e, como Eugénio, refugiamo-nos na tarde, nas palavras, “sem outro fito que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros a insurreição do olhar.”

quinta-feira, 16 de junho de 2022

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | Pedro Guilherme-Moreira



TERTÚLIA LITERÁRIA: “Conversas às 5”,
com Pedro Guilherme-Moreira
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Auditório Dr. Correia de Campos | Centro de Reabilitação do Norte
07 Jun 2022 | ter | 17:00


Pedro Guilherme-Moreira foi o escritor convidado da oitava sessão das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, iniciativa do Centro de Reabilitação do Norte que, desde Abril de 2021, tem procurado incrementar o gosto pela leitura e contribuir para a formação de mais e melhores leitores. Numa tarde a convidar o usufruto das delícias do sol e do mar, foram poucos aqueles que aceitaram o desafio de trocar a praia pelo Auditório do CRN, participando numa sessão da qual retiraram o gosto da partilha e do conhecimento em torno da escrita e dos livros, graças à bondade e generosidade de um dos seus grandes representantes. Autor dos romances “A Manhã do Mundo” (2011), “Livro Sem Ninguém” (2014) e “Saramaguíada” (2017), Pedro Guilherme-Moreira mostrou-se um apaixonado pela vida e seus mistérios, pela beleza do inescrutável, pela felicidade da descoberta. E aí entram os livros, causa e efeito de um espírito livre e de uma mente aberta à novidade e empenhada em explorar os seus limites.

O poema “Nunca Tive 15 Anos” deu o mote para o início de uma animada conversa. Através dele, Pedro Guilherme-Moreira revisitou o passado, não sem antes deixar uma palavra de gratidão às “Tertúlias” e à sua organização por lhe ter sido dada a possibilidade de falar daquilo que gosta, num lugar que lhe diz muito, “com este mar que conheço desde a infância, os seus ventos e nuvens, estes montes que existiam no preciso sítio onde nos sentamos agora e onde, nos meus tempos de miúdo, fiz grandes crosses de bicicleta”. Pegando então no assunto “quinze anos”, o escritor quis chamar a atenção para o facto de ter já nascido “um bocadinho crescido”: “Cheguei rapidamente aos quinze anos e depois não saí dos dezasseis”. Costuma, inclusive, dizer que “só há seis meses deixei de ser um rapazinho”, acrescentando que nem isso é verdade: “Continuo imaturo, continuo a querer que gostem de mim.” O espaço aberto pelo poema fê-lo recuar aos tempos da primeira classe, quando decidiu escrever uma redação em que transformava a professora numa formiga. E recorda: “Ela deixou-me para o fim, disse que aquilo é que era escrever e eu pensei com os meus botões que, se inventava uma coisa nova, se fazia o que me apetecia, se transformava a professora em formiga e ainda por cima era premiado, queria era fazer isto a vida toda.”

Ver neste episódio o ponto de partida para a carreira de escritor foi algo que não ficou esclarecido totalmente, mas quando Pedro Guilherme-Moreira afirma ter “45 anos de literatura”, talvez a ligação faça todo o sentido. Apesar de uma vida literária que já vai longa, a verdade é que só se tornou “visível” há onze anos, no momento em que publicou na Dom Quixote o romance “A Manhã do Mundo”. Sobre o livro, o escritor começou por realçar a relação dura que teve com ele: “Todas as vidas que estão no livro existiram, os seis grandes vectores deste livro, apesar de ficcionados, tiveram uma existência real, um dos seis, inclusivamente, era português. E aí começa a emoção.” Partindo de uma investigação que foi mais demorada no tempo do que a própria escrita do livro – “não quis alinhar em teorias da conspiração, precisei de deslindar uma série de boatos, quis perceber até que ponto as notícias eram manipuladas” -, Pedro Guilherme-Moreira faz questão de dizer que “tudo o que está relatado é inatacável, o livro tem rigor científico e, até hoje – e já lá vão onze anos –, nada do que está escrito foi posto em causa.” Realçou ainda o destaque dado ao livro pela Biblioteca Pública de Nova Iorque, que considera como “o meu grande prémio literário”.

