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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

EXPOSIÇÃO: “10 Anos d’ESTAU”



EXPOSIÇÃO: “10 Anos d’ESTAU”
ESTAU - Estarreja Arte Urbana
Design expositive e projecto gráfico | Mistaker Maker - Plataforma de Intervenção Artística
Casa Municipal da Cultura de Estarreja
12 Set > 31 Out 2026


“As grandes escolas de Arte Plástica são os museus. Quisera um em cada cidade, em cada vila e em cada aldeia, para que o povo se elevasse na comunhão espiritual do belo.”
Professor Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina

Foi em 2016, na primeira edição do ESTAU, que aprendi a olhar para a Arte Urbana. Ou talvez seja mais exacto dizer que foi aí que aprendi a olhar para a cidade. Guiado por Lara Seixo Rodrigues, descobri que uma parede pode ser muito mais do que uma parede e que uma obra de arte pode não pedir apenas para ser contemplada, mas habitar um lugar, conversar com quem passa, escutar uma paisagem, acordar uma memória. Desde então, acompanhei religiosamente o ESTAU, regressando a cada edição com a expectativa de quem sabe que algo de misterioso e belo faz com que a cidade mexa — e, seguramente, alguma coisa dentro de nós mexa também. Vi paredes ganhar outras vidas, lugares esquecidos reencontrarem-se consigo próprios, histórias antigas descobrirem novas linguagens. E fui percebendo que esta é uma das grandes forças do ESTAU: acrescentar à cidade não apenas cor ou beleza, mas espessura. Histórias. Memórias. Significados. Fazer do território um livro que se pode percorrer a pé, onde cada esquina pode esconder uma narrativa e cada obra é uma possibilidade de ver de novo aquilo que julgávamos conhecer. Dez anos depois, Estarreja é também esse museu sem portas nem horários, onde a Arte se mistura com a vida e onde a cidade, sem deixar de ser cidade, se tornou lugar de descoberta.

Guardo imagens. Uma folha que se desprende da sua natureza para se transformar em pássaro. A precisão desconcertante de uma radiografia aberta sobre uma parede. Rostos que parecem querer libertar-se da pedra e conduzir o olhar para lá de si mesmos, até aos arrozais imensos, onde a paisagem se demora. Guardo conversas com artistas, tardes de trabalho, o silêncio de quem observa uma parede antes que ela deixe de ser apenas parede. Guardo também a surpresa de encontrar uma obra onde antes nada havia e a estranha sensação de que, depois dela, deixou de ser possível regressar ao lugar anterior. Foi assim que o ESTAU me ensinou que a Arte pode ser uma forma de pertença. É essa a razão pela qual, ao longo destes dez anos, tenha encontrado nele muito mais do que um festival: um ponto de encontro de vontades, de saberes, de geografias. E de pessoas. Um lugar onde o Baixo Vouga lagunar — a água, o arroz, o bunho, os barcos, os ofícios, as fábricas, as histórias — deixa de ser apenas património para se tornar matéria de criação. O ESTAU não inventou este território. Fez talvez algo mais difícil: ensinou-nos a reconhecê-lo. A aproximarmo-nos dele. A perceber que uma comunidade também pode construir a sua identidade através do seu imaginário.

E depois há o que desaparece. Há obras que já não estão lá. O tempo levou-as, a chuva gastou-lhes as cores, uma parede mudou, uma intervenção cumpriu o seu destino de ser passageira. E houve, confesso, alguma mágoa em vê-las desaparecer. Como se perdêssemos qualquer coisa que julgávamos nossa. Mas é justamente aí que a exposição “10 Anos d'ESTAU” começa a fazer sentido. Porque estas fotografias, estes objectos, estas imagens não são apenas documentos: são vestígios que nos surgem como que colados à pele. Pequenas provas de que estivemos ali. De que alguém criou, alguém olhou, alguém se emocionou. A memória tem também a sua própria arquitectura e, por vezes, aquilo que já não existe é o que mais profundamente permanece. Dez anos de ESTAU são, por isso, dez anos de marcas - algumas inscritas nas paredes, outras na paisagem, outras ainda, talvez as mais importantes, dentro de nós. Esta exposição é feita dessas marcas e das histórias que elas guardam. É uma exposição sobre o tempo, sobre a Arte e sobre a vida, mas sobretudo sobre aquilo que acontece quando as três se encontram. Porque uma cidade não é apenas aquilo que permanece de pé. É também aquilo que recordamos. E, se o ESTAU transformou Estarreja num museu a céu aberto, talvez a sua obra maior seja ter transformado também a nossa memória num lugar onde estas histórias continuamente acontecem.

sábado, 26 de agosto de 2023

LIVRO: "Muro"



LIVRO: “Muro”,
de João Pedro Vala
Conceito, curadoria, co-organização | Mistaker Maker
Ed. Fazunchar, Agosto 2023


“A Lara garante-me que o laínte está praticamente morto. Hoje todos os habitantes de Figueiró falam única e exclusivamente português, mas há momentos em que me custa a acreditar que falemos o mesmo dialecto. Começo a temer não ser fluente na minha língua-mãe.”

Lara. Laínte. Figueiró. Três palavrinhas num só parágrafo que importa descodificar, até porque nelas se condensa uma bela história. A história de um festival com o dedo de Lara Seixo Rodrigues, arquitecta acidental, apaixonada pelo espaço público e a grande impulsionadora da Arte Urbana em Portugal, que em Figueiró dos Vinhos encontrou condições e oportunidades para levar por diante um dos mais interessantes e estimulantes festivais de arte urbana do nosso País. Um Festival que conheceu a sua primeira edição em 2019 e que recebeu a designação de Fazunchar - cujo significado é “fazer” -, indo buscar o nome ao laínte, dialecto hoje em desuso mas que, durante muito tempo, foi utilizado pelos vendedores ambulantes de tecidos da vasta região do Pinhal Interior para comunicarem entre si sem que fossem entendidos. Mas que raio tem o Fazunchar a ver com este livro que hoje trago às páginas do blogue?

