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quarta-feira, 10 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO DE ILUSTRAÇÃO: “Breviário Ilustrado do Tempo Contado”



EXPOSIÇÃO DE ILUSTRAÇÃO: “Breviário Ilustrado do Tempo Contado”,
de Sara Feio, Abigail Ascenso, Rachel Caiano, Uma Joana, Anabela Dias, Bárbara R., Mantraste, Helena Zália, Danuta Wojciechowska, Ricardo Ladeira, Sara Bandarra, Gonçalo Viana, Fedra Sandra, Carlo Giovani, Marta Torrão, Mafalda Milhões, Teresa Cortez, Cátia Vidinhas, Alex Gozblau, André Neves, Marta Madureira, Sebastião Peixoto, Margarida Botelho, Ana Biscaia, Tiago Galo
Curadoria | Mafalda Milhões
Rota Olhares e Contares do Lado de Lá
Festival Literário Correntes d'Escritas
Cine-Teatro Garrett, Póvoa de Varzim
21 Fev > 28 Fev 2026


Há projectos que nascem de uma pergunta simples e acabam por redesenhar um território inteiro. “Breviário Ilustrado do Tempo Contado” parte desse gesto inaugural de imaginar que as estátuas que habitam praças, rotundas e jardins poderiam, afinal, falar. Assim sendo, que histórias contariam sobre os espaços que guardam? Que memórias recolheram ao longo de anos ou décadas de silêncio? A partir dessa hipótese quase literária, o projecto da curadora Mafalda Milhões constrói uma proposta singular de mediação cultural: transformar monumentos quotidianos em matéria narrativa e visual. No centro desta ideia está também o território — Pombal, Castanheira de Pera e Sertã — reunido sob o signo sensorial do chamado Território 5 Sentidos. Em regiões marcadas pela baixa densidade populacional e por uma oferta cultural frequentemente intermitente, iniciativas como esta funcionam como pequenos faróis, convocando artistas, escritores e comunidades para reimaginar os lugares onde vivem. O processo é simples e ao mesmo tempo profundamente simbólico: primeiro os autores escrevem o território, depois vinte e cinco ilustradores escutam essas palavras e devolvem-nas na forma de imagens, transformando o património em experiência sensível.

A trajectória de Mafalda Milhões ajuda a compreender a dimensão deste gesto. Ilustradora, editora, livreira e mediadora de leitura, o seu trabalho tem insistido na ideia de que a cultura pode nascer longe dos grandes centros e irradiar a partir deles. Este “breviário”, mais do que um catálogo de imagens, torna-se assim um atlas afectivo onde o desenho funciona como forma de escutar os lugares e de devolver às comunidades uma narrativa visual sobre si próprias. As obras reunidas na exposição percorrem esse território imaginado como quem folheia um caderno de memórias partilhadas. Cada ilustrador aproxima-se de uma estátua ou monumento como quem se aproxima de uma personagem silenciosa, tentando adivinhar-lhe a respiração interior. Em torno do Soldado Desconhecido de Pombal, por exemplo, Anabela Dias transforma a memória da Guerra Colonial numa evocação íntima. Já Margarida Botelho olha para o Pelourinho da Sertã como quem observa um pequeno cosmos. Noutra latitude sensível, Ana Biscaia aproxima-se da figura do padre Manuel Antunes com um gesto quase meditativo. Há ainda a delicadeza poética de Tiago Galo, que imagina as estátuas a escutar as conversas dos pássaros, ou o olhar de André Neves, que convida o espectador a ver para além da cegueira das esculturas e a ouvir aquilo que apenas o coração reconhece.

Entre pelourinhos reinventados, monumentos ao emigrante carregados de ausência, cravos que se transformam em pássaros de liberdade ou heróis de pés de barro observados por pequenas criaturas irónicas, o conjunto constrói um mosaico onde história, memória e imaginação se entrelaçam. Cada ilustração acrescenta uma camada de humanidade à pedra, lembrando que os monumentos não são apenas marcas no espaço público, mas depósitos de vidas, partidas, regressos e sonhos colectivos. Apresentado no contexto das Correntes d’Escritas “Breviário Ilustrado do Tempo Contado” encontrou na Póvoa de Varzim um lugar deveras significativo. Um encontro literário dedicado à palavra torna-se também espaço para a imagem e para a ideia de que ler um território pode acontecer através de muitas linguagens. O projecto regressa à sua própria origem: nasceu do encontro entre escritores e ilustradores, vindo a abraçar um festival onde a literatura continua a ser ponto de partida para novas formas de criação. Há também um gesto simbólico neste movimento geográfico. Se o projecto nasce em territórios afastados dos grandes centros culturais, a sua presença num evento internacional como as Correntes d’Escritas amplia essa voz periférica, fazendo chegar ao litoral histórias vindas do interior. Quando alguém decide escutar o silêncio dos lugares, até as estátuas acabam por contar histórias.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