O segundo livro de Pedro Guilherme-Moreira intitula-se “Livro Sem Ninguém” e é uma história contada não pelas pessoas, mas pelos seus objectos – “porque as coisas também dizem quem somos”. Lá, poderá o leitor encontrar “a minha escola de Francelos, os plátanos, mas na Rua do Arco Celeste não há assim tanto da minha rua.” Escrever um livro que prima pela originalidade teve a ver, em grande medida, com a ideia de combater o cliché que sustenta que “ninguém inventa nada, está tudo escrito”. E é assim que vemos o autor a “chutar toda a gente para fora do livro e a conseguir contar uma história durante um ano sem ninguém, só com a roupa estendida no varal, os carros que estacionam ou deixam a rua, as plantas que crescem no jardim ou as árvores que vão perdendo as suas folhas.” Este é um livro muito trabalhado – “eu parecia um cientista, há uma ideia e uma implementação” – ao qual, numa segunda fase, foi injectado “coração”: “O livro precisava dessa humanidade, os nossos sinais no mundo são comoventes.” Hoje o escritor admite que haverá muita gente que não consegue entrar na esquemática do livro, já que “não é bem um romance, é um exercício literário, feito de personagens latentes”. Mas tem uma convicção: “Daqui a cem anos, se alguém falar de alguma coisa, vai ser deste livro.”

Finalmente “Saramaguiada”, um livro “escrito num transe completo”, que é uma tentativa de “transformar Saramago no meu herói, no meu Dom Quixote” e que, ao mesmo tempo, constitui uma forma de Pedro Guilherme-Moreira se vingar daquilo que chama a “frivolidade do meio literário”. Carregando o livro de literatura, abusando das referências, misturando tempos e lugares, citando directa ou indirectamente as obras que mais o marcaram, o autor faz de “Saramaguíada” o seu “Ulisses”. Respondendo às questões do público e à dificuldade manifestada por uma ouvinte em “entrar” na dinâmica narrativa do livro, Pedro Guilherme-Moreira revelou toda a sua humildade ao propor uma maior aproximação entre escritor e leitor : “Quando lerem os meus livros, usem-me. Se há questões que se transformam em dilemas, dificuldades em entrar na estrutura, dúvidas que se revelam indecifráveis, escrevam-me, telefonem-me, marquem um café, deixem-me que esteja ao vosso lado”. Percebemos que isto pode ser muito importante para o leitor. Para o escritor se-lo-á, seguramente.

terça-feira, 17 de maio de 2022

LIVRO: "Saramaguíada"



LIVRO: “Saramaguíada (A invenção de Pilar)”,
de Pedro Guilherme-Moreira
Edição | Virgínia do Carmo
Ed. Poética Edições, Setembro de 2017


“O que preenche os leitores de todos os mundos é precisamente a identidade entre a realidade e a ficção: os leitores vão buscar aos livros a revelação de algumas vidas ilegíveis, os escritores decifram equações complexas que nunca lhes foram propostas: a ficção, e na ficção a fracção, são, na verdade, as mais profundas camadas da realidade.”

De tempos a tempos o milagre acontece. Da pasmaceira geral, ergue-se um livro que ousa afrontar convenções e afirmar-se pela diferença, que vem para inquietar o nosso ramerrame e abrir espaço ao pensamento, que nos diz que o caminho pode ser mais estreito ou mais íngreme, mais difícil de trilhar, mas que é, ainda assim, caminho. [Por mor da verdade, cabe fazer aqui um parêntesis para dizer que “Saramaguíada” não é um caminho, antes uma ideia de caminho]. Estamos perante um livro que vive de e para as ideias, que as alimenta e nelas descobre o seu próprio alimento. Que sorri face ao que têm de fugaz e incorpóreo, lhes segura as pontas e, desassombradamente, se dispõe a desenrolar meadas mesmo que não haja meada alguma. Que envolve essas mesmas ideias numa carícia e as mostra como elas são, coniventes, íntimas, alheadas dos espaços e dos tempos que são os seus, tumultuosas, babélicas, organizadamente desorganizadas, irrevogavelmente livres.

Mas deixemos por um momento as ideias e concentremo-nos no concreto. O livro que temos na mão é concreto. Tomamos o peso às suas mais de trezentas páginas, olhamos aquela capa, as belíssimas ilustrações de Vasco Gargalo, aquele caminho que começa (ou acaba) em Paris, e isso é concreto. Como concretos são outros escritos que neste encontram guarida, do “Memorial do Convento” ou “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, à correspondência que Saramago trocou com José Rodrigues Miguéis; do “Lolita” de Nabokov ou do “Dom Quixote” de Cervantes, aos sermões do Padre António Vieira. Vieira, Cervantes, Nabokov, Miguéis, Saramago. E também Maria Amália Vaz de Carvalho, Alexandre O’Neill, Adeodato Barreto, Virginia Woolf, Leni Riefenstahl e, claro, Pilar del Río, a mulher inventada. [Segundo parêntesis, “mulher inventada”, como todos os outros citados, aliás, reais porque sim e porque a ideia do escritor assim os quis]. Tudo é real porque inventado.

