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quarta-feira, 24 de setembro de 2025

LIVRO: "Cartografia" | Minês Castanheira e Raquel Patriarca



LIVRO: “Cartografia”,
de Minês Castanheira e Raquel Patriarca
Ed. Officium Lectionis, 2025


“Leio-te lembrada de um verso texturado: tropeço
no lado pontiagudo da lágrima, dizia sem deixar
perceber a quem pertence a lágrima. Suponho
que tanto faz. Trago para ti um desejo que cresce
no avanço da madrugada. O impulso de criar
consolo palpável. Uma qualquer espécie de cura
real. Competente. Caminho em tropeço na
direção da madrugada e tudo o que trago são
poemas (desperdícios de ideias incumpridas
na errância das palavras). Caminho observadora
confusa, evito o alvoroço das margens revoltas,
também a sensação de cós nos fios que seguro
entre os dos. À minha volta os livros que leio
como mapas que cobrem (ou revelam) a realidade.
Caminho na direção da poesia, digo, da madrugada
e tudo em redor se faz em laivos de mármore, no
pulsar dos passos imóveis na errância das palavras.”
[“Caminho”, de Raquel Patriarca]

Façamos um exercício de imaginação. Tudo se passa no palco (neste “palco”?). O cenário é feito de árvores (nem todas de pé) e mar (de um cais de partida, espera e eventual regresso). Uma multidão desfocada em movimento lento, vai ocupando os lugares entre a luz, a sombra e a escuridão. De longe a longe, vê-se uma ou outra figura que se insinua como reconhecível para, no momento seguinte, regressar à obliquidade metafórica, escondendo-se por detrás de um vidro baço. “Sem versos não há vidro através do qual dizer o mundo”. À boca de cena, em extremos opostos do palco, dois conjuntos de mesa, cadeira, janela, material de escrita e de sobrevivência. Há uma música que se insinua (Bach? Suzanne Vega?). Em palco, duas mulheres (vulgares, heróicas) caminham ao encontro da dignidade possível perante a perda. Deitam braços e pensamento a todas as armas que o mundo lhes dá – também àquelas que o mundo lhes rouba – e inventam um rumo próprio, feito de porções mal medidas de desejo, questionamento, desencanto e revolta, queda e voo. Duas mulheres que se correspondem, que se leem e se escutam, que se questionam e se amparam com versos. Duas mulheres que escrevem.

Atentemos no palco, na boca de cena onde, em cada um daqueles conjuntos de mesa, cadeira, janela, material de escrita e de sobrevivência encontramos, agora, as autoras. Sentadas, à sua frente a página em branco, nas mãos a caneta. E vemos que escrevem. Percebemo-las prisioneiras na sua própria casa, “no costume da atalaia, talvez da irmandade, na certeza de que os monstros odeiam rosnam vigiam esperam, mas sobretudo temem”. Têm-se uma à outra, têm-se a si próprias. Entregam-se sem reservas: “Aqui me tens comparecente, paciente, em pose e em vida”. Escrevem, pois. Falam das mãos e da memória, de ofícios maiores, do vagar da espera, da criação de outra existência. Dizem da sabedoria e da utopia, do marginal e do substancial, da captura e da brancura, do quadro e da pose. Riem e choram, sussurram e gritam. Colocam em cada poema a afirmação e a dúvida, a certeza e a inquietação. “Uma memória, uma criança, um desejo escondido ou o tumulto do ofício.” E enviam-nos, uma à outra, angústias ou certezas, dúvidas que não ficam por responder.

