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quarta-feira, 10 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE ILUSTRAÇÃO: “Breviário Ilustrado do Tempo Contado”



EXPOSIÇÃO DE ILUSTRAÇÃO: “Breviário Ilustrado do Tempo Contado”,
de Sara Feio, Abigail Ascenso, Rachel Caiano, Uma Joana, Anabela Dias, Bárbara R., Mantraste, Helena Zália, Danuta Wojciechowska, Ricardo Ladeira, Sara Bandarra, Gonçalo Viana, Fedra Sandra, Carlo Giovani, Marta Torrão, Mafalda Milhões, Teresa Cortez, Cátia Vidinhas, Alex Gozblau, André Neves, Marta Madureira, Sebastião Peixoto, Margarida Botelho, Ana Biscaia, Tiago Galo
Curadoria | Mafalda Milhões
Rota Olhares e Contares do Lado de Lá
Festival Literário Correntes d'Escritas
Cine-Teatro Garrett, Póvoa de Varzim
21 Fev > 28 Fev 2026


Há projectos que nascem de uma pergunta simples e acabam por redesenhar um território inteiro. “Breviário Ilustrado do Tempo Contado” parte desse gesto inaugural de imaginar que as estátuas que habitam praças, rotundas e jardins poderiam, afinal, falar. Assim sendo, que histórias contariam sobre os espaços que guardam? Que memórias recolheram ao longo de anos ou décadas de silêncio? A partir dessa hipótese quase literária, o projecto da curadora Mafalda Milhões constrói uma proposta singular de mediação cultural: transformar monumentos quotidianos em matéria narrativa e visual. No centro desta ideia está também o território — Pombal, Castanheira de Pera e Sertã — reunido sob o signo sensorial do chamado Território 5 Sentidos. Em regiões marcadas pela baixa densidade populacional e por uma oferta cultural frequentemente intermitente, iniciativas como esta funcionam como pequenos faróis, convocando artistas, escritores e comunidades para reimaginar os lugares onde vivem. O processo é simples e ao mesmo tempo profundamente simbólico: primeiro os autores escrevem o território, depois vinte e cinco ilustradores escutam essas palavras e devolvem-nas na forma de imagens, transformando o património em experiência sensível.

A trajectória de Mafalda Milhões ajuda a compreender a dimensão deste gesto. Ilustradora, editora, livreira e mediadora de leitura, o seu trabalho tem insistido na ideia de que a cultura pode nascer longe dos grandes centros e irradiar a partir deles. Este “breviário”, mais do que um catálogo de imagens, torna-se assim um atlas afectivo onde o desenho funciona como forma de escutar os lugares e de devolver às comunidades uma narrativa visual sobre si próprias. As obras reunidas na exposição percorrem esse território imaginado como quem folheia um caderno de memórias partilhadas. Cada ilustrador aproxima-se de uma estátua ou monumento como quem se aproxima de uma personagem silenciosa, tentando adivinhar-lhe a respiração interior. Em torno do Soldado Desconhecido de Pombal, por exemplo, Anabela Dias transforma a memória da Guerra Colonial numa evocação íntima. Já Margarida Botelho olha para o Pelourinho da Sertã como quem observa um pequeno cosmos. Noutra latitude sensível, Ana Biscaia aproxima-se da figura do padre Manuel Antunes com um gesto quase meditativo. Há ainda a delicadeza poética de Tiago Galo, que imagina as estátuas a escutar as conversas dos pássaros, ou o olhar de André Neves, que convida o espectador a ver para além da cegueira das esculturas e a ouvir aquilo que apenas o coração reconhece.