Embora complexo e exigente, “Saramaguíada” lê-se de um fôlego. A única coisa que é pedida ao leitor é que se abstraia, que mergulhe no mundo das ideias sem reservas nem preconceitos, que tome moderadamente a sério aquilo que vai lendo, por muito pouco séria que a leitura possa parecer. Acima de tudo, que desfrute, que se divirta. Que ria com Eça e Esse (de Saramago), em Tormes como em Paris, escutando as suas fantasias como quem escuta dois coronéis à beira de uma piscina. Que seja tomado pela angústia ao aportar à ilha de Corfu tomada pela peste. Que se emocione com os últimos momentos de um labrador preto, velho e insolente, de nome Shadow. Que se indigne com este mundo que os “jornalistas sem cabeça” nos querem impor. Que celebre todos os farmacêuticos de nome Esteves (com ou sem metafísica) e todos os cavaleiros (de triste ou alegre figura). Que vibre com a descoberta de Saramago e a invenção de Pilar. Que se deixe envolver por este mundo das ideias - que é de todos e não é de ninguém -, como se fora um actor mais de um filme a preto branco. Um filme de Buñuel, que nos fala de liberdade e dos seus fantasmas.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

RECITAL DE PIANO E POESIA: Maja Stojanovska e Pedro Guilherme-Moreira



RECITAL DE PIANO E POESIA: Maja Stojanovska e Pedro Guilherme-Moreira
Festival Literário de Ovar 2021
Escola de Artes e Ofícios
10 Set 2021 | sex | 22:30


“É difícil mas é necessário.” Estas palavras de Pedro Guilherme-Moreira quiseram preparar-me (e prepará-lo) para uma hora de coração aberto. No final, tomado pela emoção, pude perceber o real valor desta sua advertência. Talvez por isso tenha demorado tanto tempo a agarrar naquilo que, no fecho do terceiro de cinco dias do Festival Literário de Ovar, foi uma verdadeira “lavagem da alma”. Precisei de me distanciar para ver melhor, para sentir melhor. Um mês passou, mas não houve um só dia em que não pensasse naquilo que escutei e vi, um só dia em que não continuasse a sentir as palavras e a música dentro de mim, a inundar-me até que o corpo não aguentasse mais e transbordasse em lágrimas grossas. Ainda que digam que o tempo cura tudo e essa seja a maior mentira do mundo, é tempo de regressar a essa noite, de falar dela com afecto e gratidão, de voltar a senti-la como se de volta ao meu mais aconchegante pedaço da casa, envolto num calor bom, a paz e a tranquilidade a tomarem-me por inteiro.

E assim vou, como Pedro Guilherme-Moreira, falar de “uma noite egoísta de três artistas que ficou por nascer dois anos, quando as máscaras não caíam”. Uma noite que encerra uma homenagem, a homenagem de um filho a uma mãe, ele o Pedro, ela a Mena. A mesma Mena que morreu em Novembro de 2019, a um mês dos primeiros boatos da pandemia, e que, altiva, se mostra hoje na sala, cavalete onde jaz um quadro imperfeito, a dolorosa interrupção visível na ausência de cores fortes e de brilhos faiscantes, os caminhos do efémero dominados pela ironia, pelo desconcerto e pela traição. Apesar da violência da composição, onde figuram também as tintas e os pincéis, o todo diz-nos que ninguém acaba realmente com a morte. Assim nasce o “Pequeno Tratado Sobre o Amor”, princípio e fim de um espectáculo incomum, fusão da pintura, com a música e a literatura, que arrasta consigo um “Requiem” e um “Post mortem”.