“Poesia escrita a quatro mãos e dois corações”, o livro oferece-nos pistas certas e seguras para, embrenhados nos delicados terrenos da alma, conseguirmos interpretar os seus acidentes, abeirarmo-nos deles em segurança ou, ao invés, escaparmos às ciladas, encontrarmos novos trilhos, passarmos ao largo. Entre a primeira e a última cartas (leia-se: poemas) decorrem dois anos - de Outubro de 2022 a Novembro de 2024 -, mas “talvez todo o texto seja, somente, um prólogo”, dizem as autoras. No desfiar dos poemas há casa e há caminho, um cais e uma barca, trevo e treva, flores ao cair da noite. “Uma árvore branca rasgando-se de pé.” Magma subterrâneo ocupando as fendas da recordação. Um agudo corpo de mergulho, os cabelos de Dalila, o coração livre de presságio, a sombra da vigília, o horizonte como embalo, a tampa de Pandora. Mapa de poemas feito, juntar a magia da bússola aos ideais da cartografia é sentir no simbolismo a concretude, na realidade o utópico (o contrário também é verdade). É atravessar tantas camadas quantos os corações que nos habitam: Inocentes, contraditórios, infinitos, luminosos, livres.

Pressinto que olhar de fora esta “Cartografia” é mergulhar na inquietação e no desconforto, “só braços de silêncio (próprios das pequenas causas) deitados em pergunta.” É ceder ao céptico que há em mim e perceber que se esvai por entre os dedos a ilusão de uma imagem que tinha tudo para ser afago da alma. Que importa se aqueles conjuntos de mesa, cadeira, janela, material de escrita e de sobrevivência, nunca existiram? Que os poemas nasceram e cresceram no portátil, nele sofreram implantes e abrasões, excisões e suturas, e seguiram para o destinatário em questão de segundos, ao invés de terem tocado mãos calosas de carteiro diligente e demorado dias, encerrados num subscrito, num invólucro imenso de serapilheira? Que o recolhimento e o silêncio, cederam à tagarelice animada da conversa ao telemóvel? Importa, sim, a poesia e o seu mistério, esse temerário adentrar de um terreno onde a razão se curva ao sentimento, num espaço incerto entre o dizer e o sentir. É nesse espaço, de simbologia indefinida na cartografia da alma, que a poesia de Minês Castanheira e Raquel Patriarca existe. “Se não amor, então a sombra do amor. Se não o voo, então a sombra de outro mar.”

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

CERTAME: XI Festival Literário de Ovar - Dia 4



CERTAME: XI Festival Literário de Ovar
Ana Zorrinho, aRita, Aurelino Costa, Aurora Gaia, Bruno M. Franco, Carla Pais, Cátia Cardoso, Cristina Marques, Diana de Oliveira, Elsa Teixeira, Filipa Amorim, Filipa Vera Jardim, Helena Ribeiro, Joana Nogueira, João B. Ventura, José Riço Direitinho, Joaquim Margarido, Lúcia Moniz, Luís Correia Carmelo, Miguel d’Alte, Minês Castanheira, Miriam Gonçalves, Nuno Alexandre Vieira, Paula Mendes Coelho, Pedro Lamares, Pedro Reisinho, Ricardo Santos, Raquel Patriarca, Rita Tormenta, Rodrigo Vieira Dias, Rui Sobral, Sara Dias Oliveira, Sílvia Lima, Trigo Limpo – Teatro ACERT, Vasco Prazeres, Vera Morgado, Vítor Gil Cardeira, Zetho Gonçalves
Parque do Buçaquinho, Museu Júlio Dinis, Jardim dos Campos, Centro de Artes de Ovar e Bar do CAO
20 Set 2025 | sab | 10:00, 14:00 e 21:30


Tradicionalmente o mais exigente, mas também o mais aliciante, o quarto dia do Festival Literário de Ovar voltou a prender a atenção dos amantes do livro e da leitura, pela sua rica e variada oferta. “Patrulha Raposa – Vigilantes da floresta”, escrito por Diana de Oliveira e apresentado por Pedro Reisinho, deu início a uma viagem que teve o seu início no Parque Ambiental do Buçaquinho e viria a terminar, mais de quinze horas depois, no Bar do Centro de Artes de Ovar. Num espaço dedicado à Literatura Infantil, a manhã foi preenchida com uma Oficina de Ilustração dinamizada por aRita, uma sessão de contos com Luís Correia Carmelo e ainda uma Mesa moderada por Helena Ribeiro e que teve num painel constituído por Miriam Gonçalves, Elsa Teixeira e Rodrigo Vieira Dias, três figuras muito especiais. Entre as estratégias para adormecer os mais novos e o poder das ideias em frente da folha em branco, os convidados falaram de livros, das fontes de inspiração dos seus trabalhos, da necessidade da literatura infantil para o crescimento e desenvolvimento infantil, mas também da importância do “aborrecimento” das crianças, da ausência de estímulos que muitas vezes deixam os pais exauridos, mas que as obriga a serem criativas.