Entre pelourinhos reinventados, monumentos ao emigrante carregados de ausência, cravos que se transformam em pássaros de liberdade ou heróis de pés de barro observados por pequenas criaturas irónicas, o conjunto constrói um mosaico onde história, memória e imaginação se entrelaçam. Cada ilustração acrescenta uma camada de humanidade à pedra, lembrando que os monumentos não são apenas marcas no espaço público, mas depósitos de vidas, partidas, regressos e sonhos colectivos. Apresentado no contexto das Correntes d’Escritas “Breviário Ilustrado do Tempo Contado” encontrou na Póvoa de Varzim um lugar deveras significativo. Um encontro literário dedicado à palavra torna-se também espaço para a imagem e para a ideia de que ler um território pode acontecer através de muitas linguagens. O projecto regressa à sua própria origem: nasceu do encontro entre escritores e ilustradores, vindo a abraçar um festival onde a literatura continua a ser ponto de partida para novas formas de criação. Há também um gesto simbólico neste movimento geográfico. Se o projecto nasce em territórios afastados dos grandes centros culturais, a sua presença num evento internacional como as Correntes d’Escritas amplia essa voz periférica, fazendo chegar ao litoral histórias vindas do interior. Quando alguém decide escutar o silêncio dos lugares, até as estátuas acabam por contar histórias.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

CERTAME: Festival Literário Correntes d'Escritas



CERTAME: Festival Literário Correntes d’Escritas
Póvoa de Varzim e Lisboa, vários locais
17 Fev > 26 Fev 2024


Cumprindo um hábito que começa a cristalizar-se em vício, regressei este sábado à Póvoa de Varzim e às Correntes d’Escritas. Sabia que tinha à minha espera duas mesas literárias, várias apresentações de livros, duas exposições e, quem sabe, uma peça de teatro. Haveria a oportunidade de comprar alguns livros e de ver alguns deles com as dedicatórias dos respectivos autores. Teria, sobretudo, a possibilidade de mergulhar nesse ambiente fantástico de celebração do gesto e da palavra, rodeado de amigos e de gente que tanto admiro. E assim foi, o programa cumprido na íntegra (teatro incluído), com pausa breve para uma francesinha no Ritz e o “bónus” de ter sido fotografado pelo Daniel Mordzinski e pela Maria do Rosário Pedreira (!).

Sonhado como plataforma de diálogo entre autores de várias geografias das línguas portuguesas e castelhanas, o Festival Literário Correntes d’Escritas conheceu a sua primeira edição em 2000, ano do centenário da morte de um dos filhos mais diletos da Póvoa de Varzim, Eça de Queirós. De Abdulai Silva a Xavier Queipo, ano após ano por aqui foram passando cerca de mil autores, fazendo da Póvoa o centro do debate da Cultura e do pensamento das Letras no país. Ao completar 25 edições, o tempo é de celebração, irmanando na festa e na alegria os 50 anos de elevação da Póvoa de Varzim a cidade e do 25 de Abril. Daí que a liberdade e a escrita enquanto veículo de resistência e luta tenham sido o denominador comum de um vasto programa que reuniu mais de 120 personalidades ligadas às letras, distribuindo-se por mesas literárias, lançamentos de livros, residências, performances, concertos, exposições, um 1º Encontro de Tradutores, a habitual Feira do Livro e muito mais.

Inspirada no verso de um poema da “desobediente” Maria Teresa Horta – “deu-nos abril o gesto e a palavra” –, a mesa da manhã convocou o melhor dos seis participantes e do seu moderador, João Gobern. António Mota partilhou memórias de infância na casa do Adrianinho e com a Senhora do Padre. Vera dos Reis Valente trouxe-nos um poema magnífico – “[Abril] Deu-nos paz / deu-nos mais alegria / (…) mas não nos deu a garantia / de que outros ditadores / armados em bons senhores / dizendo-se salvadores / não ganhem a próxima eleição”. Joaquim Arena mostrou a sua estranheza por o 25 de Abril não ser celebrado nas antigas colónias e, com ele, o gesto e a palavra liberdade. Convocando a sua faceta de leitora – “acima de tudo sou uma leitora” - Pilar Adón falou da importância de poder participar nas obras que lê, acrescentando que é isso que procura oferecer enquanto autora. Rui Zink falou dos vários privilégios de ter vivido o 25 de Abril, um dos quais foi ter participado no primeiro 1º de Maio “de mãos dadas com a minha mãe”. Enfim, Anabela Mota Ribeiro, “filha desse dia inicial”, trouxe-nos “a inscrição da ditadura sobre o corpo das mulheres” e a revolta de, 50 anos passados, persistir a diferença entre homens e mulheres, vertida em injustiça e desigualdade.