Tem tudo, devo dizer, desde logo porque é o resultado da residência artística de literatura promovida pela organização do Festival em 2022. E depois porque nele reside a história vivida e sentida de uma edição que voltou a combinar em doses iguais a arte e a festa, juntando a população local e os visitantes do festival em torno de um conjunto de manifestações artísticas de enorme valor e interesse, que isto do “Fazunchar” não é só “pintar paredes”. E aqui entramos directamente neste “Muro”, pequenino livro que me chegou às mãos via CTT, numa gentileza de Lara Seixo Rodrigues, a qual agradeço com emoção. Edição limitada a 50 exemplares apenas, o livro vem assinado e com dedicatória o que é, convenhamos, um verdadeiro luxo. O resto é aquilo que João Pedro Vala captou do espírito do Fazunchar, transpondo para as páginas do livro, de forma bem humorada, as emoções que o envolvem e que provam ser este muito mais do que um Festival.

Andar sobre este “Muro” é regressar a Figueiró dos Vinhos e àquilo que mais impressiona o visitante: Uma vila parada no tempo, desertificada, com muito pouco de impactante para além do grená que cobre a fachada da Câmara Municipal e a beleza do Casulo de Malhoa. Mas cujas estreitas ruas, escadinhas e becos sabe bem percorrer, lendo nas portas e nos muros as marcas do tempo. Das pessoas dá-nos conta João Pedro Vala: o senhor Alcides, a dona Célia, o senhor Eduardo, o senhor Zé, o senhor João, um freguês da tasca “cujo nome não decorei mas que a partir daqui designarei de Armando”. Também das aldeias em volta: Arega, Campelo, Aguda. O resto é o trabalho do Slim e do Tiago Hesp, da Arashida e do Lourenço Providência (a quem se deve a capa deste livro), do Taquen e da Alba, da Silly, do Juan e da Mariana, a Miserável, artistas de quem apetece dizer mal, “que nos irritam por saberem desenhar melhor do que nós.”. Depois de ter estado nas quatro primeiras edições do Fazunchar, “furei” a edição deste ano. Não fui ao Fazunchar, mas veio o Fazunchar até mim sob a forma de um livro terno e sensível, a denunciar um olhar arguto e um enorme apreço pelo valor das coisas, mesmo as mais simples. Espero voltar a Figueiró em 2024. “Deus queira, caralho.”

terça-feira, 6 de setembro de 2022

CERTAME: FAZUNCHAR 2022


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CERTAME: FAZUNCHAR 2022
Figueiró dos Vinhos
13 Ago > 21 Ago 2022


Em Laínte, dialecto outrora usado pelos comerciantes de lanifícios da zona de Figueiró dos Vinhos, “fazunchar” tinha por significado “fazer”. Recuperar a expressão e dar-lhe sentido nos dias que correm foi o desafio que o Município de Figueiró dos Vinhos lançou em 2019 à Mistaker Maker, Plataforma de Intervenção Artística sedeada em Lisboa e fundada por Lara Seixo Rodrigues. É este o ponto de partida de um Festival “onde a arte faz a festa” e que vem apostando na promoção de um diálogo alargado e multilateral entre as mais variadas formas de arte e toda uma comunidade. Perceber a forte identidade de Figueiró dos Vinhos, a riqueza do seu património natural, histórico, arquitectónico e gastronómico, corporizando-o, espelhando-o e exaltando-o mediante uma infinidade de expressões artísticas, acrescentando-lhe novos valores de memória, de autenticidade, originalidade, raridade ou exemplaridade, tal tem sido o grande desígnio dos mentores de uma iniciativa que se afirma, quatro anos passados, como uma marca forte e credível, capaz de gerar visibilidade sobre si própria e sobre um território com tanto para oferecer.

Um pouco à semelhança dos anos anteriores, esta edição do FAZUNCHAR fez assentar a sua programação num valioso conjunto de murais, quiçá a face mais visível do Festival, mas também em instalações, residências artísticas, exposições, workshops, conversas, visitas guiadas, concertos e ainda três acções comunitárias de grande simbolismo e alcance: A “Vila Florida”, que trouxe mais cor e vida às praças e ruas de Figueiró dos Vinhos, o Jornal de Cordel e o incontornável Piquenique. À exposição “Esquecidos”, de Francis.co, e ao concerto de Silly, dediquei, muito recentemente, apontamentos particulares no espaço do blogue. Falarei agora dos murais, do que representam em termos de um espólio que, a cada ano que passa, cresce em número e qualidade, gerando riqueza e beleza e atraindo um número crescente de indefectíveis da Arte Urbana ou de simples curiosos. Antes, porém, deixaria uma palavra a Lara Seixo Rodrigues e à sua equipa pela forma apaixonada como fazem acontecer o Festival, pelo calor e entusiasmo em torno de uma peça ou de um simples detalhe, pelo amor a Figueiró dos Vinhos e àqueles que a visitam.

Quanto aos murais, houve de novo a preocupação de reparti-los entre o coração da Vila e as suas freguesias. Campelo, com os anteriores trabalhos de Mantraste, Third e ainda as sete “miniaturas” de Helen Bur é, cada vez mais, o “satélite” de referência do Festival. Foi aí que o artista portuense Lourenço Providência desenvolveu o seu trabalho, ao qual chamou, justamente, “Campelo”, homenageando a localidade naquilo que tem de mais belo e simples: a candura do casario, os viveiros de trutas que voltam a ganhar vida, a pacatez das suas gentes, as aves no seu voo corrido, um sol que pode também ser lua ou mesmo “um caracol que apareceu no último dia sobre o mural para ajudar a resolver uma parte do mesmo”. Foz de Alge, no extremo sul do concelho, viu o espanhol Taquen entregar-se de corpo e alma à peça que designou por "Garças-reais: sobre a vida lenta, as viagens distantes e o trabalho em equipa”. Nela se condensa um conjunto de reflexões sobre a importância de fazermos juntos o caminho, de sabermos que há um momento para nos determos e outro para recomeçar. “Sempre em companhia, sempre com alguém.”