Ao início da tarde, no Museu Júlio Dinis, procedeu-se à entrega de prémios da “III Edição do Concurso Literário e de Ilustração Júlio Dinis 2025”, uma iniciativa do Agrupamento de Escolas Ovar Sul e que conta com o apoio da Câmara Municipal de Ovar. A mais conhecida “Casa Ovarense” da cidade foi igualmente palco da apresentação do livro “O Flâneur de Paris”, de João B. Ventura, e de uma conversa com o escritor Bruno M. Franco sobre o género policial na literatura portuguesa contemporânea. Simultaneamente, no Jardim dos Campos, decorria a apresentação dos livros “Truz Truz, Abre a Porta, Avestruz”, de Vera Morgado, e “Agora sou capaz”, de Ricardo Santos e Joana Nogueira, com ilustração de Sílvia Lima, a par com uma bem participada Oficina de Ilustração com Nuno Alexandre Vieira e, no espaço fronteiro da Câmara Municipal de Ovar, uma nova representação de “Teatro Paraíso / Palavra Ambulante” pelos actores da companhia Trigo Limpo - Teatro ACERT, de Tondela. A apresentação de livros teve ainda um último capítulo ao início da noite, num Centro de Artes de Ovar quase lotado, com as atenções a virarem-se para “Cartografia”, “poesia escrita a quatro mãos e dois corações” por Minês Castanheira e Raquel Patriarca, e que resultou num momento de generosa partilha de poemas, afectos e emoções.

Além do momento da manhã referido anteriormente, o programa teve para oferecer mais três mesas de conversa, duas das quais no Museu Júlio Dinis. Rico, vivo, apaixonante, o primeiro desses momentos contou com a moderação de Cátia Cardoso e deu a escutar as impressões de Rita Tormenta, Filipa Vera Jardim e Vítor Gil Cardeira sobre a vaidade e a inveja no seio do complexo mundo da escrita. Em termos muito gerais, Vitor Cardeira falou da escrita como uma doença da qual não é possível livrar-se, no que foi acompanhado por Filipa Vera Jardim, ciente de que “sem livros morreria”. Rita Tormenta admitiu que “ninguém escreve sem um pouco de vaidade” e Filipa Vera Jardim acrescentou que “é preciso saber distinguir a inveja da admiração: narcisos somos todos”. Enfim, sobre o acto da escrita, Vítor Gil Cardeira afirmou que “o escritor constrói e destrói mundos” e que “escrever é uma luta brutal contra a auto-censura”. Uma frase de Agustina Bessa-Luís - “Eu pretendo dizer da amizade o que Diógenes dizia do dinheiro: que ele o reavia dos seus amigos, e não que o pedia.” - serviu de mote à segunda mesa da tarde. Com moderação de Sara Dias de Oliveira, para quem “escrever é um processo doloroso e um acto de amor”, Miguel D’Alte, José Riço Direitinho e Vasco Prazeres abordaram os temas da amizade e da inveja, do interesse e da distração que as redes sociais constituem (para o bem e para o mal) e, naturalmente, do amor, nas suas mais variadas vertentes. A conversa estendeu-se ao público, com a escritora Raquel Patriarca a fazer notar que “os livros dão algo aos leitores que estes nunca irão pagar”.