Passa pouco das duas da tarde e o espaço fronteiro ao Cine-Teatro Garrett fervilha de gente que aguarda pela reabertura de portas. As Correntes são “o lugar onde vivos e mortos se encontram”, como bem observou Luís Osório. É nisto que pensamos quando cruzamos o olhar com o daqueles que nos rodeiam e percebemos que Luis Sepúlveda ou Ana Luísa Amaral, Nélida Piñon ou José Saramago, ainda se passeiam por aqui.

Sérgio Godinho, Fausto Bordalo Dias e José Mário Branco deram o mote para a primeira mesa da tarde, a única à qual pude assistir. Uma mesa em “maré alta”, iluminada pelo verso “a liberdade está a passar por aqui” e moderada por Henrique Cayatte. Francisca Camelo agradeceu a Celeste Caeiro “pelas flores a calar o sangue”, mas interrogou-se se “conseguiria hoje a Celeste distribuir cravos nesse arrebatador gesto de alegria sem falir o negócio de um ano num dia só.” Luís Osório homenageou Fernando Giesteira, José Barneto, Fernando dos Reis e José Arruda, “os quatro que há quase 50 anos saíram para a rua sem saber que aquele seria o último dia das suas vidas, os que não chegaram a saber o que era a liberdade.” Rosa Alice Branco lembrou “tantos anos a falar pela calada” e exortou a estarmos atentos às mãos alheias que trabalham na sombra: “E se adormecerem, deixem os vossos ouvidos à escuta, porque a liberdade é a única melodia do amanhecer.” Estreante nas Correntes, Telma Tvon fechou a mesa com uma intervenção inflamada, falou dos seus medos, das suas vontades, das suas verdades, dos seus sonhos de mulher, “escuramente empoderada, mais forte, mais resiliente, mais comunidade, mais poder, mais preta.” São assim as minhas Correntes, minha liberdade, meu Abril.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

TEATRO: "A Casa"



TEATRO: “A Casa”
Dramaturgia | Álvaro Laborinho Lúcio, Luís Ricardo Duarte, Raquel Patriarca, Rui Spranger
Direcção de actores e encenação | Rui Spranger
Interpretação | Álvaro Laborinho Lúcio, Luís Ricardo Duarte, Raquel Patriarca, Rui Spranger, Sílvio Fernandes
Produção | Correntes d’Escritas
60 Minutos
Casa Museu Manuel Lopes, Póvoa de Varzim
24 Fev 2024 | sab | 18:00


“Só a memória enriquece e alimenta. Não há pedra que mais sangre nem asa que mais nos liberte. Talvez por isso os Saberes da memória respirem um tempo e um espaço muito próprios. A morte, que tudo transfigura, pratica as artes supremas da imprevisibilidade. E, nesta imprevidência se compraz, irremediavelmente, a nossa humana condição.”
Manuel Lopes, “O Barco Poveiro”, Prefácio, 1995

É nas traseiras da Casa que tudo começa. Não no jardim ou nuns quaisquer anexos, antes numa outra casa, mandada construir por Manuel Lopes para receber os conhecidos e amigos de passagem que na Póvoa quisessem pernoitar. É lá que conheceremos os quatro anfitriões — há quatro anos aqui irmanados, “um bando de irmãos”, a criar entre si, e com os espectadores, verdadeiras correntes de escritas — e, através deles, a Casa, com os seus recantos povoados de livros e objectos de colecção, as histórias que encerra, as memórias vívidas, os cheiros entranhados, os seus ruídos, os seus segredos, os seus fantasmas. Mas nada de conclusões precipitadas: Isto é tudo menos uma visita guiada a uma Casa Museu. É antes uma intromissão no “espaço além da pessoa que dele se separa”, uma devassa dos seus esconderijos mais secretos, uma intrusão nos lugares mais íntimos. Fascinados ao entrar, é como violadores que nos iremos sentir no momento de abandonar a Casa.

