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terça-feira, 11 de abril de 2023

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | João Luís Barreto Guimarães



TERTÚLIA LITERÁRIA: “Conversas às 5”,
com João Luís Barreto Guimarães
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Auditório Dr. Correia de Campos | Centro de Reabilitação do Norte
04 Abr 2023 | ter | 17:00


“Sei muito bem o que digo. Ele fazia poemas. Os outros passavam ao largo (fugindo a qualquer pergunta) ele nem sequer escondia o que ali estava a fazer. Ali à frente de todos (…)”. Foi com as palavras do poeta João Luís Barreto Guimarães, ditas por Isabel Marcolino, que se deu início à décima sessão das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”. A iniciativa é do Centro de Reabilitação do Norte, teimando em afirmar a sua vocação universalista na qual a cultura é entendida como instrumento de conhecimento e partilha, de inclusão e reabilitação. Foi um regresso do poeta a uma casa que conhece bem e onde, há sensivelmente dois anos, deu o pontapé de saída nestas conversas que tantos e tão bons momentos têm proporcionado a todos quantos delas têm sabido tirar o devido partido. Mas voltemos ao poema, às palavras que se soltam da voz pausada e grave de Isabel Marcolino, e imaginemos o poeta, sozinho, sentado à mesa do Bar do Hospital, a aproveitar a pausa de almoço para ler, escrever e pensar. Pensar o seu dia, pensar a poesia. Ao nosso olhar, o habitual caderno e a caneta. Enquanto escreve olha e olha-se. No que escreve adivinhamos o banal que se espalha em conversas de bar e que não tardará em fazer-se verso.

O processo de escrita e a sua explicação surgem à boleia do poema. Escrever um livro é um exercício desgastante e que exige muito tempo. “Não há ‘palha’ nos meus poemas”, diz. Neles, “tudo tem que contar, ser valioso, ter um nível de originalidade e criatividade sem excepção.” Daí que os poemas comecem por ser maiores e vão sendo depurados, sujeitos a um processo de síntese. O poeta explica: “Ao abolir o elemento de ligação entre dois versos, transformo essa ligação num salto elíptico e obrigo o leitor, com a sua inteligência, com a sua crítica, com a sua ironia, a fazer a ponte, a fazer essa ligação. Podemos estar a falar da coisa mais quotidiana que existe, mas transformamos aquela linguagem numa linguagem poética. E isto resulta muito engraçado porque o leitor adere a esse processo, sente-se participante da própria construção do poema ao ser chamado a introduzir os tijolos onde aquele salto lógico falta. Ao tirar a explicação, o poeta aumenta o mistério, o enigma, a charada. E posso estar a falar de um copo ou de um livro. Não preciso estar a falar da glória, da morte, do amor, da derrota e da vitória”.

Assunto incontornável, a atribuição do Prémio Pessoa em 2022 levou João Luís Barreto Guimarães a recordar o telefonema do Dr. Francisco Pinto Balsemão, às sete da tarde de uma quarta feira, Marrocos ía jogar daí a nada, mostrando-lhe as razões que levaram o júri a atribuir-lhe o prémio: “João Luís Barreto Guimarães escreve sobre nós, portugueses, e escreve sobre tudo o que vê e o que observa, o que sente e o que pensa, e escreve sobre o outro com uma atenção permanente. Criou assim uma metafísica da realidade, transparente na aparente leveza, exata na concreta execução. Esta obra é testemunho de um tempo, o de agora, e de um tempo antigo, clássico, universal, reconhecível pela inteligência e a emoção”. Um prémio que o poeta não esperava, “porque não é um prémio a que se concorra”. Um prémio que veio numa excelente altura do ponto de vista editorial, já que as segundas provas de “Aberto Todos os Dias” tinham acabado de ser entregues. O livro acabou por ser dado à estampa mais cedo do que o previsto, vai já na segunda edição e acaba de ser incluído na “Poesia Reunida” que os participantes nesta Tertúlia puderam adquirir em primeiríssima mão. Reverso da medalha, “as solicitações, as entrevistas, com as quais eu nunca me entusiasmei, das quais rapidamente me saturei” e que lhe roubam tempo e paz.

“Como as cerejas”, a conversa estende-se por novos e fascinantes caminhos. João Luís Barreto Guimarães sente-se particularmente à vontade, mostra-se eloquente naquilo que diz. O discurso encadeia-se com naturalidade quando fala da sua obra, do espartilho que a si mesmo impôs sob a forma do soneto e do qual apenas se libertou ao quarto livro. É nessa altura que passa a funcionar com as imagens e o som, “de maneira a que o poema se transforme numa escultura verbal”, diz. A conversa abre-se à plateia e as perguntas não tardam. Entre o médico e o poeta, o poeta e o professor, são muitas e muito curiosas as impressões partilhadas. Após a leitura de mais um poema – “gostaria de partilhar comigo o resto da sua vida? Para responder sim, marque 1. Para responder não, marque 2 …” – fala-se agora de pandemia. O assunto, abordado de forma fugaz no livro anterior, “Movimento”, está ausente de “Aberto Todos os Dias”. O poeta vê a pandemia como algo adequado ao cinema ou ao teatro, mas não é um assunto bom para a poesia: “Este livro acaba por ser o anti-pandemia, invertendo o ponto de vista e dando a ver um mundo que está aberto todos os dias para que o possamos desfrutar”.