A mesa da noite, no Centro de Artes de Ovar, foi beber o tema a uma citação de Raúl Brandão: “Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros.” Foi sobre o ofício da escrita e as muitas reflexões que suscita que se debruçaram as escritoras Carla Pais, Filipa Amorim, Ana Zorrinho, numa conversa moderada por Cristina Marques. Ofício da escrita onde se cruzam os episódios do quotidiano, as personagens saídas de um imaginário fácil de contextualizar mas difícil de explicar, a surpresa com aquilo que vai passando para o papel e um certo grau de loucura. Numa mesa que abriu espaço à leitura de excertos dos livros das autoras, o destaque vai para o conto “O Louco”, de Ana Zorrinho, lido superiormente pela autora e sobre o qual Carla Pais afirmou: “Quem não se arrepiou com este momento, não percebe nada acerca do poder da Literatura”. Outro ponto alto do serão foi a performance “Para atravessar contigo o deserto do mundo”, com Lúcia Moniz e Pedro Lamares a cruzarem a poesia de Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner Andresen com as cartas que ambos trocaram ao longo de dezoito anos e que constituem um impressionante retrato social, histórico e moral do Portugal dos anos 60 e 70, o retrato de um país roubado. Já a noite ía adiantada quando, no Bar do CAO, “Poesia A Meias”, de Aurelino Costa & Zetho Cunha Gonçalves, com Aurora Gaia, fechou da melhor forma o penúltimo dia do Festival.

domingo, 28 de janeiro de 2024

EXPOSIÇÃO: “Geografia do Espanto - Diálogo, Criação e Testemunho”



EXPOSIÇÃO: “Geografia do Espanto - Diálogo, Criação e Testemunho”
Bairro dos Livros
Direcção Artística e Criativa | Catarina Rocha, Minês Castanheira
Produção artística | Emilene Lima, Isabel Costa, Cláudia Correia, Susana Oliveira, Paulo Brás
Casa dos Livros
08 Jan > 09 Fev 2024


Pode um bairro caber numa casa? Se o “assunto” for livros, a resposta é sim. Parece estranho o que acabo de dizer, mas a verdade é que, até a 09 de Fevereiro, o Bairro dos Livros mostra-se na Casa dos Livros. É lá que podemos ver um conjunto de obras representativas de um percurso artístico e editorial que está a comemorar treze anos de criação a partir da literatura e de celebração dos livros e da leitura. Peças artísticas representativas dos vários projectos seleccionados para a exposição, testemunhos do envolvimento do Bairro dos Livros em dezenas de projectos criativos e interventivos que movem diferentes comunidades e públicos e geram novas dinâmicas culturais, vídeos documentais que exploram os processos criativos de cada um deles, textos de apoio e livros, muitos livros, constituem a “ementa” de uma exposição na qual importa determo-nos demoradamente e que sabe bem percorrer.

Cada projecto é revelador da persistência naquela que é a missão do coletivo e da convicção de que o trabalho artístico implica uma responsabilidade que não se esgota na arte em si mesma, mas que remete para uma preocupação ética e dever de ação cívico - sobretudo o de contribuir para uma sociedade mais sensível, mais lúcida e mais livre, a partir do testemunho do outro e da criação. Um dos mais extraordinários exemplos desta dinâmica é o projecto artístico colaborativo “As Penélopes”, peça distinguida internacionalmente pela União Europeia como uma das vinte melhores “Histórias do Património Europeu” de 2022. “As Penélopes” assenta na edição de textos originais, assinados por uma dúzia de escritoras das mais diversas áreas da literatura, e numa instalação artística que põe em diálogo a literatura com a arte do bordado. A obra, criada com camisolas poveiras, é uma homenagem contemporânea ao feminino sobre a paisagem, identidade e tradições da comunidade piscatória da Póvoa de Varzim.