Antes de adentrarmos a Vila, façamos um pequeno desvio por Aguda onde Tiago Hesp, vencedor da convocatória lançada nesta edição do FAZUNCHAR e que desafiava a comunidade artística a apresentar propostas que trabalhassem especificamente a identidade desta freguesia, nos dá a ver “A Uva e a Vinha – sobre o brasão de Aguda”. Tal como o nome indica, a grande inspiração foi o brazão desta freguesia de Figueiró dos Vinhos, com os seus incontornáveis ramos de videira e cachos de uva, o verde e o roxo como cores predominantes. Um trabalho de enorme beleza que trava um curioso diálogo com a peça produzida por THE CAVER em 2020, ali bem próxima. Entremos agora na Vila de Figueiró e deixemo-nos surpreender pelo talento de Slim Safont e por essa extraordinária mensagem de partilha e encontro entre gerações, em comunhão com a natureza. A peça chama-se “Gerações” e não deixa ninguém indiferente, o mesmo acontecendo com “A Luz de Malhoa”, da autoria de Alba Fabre Sacristán, mural de grandes dimensões que pontua outra das entradas na Vila, desta feita numa parte mais a sul. Registando um momento captado num dos belos recantos da Ribeira de Alge, esta peça é, em si mesma, uma lição de pintura, onde a cor e a luz assumem o valor do ADN de um espelho de água que se estende e desdobra em reflexos mil.

Não nos despediremos de Figueiró dos Vinhos sem visitar as quatro propostas que faltam para completar a oferta de mais uma edição de enorme qualidade e variedade. Regressando a Lourenço Providência, depois do seu trabalho em Campelo, sobrou tempo (e tinta) para homenagear ao seu jeito a colectividade mais antiga do Concelho, a Filarmónica Figueiroense, deixando a sua arte numa das fachadas do edifício. Na fachada da Câmara Municipal, a artista plástica brasileira Arashida deixou-nos “A Recompensa”, belíssimo painel colorido que, com “A Liberdade” e “O Caminho”, instalados numa lateral do Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos e numa esquina da Casa da Cultura, constituem a sua interpretação revista e actualizada sobre a lenda local “As Seis Donzelas”. Mariana, a miserável deixou-nos um belíssimo painel de azulejos intitulado “Companheiro” e que se assume como um “tributo ao pão” (mas também à paz, à habitação, à saúde, à educação…). Finalmente, Juan Rivas trouxe-nos de Espanha a sua arte miniatural, conjunto de oito mini-murais dispostos em árvores, postes elétricos ou sinais de trânsito e que enriquecem o olhar sobre os espaços em que se inserem. Pode ser este o ponto de partida de uma “caça ao tesouro” onde, o mais difícil, será mesmo descobrir o legado completo de quatro anos de FAZUNCHAR.

terça-feira, 23 de agosto de 2022

PROJECTO: ESPORO Disseminação Cultural e Artística


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PROJECTO: ESPORO Disseminação Cultural e Artística
Figueiró dos Vinhos, Ansião, Proença a Nova
Vários locais
Janeiro a Outubro de 2022


Ansião, Figueiró dos Vinhos e Proença a Nova uniram esforços e puseram de pé o projecto ESPORO Disseminação Cultural e Artística que visa a conservação, protecção, promoção e desenvolvimento dos patrimónios naturais e culturais destes municípios. Financiado por fundos da União Europeia, o ESPORO assume-se, de acordo com os seus promotores, “como uma semente que ambiciona a criação de novos olhares e percursos sobre o território, na relação da arte com a natureza e de ambas com a comunidade”. Alavanca para a (re)descoberta destes territórios, novo referente para esta vasta região que toca os distritos de Leiria e Castelo Branco, o ESPORO arrancou oficialmente no início do ano e teve, no fim de semana de 15 a 17 de Julho, um dos seus pontos mais altos, com a apresentação da Rota ESPORO e a revelação dos resultados do desafio lançado a um grupo de artistas plásticos e visuais que deixaram, mediante abordagens conceptuais e estéticas muito diversas, os seus olhares sobre os vastos espaços do Pinhal Interior.

±MaisMenos±, Bosoletti, Colectivo Til, João Louro, Maria Ana Vasco Costa, Mariana Vasconcelos, NeSpoon, Pedro Gramaxo, Rui Gaiola, Ruído, Sawu e Tiago Francez são os responsáveis por um conjunto de doze intervenções / instalações “site specific”, em diversos formatos, medidas e temporalidades, que se estendem por múltiplos lugares, das Fragas de São Simão à Foz de Alge, dos Moinhos do Outeiro à Mata Municipal de Ansião ou do Miradouro das Corgas à Ribeira do Vale d’Água. O visitante interessado em apreciar todas as propostas artísticas deve prever um mínimo de dois dias para o fazer, contando que a distância que separa os dois pontos mais afastados da rota ronda a centena de quilómetros e são muitos os desvios a fazer para uma visita aos locais. Adiantando, desde já, que resumi a minha experiência pessoal a quatro pontos da rota, o mínimo que posso dizer é que a experiência se revelou extraordinária, não só pela qualidade intrínseca das peças visitadas como, sobretudo, pela forma como dialogam com o espaço envolvente e obrigam a uma reflexão sobre um conjunto de questões que estão na ordem do dia.

Colina verdejante à sombra da qual se abriga Figueiró dos Vinhos, o Cabeço do Peão acolhe “SEME”, do artista argentino Bosoletti. Conhecido dos figueiroenses pelos extraordinários murais que cobrem duas paredes na Travessa da Cadeia, bem no coração da vila, Bosoletti virou-se desta vez para a floresta como um todo, provida de “uma grande alma, silenciosa e imóvel”, onde “devemos entrar com ponderação, audição, como num santuário”. Apesar de tudo abrigar, de tudo escutar, de conservar todos os silêncios, a floresta é um espaço profundamente indefeso, vulnerável à acção do homem, aos seus desmandos, à sua mão criminosa. Percebendo isto, não podemos deixar de ver nas três pinturas em madeira que compõe a instalação de Bosoletti uma representação de nós próprios e da nossa impossibilidade em escapar ao sofrimento que nos é infligido. Na linha do fogo que avança num rugido ensurdecedor e semeia a devastação, como reagiríamos na nossa imobilidade de árvores? Quão dilacerantes seriam os nossos gritos? Perante a morte iminente, qual a dimensão da nossa dor?