O lado político da poesia ou o poema como arma política ocupa a recta final da Tertúlia. “Eu não concebo a poesia contemporânea que não seja uma poesia política. Um verso que fala de um ministro que mentiu, de um ministro que não se demitiu por ter mentido ou dos enfermeiros exaustos que saem de mais um turno, transforma o poema num poema político e o poeta assume automaticamente uma posição ética, de afirmação na sociedade de uma tomada de posição. Com uma desvantagem para os políticos, porque estes poemas não são notícias de jornal, vão existir para sempre.” Contextualizando: “Aquilo que o poeta decide que o poema tem é tão importante como aquilo que o poeta decide que o poema não tem. Quando falo dos enfermeiros que saem exaustos de mais um turno, eu estou a falar é dos ordenados dos enfermeiros, dos horários, da colocação dos enfermeiros. E eu sei que o Manuel Pizarro [Ministro da Saúde] vai ler estes poemas”. João Luís Barreto Guimarães despede-se com a ideia de que “a poesia é feita de silêncios” e é em silêncio que escutamos o último poema, uma vez mais declamado por Isabel Marcolino. “Há uma mão-cheia de coisas à espera de acontecer.”

quinta-feira, 16 de junho de 2022

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | Pedro Guilherme-Moreira



TERTÚLIA LITERÁRIA: “Conversas às 5”,
com Pedro Guilherme-Moreira
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Auditório Dr. Correia de Campos | Centro de Reabilitação do Norte
07 Jun 2022 | ter | 17:00


Pedro Guilherme-Moreira foi o escritor convidado da oitava sessão das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, iniciativa do Centro de Reabilitação do Norte que, desde Abril de 2021, tem procurado incrementar o gosto pela leitura e contribuir para a formação de mais e melhores leitores. Numa tarde a convidar o usufruto das delícias do sol e do mar, foram poucos aqueles que aceitaram o desafio de trocar a praia pelo Auditório do CRN, participando numa sessão da qual retiraram o gosto da partilha e do conhecimento em torno da escrita e dos livros, graças à bondade e generosidade de um dos seus grandes representantes. Autor dos romances “A Manhã do Mundo” (2011), “Livro Sem Ninguém” (2014) e “Saramaguíada” (2017), Pedro Guilherme-Moreira mostrou-se um apaixonado pela vida e seus mistérios, pela beleza do inescrutável, pela felicidade da descoberta. E aí entram os livros, causa e efeito de um espírito livre e de uma mente aberta à novidade e empenhada em explorar os seus limites.

O poema “Nunca Tive 15 Anos” deu o mote para o início de uma animada conversa. Através dele, Pedro Guilherme-Moreira revisitou o passado, não sem antes deixar uma palavra de gratidão às “Tertúlias” e à sua organização por lhe ter sido dada a possibilidade de falar daquilo que gosta, num lugar que lhe diz muito, “com este mar que conheço desde a infância, os seus ventos e nuvens, estes montes que existiam no preciso sítio onde nos sentamos agora e onde, nos meus tempos de miúdo, fiz grandes crosses de bicicleta”. Pegando então no assunto “quinze anos”, o escritor quis chamar a atenção para o facto de ter já nascido “um bocadinho crescido”: “Cheguei rapidamente aos quinze anos e depois não saí dos dezasseis”. Costuma, inclusive, dizer que “só há seis meses deixei de ser um rapazinho”, acrescentando que nem isso é verdade: “Continuo imaturo, continuo a querer que gostem de mim.” O espaço aberto pelo poema fê-lo recuar aos tempos da primeira classe, quando decidiu escrever uma redação em que transformava a professora numa formiga. E recorda: “Ela deixou-me para o fim, disse que aquilo é que era escrever e eu pensei com os meus botões que, se inventava uma coisa nova, se fazia o que me apetecia, se transformava a professora em formiga e ainda por cima era premiado, queria era fazer isto a vida toda.”

Ver neste episódio o ponto de partida para a carreira de escritor foi algo que não ficou esclarecido totalmente, mas quando Pedro Guilherme-Moreira afirma ter “45 anos de literatura”, talvez a ligação faça todo o sentido. Apesar de uma vida literária que já vai longa, a verdade é que só se tornou “visível” há onze anos, no momento em que publicou na Dom Quixote o romance “A Manhã do Mundo”. Sobre o livro, o escritor começou por realçar a relação dura que teve com ele: “Todas as vidas que estão no livro existiram, os seis grandes vectores deste livro, apesar de ficcionados, tiveram uma existência real, um dos seis, inclusivamente, era português. E aí começa a emoção.” Partindo de uma investigação que foi mais demorada no tempo do que a própria escrita do livro – “não quis alinhar em teorias da conspiração, precisei de deslindar uma série de boatos, quis perceber até que ponto as notícias eram manipuladas” -, Pedro Guilherme-Moreira faz questão de dizer que “tudo o que está relatado é inatacável, o livro tem rigor científico e, até hoje – e já lá vão onze anos –, nada do que está escrito foi posto em causa.” Realçou ainda o destaque dado ao livro pela Biblioteca Pública de Nova Iorque, que considera como “o meu grande prémio literário”.

O segundo livro de Pedro Guilherme-Moreira intitula-se “Livro Sem Ninguém” e é uma história contada não pelas pessoas, mas pelos seus objectos – “porque as coisas também dizem quem somos”. Lá, poderá o leitor encontrar “a minha escola de Francelos, os plátanos, mas na Rua do Arco Celeste não há assim tanto da minha rua.” Escrever um livro que prima pela originalidade teve a ver, em grande medida, com a ideia de combater o cliché que sustenta que “ninguém inventa nada, está tudo escrito”. E é assim que vemos o autor a “chutar toda a gente para fora do livro e a conseguir contar uma história durante um ano sem ninguém, só com a roupa estendida no varal, os carros que estacionam ou deixam a rua, as plantas que crescem no jardim ou as árvores que vão perdendo as suas folhas.” Este é um livro muito trabalhado – “eu parecia um cientista, há uma ideia e uma implementação” – ao qual, numa segunda fase, foi injectado “coração”: “O livro precisava dessa humanidade, os nossos sinais no mundo são comoventes.” Hoje o escritor admite que haverá muita gente que não consegue entrar na esquemática do livro, já que “não é bem um romance, é um exercício literário, feito de personagens latentes”. Mas tem uma convicção: “Daqui a cem anos, se alguém falar de alguma coisa, vai ser deste livro.”