No lugar comum, que é o lugar de todos os lugares, palpam-se os segredos, adivinham-se os fantasmas. De lupa em riste, o zelador vai abrindo, uma a uma, todas as portas. É com orgulho que se diz amigo do proprietário, de este lhe ter confiado a chave da própria Casa. Hoje não é mais do que um fantasma, bem como a mulher que, longe dos poetas de voz maior e dos cristos de olhar desapontado, habita o sótão da casa, o seu regaço, o seu abrigo, o lugar onde se sabe rainha, capitã de lancha. Ou o homem que, na Sala, se interroga sobre o infinito em cada página e sobre a essência da profissão de bibliotecário nesse interminável “seleccionar - catalogar - arquivar” (ou viajar, ou disponibilizar, ou partilhar, ou personalizar). Ou o próprio Manuel Lopes que, debruçado de um escadote, fita com desalento o amontoado de rolos de papel que escondem o seu interior, retratos de Zeca Afonso, Che Guevara e de si próprio, um espelho quebrado, cristos em cartão pendurados nas paredes, bugigangas espalhadas por todo o lado: “Quinquilharia, tudo quinquilharia.”

Nascida de um texto dramático escrito dentro da Casa Museu Manuel Lopes por quatro participantes da residência literária “D’Escritas 1 Dia”, “A Casa” é uma multifacetada peça de teatro, “reflexo da personalidade do próprio Manuel Lopes, habitante ausente da Casa que serve de cenário, mas também de personagem”. Homem de ideias, historiador e ensaísta, bibliotecário icónico, revolucionário antifascista e apaixonado pela cultura e sociedade poveiras, Manuel Lopes é alvo de uma belíssima homenagem ao longo dos aposentos da Casa que foi sua. Nas vivências que suscita, nas memórias que guarda e nas histórias que conta, este é o lugar de um homem com os seus segredos. Também com os fantasmas que o visitam, o silêncio das suas falas a misturar-se com os silêncios da Casa. De uma entrega e generosidade enormes, os actores acrescentam voz e movimento a um lugar tornado único pela singularidade de quem o habitou. Um exercício de teatro intenso e denso, que nos convida a reflectir no(s) valor(es) do que foi nosso quando virarmos costas a este mundo.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

CERTAME: Festival Literário Correntes d'Escritas 2023


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CERTAME: Festival Literário Correntes d’Escritas
Póvoa de Varzim, vários locais
14 Fev > 18 Fev 2023


Mesas, lançamentos de livros, conferências, exposições, instalações, leituras encenadas, cinema, teatro, espetáculos musicais, conversas correntes. É assim desde 2000, na Póvoa de Varzim, com o Festival Literário Correntes d’Escritas a assumir-se como “a verdadeira festa do livro” e a transformar-se, ao longo de dias tornados únicos pelo poder da palavra, num encontro onde cabem todos aqueles que amam os livros. Um encontro de amigos, portanto. Ensejo para encontros mais ou menos esperados, para uma breve troca de ideias, para um abraço, para um café. O melhor dos pretextos para enriquecer a biblioteca com as mais recentes novidades, tornadas ainda mais valiosas por que com dedicatória e assinatura do autor na página em branco. O espanto e a admiração por tantas e tão brilhantes intervenções. E, depois, regressar de coração cheio com as conversas com a Clara Haddad, o Marcial Gala, o Juan Gabriel Vasquez ou o Geovani Martins ainda na lembrança, os abraços do Luís Osório ou do João Luís Barreto Guimarães ainda colados à alma.