“Ver do Bago. Um brinde entre Deus e os Homens” celebra a relação material e simbólica entre a vinha e a paisagem cultural e humana dos vales do Sousa, Douro e Tâmega, num ciclo de três exposições promovidas pela Rota do Românico, entre Maio de 2021 e Junho de 2022. A instalação “Cultivar” propõe uma interpretação artística coreografia e cénica sobre a actividade de produção vitivinícola dos mosteiros e a relação intrínseca entre o vinho e as actividades litúrgicas. Assumindo-se como uma metáfora para a indissociabilidade entre o universo literário e a própria vida dos participantes no projecto, a instalação “Poema em Lata” - desenvolvida no âmbito da oficina “O Poeta Faz-se”, projeto artístico colaborativo destinado a um público adulto em situação de risco e em processo de alfabetização - dá-se a ver através de um poema coletivo cuja leitura é apenas possível pela incidência da luz e do efeito da sombra sobre a fachada do corredor onde se encontra.

A última referência vai para “Musas”, oficina de escrita pensada em torno do feminino com meninas e jovens mulheres, entre os 12 e os 31 anos, do Patronato de São José, em Chaves. A partir do mote de Elke Heidenreich, que escreveu que a mulher deve ser musa de si própria, desenvolveu-se um livro e uma instalação artística feita de palavras e de luz. O projecto artístico foi promovido pelo Município de Chaves, no âmbito do “Cultura para Todos - A Criatividade Eleva o Espírito, Agita outros Mundos” e pretendeu reflectir colectivamente sobre o papel da mulher na sociedade e na escrita, criando-se um espaço de reflexão sobre identidade, liberdade e a criação no feminino. A instalação, desenvolvida a partir de textos colaborativos e poemas originais destas mulheres, trabalha o diálogo e as dicotomias que nascem desse exercício de reflexão - exploradas através de um jogo de luzes e sombra, com projecção, e fazendo uso de cores vibrantes e contrastantes -, resultando num testemunho cruzado desse processo de escrita, toda ela no feminino e a várias vozes.

[Baseado nos textos que acompanham as instalações]

segunda-feira, 15 de maio de 2023

LIVRO: "No Princípio era a Dança"



LIVRO: “No Princípio era a Dança”,
de Minês Castanheira
Ed. Fresca, Setembro de 2022


“Quem ama a verdade incompleta do verso quieto
quem soube fazer da subida à árvore uma escolha,
é certo,
nunca passou o arado sobre água lisa,
nunca perfurou a palavra até ao outro lado da folha.”
[poema “Instinto”, de Minês Castanheira]

“Quando ela nasceu, o escritório da casa deu lugar ao quarto de bebé. Em exílio, eu comecei a cortar versos na cozinha.” Quase no final da descrição que de si faz, impressa na badana do livro, Minês Castanheira partilha com o leitor este pedacinho da sua própria realidade, acrescentando que “a poesia está, por isso, em todas as coisas que ainda falta viver.” Ler “No Princípio Era a Dança” é entrar na intimidade da autora, é ajustar os olhos à penumbra que tudo esfumaça, é contar as Penélopes que atravessam o poema, é observar com as mãos o ângulo mais redondo do mundo onde se abriga um bairro que (não por acaso) é dos livros, é cavalgar as muitas ondas das muitas utopias. É sentir a vontade de ocupar os lugares, quer os comuns, quer os que resistem a ser conquistados, mas que pela vontade e pela força do poema acabam por ceder. É gritar liberdade, é construí-la todos os dias porque a sabemos o bem maior, o mar por horizonte, os pássaros que estão sempre a partir.

Sonho poético em confronto com muitos outros sonhos, “No Princípio era a Dança” assume-se como estratégia de vivência e convivência. Os poemas são narrativos, contam histórias. Falam da importância de “fazer uma lista das coisas que sombreiam”, “ter pulso que chegue para prancha e corda”, “gastar decisões”, guardar num punho fechado “todo o som do coração”, saber “o que fazer com a bala”. Real ou metafórica, a “dança” rompe no palco do poema. Encontramo-la nas idas e vindas pela casa, nos corredores, nos embalos, na pele com pele, no “ser mulher e harpa”. A cada instante há um verso que se desenha, mas como “cortá-lo” com todas essas idas e vindas, todos esses corredores, todo esse embalo? Há sempre mais uma sopa por fazer, mais uma tábua enfarinhada, mais um novelo que se enrola, mais umas batatas por descascar, mais uma casa que é necessário varrer para dentro.