Finalmente “Saramaguiada”, um livro “escrito num transe completo”, que é uma tentativa de “transformar Saramago no meu herói, no meu Dom Quixote” e que, ao mesmo tempo, constitui uma forma de Pedro Guilherme-Moreira se vingar daquilo que chama a “frivolidade do meio literário”. Carregando o livro de literatura, abusando das referências, misturando tempos e lugares, citando directa ou indirectamente as obras que mais o marcaram, o autor faz de “Saramaguíada” o seu “Ulisses”. Respondendo às questões do público e à dificuldade manifestada por uma ouvinte em “entrar” na dinâmica narrativa do livro, Pedro Guilherme-Moreira revelou toda a sua humildade ao propor uma maior aproximação entre escritor e leitor : “Quando lerem os meus livros, usem-me. Se há questões que se transformam em dilemas, dificuldades em entrar na estrutura, dúvidas que se revelam indecifráveis, escrevam-me, telefonem-me, marquem um café, deixem-me que esteja ao vosso lado”. Percebemos que isto pode ser muito importante para o leitor. Para o escritor se-lo-á, seguramente.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | Minês Castanheira



TERTÚLIA LITERÁRIA: “Conversas às 5”,
com Minês Castanheira
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Auditório Dr. Correia de Campos | Centro de Reabilitação do Norte
27 Abr 2022 | qua | 17:00


A celebrar o seu primeiro ano de existência, as Tertúlias Literárias “Conversas às 5” regressaram ao Auditório do Centro de Reabilitação do Norte para uma hora e meia de magia à roda dos livros e da leitura. Sessão tão especial exigia um convidado igualmente especial e Minês Castanheira soube honrar e engrandecer o momento, acrescentando-lhe uma coloquialidade rica e sedutora, a comunicação empática, a generosa partilha de histórias e memórias e a sua enorme paixão pela poesia. A admiração e cumplicidade geradas foram imediatas. Para os presentes, o momento foi de êxtase. Escapar a uma rotina que vive de e para a pessoa doente, e ter a possibilidade de, ainda que por um só instante, mergulhar no mundo mágico da literatura e caminhar de mãos dadas com a poesia de Capicua, a rebeldia de Calamity Jane ou a coragem das mulheres da Póvoa, foi precioso. Daí que todos tenham deixado o Auditório de coração cheio e, estendendo a vista até ao horizonte, apreciado o céu e o mar à sua frente como se da primeira vez se tratasse.

“Quando as pessoas se encontram e se juntam por causa dos livros já valeu a pena”. Estas palavras de Minês Castanheira marcaram de forma indelével uma conversa que decorreu sob o signo do intimismo e que veio provar o quanto de solidariedade e união pode haver entre os agentes da saúde e da cultura, aqueles que num momento de crise, por força da pandemia, “se chegaram à frente”. Como que a reforçar a ligação entre os dois blocos, Minês citou João Luís Barreto Guimarães, Susan Sontag e Cesário Verde, deste último recomendando vivamente a leitura do poema "Nós". Falando de si, a convidada recuou aos tempos da infância, a “uma casa coberta de livros”, à autorização para lhes mexer, admitindo ter sido “uma privilegiada”. Enquanto umas crianças querem ser polícias, outras bombeiros, outras astronautas, Minês soube, desde muito cedo, que quando crescesse iria trabalhar com livros, mesmo não sabendo que os viria a escrever, que os ajudaria a criar, que os transformaria em Instalações. “Não sabia o que iria fazer nem com quem, mas sabia que este era o meu destino”, disse.

Mais de três décadas depois, o destino cumpre-se a cada dia com um projecto que se chama Bairro dos Livros, onde se “faz e comunica Cultura desde 2011”. É lá que um grupo de “tresmalhados” vive em modo de inquietação, criando e produzindo eventos “fora da caixa”, desenhando e implementando iniciativas de comunicação cultural e fazendo livros singulares. É assim que persistem e já sobreviveram “a duas crises económicas, uma pandemia e uma guerra na Europa”. Instada a falar de um desses projectos, Minês Castanheira leva-nos numa viagem à Póvoa de Varzim e ao confronto entre a bravura dos pescadores poveiros com a sociedade matriarcal onde a pescadeira faz tudo, excepto ir ao mar. Dos primeiros canta-se a força e a coragem desde sempre, como se de Ulisses se tratasse. Das mulheres, porém, ninguém fala. Mas, como num poema de Capicua, importa haver alguém a clamar que “quando tudo é adverso, eu faço o inverso p'ra que equilibre.” Daí o projecto chamar-se “Penélopes”, consubstanciado numa instalação artística que resulta do diálogo entre a tradicional camisola poveira saída das mãos de doze artesãs, com a escrita de doze autoras, escritoras e poetas contemporâneas.

Falando de si e da sua ligação à escrita, Minês Castanheira vincou o enorme poder e influência que um adulto pode ter sobre uma criança e como foi importante, em termos de futuro, o elogio vindo de uma professora ao seu primeiro conto: “Fui à tabacaria, levei o meu mealheiro e disse que queria tirar xis fotocópias. Luxo total. Depois perguntei ao dono da mercearia, da farmácia, se podia colar na montra e ficava à espera que as pessoas lessem para lhes perguntar: Gostou?”. Falando do processo criativo, a escritora confessa não saber quando um livro está pronto, mas sabe dizer quando um poema está pronto. “Ando com um poema na cabeça muito tempo. É quase cinema, é como se as palavras viessem ter comigo e estivesse a tentar fazer com que se sucedam de forma lógica. Elas estão ali, meio desarrumadas, e eu ando, escrevo, reescrevo e depois, não sei como, olho e digo que é exactamente isto. Então sei que o poema está pronto.” Foi assim que nasceram os textos e que, agrupados, deram lugar a “Plasticidades” (2005), “Inter-Cidades” (2008) e “Nunca o Mar” (2012). É também assim que irá nascer, ainda este ano, “um livro pequenino, vinte e tal, trinta textos, dedicados à minha filha.” Um livro que, “se tudo correr bem”, será lançado em Setembro, na Feira do Livro do Porto.