Depois de aqui ter estado em 2020, regresso à Póvoa para uma (única) tarde de emoções. As Correntes deste ano atraem cerca de uma centena de escritores de quinze nacionalidades e diferentes geografias de línguas hispânicas e portuguesas, distribuídos por dez mesas. Na sala principal do Cine-Teatro Garrett, testemunho o entusiasmo costumeiro que leva a que a sala encha rapidamente. Sinto o mesmo nervoso miudinho de sempre, agora que a primeira mesa da tarde está prestes a começar. Vejo no programa que todas as mesas têm como tema versos de poemas de Ana Luísa Amaral. Nesta, moderada por Minês Castanheira, o verso diz: “Sei somente de mim aquilo que me sonharam”. É quanto basta para que André Neves afirme que “a poesia é para ser servida em copos de shot”, para que Capicua fale de “estranhamento” nesse entranhar da matrescência e José Mário Silva partilhe o teor de dois sonhos onde cabem um frio antárctico, ursos polares, auroras boreais, elevadores que deslizam para andares com números absurdos e megafones gigantes. Também o “sexagenário” Rui Zink, citando o versículo 33, que diz (“e se não diz, devia dizer”): “Abençoados os nossos inimigos porque só na imaginação deles a vida nos corre às mil maravilhas”. E ainda a “ilustradora de causas” e “livreira-criadora” Mafalda Milhões, apostada em “dar ao leitor certo o livro certo e sair de perto”, na certeza de que “onde há uma livraria há Esperança!”

Com moderação de João Céu e Silva, a segunda mesa da tarde foi lançada sob o verso “Ficar de noite no avesso das coisas”. Margarida Ferra vincou que “nunca dominamos um texto, muito menos um poema” e Ivo Machado reconheceu no pássaro que cruzou o Oceano a pega que Ana Luísa Amaral colou num dos seus últimos poemas. Ondjaki desarrumou-nos (literalmente) o coração ao lembrar que as palavras podem ser pontes entre as pessoas: Gijon, poesia, deserto, solidão, quintal, gato, Luís Sepúlveda, Ana Luísa Amaral, Manuel António Pina. Porque “os amigos e as palavras são coisas que plantamos dentro de nós, depois é só esperar.” Na mais bem humorada intervenção da mesa, João Luís Barreto Guimarães mostrou que “os poetas andam por aí, vão ao supermercado, são tangíveis e vestem calças de ganga” e exortou a não confundir cócegas com comichão. Na sua ânsia de “descascar o quotidiano”, citou poetas norte-americanos, polacos, albaneses, russos e concluiu: “Comigo os Neurologistas não vão ganhar dinheiro. O Alzheimer, à beira de um poeta, é um menino.”

sábado, 29 de fevereiro de 2020

CERTAME LITERÁRIO: Correntes d'Escritas 2020


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CERTAME LITERÁRIO: Correntes d’Escritas 2020 
Cine-Teatro Garret e outros locais, Póvoa de Varzim 
15 Fev > 23 Fev 2020 


“Be not afeard; the isle is full of noises,
Sounds, and sweet airs, that give delight and hurt not.
Sometimes a thousand twangling instruments
Will hum about mine ears; and sometimes voices,
That, if I then had waked after long sleep,
Will make me sleep again: and then, in dreaming,
The clouds methought would open, and show riches
Ready to drop upon me; that, when I waked,
I cried to dream again.”
William Shakespeare, “A Tempestade”

Entre os dias 15 e 23 de Fevereiro, a Póvoa de Varzim voltou a acolher as “Correntes d’Escritas”, o mais antigo encontro de escritores de Portugal. O pontapé de saída foi dado pelas “Vozes transeuntes nas ruas da poesia”, espalhando o perfume das Correntes pelo Mercado Municipal e pelas artérias da cidade. Seguiu-se todo um vasto e riquíssimo programa que incluiu Correntes à conversa, lançamentos de livros, música, cinema, exposições, um curso de Formação para professores, sessões para alunos e ainda uma Feira do Livro que voltou a estar particularmente concorrida. Mas o epicentro do certame foi mesmo o Cine-Teatro Garret, ao qual um público atento e interessado afluiu em massa para escutar as intervenções de quase uma centena de escritores e outros agentes ligados à palavra e às letras.

A minha presença nas Correntes deste ano resumiu-se à tarde do dia 20, a qual ficou marcada pela possibilidade de trocar umas breves palavras com o escritor chileno Luís Sepúlveda, de quem sou admirador confesso há três décadas, e de colher dedicatórias simpáticas em alguns dos seus livros. Um interessante colóquio sobre literatura catalã, duas exposições, uma apresentação de livros, a aquisição de mais quatro obras para a minha biblioteca e ainda os autógrafos de Isabel Rio Novo, David Machado, José Gardeazabal e Paulo M. Morais nos seus mais recentes trabalhos ficam nas memórias de uma tarde muito bem passada, coroada por essa calorosa saudação ao enorme poeta angolano que é Manuel Rui.