Absolutamente factuais, as palavras jorram em torrentes de amor e dádiva. Duras, cruas, elas encerram “a morte de todas as mães” e estão destinadas a “mover, mexer, incomodar, arrebatar”, como de facto moveram, mexeram, incomodaram, arrebataram. Não fora assim e não teriam servido para nada. Com a morte da mãe já em palco, tomo consciência da dificuldade em gerir a beleza e o medo da minha própria existência. Os acordes da “Sonata ao Luar” sublinham não uma vida extraordinária mas uma morte extraordinária. Composto por quem se sente um menino pequenino que não quer que levem o corpo da mãe da capela mortuária, o “requiem” transporta-me ao quarto 3, do piso 10, do Internamento Multidisciplinar do IPO do Porto, as luzes da Asprela acesas numa noite chuvosa e fria, feita dos barulhos da cidade, de lábios humedecidos com esponjas, pacotinhos de bolacha Maria molhados no chá com a força de um último desejo e as vozes de Kenny Rogers e Lionel Richie num sussurro: “In my eyes I see no one else but you / There's no other love like our love / And yes, oh yes, I'll always want you near me / I've waited for you for so long”. Então, contra todas as lógicas da anatomo-fisiologia, o coração aperta-se até ficar pequenino. Tão pequenino…

“Se não há pessoas iguais, não há vidas iguais, não há mortes iguais, não há lutos iguais”. Uns olhos em busca da vida, mas a deixá-la, são impossíveis de esquecer. Um cabelo que se afaga, um fugaz vislumbre de momentos tão cheios e tão bons, uma saudade. Um raio de sol sobre um Pai-Nosso. O primeiro episódio da terceira temporada do “The Crown” que ficou por ver naquele domingo. A enfermeira Joaninha “que te protegeu e protegerá sempre”. Fico-me por aqui. Era suposto, um mês depois, ter já “estofo” suficiente para escrever algo sobre este recital sem ter de estar sempre a levantar-me, a enxugar as lágrimas, a respirar fundo e a insistir em continuar. Não vou continuar. Quem sabe dentro de um mês regresse a este pequeno tratado sobre o amor. Por ora fico-me, mais a admiração pelo Pedro Guilherme-Moreira que é absoluta. Como conseguiu conter as emoções durante uma hora é um mistério para mim. Escuto ainda a sua voz onde pressinto ansiedade e medo. Tomo dele palavras que me inquietam e, paradoxalmente, me confortam: “Deve ser uma coisa grandiosa deixar a vida, mamã.”

quarta-feira, 20 de maio de 2020

LIVRO: "Livro Sem Ninguém"



LIVRO: “Livro Sem Ninguém”, 
de Pedro Guilherme-Moreira 
Edição | Maria do Rosário Pedreira 
Ed. Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2014


“Cada pedaço de rua conta pequenas coisas todos os dias, tantas mais quanto a atenção com que se olha. Não há certezas e há uma incerteza: se o livro é mesmo sem ninguém.” 

De falta de originalidade não podemos acusar Pedro Guilherme-Moreira neste seu “Livro Sem Ninguém”. Nele, o autor pega num conjunto de histórias aparentemente simples e resolve “apagar” as pessoas que nelas habitam, quedando-se apenas com os traços da sua passagem. Ao leitor cabe o desafio de atentar nos objectos, rapidamente concluindo que só excepcionalmente o seu movimento é casual. Perceberá a azáfama da rua pelos carros que estacionam e, pelas sacas que passam nos passeios, de onde vêm e para onde vão, se há tempo ou não, doença ou saúde. Será capaz, até, de saber de uma solidão na soleira de uma porta. Colhidos os indícios através das coisas, é uma questão, “apenas”, de somá-los dois a dois, reconstruindo histórias e memórias, gentes, lugares e a vida que neles palpita.

Se todas as boas ideias resultassem em bons livros, teríamos as nossas bibliotecas repletas de obras-primas. A verdade, porém, é bem diferente, e “Livro Sem Ninguém” está aí para o confirmar. Há muito de denunciado nuns óculos Ray-Ban azuis, num boné de polícia ou num violino cigano. As histórias que convocam dificilmente carregam em si algo de novo. No livre curso que o leitor quiser dar à sua imaginação, é difícil carpinteirar enredos sem fugir ao cliché onde se afogam ódios e paixões, o pequeno delito ou o acidente doméstico que obriga a chamar uma ambulância ou pior ainda. Admirar-se-á o leitor com a sensibilidade e o bom gosto de Pedro Guilherme-Moreira na hora de combinar gazânias e orquídeas, bouvardias e miosótis, mas lamentará ter seguido o seu conselho e começado a tirar notas no mapa que é oferecido nas primeiras páginas do livro, depressa percebendo a sua inutilidade.