A conversa caminha rapidamente para o final, mas ainda há tempo de olhar o momento actual. Citando Paulo Moura e o seu prefácio ao livro “Vozes de Chernobyl”, de Svetlana Alexievich, o moderador questionou a aparente mudança de paradigma ao vermos o escritor a assumir o papel que, por tradição, pertence ao jornalista. Furtando-se a eventuais polémicas, de forma assertiva, Minês Castanheira, frisou que a solução passa por “munir as pessoas de espírito crítico” e lembrou que “se as pessoas tivessem em conta que há jornalistas altamente especializados a ganhar quinhentos euros há vinte anos, talvez tivessem outra expectativa sobre o que estão a consumir.” Também se falou sobre Festivais Literários e a importância do trabalho que alguns deles desenvolvem junto das Escolas. E deixaram-se sugestões de leitura, da poesia infantil do Manuel António Pina aos poemas de Nuno Higino - “o Nuno Higino é fixe!” - e de Gabriela Gomes. Um poema não publicado fechou a sessão. Um poema que se baseia no testemunho que Calamity Jane deixou à sua filha, em forma de cartas. Um poema incrível, sublinhe-se, como incrível foi o tempo passado com Minês Castanheira no dia em que as Tertúlias sopraram uma vela. O dia foi de festa, cantaram as nossas almas.

[Foto gentilmente cedida por António Jamba]

quarta-feira, 23 de março de 2022

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | Álvaro Domingues



TERTÚLIA LITERÁRIA: “Conversas às 5”,
com Álvaro Domingues
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Auditório Dr. Correia de Campos | Centro de Reabilitação do Norte
22 Mar 2022 | ter | 17:00


A sexta sessão das Tertúlias Literárias “Conversas às 5” chamou ao Auditório Dr. Correia de Campos, no Centro de Reabilitação do Norte, o geógrafo Álvaro Domingues, doutorado em Geografia Humana pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e docente do mestrado integrado e do curso de doutoramento da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Tendo a Geografia Humana, Paisagem, Urbanismo e Políticas Urbanas como objecto de análise e estudo, Álvaro Domingues vem partilhando as suas impressões sobre as transformações sentidas nestas áreas através de um vasto conjunto de ensaios que tanto podem assumir a forma de um artigo no jornal Público, de uma exposição intitulada “Mouzinho: Da Ribeira ao Aeroporto” [patente até ao próximo dia 11 de Setembro na Casa do Infante, no Porto] ou de um conjunto de livros de onde se destacam “A Rua da Estrada”, “Vida no Campo” e “Volta a Portugal” ou o mais recente “Paisagens Transgénicas”.

A conversa começou com a abordagem a “geografias” e “territórios” familiares a Álvaro Domingues, na tentativa de se dar a conhecer um pouco melhor. É desta forma que “Melgaço” surge como um lugar que lhe é intrínseco, uma “geografia emocional”, por ser o lugar onde nasceu e onde regressa frequentemente. Também “Geografia”, curso tirado ao arrepio das expectativas do pai – que via nele um futuro médico ou economista –, e em cuja decisão uma professora de Geografia do Liceu Sá de Miranda, em Braga, “nos tempos irrepetíveis do 25 de Abril”, teve um papel fundamental. Ainda “Quarentena”, um tempo de enormes expectativas, de quebra de rotinas, e que o convidado associa a horas e horas a desenhar pássaros, “uma obsessão, quase uma doença”. Ou “Ucrânia”, uma “geografia complicada” de uma guerra assustadora que conjuga “um doido no poder, uma potência nuclear e uma economia que não é assim tão forte” com “um cúmulo de ressentimentos e de tropeções da História” e que “só não é inumana porque os humanos, infelizmente, são assim”.

“Como funciona a sua ligação à escrita?” parece ser a pergunta para um milhão de euros. “Tomara eu saber”, diz Álvaro Domingues, para quem o exercício da escrita se desenrola “por intermitências”. A escrita, não sendo propriamente errática, tem como ponto de partida “a capacidade intrínseca ao ser humano de lidar com conceitos, de pensar com aproximações abstractas àquilo que dizem que é a realidade”.“As peças que estão na cabeça, como um puzzle, andam por ali a navegar (…); só me encorajo a escrever quando acho que as coisas estão suficientemente estabilizadas”, diz. A partir desse momento, o processo é “torrencial”. Já quanto à fotografia, vemo-la intimamente ligada à escrita de Álvaro Domingues para quem é algo que “provoca um distanciamento das coisas, ajuda a pensar”. É quase obrigatório encontrarmos nos seus textos uma fotografia que lhes está associada. Veremos, porém, que nem sempre a relação com o texto é linear, que a mensagem nem sempre é imediata. Também nós somos convidados a guardar a devida distância. Também nós somos obrigados a pensar.

Falando dos seus livros – “A Rua da Estrada nasceu de um corte com o estilo académico” –, foi tempo de recordar Nuno Portas e as longas viagens a Guimarães, “duas horas e meia, no mínimo, fosse por Santo Tirso, pela Trofa ou por Famalicão”, as discussões em torno da falta de cabimento da aplicação dos “princípios ditos da boa forma urbana” a uma região de povoamento disperso como o Vale do Ave, o “ADN” da urbanização, a falta de lógica da dicotomia rural / urbano, o edifício-montra e a casa-quitada. A conversa evoluiu então para a noção de ruralidade e para as “mitologias do último país rural da Europa, que persiste em inscrever no imaginário colectivo (e ao mesmo tempo) as imagens bucólicas e os destroços desse mundo perdido”. Não se trata de um simples jogo de palavras. A ruralidade “descoisou-se” e, ao “descoisar-se”… Desapareceu!