Com o tradutor e crítico alemão Michael Kegler a moderar a primeira mesa da tarde, a discussão centrou-se em torno do tema “Era Uma Vez a Liberdade”. Foi o tempo de escutar José Gardeazabal referir-se à palavra como “o grande milagre da democracia pluralista”, porque é ela “que nos faz acreditar e nos faz duvidar”, José Luís Peixoto dizer que “um dos valores importantes da literatura é a liberdade” e Marta Orriols afirmar que “a literatura deve convocar mais perguntas e menos respostas”. Mas foi sobretudo o tempo de beber as palavras clarividentes de Luís Sepúlveda, centrando-se na palavra liberdade para nos dizer que esta “é cada vez mais sinónimo de melancolia”. Para o escritor chileno, “quando pensamos hoje em liberdade, percebemos que já não sabemos como era, se loira ou morena, magra ou gorda, alta ou baixa... e caímos numa recordação melancólica. Por isso importa que afastemos aquilo que nos impede de a vermos nítida no seu ninho, nos aproximemos dela e a encontremos inteira, limpa, bela e possamos então dizer-lhe amo-te, quero-te, fica comigo!”

A última mesa do dia foi moderada pelo escritor e editor moçambicano Celso Muianga e subordinada ao tema “Tenho medo da poesia”. A este propósito, a cantora e compositora guineense Karyna Gomes associou a palavra medo à coragem e perseverança e lembrou o quanto a luta de Amílcar Cabral e do povo da Guiné-Bissau e Cabo Verde se funde na poesia. Numa intervenção bem humorada, Miguel Araújo confessou que “a poesia mete-me medo por todos os lados” e Isabel Rio Novo invocou a palavra “respeito” para descrever “a atitude da mulher que escreve romances mas nunca poemas”. Ivo Machado evocou Jorge Enrique Adun para dizer que “não há memória de poetas mudos”, dando valor à voz e acrescentando ser a poesia que deve ter medo do poeta, “quando procuro dominá-la, subjugá-la ao meu fulgor, à minha língua com travo de enxofre, ao meu desejo estético”.

Ana Luísa Amaral protagonizou o momento alto da tarde, começando por fazer escutar as palavras de Caliban, o monstro de “A Tempestade”, de Shakespeare, ditas magnificamente por Joseph Fiennes. A poeta serviu-se desta passagem para ilustrar “o medo da palavra no que ela tem de poderoso, ao criar mundos, e de violento ao fazer crer em mundos e ao dominar”. “E quem tem medo da poesia?” pergunta Ana Luísa Amaral, para logo responder: “São aqueles que acreditam no tribalismo, acima de tudo, e não nessa abertura a tudo o que a poesia propõe no seu mais profundo âmago. Os que à multiplicidade contrapõem o modelo único, os que à pluralidade, onde somos todos outros e nós, nós e outros ao mesmo tempo, defendem o ‘nós’ de um lado e o ‘eles’ do outro, sendo que o ‘eles’ é sempre menor, sempre desprezível e sempre apresentado como ameaçador. Quem tem medo da poesia são os das ditaduras, que se impuseram primeiro pela força dos músculos, depois pelo que herdaram dos mais velhos, a astúcia, o engano, a impiedade; são esses os que amealham e nada transmitem nem geram. (...) Sim, os mercadores do nada têm medo da poesia, porque a poesia, ao não falar uma língua só, é sempre coisa instável e fugidia, e move-se com o arrepio das certezas certas.”