CERTAME: WOOL | Festival de Arte Urbana da Covilhã 2020


 
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CERTAME: WOOL | Festival de Arte Urbana da Covilhã 2020
Vários locais, Covilhã
19 Set > 27 Set 2020


Um pouco mais tarde do que o habitual devido à actual pandemia, o WOOL – o mais antigo Festival de Arte Urbana de Portugal – regressou à Covilhã, instalando-se no seu centro histórico entre os dias 19 e 27 de Setembro. Seguindo o modelo habitual, a organização do certame convidou quatro criadores - dois nacionais e dois estrangeiros – cuja obra, para além de enriquecer o legado das edições anteriores, reforçou o objectivo de homenagear a história e identidade única deste território. Lara Seixo Rodrigues e a equipa da Mistaker Maker estão uma vez mais de parabéns pelo excelente trabalho desenvolvido, continuando a somar ideias, a congregar interesses, a apontar caminhos e a cativar adeptos para este fascinante mundo da Arte Urbana.

No Largo Infantaria 21, em diálogo franco com a peça criada por Sebas Velasco em 2019, o ilustrador Tiago Galo presta tributo à Banda da Covilhã, este ano a soprar centena e meia de velas. No seu jeito muito peculiar de se exprimir, o artista junta à regência da banda os naipes de sopro e percussão, oferecendo-nos uma peça fortemente estilizada, muito rica do ponto de vista visual e que transpira energia e animação. Catarina Glam expõe a sua arte em seis locais distintos da cidade. Usando a madeira como suporte principal, a artista desenvolveu peças de design multi-dimensionais cuja identidade convoca as mais variadas narrativas, colocando-as “à janela” de prédios devolutos e promovendo, desta forma, a sua interacção com o habitante local ou com o visitante ocasional.

No Largo Dr. Valério de Morais, à vista da peça de SAMINA que representa José Carlos Campos, o icónico “Sr. Viseu”, três figuras da terra impõem-se na fachada de um edifício: Entre os dois progenitores, um jovem com um vibrante vestido vermelho e de ar altivo parece desafiar quem passa. O espanhol Jofre Oliveras quis chamar a atenção para o preconceito de género que continua a grassar na nossa sociedade mas este é um trabalho cuja leitura não se esgota no tema, assentando num projecto mais vasto de recolha em colaboração com a fotógrafa Lucia Herrero e cujo resultado a organização espera poder desvendar na íntegra na edição de 2021, quando o WOOL celebrar uma década de vida. Finalmente, na Rua dos Bombeiros Voluntários, não muito longe da incrível peça de Bosoletti, o espanhol Alberto Montes oferece-nos um mural de grande beleza, num austero preto e branco, marcado pela relação geométrica das formas que o compõem e onde se percebe o trabalho agrícola como um vínculo forte entre as pessoas e todo o vasto interior do país.

Mas esta edição do WOOL foi muito mais do que o trabalho dos quatro artistas referidos. Entre visitas guiadas, workshops, uma exposição de fotografia intitulada “Serra ao Alto”, de Rui Gaiola, e as usuais conversas com artistas, destacaria dois momentos relevantes e sobre os quais falarei detalhadamente aqui no blogue nos próximos dias: o documentário de Selina Miles, “Martha: A Picture Story”, exibido no Salão da Banda da Covilhã na passada sexta feira à noite; e ainda, no mesmo local mas no dia seguinte, a apresentação do livro de fotografia de viagem e paisagem “I Wish I Could Drive These Roads Forever”, de Rui Gaiola. Em jeito de balanço, resta acrescentar que uma visita à “cidade neve” por altura do WOOL é sempre um prazer e a edição deste ano, apesar de todas as restrições, não foi excepção. Empenho, rigor, qualidade, disponibilidade e simpatia continuam a ser imagens de marca de um evento que tudo faz para agradar a todos e que insiste em trazer a Arte para a rua e em mostrá-la das mais variadas formas a todos os públicos.