“O rural, quando tinha sentido, era tão consensual que era auto-explicativo. Ninguém perguntava “rural, como?”, começa por contar Álvaro Domingues, para logo enunciar “os três pilares da ruralidade”: “A base económica é a agricultura, a visão do mundo é tradicionalista – baseada nos valores da família, com um sentido profundo da religiosidade, avessa à novidade e ao cosmopolitismo – e a ruralidade está associada a uma paisagem e a uma identidade paisagística própria, à construção do território, como bem podemos perceber, por exemplo, no Douro Vinhateiro”. A verdade é que, sem nunca termos pensado muito nisto, a palavra foi “descolando” da realidade. Hoje a palavra “ruralidade” quase só tem cabimento naquilo que necessita de adjectivação para efeitos de marketing. “É um site de turismo rural, é a forma como um município se caracteriza, é rural para aqui e rural para acolá”, mas onde já nada existe de verdadeiramente rural.

Na parte final da tertúlia, Álvaro Domingues projectou algumas das suas imagens, contextualizando-as. Uma casa em ruínas colocada à venda por uma imobiliária, um rebanho de cabras que pasta junto a uma barragem ou as ovelhas que se passeiam por entre uma floresta de painéis fotovoltaicos na gigantesca central da Amareleja deram ensejo a falar da(s) natureza(s), do grau zero da civilização, da história da emigração e do regresso às origens, do Portugal profundo. A última imagem transporta-nos a Melgaço e, de alguma forma, às geografias sentimentais que marcaram o arranque desta tertúlia e que agora se fecha. Uma imagem de uma ruralidade que faz todo o sentido na cabeça de alguém que, de Lisboa, está de passagem, mas que é, comprovadamente, uma falácia. O pasto verdejante não passa de um devaneio do dono das terras, emigrante no estrangeiro mas que tem aqui o seu “entretém”. Foi longe, o sino toca a finados pela alma de um filho da terra que morreu no Canadá, a mais de cinco mil quilómetros de distância.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | Miguel Araújo



TERTÚLIA LITERÁRIA: “Conversas às 5”,
com Miguel Araújo
Moderação | Joaquim Margarido
Auditório do Centro de Reabilitação do Norte
09 Nov 2021 | qua | 17:00


Depois de João Luís Barreto Guimarães, Sandra Barão Nobre e Sérgio Almeida, o cantor, escritor de canções e cronista Miguel Araújo ocupou o lugar de convidado de honra em mais uma sessão das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, promovidas pelo Centro de Reabilitação do Norte. Particularmente participado, o momento serviu para conhecer o autor dos livros “Penas de Pato” e “Seja o que For” numa dimensão essencialmente intimista, menos próxima dos palcos da fama que, como poucos, sabe pisar com apego e afecto, e o mostra como um optimista militante, um espectador da vida como ela é, alguém que, à varanda, se detém a vê-la passar. Foi mais de uma hora de conversa onde, entre muitas outras coisas, se “inventaram gatos”, se falou no Sr. Germano ou no Gomes dos Recursos Humanos, se ligou a Madre Teresa de Calcutá às redes sociais e se citou Daniel Faria para dizer que “seja o que for, será bom.”

Antes ainda das perguntas e respostas que marcaram a sessão e na qual os presentes tiveram um papel determinante, a poeta Aurora Gaia leu a belíssima crónica “Idílio”, texto em prosa ornamentado de música e de poesia, o qual o autor revelaria tratar-se da letra para uma canção que nunca chegou a sê-lo. “Talvez este momento possa servir para regressar a ela”, disse. Contando que “um pedaço de texto que se resolve em cinco minutos terá eventualmente mais de mim do que uma canção que me demora cinco meses”, Miguel Araújo falou da “verdade” dos seus textos, uma verdade resgatada às memórias da infância ou bebida na vida que desfila à sua frente, numa corrida matinal ao longo da marginal de Matosinhos ou num passeio com a família no alto da Serra d’Arga.

Contrastando com a difícil convivência com a língua e com as palavras no labor de uma canção, o processo de escrita das suas crónicas revela-se bem mais descomplicado. Com o deadline à perna, sob pressão, confia-se ao improvável deus dos cronistas, sabendo que, à hora acordada, aconteça o que acontecer, tem de ter o “morto” feito à medida exacta de um “caixão” de 3300 caracteres. Isto dá-lhe a possibilidade de ser mais verdadeiro, de ter menos de si a interpor-se-lhe no caminho ou, se assim o quisermos, de levar à prática o corolário “põe o mínimo de ti no máximo que fazes”. Uma máxima que convida a visitar o seu contrário - “põe o máximo de ti no mínimo que fazes” (Ricardo Reis) - e que deu azo a falar da importância de colocar a louça na máquina ou de como ser um marido excelente, desde que isso não implique fazer “coisas de adultos”, como “trocar fusíveis” ou “enfrentar um urso com as mãos”.