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "O Relógio da Alma"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “O Relógio da Alma”,
de Ana Carvalho
Galerias Euracini 2, Póvoa de Varzim
16 Fev > 27 Fev 2019


Quando, há três anos, escolhia uma fotografia para a capa da nova edição holandesa do “Livro do Desassossego”, Ana Carvalho voltou a impressionar-se com as frases extraordinárias que Fernando Pessoa coloca na boca de Bernardo Soares. “Não só por causa das imagens sugeridas”, diz a artista, “mas também pelas frases sucintas que se prestavam a uma relação visual”. E assim nasceu “O Relógio da Alma”, conjunto de belíssimas imagens que fazem a simbiose entre algumas citações desta obra fundamental da literatura portuguesa e as imagens captadas em locais diversos. Fonte de diálogo entre a imagem e a palavra, o projecto de Ana Carvalho prolongou-se por quase dois anos, uma pequenina parte podendo agora ser saboreada na Póvoa de Varzim, muito justamente englobada nessas impactantes “Correntes D’Escritas”.

Mas o que é, afinal, “O Relógio da Alma”? São cerca de quinze imagens que nos mostram como o tempo passado está sempre presente. São ilustrações que reflectem os efeitos da passagem do tempo e afirmam o carácter efémero da matéria, que lhe cavam rugas e lhe emprestam sabores fugazes a vento e a mar. Seja no que resta de um cartaz afixado numa parede ou nos reflexos da água no casco de um navio, na tinta descascada duma parede ou no granizo que se abriga na folha de um portão, é no pormenor que o olhar sensível de Ana Carvalho recai, encontrando préstimo no imprestável, grandeza no insignificante, essência no fútil, génio no nulo. E que nos diz, como Virgílio Ferreira, que “o tempo que passa não passa depressa, o que passa depressa é o tempo que passou”.

Perante as imagens de Ana Carvalho, o olhar do espectador é necessariamente contemplativo. Nas cores que se alteram ou nas texturas que se transmutam, há todo um “deve” e um “haver” a convocar memórias, mas é na poética de cada composição que o pensamento se perde. Se olharmos com atenção, “no desalinho triste das nossas emoções confusas” encontraremos a ilusão e a vacuidade, rosas falsas e um grande pedregulho, carros eléctricos que rosnam e tardes que caem, monótonas e sem chuva. E então descobriremos que entre nós e a vida há um vidro ténue. Para nosso desassossego!

domingo, 24 de fevereiro de 2019

CERTAME: "Festival Literário Correntes D'Escritas 2019"


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CERTAME: “Festival Literário Correntes D'Escritas 2019”
Cine-Teatro Garrett, Póvoa de Varzim
Galerias Euracini 2 e outros locais
16 Fev > 26 Fev 2019


Nesta que foi a minha estreia nas “Correntes D'Escritas”, festival literário que cumpriu este ano a sua vigésima edição, é com entusiasmo que falarei nesta breve crónica daquilo a que me foi dado assistir e que tão fortemente me marcou. Falarei, desde logo, das quatro mesas às quais assisti, onde pontuaram alguns nomes que eu muito respeito e de quem muito tenho lido, mas também outros que se revelaram magníficas descobertas. Ainda dos lançamentos de livros, do cruzamento com escritores e de um dedo de conversa que os intervalos sempre proporcionam, dos livros nos quais vamos colhendo uma dedicatória e um autógrafo. Também de duas magníficas exposições de fotografia, da autoria de Ana Carvalho e de Alfredo Cunha, das quais falarei separadamente. Mas, sobretudo, do público, essa mole imensa de gente que esperou ordeiramente largo tempo nas filas para depois esgotar sessões atrás de sessões, que são a prova do sucesso desta iniciativa e a cuja voz uno a minha neste canto de parabéns às “Correntes”, aos seus mentores e àqueles que tornam possível que tudo isto aconteça. Porque duma grande festa da palavra se trata e porque é uma festa realmente muito bonita.

No ano em que se comemora o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, as “Correntes” quiseram dedicar-lhe toda a atenção, buscando na sua obra – e em particular na obra poética – os temas das mesas redondas. “Não se perdeu nenhuma coisa em mim”, do poema “O Jardim e a Casa” deu o mote para uma mesa “amputada” de dois enormes nomes – o chileno Luís Sepulveda e João Pinto Coelho – e onde se falou de memória e de combate. De memória, porque é perdendo-a que perdemos aquilo que adquirimos ao longo duma vida – “olho para a minha biblioteca, para todos aqueles livros, e penso o que fazer para recordá-los... porque os esqueci” (David Toscana). De combate, para dizer que “o combate do escritor deve ser contra a auto-censura, para que não se perca nada em nós” (Filipe Homem Fonseca).