Ainda no concelho de Figueiró dos Vinhos é possível visitar duas outras propostas, a primeira das quais bem no centro da vila, ocupando a fachada de um prédio da Rua Dr. José Martinho Simões. Trata-se de “Perspectivas” e é uma exposição de fotografia de Rui Gaiola, autor de uma intervenção do mesmo género num prédio na Covilhã. Resultado de um extenso registo fotográfico realizado durante praticamente um ano, a mostra surge condensada em cinco imagens de grandes dimensões que oferecem uma perspectivas de conjunto sobre este território mais alargado do Pinhal Interior. Num lavadouro público da pequena aldeia de Foz de Alge, Tiago Francez propõe-nos “ExHumus I”, peça através da qual o artista assume a Ribeira de Alge como a coluna vertebral da região e nos diz até que ponto as estruturas se deterioram até à sua completa desagregação. A última peça de que falo encontra-se no vizinho concelho de Ansião, na localidade de Casal Soeiro, em pleno Caminho de Fátima e Caminho de Santiago, que aqui coincidem. Chamada “Capela”, é uma instalação de grandes dimensões, da autoria da polaca Nespoon, a partir de rendas tecidas por rendeiras portuguesas. Com ela, a artista permite transmitir inspiração e serenidade aos milhares de peregrinos que atravessam o trilho, contribuindo para uma momento de alívio do seu esforço e de reflexão sobre a beleza da vida.

[Saiba mais sobre o ESPORO Disseminação Cultural e Artística em https://www.esporocultura.com/]

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

CERTAME: FAZUNCHAR '21


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CERTAME: FAZUNCHAR 2021
Figueiró dos Vinhos
14 > 22 Ago 2021


Ao longo de uma semana, a Arte e a Festa passearam-se de mãos dadas por Figueiró dos Vinhos. Abriram-se num sorriso em murais plenos de cor e alegria, acenaram de varandas e janelas em pequenas e enigmáticas estatuetas, ofereceram-se num abraço em desenhos e fotografias, espalharam harmonia e ritmo em dois magníficos concertos, deram-se a partilhar em workshops, conversas com os artistas e visitas guiadas e, num final em grande estilo, foram saberes e sabores num piquenique de todos e para todos. Desta forma se pode resumir aquilo que foi a terceira edição do FAZUNCHAR, o Festival de Arte Urbana de Figueiró dos Vinhos, evento apostado em promover e dinamizar o território e que, apesar da sua curta existência, ocupa já um lugar muito especial no coração dos figueiroenses.

Co-organizadora e curadora do evento, a Mistaker Maker – Plataforma de Intervenção Artística mostrou-se particularmente ambiciosa nesta edição do FAZUNCHAR, chamando a Figueiró dos Vinhos um conjunto de figuras destacadas no panorama da Arte Urbana a nível mundial. São os casos do argentino Bosoletti, da francesa Perrine Honoré e dos espanhóis Elisa Capdevila e Isaac Cordal, aos quais se devem acrescentar os portugueses Samina, Third e Pantónio. Sete nomes para sete projectos de enorme qualidade e impacto, que se vêm juntar aos projectos das duas edições anteriores e que afirmam a vila e seus arredores como “um caso sério” no panorama dos Festivais de Arte Urbana no nosso País.

Bosoletti e a sua forma singular de representar a memória estão bem expressos em duas obras que ocupam fachadas da Travessa da Cadeia e que parecem dialogar entre si. Em tons de cinza pouco contrastados, as duas peças encerram um enigma que obriga a que o espectador mergulhe fundo em cada uma delas em busca da sua essência. O resultado é surpreendente e digno da mais viva admiração e aplauso. Na Avenida Marçal Pires Teixeira, Pantónio dá-nos a sua visão de um mundo cujos reinos se fundem no leve baloiçar de uma folha ao vento e no delicado esvoaçar de uma libelinha. A pintora e muralista Elisa Capdevilla devolve-nos “um passeio da catequese”, uma memória com várias décadas de existência recuperada com uma boa dose de talento e muito amor. É na Avenida Padre Diogo de Vasconcelos, no mesmo local onde até há bem pouco tempo foi possível apreciar uma instalação de Aheneah.

As quatro freguesias do município de Figueiró dos Vinhos não ficaram esquecidas e foram brindadas, cada uma delas, com uma nova peça. Trabalhando numa parede da Junta de Freguesia de Campelo, Third deixou-nos a sua interpretação do quadro de Malhoa “Embraçar cebolas”. Em Almofala de Baixo, na freguesia de Aguda, José Malhoa, juntamente com Henrique Pinto, volta a ocupar lugar de destaque num trabalho multicolorido com a assinatura de Perrine Honoré. Nele podemos encontrar praticamente todos os elementos distintivos do território, com destaque para o Laínte, dialecto local caído em desuso mas que representa um património imaterial que urge preservar. Em Arega, Samina trocou o habitual vermelho das suas composições por um amarelo vivo, rendendo homenagem à mulher do campo. Por fim, nas Bairradas, junto à igreja, Mariana Duarte Santos devolve-nos outra memória muito forte das gentes de Figueiró, a festa do Bom Jesus da Sobreira que tem lugar no fim de semana seguinte à quinta-feira de Ascensão.

À semelhança de cidades como Nova Iorque, Bogotá, Amesterdão ou Taipei, Figueiró dos Vinhos recebeu um conjunto de pequenas esculturas do espanhol Isaac Cordal, numa instalação que fala de timidez, constrangimento e solidão num mundo cada vez mais global e menos solidário. São vinte e uma miniaturas no total e o desafio é descobri-las todas. O resto foi, como li no Jornal de Cordel, “o Fred a bombar, a Amaura a cantar, o Miguel a fotografar, o Francis.co a desenhar, a Rute a versar (…)”, mas sobre a Amaura e a Rute falarei “já a seguir” em detalhe, em artigos separados aqui no blogue. E por falar em “Jornal de Cordel”, este foi o recuperar de uma tradição que teve o condão de manter actuais os múltiplos desenvolvimentos do Festival e que foi amplamente consultado pelos locais e gentes de passagem. No final, uma pergunta que é também um convite: “Jordamos atilém ao cadéfe bercher um moiteira copio?”