Também eu “não sabia que a poesia de verdade estava nas batatas mesmo que não se comam”. Minês Castanheira faz da coisa mais pequenina, mais frágil e indefesa, uma verdadeira “bomba-atómica” que deflagra sob a forma de poemas. Poemas onde cabem ela própria e muitas outras mulheres que lhe servem de inspiração, Emily Dickinson e Maria Teresa Horta, Vivian Maier e Isadora Duncan, Yoko Ono e Calamity Jane. São elas que, no acerto de contas com as suas próprias vidas, no vento que trazem dobrado pela cintura, na palavra que perfuram até ao outro lado da folha, ensaiam uma dança que a todas une. Dança de roda, dança viva que rodopia no enigma que é o poema, que se veste de sedução “qual pétala alada em tudo o que canta e voa”. Dança incontida, irrefreada, ardente. Dança eufórica, de quem sabe tomar nota “de que tudo é novo e de que tudo recomeça”.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

CERTAME: Festival Literário Correntes d'Escritas 2023


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

CERTAME: Festival Literário Correntes d’Escritas
Póvoa de Varzim, vários locais
14 Fev > 18 Fev 2023


Mesas, lançamentos de livros, conferências, exposições, instalações, leituras encenadas, cinema, teatro, espetáculos musicais, conversas correntes. É assim desde 2000, na Póvoa de Varzim, com o Festival Literário Correntes d’Escritas a assumir-se como “a verdadeira festa do livro” e a transformar-se, ao longo de dias tornados únicos pelo poder da palavra, num encontro onde cabem todos aqueles que amam os livros. Um encontro de amigos, portanto. Ensejo para encontros mais ou menos esperados, para uma breve troca de ideias, para um abraço, para um café. O melhor dos pretextos para enriquecer a biblioteca com as mais recentes novidades, tornadas ainda mais valiosas por que com dedicatória e assinatura do autor na página em branco. O espanto e a admiração por tantas e tão brilhantes intervenções. E, depois, regressar de coração cheio com as conversas com a Clara Haddad, o Marcial Gala, o Juan Gabriel Vasquez ou o Geovani Martins ainda na lembrança, os abraços do Luís Osório ou do João Luís Barreto Guimarães ainda colados à alma.

Depois de aqui ter estado em 2020, regresso à Póvoa para uma (única) tarde de emoções. As Correntes deste ano atraem cerca de uma centena de escritores de quinze nacionalidades e diferentes geografias de línguas hispânicas e portuguesas, distribuídos por dez mesas. Na sala principal do Cine-Teatro Garrett, testemunho o entusiasmo costumeiro que leva a que a sala encha rapidamente. Sinto o mesmo nervoso miudinho de sempre, agora que a primeira mesa da tarde está prestes a começar. Vejo no programa que todas as mesas têm como tema versos de poemas de Ana Luísa Amaral. Nesta, moderada por Minês Castanheira, o verso diz: “Sei somente de mim aquilo que me sonharam”. É quanto basta para que André Neves afirme que “a poesia é para ser servida em copos de shot”, para que Capicua fale de “estranhamento” nesse entranhar da matrescência e José Mário Silva partilhe o teor de dois sonhos onde cabem um frio antárctico, ursos polares, auroras boreais, elevadores que deslizam para andares com números absurdos e megafones gigantes. Também o “sexagenário” Rui Zink, citando o versículo 33, que diz (“e se não diz, devia dizer”): “Abençoados os nossos inimigos porque só na imaginação deles a vida nos corre às mil maravilhas”. E ainda a “ilustradora de causas” e “livreira-criadora” Mafalda Milhões, apostada em “dar ao leitor certo o livro certo e sair de perto”, na certeza de que “onde há uma livraria há Esperança!”