A mesa seguinte foi buscar ao poema “Apesar das Ruínas”, o verso “E nunca as minhas mãos ficam vazias”. Foi uma mesa riquíssima de intervenções e pensamentos, com Hélia Correia a colocar, legitimamente, uma certa nota de desconforto ao recusar-se a “trazer Sophia para o comum”, afirmando que “Sophia não se glosa, Sophia não é para ser objecto de perífrases”. Sandro William Junqueira trouxe-nos histórias amargas em torno da frota branca e das campanhas do bacalhau, Joel Neto pisou caminhos da antropologia ao dizer-nos que foi pela palavra que o Homo sapiens prevaleceu sobre as restantes espécies e Manuel Rui ofereceu-nos um longo poema, ele, as pombas e as bolinhas de miolo de pão no epicentro dum triângulo formado pela casa de Sophia, pelo Aljube e pela Sé de Lisboa. Finalmente, Miguel Sousa Tavares – sobre quem recai a enorme “responsabilidade” de ser filho de Sophia de Mello Breyner – a dizer-nos que “as mãos que nunca ficam vazias são as mãos que escrevem contra a miséria do mundo!”.

O último dia das “Correntes” não poderia ter começado da melhor forma, com “Pois é preciso saber que a palavra é sagrada”, do poema “Com Fúria e Raiva”, a servir de ideia ao pensamento de seis ilustres escritores. Da Argentina, Natalia Porta Lopez veio “pedir desculpa” a Sophia, dizendo-lhe não acreditar que a palavra seja sagrada, nisso corroborada por José Milhazes, para quem só a palavra de honra é sagrada: “Se a palavra fosse sagrada, as gentes da Póvoa pecavam a cada dois segundos”. Milhazes que mexeu com algum público – às tantas, ouviu-se na sala um sonoro “abaixo a reacção”, ao manifestar a sua repulsa perante a palavra utopia e ao afirmar que “as revoluções são feitas por líricos e idiotas úteis”. Ana Cristina Silva diria que “as palavras são sagradas quando iluminam, quando lançam na noite o seu breve lampejo” e António Tavares confessaria desconhecer se as palavras são sagradas, “mas são seguramente tramadas, sobretudo para quem, como o escritor, tem de viver delas”. Alice Brito teve uma intervenção emocionada (e emocionante), para nos dizer que “é preciso saber que a palavra é sagrada”, acusando “as redes ditas sociais de propalarem o nada” e afirmando que “um jantar em frente à televisão é a síntese perfeita do pão e circo”. A última intervenção foi de Afonso Reis Cabral que nos mostrou que “as palavras são sagradas porque extraem o que há de melhor em nós, nos tornam humanos”.

Muito mais leve que as anteriores, a última mesa a que tive o privilégio de assistir submeteu-se a “Este é o tempo em que os homens renunciam”, do poema “Este Tempo”. Nela, Afonso Cruz falou (e mostrou imagens) da Rua Mutanabi, em Bagdad, que se soube reerguer depois do sangrento atentado bombista de 05 de Março de 2012, lembrando-nos que “ainda que os tempos sejam obscuros, há sempre homens que não renunciam”. Pedro Vieira teve também a “muleta” do multimédia na sua intervenção, mas começou por avisar que não lê poesia: “Leio de tudo, leio os rótulos do Piripiri Sacana, mas poesia não”. Ondjaki teve uma hilariante saída ao “descobrir” um livro de Aurelino Costa no meio dos milhões de livros espalhados pelos passeios da Rua Mutanabi, facto que se devia ao “poderoso” Luís Diamantino. Apesar da confessada incapacidade em manter uma linha de pensamento, Rui Zink falou de professores universitários e de pepinos-do-mar, disse-nos que “o Alzheimer é uma bela metáfora para o século XXI” e lembrou que uma palavra traz sempre o seu contrário: “Quando nasceu a palavra, nasceu o silêncio”. E assim me calo... até para o ano!