Descontraído, com um enorme sentido de humor, Miguel Araújo foi respondendo às mais variadas questões, desde a razão de ser do título “Penas de Pato” do seu primeiro livro, ao cromo do Archibald que lhe faltava na caderneta do Mundial de 86 (“num concerto, um fã ofereceu-me, já amarelado, mas passou tanto tempo que agora tenho o cromo mas não tenho a caderneta”). Continua a não jogar no Euromilhões com medo que lhe saia o primeiro prémio, a embirrrar cada vez mais com o futebol, “o único desporto onde a batota é premiada”, e a não ver televisão à hora dos noticiários como forma de preservar a sua sanidade mental e a da família. Para o final, buscou abrigo em Fernando Pessoa para falar de uma cultura que, sendo nossa, não é propriamente portuguesa. Exemplificando, referiu que “a cultura dos nossos jovens é muito mais a do Burger King do que a das Tripas à Moda do Porto” ou que “somos muito mais de brincar aos índios e caubóis do que aos campinos ou aos descobrimentos”.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | Sérgio Almeida


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TERTÚLIA LITERÁRIA: “Conversas às 5”,
com Sérgio Almeida
Auditório do Centro de Reabilitação do Norte
21 Set 2021 | ter | 17:00


Após a pausa estival, o Auditório do Centro de Reabilitação do Norte voltou a abrir as suas portas para um novo encontro à roda dos livros. Tratou-se da terceira sessão das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, com moderação de Joaquim Margarido, e que teve como convidado o escritor e jornalista Sérgio Almeida. Nascido em Luanda em 1975, é licenciado em Comunicação Social e exerce a profissão de jornalista desde os 18 anos. Ligado, desde essa altura, à imprensa escrita, tem acumulado também experiências noutros meios, como a rádio e televisão. Sérgio Almeida é autor dos livros “Análise Epistemológica da Treta” (contos), “Armai-vos uns aos outros” (novelas), “Não conto” (contos), “Como ficar louco e gostar disso”" (poemas), “Ob-dejectos” (prosa poética), “O elefante que não sabia voar” (infantojuvenil), “Periferia” (poesia), “Ema e a Estrela Carente” (infantojuvenil) e “A Arte do Nada – O Lastimoso Destino dos Besugos” (sátira). Paralelamente à sua atividade profissional é promotor cultural, sendo o coordenador e moderador dos ciclos literários “Porto de Encontro” e “Palavra de Escritor”.

Aberta a sessão, Sérgio Almeida começou por falar do seu mais recente livro, “A Arte do Nada – O Lastimoso Destino dos Besugos”, justificando a sua escrita com a “necessidade de reagir a mais um escândalo político-financeiro no nosso país” e com “a passividade dos portugueses face ao desmoronar paulatino da causa pública”. Ressalvando a universalidade das situações e destas figuras tão peculiares que são os “besugos”, o autor acha natural que possamos situar a acção em Portugal onde, afinal, reconhecemos facilmente à nossa volta esta “besuguice” de que fala o livro. Movido por uma quase revolta interior, espécie de desabafo, o livro “não nasce da inspiração e da transpiração que é a fórmula de quase todos os livros”, mas do perceber que “todos podemos e devemos exigir muito mais do País e de quem nos governa”. Assim, não é de espantar que “A Arte do Nada” se assuma como “um retrato muito mordaz, muito excessivo, muito cru”, de um certo Portugal “ultrapassado, que repudia a cultura, que se refastela na inveja, um Portugal das coisas extraordinárias, mas também do extra-ordinário, do reles, do vil”.

“Eu próprio também sou besugo” diz Sérgio Almeida, acrescentando ser isso “algo inerente à condição humana”. Esta afirmação permitiu lançar um olhar sobre outras camadas do livro, que não essa imediata, carregada, feita de exageros condensados na sátira. Evocando a máxima “Je suis besugo”, o autor convida a olharmo-nos do exterior e a encontrarmos aquilo que de mais reprovável possa haver em cada um de nós, corrigindo-o. Brincar com as palavras, fazer trocadilhos, jogar com os duplos sentidos é algo que encontramos com frequência na escrita de Sérgio Almeida e “A Arte do Nada” é disso um excelente exemplo. A leitura de um excerto do livro colocou em evidência este traço da escrita e levou o autor a admitir um grande amor às palavras, às quais chamou ”crianças grandes”, citando o saudoso Manuel António Pina. Antes de deixarmos para trás este seu mais recente livro, ficou ainda a revelação de que terá sido pensado como um livro para crianças, a escrita acabando por tomar outras direcções, “fluindo de forma prazerosa e sem limites”.

Admitindo encontrar na escrita “uma forma de extravasar o meu eu mais ácido, mais verrinoso”, mas também “um lado mais encantatório, mais onírico”, através da escrita para crianças ou da poesia, Sérgio Almeida foi convidado a revisitar dois dos seus livros anteriores, “Não Conto” e “Ema e a Estrela Carente”. Falar destes dois livros deu azo a reflectir sobre a riqueza da nossa língua e “no esforço de exigência para com o leitor” como forma de combater a insanidade crescente que nos rodeia. Sérgio Almeida sente que é importante que o escritor pugne para que “os livros não sejam o reflexo da banalidade em que estamos cada vez mais mergulhados” e isso é válido tanto num livro de ficção como na literatura infanto-juvenil. Daí que não seja de espantar a dimensão séria da proposta de leitura de “Ema ou a Estrela Carente”, com um vasto conjunto de apontamentos que aportam o interesse pelo saber e apelam ao conhecimento. Rejeitando confundir “livros infantis com livros infantilóides”, Sérgio Almeida realça a importância de ser exigente também na literatura para os mais novos, onde é frequente vermos a ilustração relegar o texto para um plano secundário, “a palavra metida lá pelo meio, quase como quem engole um xarope não muito agradável”.