“Livro Sem Ninguém” não é um livro mau. Um livro que traz consigo imagens tão belas – objectos no topo da sucata que projectam sombras do passado, bolas de futebol de vários campeonatos da europa e do mundo às quais já faltam hexágonos, a outras pentágonos, a outras hexágonos e pentágonos, carvalhos-robles que contam histórias a canivete, relógios de sol que dão horas, um tango tocado no violino que é como um hino à liberdade ou ao longe, para lá das dunas e muito perto da linha de espuma, uma cana de pesca cravada na areia e uma bóia vermelha esquecida do Verão – nunca pode ser um livro mau. Mas para quem tanto prometia, o que fica resume-se a um punhado de ideias esparsas, acompanhado da sensação de termos à nossa frente um puzzle ao qual, eventualmente, faltam peças.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

LIVRO: "A Manhã do Mundo"



LIVRO: “A Manhã do Mundo”,
de Pedro Guilherme-Moreira
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Maio de 2011


“É possível que das cidades, e das casas nas cidades, desapareçam as pessoas. E morram as casas. E morram as cidades. Mas de dentro das pessoas nunca desaparecem as suas casas ou as suas cidades, e haverá sempre uma memória para convocar.”


Em jeito de preâmbulo, partilharei três memórias. A primeira vai ao encontro do escritor Pedro Guilherme-Moreira, de cujo pensamento guardava a ideia de correr à frente das palavras, o discurso confuso, quase ininteligível, o próprio a desaconselhar os presentes na derradeira mesa do Festival Literário de Ovar a lerem-no. A segunda leva-nos ao 11 de Setembro de 2001 e à perplexidade perante as imagens que a televisão ia mostrando em directo nesse início de tarde em Portugal, as ideias desencontradas a entrechocarem-se na mente; depois a incerteza, as repercussões de tão tresloucado acto a ameaçarem vidas até aí pacatas; enfim o medo tornado palpável, as histórias da História de súbito tão mais vivas. A terceira e última é a de uma estante numa livraria da baixa do Porto, a deliciosa profusão de livros de autores portugueses que se alinham, o olhar a pousar nos títulos um a um e a acabar por se deter em “A Manhã do Mundo”. Pedro Guilherme-Moreira é o autor, o 11 de Setembro de 2001 o assunto. Decido-me a pôr de parte o preconceito e concedo confrontar-me de novo com a perplexidade, a incerteza e o medo. Compro o livro e começo a lê-lo de imediato.

A primeira impressão é de espanto. Não porque o primeiro avião acabasse de embater na Torre Norte do World Trade Center, dando início à série de trágicos acontecimentos que se saldariam na perda de mais de três mil vidas humanas e numa extensa cicatriz para sempre gravada no coração da América. Mas porque a escrita de Pedro Guilherme-Moreira é límpida, as suas ideias claras, a narrativa seguindo uma lógica indestrutível, as palavras a transmitirem, paradoxalmente, conforto e segurança. Pela possibilidade que só a ficção pode conceder, o autor acompanha, de forma serena e digna, os derradeiros momentos de uma mão cheia de pessoas, não o filme da vida de cada uma delas a rebobinar-se a uma velocidade vertiginosa, antes a forma de encarar o horror e ser capaz de manter a lucidez quando o leque de opções se escoa a cada segundo que passa.

A grande força do livro está em provar que ninguém é dono do seu próprio destino e que situações há para as quais não existem planos B. São pessoas erradas, no sítio errado, à hora errada, pessoas que, por esta ou aquela razão, poderiam estar a salvo no momento da tragédia. Ou, no verso da questão, pessoas que se encontram a salvo quando tudo acontece, apenas porque sim. Pessoas que poderiam ser qualquer um de nós, como bem se perceberá. Sem se deixar enredar num estéril jogo de “ses”, Pedro Guilherme-Moreira coloca o leitor do lado de quem nem sequer se dá conta da benção que é não ter de tomar decisões em situações-limite, levando-o a abraçar cada dia como se fosse o último e a ver a vida como uma dádiva. Surpreendente, perturbador, inteligente e dum humanismo que se palpa no virar de cada página, “A Manhã do Mundo” é um dos livros mais inspiradores que li nos últimos tempos. Naquela tarde, ao olhar para aquele estante, foi este o livro certo, no sítio certo, à hora certa!