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

CERTAME: WOOL | Festival de Arte Urbana da Covilhã 2020


 
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CERTAME: WOOL | Festival de Arte Urbana da Covilhã 2020
Vários locais, Covilhã
19 Set > 27 Set 2020


Um pouco mais tarde do que o habitual devido à actual pandemia, o WOOL – o mais antigo Festival de Arte Urbana de Portugal – regressou à Covilhã, instalando-se no seu centro histórico entre os dias 19 e 27 de Setembro. Seguindo o modelo habitual, a organização do certame convidou quatro criadores - dois nacionais e dois estrangeiros – cuja obra, para além de enriquecer o legado das edições anteriores, reforçou o objectivo de homenagear a história e identidade única deste território. Lara Seixo Rodrigues e a equipa da Mistaker Maker estão uma vez mais de parabéns pelo excelente trabalho desenvolvido, continuando a somar ideias, a congregar interesses, a apontar caminhos e a cativar adeptos para este fascinante mundo da Arte Urbana.

No Largo Infantaria 21, em diálogo franco com a peça criada por Sebas Velasco em 2019, o ilustrador Tiago Galo presta tributo à Banda da Covilhã, este ano a soprar centena e meia de velas. No seu jeito muito peculiar de se exprimir, o artista junta à regência da banda os naipes de sopro e percussão, oferecendo-nos uma peça fortemente estilizada, muito rica do ponto de vista visual e que transpira energia e animação. Catarina Glam expõe a sua arte em seis locais distintos da cidade. Usando a madeira como suporte principal, a artista desenvolveu peças de design multi-dimensionais cuja identidade convoca as mais variadas narrativas, colocando-as “à janela” de prédios devolutos e promovendo, desta forma, a sua interacção com o habitante local ou com o visitante ocasional.

No Largo Dr. Valério de Morais, à vista da peça de SAMINA que representa José Carlos Campos, o icónico “Sr. Viseu”, três figuras da terra impõem-se na fachada de um edifício: Entre os dois progenitores, um jovem com um vibrante vestido vermelho e de ar altivo parece desafiar quem passa. O espanhol Jofre Oliveras quis chamar a atenção para o preconceito de género que continua a grassar na nossa sociedade mas este é um trabalho cuja leitura não se esgota no tema, assentando num projecto mais vasto de recolha em colaboração com a fotógrafa Lucia Herrero e cujo resultado a organização espera poder desvendar na íntegra na edição de 2021, quando o WOOL celebrar uma década de vida. Finalmente, na Rua dos Bombeiros Voluntários, não muito longe da incrível peça de Bosoletti, o espanhol Alberto Montes oferece-nos um mural de grande beleza, num austero preto e branco, marcado pela relação geométrica das formas que o compõem e onde se percebe o trabalho agrícola como um vínculo forte entre as pessoas e todo o vasto interior do país.

Mas esta edição do WOOL foi muito mais do que o trabalho dos quatro artistas referidos. Entre visitas guiadas, workshops, uma exposição de fotografia intitulada “Serra ao Alto”, de Rui Gaiola, e as usuais conversas com artistas, destacaria dois momentos relevantes e sobre os quais falarei detalhadamente aqui no blogue nos próximos dias: o documentário de Selina Miles, “Martha: A Picture Story”, exibido no Salão da Banda da Covilhã na passada sexta feira à noite; e ainda, no mesmo local mas no dia seguinte, a apresentação do livro de fotografia de viagem e paisagem “I Wish I Could Drive These Roads Forever”, de Rui Gaiola. Em jeito de balanço, resta acrescentar que uma visita à “cidade neve” por altura do WOOL é sempre um prazer e a edição deste ano, apesar de todas as restrições, não foi excepção. Empenho, rigor, qualidade, disponibilidade e simpatia continuam a ser imagens de marca de um evento que tudo faz para agradar a todos e que insiste em trazer a Arte para a rua e em mostrá-la das mais variadas formas a todos os públicos.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

INICIATIVA: Sebenta da Quarentena



INICIATIVA: “Sebenta da Quarentena”
Vários Artistas
Mistaker Maker – Plataforma de Intervenção Artística 


“(…) Esta Sebenta da Quarentena não é uma mera sebenta com ideias de como aproveitar muito bem o seu tempo, durante os próximos dias na sua casa. 
Esta Sebenta da Quarentena é sim, a forma mais simples e sentida que nós (40 autores e mais alguns) arranjámos, de lhe dizermos que nos preocupamos consigo (sim consigo!).
Esta Sebenta da Quarentena foi o modo que arranjámos de, ao longe, espalhados um pouco por todo o País, lhe dizermos que estamos por perto, bem perto de si!”


Falar da “Sebenta da Quarenta” é falar, sobretudo, de um gesto de amor e de dádiva em tempos de pandemia. Mas é falar, também, dos restantes vértices de um triângulo em cujo centro vamos encontrar algumas das pessoas mais esquecidas pela nossa sociedade, precisamente os mais idosos. Daí que valha a pena começar por contar um pouco da história do projecto LATA 65 e da Mistaker Maker - Plataforma de Intervenção Artística, causa e efeito de dinâmicas muito próprias que não só fomentam a aproximação dos menos jovens a formas de expressão habitualmente associadas aos mais novos, como demonstram que conceitos como envelhecimento activo e solidariedade intergeracional fazem cada vez mais sentido.