Antes de abordar a poesia de Sérgio Almeida, o moderador lançou ao público o repto a que colocasse as suas questões e elas não tardaram. Da quase ausência de uma geografia precisa na sua obra (“situar-me num determinado sítio cria limites à minha imaginação”), à fluência da escrita (“considero-me um escritor da imaginação e por norma não faço pesquisa”), à escrita como “uma libertação dos constrangimentos que o jornalismo coloca” ou aos conselhos a quem pensa em aventurar-se na arte de escrever (“é fundamental ler, ler, ler, até sentirmos que temos uma voz própria”), de tudo um pouco se falou neste espaço mais livre e aberto. Quanto à poesia, Sérgio Almeida confessa “uma certa adoração pelos poetas, daí a minha dificuldade em assumir-me como tal” e classifica a relação como “esquiva”. “Há um maior desnudamento meu na poesia e menos nos contos onde a máscara está muito mais presente”, afirmou, para de seguida enunciar alguns poetas da sua predilecção: Manuel António Pina, Wislawa Szymborska e Alexandre O’Neill. Uma sessão de autógrafos fechou mais um excelente fim de tarde, mas antes disso Sérgio Almeida leu, em primeira mão, um excerto de “Dicas Para Uma Vida Longa”, um original a incluir num dos seus próximos livros. Dele, destacaria dois ou três “conselhos desabridos”: “Não durmas com estranhos; apresenta-te sempre primeiro”, “aspira ao mínimo mas, pelo sim pelo não, respira o máximo”, “rói as unhas quando tiveres medo; e quando estiveres liberto dele, também”, “exibe os dentes à vida mas não te esqueças de ir ao dentista” e ainda “não cobices a mulher do vizinho; a sua filha é muito mais jeitosa”.

[Fotos de António Jamba e João Macedo]

quinta-feira, 24 de junho de 2021

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | Sandra Barão Nobre


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TERTÚLIA LITERÁRIA: “Conversas às 5”,
com Sandra Barão Nobre
Auditório do Centro de Reabilitação do Norte
22 Jun 2021 | ter | 17:00


Numa altura em que a cultura é um bem cada vez mais precioso, porque de escassa oferta, o livro e a leitura parecem ser uma das mais interessantes alternativas às limitações que a pandemia nos vem colocando de há quase um ano e meio a esta parte. Perceber que, em contraciclo com o que sucede com os nossos parceiros europeus (e não só), o mercado do livro caiu em Portugal quase 20% neste período, não pode deixar de ser motivo de espanto e apreensão. No Centro de Reabilitação do Norte, faz-se um esforço no sentido de colmatar estes défices com a criação de momentos culturais e que respondem à necessidade de ler mais, de ler melhor. Assim nasceram, em Abril, as “Tertúlias Literárias - Conversas às 5” que, na passada terça feira, conheceram a sua segunda sessão. Ao encontro dos objectivos primordiais da iniciativa, a escritora Sandra Barão Nobre, a convidada de honra, mostrou-se a pessoa certa no sítio certo: Partilhou a sua paixão pela leitura, contou histórias, desfiou memórias, elegeu causas, desvendou coisas, sublinhou a importância do acto de ler no desenvolvimento de miúdos e graúdos e encantou com a sua enorme capacidade de comunicação, jeito para contar uma histórias e gargalhada fácil. No final, tal como a escritora, “na certeza de que já não somos os mesmos, regressámos a casa”.

A revelação dos pressupostos e do desenvolvimento de um projecto lindíssimo chamado “Acordo Fotográfico” ocupou a primeira parte da sessão e deu a possibilidade aos presentes de viajar sem sair do lugar. Numa conversa marcada pela espontaneidade e pelo entusiasmo, Sandra Barão Nobre abriu a possibilidade de, “qual Lucky Luke, em cima do seu cavalo na direcção ao sol-posto”, partirmos à aventura, "à descoberta de um mundo diverso, de culturas diferentes, de placas que não sabemos ler, da bondade e boa-vontade dos outros para colhermos uma informação básica, da necessidade de nos sentirmos um pouco perdidos para depois nos encontrarmos”. As emoções partilhadas incluíram, naturalmente, muitos encontros com leitores do mundo inteiro, ou não fossem eles a base do “Acordo Fotográfico”, um projecto que homenageia o acto de ler. Desta forma, “são muitas as histórias que entram dentro de uma viagem”, os estranhos abordados na rua e instados a falar de livros e do que estão a ler, com esse pedido inusitado a que se deixem fotografar. Uma parte desse resultado encontra-se plasmada na exposição “Acordo Fotográfico”, neste momento patente num dos espaços nobres do Centro de Reabilitação do Norte, e no livro “Uma Volta ao Mundo com Leitores”, que foi possível adquirir, devidamente autografado, no final da tertúlia.

A segunda parte da sessão decorreu em torno do conceito de Biblioterapia, “um método de desenvolvimento pessoal constante através da leitura”. Elegendo as áreas da Filosofia ou da Psicologia, do Ensaio Histórico, para além da própria Ficção, Sandra Barão Nobre defendeu que [os livros] “são potenciais agentes de mudança, na forma como pensamos, como olhamos para determinados assuntos, como vivemos a nossa dimensão emocional”. Praticada individualmente ou em grupo, a Biblioterapia estimula o diálogo interior, connosco próprios e com o autor da história, mas sobretudo com o mediador (Biblioterapeuta) ou com o grupo de leitura, “porque é nesse momento que se lança luz sobre aquilo que pode ter sido percebido de forma sub-reptícia, operando-se o processo de transformação pretendido”. No espaço dedicado às perguntas e respostas, os presentes puderam perceber as grandes diferenças entre ler um livro físico ou em formato digital, conhecer as preferências da autora e anotar algumas sugestões de leitura - “Memórias de Adriano”, de Marguerite Yourcenar, “O Infinito num Junco”, de Irene Vallejo, “Montaigne”, de Stefan Zweig ou “Apeirogon”, de Colum McCann - e, ainda, mergulhar nos grandes défices de leitura em Portugal, nas suas causas e consequências. A próxima sessão das “Tertúlias Literárias - Conversas às 5” já tem data marcada, será no dia 21 de setembro e o convidado é o jornalista e escritor Sérgio Almeida. Até lá, boas leituras!

quarta-feira, 28 de abril de 2021

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | João Luís Barreto Guimarães


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TERTÚLIA LITERÁRIA: “Conversas às 5”,
com João Luís Barreto Guimarães
Auditório Doutor Correia de Campos | Centro de Reabilitação do Norte, Valadares
27 Abr 2021 | ter | 17:00