Com moderação de João Céu e Silva, a segunda mesa da tarde foi lançada sob o verso “Ficar de noite no avesso das coisas”. Margarida Ferra vincou que “nunca dominamos um texto, muito menos um poema” e Ivo Machado reconheceu no pássaro que cruzou o Oceano a pega que Ana Luísa Amaral colou num dos seus últimos poemas. Ondjaki desarrumou-nos (literalmente) o coração ao lembrar que as palavras podem ser pontes entre as pessoas: Gijon, poesia, deserto, solidão, quintal, gato, Luís Sepúlveda, Ana Luísa Amaral, Manuel António Pina. Porque “os amigos e as palavras são coisas que plantamos dentro de nós, depois é só esperar.” Na mais bem humorada intervenção da mesa, João Luís Barreto Guimarães mostrou que “os poetas andam por aí, vão ao supermercado, são tangíveis e vestem calças de ganga” e exortou a não confundir cócegas com comichão. Na sua ânsia de “descascar o quotidiano”, citou poetas norte-americanos, polacos, albaneses, russos e concluiu: “Comigo os Neurologistas não vão ganhar dinheiro. O Alzheimer, à beira de um poeta, é um menino.”

sexta-feira, 29 de abril de 2022

TERTÚLIA LITERÁRIA: "Conversas às 5" | Minês Castanheira



TERTÚLIA LITERÁRIA: “Conversas às 5”,
com Minês Castanheira
Moderação | Joaquim Margarido Macedo
Auditório Dr. Correia de Campos | Centro de Reabilitação do Norte
27 Abr 2022 | qua | 17:00


A celebrar o seu primeiro ano de existência, as Tertúlias Literárias “Conversas às 5” regressaram ao Auditório do Centro de Reabilitação do Norte para uma hora e meia de magia à roda dos livros e da leitura. Sessão tão especial exigia um convidado igualmente especial e Minês Castanheira soube honrar e engrandecer o momento, acrescentando-lhe uma coloquialidade rica e sedutora, a comunicação empática, a generosa partilha de histórias e memórias e a sua enorme paixão pela poesia. A admiração e cumplicidade geradas foram imediatas. Para os presentes, o momento foi de êxtase. Escapar a uma rotina que vive de e para a pessoa doente, e ter a possibilidade de, ainda que por um só instante, mergulhar no mundo mágico da literatura e caminhar de mãos dadas com a poesia de Capicua, a rebeldia de Calamity Jane ou a coragem das mulheres da Póvoa, foi precioso. Daí que todos tenham deixado o Auditório de coração cheio e, estendendo a vista até ao horizonte, apreciado o céu e o mar à sua frente como se da primeira vez se tratasse.

“Quando as pessoas se encontram e se juntam por causa dos livros já valeu a pena”. Estas palavras de Minês Castanheira marcaram de forma indelével uma conversa que decorreu sob o signo do intimismo e que veio provar o quanto de solidariedade e união pode haver entre os agentes da saúde e da cultura, aqueles que num momento de crise, por força da pandemia, “se chegaram à frente”. Como que a reforçar a ligação entre os dois blocos, Minês citou João Luís Barreto Guimarães, Susan Sontag e Cesário Verde, deste último recomendando vivamente a leitura do poema "Nós". Falando de si, a convidada recuou aos tempos da infância, a “uma casa coberta de livros”, à autorização para lhes mexer, admitindo ter sido “uma privilegiada”. Enquanto umas crianças querem ser polícias, outras bombeiros, outras astronautas, Minês soube, desde muito cedo, que quando crescesse iria trabalhar com livros, mesmo não sabendo que os viria a escrever, que os ajudaria a criar, que os transformaria em Instalações. “Não sabia o que iria fazer nem com quem, mas sabia que este era o meu destino”, disse.