LATA 65 é uma iniciativa para idosos no âmbito da arte urbana, na sua génese desenvolvida pelo WOOL | Covilhã Arte Urbana em parceria com o CoworkLisboa. Surgiu em 2012, da espontânea constatação, a cada nova intervenção realizada pelo WOOL, da simplicidade e naturalidade com que a arte urbana atingia todas as faixas etárias. Na Covilhã, a realidade mostrou que foram sobretudo os mais idosos que se transformaram em companheiros e espectadores de todas as horas, constatando com entusiasmo que a cidade recuperava a sua cor. Daí, ao lançamento do projecto LATA 65 – sob a forma de um workshop ministrado em ambientes de trabalho totalmente descontraídos, ideais para a aprendizagem das mais variadas técnicas de intervenção nas ruas, em trabalho directo com alguns dos melhores artistas urbanos da actualidade –, foi um pequeno passo. São já mais de meia centena as acções levadas a cabo até hoje, em lugares tão distintos como Ponta Delgada, Seixal, Fundão, Estarreja, Amadora, Figueiró dos Vinhos. S. Paulo (Brasil), Valência (Espanha), Houston (Estados Unidos) ou Aberdeen (Escócia). Mais de 500 pessoas têm o seu nome ligado ao LATA 65, a mais idosa das quais com 102 anos, o que prova que a idade é apenas um número.


Entretanto, a pandemia obrigou a repensar muita coisa. Aprisionados nos lares ou nas suas próprias casas, os idosos viram as suas rotinas alteradas, as suas iniciativas condicionadas, o seu tempo manietado, o seu ânimo esmorecido. O LATA 65 teve, também ele, de se confinar. Mas o pensamento tem raízes fundas, daquelas que nenhum machado consegue cortar. Lara Seixo Rodrigues e a Mistaker Maker não sabem estar parados e quiseram que os seus idosos, que todos os idosos de todo o mundo, não ficassem parados também. Convidaram os seus amigos artistas a contribuirem cada um com uma página, apenas uma, que fosse um desafio e pusesse as pessoas a mexer. Fiéis ao termo “quarentena”, criaram uma Sebenta na qual participaram quarenta artistas (e mais alguns) de múltiplas áreas. A ideia é colorir, rir, exercitar-se, escrever, declarar-se e tudo o mais que possa passar pela cabeça de qualquer pessoa. As imagens podem ser descarregadas acedendo à página da “Sebenta da Quarentena” [AQUI], trabalhar ao gosto e ao jeito de cada um e partilhar  o resultado através do email info@mistakermaker.org ou do telemóvel 916 109 764. Agora é tempo de pôr mãos à obra. E não se esqueça de envolver também os seus filhos, sobrinhos ou netos, nesta tão fantástica quanto necessária missão!

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

ARTE URBANA: Helen Bur


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ARTE URBANA: Helen Bur
Fazunchar 2020
Vários locais, Figueiró dos Vinhos


Em tranquila caminhada ou num passo mais ligeiro, quem percorre as ruas de Figueiró dos Vinhos não pode deixar de se deparar com o trabalho que a britânica Helen Bur espalhou pela vila, no que pode ser visto como uma das mais belas heranças da segunda edição do Fazunchar. Trata-se de figuras de pequena escala que retratam pessoas da terra ou visitantes ocasionais, sempre de costas, pintadas com minúcia nos locais mais diversos, sejam eles a ombreira de uma porta, o cimo de uma escadaria ou a esquina de um coreto. No seu traço preciso, atenta ao mais ínfimo detalhe, Helen Bur faz do acto de criação uma homenagem à vida naquilo que de mais simples tem para oferecer, transformando em arte os gestos banais do quotidiano. Os quais apreciamos, nos quais nos revemos.

Percorrer o trabalho da artista é folhear as páginas de um livro que bem podia chamar-se “Helen no País das Maravilhas”. Observar cada uma destas pequenas peças é mergulhar em pedaços de vida que, para além da história implícita que os liga a um momento preciso e que, na maioria dos casos, podemos apenas intuir, remetem para as nossas próprias vivências. Não isento de humor, o seu trabalho resulta na fusão da arte com a vida, convocando memórias e, de forma implícita, concorrendo para a construção de narrativas, as mais das vezes delicadas e sensíveis, sobretudo fecundas e livres. Afinal, quem nunca se abrigou sob um guarda-chuva, carregou um filho sobre os ombros, passeou de mochila às costas ou, pontualmente, foi obrigado a usar uma canadiana?

Importa dizer que este “livro” oferece dois capítulos: um que podemos designar por “Figueiró dos Vinhos” e outro chamado “Campelo”, uma freguesia deste concelho do Pinhal Interior e que mereceu, igualmente, a atenção de Helen. No primeiro, são dezasseis as páginas a folhear, às quais se juntam seis no segundo capítulo. A grande particularidade deste “Helen no País das Maravilhas” é que as páginas não estão numeradas, o que faz dele um convite à descoberta ou, se assim o quisermos, uma “caça ao tesouro”. Aos mais curiosos e interessados em conhecer na íntegra o legado de Helen Bur pede-se muita atenção. Pode suceder que só à segunda ou terceira passagem por um mesmo local sintam a emoção da descoberta. Entretanto, muito mais descobrirão, certamente: uma cruz de ferro oitocentista, batentes de porta que são verdadeiras obras de arte, reminiscências do medievo na arquitectura da vila, belíssimos miradouros e fontanários, murais e cartazes resultantes de duas edições do Fazunchar. Tudo isto sob o olhar atento de uma catrefada de gatos.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

CERTAME: FAZUNCHAR 2020


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CERTAME: FAZUNCHAR 2020
Figueiró dos Vinhos
15 > 23 Ago 2020


Linguagem exclusivamente oral, utilizada pelos vendedores ambulantes de tecidos da vasta região do Pinhal Interior para comunicar entre si sem que fossem entendidos, o Laínte há muito que caiu em desuso. Dele chegam ecos aos nossos dias sob a forma de palavras soltas que despertam a curiosidade e estimulam a imaginação. Estão neste caso o “artife” e a “loreta”, que designam, respectivamente, o “pão” e a “água”. Da mesma forma estão a “broca”, que no caso é “casa”, a “dronha” que é “dinheiro”, o “ladrilho” que é “ladrão” ou a “pissalta”, na verdade a “rapariga”. Está também “fazunchar”, estranha palavra que ressoa aos ouvidos como se de música se tratasse e que, significando “fazer”, se torna em força motriz de um projecto “onde a arte faz a festa” e que envolve, num abraço, gentes, território, cultura e tradições. Pelo menos em Figueiró dos Vinhos assim é, desde que o Fazunchar aqui assentou arraiais em 2019. Para melhor percebermos o conceito, sigamos os passos da curadora Lara Seixo Rodrigues numa Visita Guiada ao encontro de murais, pinturas de montras, cartazes, concertos, conversas com os artistas e o muito mais que as duas primeiras edições do certame fizeram desabrochar. Mas antes, “jordamos atilém ao cadéfe bercher um moiteira copio?” (“vamos além ao café beber um copo de vinho?”).