“Uma conversa sobre poesia entre dois leitores. Nada mais do que isso.” Estava dado o mote para a sessão inaugural das Tertúlias Literárias “Conversas às 5”, iniciativa de um grupo de colaboradores do Centro de Reabilitação do Norte e prontamente acarinhada pelo Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia / Espinho. Cumprindo as regras do distanciamento social, o Auditório do CRN esgotou a sua lotação ao acolher meia centena de profissionais de saúde ávidos de escutar o primeiro convidado destas “Conversas”, o poeta e cirurgião plástico João Luís Barreto Guimarães. Fazendo fluir as ideias a um ritmo vertiginoso, João Guimarães ofereceu aos presentes a sua acutilante visão sobre o mundo em que vivemos e a forma como gravitamos em torno uns dos outros, explicando e consubstanciando a extraordinária capacidade de pôr as suas ideias, por palavras simples, em forma de poesia. Grande comunicador, dotado de um sentido de humor muito fino, fez ainda questão de ler alguns dos seus poemas, a ele se juntando outra ilustre convidada, a poeta Aurora Gaia, e ainda um grupo de colaboradores do CRN que, no seu todo, transformaram aquele final de tarde num momento de saber, partilha e emoção deveras único.

Publicado na juventude do poeta, “Há Violinos na Tribo” (1989) é o seu primeiro livro e traz-nos um poema no qual a ideia-chave é a de que “sempre temos alguma coisa a saber uns dos outros”. Nesta busca de perceber os outros e, finalmente, de se perceber a si mesmo, João Luís Barreto Guimarães mostrou-nos quão grande é o peso da família na sua vida e de que forma é que isso surge plasmado na sua poesia – “A Parte Pelo Todo”, livro publicado em 2009, é peça importante no processo de luto pela morte do seu pai, por exemplo. Mas as revelações não se ficaram por aqui, abarcando a sua paixão por viagens, bem como a sua atenção às coisas aparentemente sem importância – uma chávena esquinada, um vaso esbotenado, uma chapa de matrícula à qual falta uma letra, um disco riscado. Também aos cafés como lugares de excelência para se escrever poesia – “Lugares Comuns” (2000) foi escrito à mesa de um café ao longo de um ano. Ainda ao “pérfido, sonso e mesquinho” que há em cada sr. Lopes que de quando em vez se atravessa no nosso caminho. E, claro está, à profissão, curiosamente pouco ventilada nos seus poemas: “Não escrevo muitos poemas sobre a Medicina e sobre a profissão, mas escrevo imensos poemas sobre os colegas; eles não sabem, mas eu escrevo”, disse, arrancando uma saborosa gargalhada à plateia.

Outra parte importante da conversa correu em torno da sua poesia, “uma poesia que mostra ao que vem”. João Guimarães vincou de forma clara que não perde a oportunidade de dar a ver ao leitor a “oficina do poema”, esse constructo que nasce não se sabe muito bem como, ou de onde, mas que depois vai ganhando forma como um quadro a surgir na tela ou uma escultura a nascer do bronze ou do granito. E, assim, falou do valor daquilo que, parecendo ausente, está no poema com todo o vigor e certeza. Como falou da expectativa de rima ou de métrica e da “rebeldia” da sua ausência. Da linguagem quotidiana ao serviço do poema ou de como, citando a poeta norte-americana Marianne Moore, “a poesia contemporânea deveria ser escrita com uma linguagem que cães e gatos pudessem entender”. Do “flirt” que os poemas estabelecem com o leitor, não pela via da sensibilidade e do sentimento, mas pela via da ironia, do raciocínio e da crítica. Da inteligência, em suma.

As palavras são como as cerejas e a conversa foi transcorrendo de forma absolutamente deliciosa, não se dando pelo tempo passar. Por lá se ouviu falar de Egito Gonçalves e Eugénio de Andrade, Manuel António Pina e Alexandre O’Neill, Cesário Verde e Bernardo Soares. De Wisława Szymborska e Czesław Miłosz. Do Norinho e outros gatos. Por lá passou o novo acordo ortográfico – “uma estupidez” -, assim como o carácter conversacional desta poesia em busca dos leitores da prosa. Por lá passou, de forma muito particular, o livro “Movimento”, publicado em finais do ano passado, numa altura em que, paradoxalmente, fomos obrigados a confinar, a parar. Foi fascinante, entre outras, escutar as explicações de João Guimarães sobre uma certa ideia abstracta que relaciona os deuses da mitologia com cada um dos dias da semana, culminando na celebração do movimento da vida e do aspecto mais cíclico do tempo. Do público vieram questões muito pertinentes, ora relacionadas com o desafio de ministrar uma cadeira de literatura para alunos de medicina, ora pretendendo perceber o valor acrescido da poesia na profissão e vice-versa (ou ainda o porquê de levar uma faca para o trabalho).

Uma particularmente concorrida sessão de autógrafos pôs um ponto final numa tarde memorável e, apesar das máscaras, nos olhos de todos podia ler-se o brilho da felicidade. Para o próximo dia 22 de Junho está já agendada a segunda sessão das Tertúlias, a qual terá a escritora Sandra Barão Nobre como convidada. O seu projecto “Acordo Fotográfico” e o livro “Uma Volta ao Mundo com Leitores” (Ed. Relógio de Água, Maio de 2017) serão dois grandes assuntos de conversa. O outro assunto abordará a Biblioterapia, “porque os livros curam”. Complementarmente, ao longo de todo o mês de Junho, as áreas da Consulta Externa do Centro de Reabilitação do Norte receberão o “Acordo Fotográfico”, uma exposição de fotografia composta por 60 sugestivas imagens que complementam o livro. Até lá!

[Fotos gentilmente cedidas por António Jamba]