Mais de três décadas depois, o destino cumpre-se a cada dia com um projecto que se chama Bairro dos Livros, onde se “faz e comunica Cultura desde 2011”. É lá que um grupo de “tresmalhados” vive em modo de inquietação, criando e produzindo eventos “fora da caixa”, desenhando e implementando iniciativas de comunicação cultural e fazendo livros singulares. É assim que persistem e já sobreviveram “a duas crises económicas, uma pandemia e uma guerra na Europa”. Instada a falar de um desses projectos, Minês Castanheira leva-nos numa viagem à Póvoa de Varzim e ao confronto entre a bravura dos pescadores poveiros com a sociedade matriarcal onde a pescadeira faz tudo, excepto ir ao mar. Dos primeiros canta-se a força e a coragem desde sempre, como se de Ulisses se tratasse. Das mulheres, porém, ninguém fala. Mas, como num poema de Capicua, importa haver alguém a clamar que “quando tudo é adverso, eu faço o inverso p'ra que equilibre.” Daí o projecto chamar-se “Penélopes”, consubstanciado numa instalação artística que resulta do diálogo entre a tradicional camisola poveira saída das mãos de doze artesãs, com a escrita de doze autoras, escritoras e poetas contemporâneas.

Falando de si e da sua ligação à escrita, Minês Castanheira vincou o enorme poder e influência que um adulto pode ter sobre uma criança e como foi importante, em termos de futuro, o elogio vindo de uma professora ao seu primeiro conto: “Fui à tabacaria, levei o meu mealheiro e disse que queria tirar xis fotocópias. Luxo total. Depois perguntei ao dono da mercearia, da farmácia, se podia colar na montra e ficava à espera que as pessoas lessem para lhes perguntar: Gostou?”. Falando do processo criativo, a escritora confessa não saber quando um livro está pronto, mas sabe dizer quando um poema está pronto. “Ando com um poema na cabeça muito tempo. É quase cinema, é como se as palavras viessem ter comigo e estivesse a tentar fazer com que se sucedam de forma lógica. Elas estão ali, meio desarrumadas, e eu ando, escrevo, reescrevo e depois, não sei como, olho e digo que é exactamente isto. Então sei que o poema está pronto.” Foi assim que nasceram os textos e que, agrupados, deram lugar a “Plasticidades” (2005), “Inter-Cidades” (2008) e “Nunca o Mar” (2012). É também assim que irá nascer, ainda este ano, “um livro pequenino, vinte e tal, trinta textos, dedicados à minha filha.” Um livro que, “se tudo correr bem”, será lançado em Setembro, na Feira do Livro do Porto.

A conversa caminha rapidamente para o final, mas ainda há tempo de olhar o momento actual. Citando Paulo Moura e o seu prefácio ao livro “Vozes de Chernobyl”, de Svetlana Alexievich, o moderador questionou a aparente mudança de paradigma ao vermos o escritor a assumir o papel que, por tradição, pertence ao jornalista. Furtando-se a eventuais polémicas, de forma assertiva, Minês Castanheira, frisou que a solução passa por “munir as pessoas de espírito crítico” e lembrou que “se as pessoas tivessem em conta que há jornalistas altamente especializados a ganhar quinhentos euros há vinte anos, talvez tivessem outra expectativa sobre o que estão a consumir.” Também se falou sobre Festivais Literários e a importância do trabalho que alguns deles desenvolvem junto das Escolas. E deixaram-se sugestões de leitura, da poesia infantil do Manuel António Pina aos poemas de Nuno Higino - “o Nuno Higino é fixe!” - e de Gabriela Gomes. Um poema não publicado fechou a sessão. Um poema que se baseia no testemunho que Calamity Jane deixou à sua filha, em forma de cartas. Um poema incrível, sublinhe-se, como incrível foi o tempo passado com Minês Castanheira no dia em que as Tertúlias sopraram uma vela. O dia foi de festa, cantaram as nossas almas.

[Foto gentilmente cedida por António Jamba]