Do lado de cá da rua, situa-se o antigo Clube Figueiroense, hoje Casa da Cultura e que foi, ao longo de nove intensos dias, o Quartel-General do Fazunchar. Do outro lado, um pouco abaixo, está o Casulo de Malhoa. Entre os dois edifícios, há toda uma história com mais de um século de existência e memórias que têm a uni-las os pintores José Malhoa e Henrique Pinto e os escultores Simões de Almeida, tio e sobrinho. Esta convergência de nomes, numa terra onde tudo é perto de tudo, faz com que neles tropecemos a cada passo numa visita que teve na pintura de Malhoa, “Clara” (1903), o seu ponto de partida. Não a “Clara”, uma das mais belas obras do naturalismo português e que podemos apreciar no Museu e Centro de Artes de Figueiró dos Vinhos, ali logo ao lado; mas a “Clara”, do pintor e muralista espanhol Julio Anaya Cabanding, cujo trabalho assenta, em grande medida, na reprodução de quadros célebres em contexto de Arte Urbana, desmistificando a visão de que os “clássicos” apenas aos museus pertencem. Esta ligação a Malhoa irá surgir nos mais diversos contextos e suportes, como é o caso da reinterpretação que seis dos maiores ilustradores nacionais – Ana Seixas, André da Loba, André Letria, Mariana Rio, Margarida Girão e Tiago Galo – fizeram de obras de Malhoa e cujos cartazes, espalhados há um ano pela vila, mantêm um interessante diálogo com os locais ou com o visitante ocasional.

Num sobe e desce constante, enigmáticas ou óbvias na sua toponímia, as ruas, quelhas, vielas e travessas vão-se sucedendo. As peças também. Junto à Torre da Cadeia, os ADAMASTOR trabalham ainda na sua versão da Lenda do Penedo da Trombeta enquanto, um pouco mais abaixo, Mohamed L’Ghacham parece querer-nos dizer que, por detrás da “bárbara” matança do porco, há todo um ritual de união e partilha cuja ancestralidade atesta a sua importância na vida das comunidades mais pequenas. Ali ao lado, Draw & Contra estão a terminar a sua visão de José Malhoa, a partir de um retrato de época que mostra o pintor abrigado do sol por um enorme guarda-chuva, segurando a paleta e os pincéis com a mão esquerda. Dirigindo os nossos passos para a Travessa do Jasmineiro, de onde chegam os acordes musicais que prenunciam o concerto de Surma agendado para essa noite, vemos que Tamara Alves acaba de nos deixar uma ninfa de cores sombrias, inspirada no baixo relevo “As Ninfas do Mondego” (1905), de Simões de Almeida (sobrinho).

Continuando a descer, chegamos ao edifício dos Paços do Concelho, o coração da vila, daí seguindo até ao início da Avenida Padre Diogo de Vasconcelos. Em plena rotunda, os Half Studio deixaram-nos a obra “Para Sempre”, um belo exemplar de “lettering” que, mais do que remeter para o Grupo do Leão, ao qual Malhoa e Henrique Pinto pertenceram, parece funcionar como um incitamento à coragem e à resiliência face aos tempos difíceis que atravessamos. A visita está a chegar ao fim e a interpretação de Aheneah de uma mulher do campo, intitulada “Semear”, vem recordar-nos que tudo começa com uma semente, a qual, lançada apenas no ano passado, prova ser forte e resistente, mostrando já saborosos frutos. Por conta e risco de cada um, importa rumar a poente onde, à entrada da vila, o grego Dmitris Taxis trabalha numa minuciosa reprodução de uma imagem colhida nas Fragas de S. Simão. [Propositadamente, omiti o projecto Lata 65 e a sua ligação à Sebenta da Quarentena, assim como Helen Bur e o seu trabalho, com o qual nos cruzámos algumas vezes ao longo do percurso. Deles irei falar separadamente em próximas crónicas aqui no blogue].

Surma e a sua música hipnotizante tomou conta da noite e escutá-la em sintonia com as intervenções de Tamara Alves no seu mural foi mágico. Nos sonhos de uma noite de verão, os jasmineiros floriram, embalando-nos com o seu perfume e recuperando-nos para um novo dia que se revelou intenso e recheado de belas surpresas. Às 09h30 tinha início a “Rota dos Fregueses”, um passeio em autocarro pelos arredores de Figueiró dos Vinhos que, a par da apreciação do trabalho de quatro artistas convidados que proporcionou, mostrou o quão significativo e enriquecedor pode ser este esforço de descentralização. Na Arega, Doa Oa “reflorestou” de gilbardeiras as paredes do mercado local, trabalhando com enorme detalhe e sensibilidade. Na Aguda, THE CAVER representou a terra e as gentes de forma estilizada, convidando cada visitante a fazer a sua própria interpretação do mural. Em Campelo, Mantraste recuperou histórias em torno dos viveiros de trutas, verdadeira atracção até há muito pouco tempo, realçando a palavra “cuidar”, em contraponto à situação de abandono que se percebe um pouco por todo o lado. Também em Campelo, Helen Bur voltou a mostrar a sua arte e a deixar preciosos apontamentos espalhados pela aldeia A derradeira noite chamou ao Auditório da Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos um apreciável número de espectadores que, ao som dos Cassete Pirata e da sua mensagem interventiva, fizeram a festa.

O domingo acordou luminoso e a prometer calor, o que viria a confirmar-se com o avançar do dia. Os nossos passos começaram por nos levar até ao Mercado Municipal de Figueiró dos Vinhos onde, numa das suas paredes exteriores, encontramos afixada uma ampliação do rolo de 7,5 metros, da autoria de Nuno Sarmento onde, num magnífico registo de “urban sketcher”, se conta a história da primeira edição do Fazunchar. Trata-se de um trabalho incrível, que atesta a qualidade do traço do artista e o seu enorme poder de observação, e cujo original pode ser vista na sala de exposições do piso superior do Museu e Centro de Artes. Depois, embarcando num percurso extraordinariamente bem delineado através do centro urbano de Figueiró dos Vinhos, foi tempo de dar “uma volta à vila, à volta dos quatro artistas” que atrás mencionei e descobrir os pormenores que, no fio do tempo, ligam histórias de ontem e de hoje. Uma visita ao Casulo de Malhoa e ao Museu completou o programa cultural de um fim de semana riquíssimo de interesse e conhecimento. Para o fim ficou o Piquenique Comunitário, no espaço refrescante do Jardim Municipal, um tempo feito de partilha que prolongou esta festa das artes e das gentes, cravando-a para sempre nos nossos corações. As últimas palavras são para a alma deste projecto, Lara Seixo Rodrigues e para a Mistaker Maker – Plataforma de Intervenção Artística. Fábrica de ideias em plena laboração vinte e quatro horas por dia, ela tem uma capacidade de organização e de trabalho notável, mostrando na prática o valor da expressão “o céu é o limite”. Para tanto, basta acreditar.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

CERTAME: FAZUNCHAR 2020



ARTE URBANA: FAZUNCHAR 2020
Figueiró dos Vinhos
15 Ago > 23 Ago 2020


Contagem decrescente para a segunda edição do FAZUNCHAR – Onde a arte faz a festa. A partir do próximo sábado e até ao dia 23 de Agosto, a Arte Urbana volta a tomar conta de Figueiró dos Vinhos, no distrito de Leiria, espalhando formas e cores pelas ruas da vila e estendendo-as às freguesias de Aguda, Arega e Campelo. Com organização e curadoria da MISTAKER MAKER – Plataforma de Intervenção Artística, o FAZUNCHAR 2020 traz com ele, para além dos habituais murais, um conjunto de iniciativas onde se destacam, entre outros, residências artísticas, workshops, visitas guiadas, exposições, cinema e música.

Começando pelos murais, a britânica Helen Bur promete espalhar a sua arte pelo centro histórico da vila, procurando, de forma poética, dar um cunho global ao seu universo muito pessoal assente no diálogo entre as artes e as gentes. O polaco Dimitris Taxis é outro dos grandes nomes desta segunda edição, prometendo explorar essa luta interior e constante que o desassossega e que é imposta quotidianamente pela sociedade sob as mais variadas formas. De Espanha vem Doa Oa, trazendo com ela o seu projecto “Reflorestar” e essa necessidade urgente de reconhecer e respeitar o entorno natural e a importância de despertar nas consciências de cada um a ideia de que somos parte de um todo.

Membro integrante e co-fundador do Colectivo RUA, o português Frederico Draw vai voltar a usar as latas de spray como se fossem lápis para nos oferecer composições intensas e muito belas. Também Tamara Alves promete uma presença fortíssima em Figueiró dos Vinhos com a sua linguagem plástica a vincar o enorme fascínio que nutre pela estética de contexto urbano. The Caver é um artista português que vemos representado em muitas das nossas cidades e que aqui irá deixar a sua marca feita de formas simples e de cores harmoniosas. Por fim, Mantraste é sobretudo um ilustrador e será muito interessante ver como expressará, em ambiente urbano e em suportes bastante diferentes daqueles a que está habituado, o seu gosto pela natureza e por um certo misticismo popular.

O desenho e a ilustração estarão na base da residência artística de Francis.Co, enquanto Surma concentrará as suas atenções na composição musical, ela que é, reconhecidamente, um dos maiores valores da nova música portuguesa. Outra das residências artísticas é dedicada à fotografia, com Rute Ferraz a mostrar de que forma privilegia o contacto com as pessoas e as suas histórias. Finalmente, o vídeo, através de Vasco Mendes, cujo trabalho cruza música, ritmo, arquitectura e cinema. Orientado por Adamastor, haverá um workshop dedicado à estampagem com carimbos, enquanto Margarida Girão orientará um projecto de colagem criativa destinado à comunidade e onde o limite para novos mundos e personagens inspiradas em Figueiró será o que a imaginação de cada um quiser.

Do programa fazem também parte a exposição “Memórias do Fazunchar”, de Nuno Sarmento, um rolo de 7,50 metros onde se registam e se (re)descobrem momentos únicos de 2019, complementados com apontamentos da presente edição, numa versão revista e aumentada. A “Sebenta da Quarentena”, numa edição especial com Carolina Maia, será outro dos momentos altos da festa. Haverá ainda lugar à exibição do filme “Grafifiti Grandmas”, documentário norueguês realizado por Olve Aslaksen e Eirik Skaufjord. Como habitualmente, abrir-se-á um espaço de conversa com os artistas desta edição do certame, uma oportunidade única de melhor conhecer cada uma destas pessoas, as inspirações e as histórias que se escondem por detrás do seu trabalho. A música também não podia faltar e tanto Surma como Cassete Pirata prometem animar duas noites únicas, nesta edição que, como se percebe, tem tudo para agradar a todos.

Estão ainda planeadas Visitas Guiadas orientadas pela curadora do FAZUNCHAR, Lara Seixo Rodrigues e que irão decorrer no centro histórico de Figueiró dos Vinhos. Haverá uma Visita Guiada dedicada em exclusivo a crianças, orientada por Marina Prior e subordinada ao tema “O que esconde o FAZUNCHAR?” e ainda a “Rota dos Fregueses”, ao encontro da Arte Urbana que se espalha pelas freguesias do concelho. A editora discográfica leiriense Omnichord Records aceitou o desafio de criar uma Rota Sonora que liga os trabalhos da primeira edição do FAZUNCHAR aos músicos que representa e edita. Por fim, mas não menos importante, o Piquenique Comunitário terá lugar ao almoço do último dia do FAZUNCHAR 2020, prometendo transformar o momento num memorável convívio gastronómico, desportivo e artístico. Depois disto, vai faltar à festa? Programa completo, horários e locais das actividades podem ser consultados na página do evento no Facebook, em https://www.facebook.com/fazunchar/.