Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Casa Municipal da Cultura de Estarreja. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Casa Municipal da Cultura de Estarreja. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

EXPOSIÇÃO: “10 Anos d’ESTAU”



EXPOSIÇÃO: “10 Anos d’ESTAU”
ESTAU - Estarreja Arte Urbana
Design expositive e projecto gráfico | Mistaker Maker - Plataforma de Intervenção Artística
Casa Municipal da Cultura de Estarreja
12 Set > 31 Out 2026


“As grandes escolas de Arte Plástica são os museus. Quisera um em cada cidade, em cada vila e em cada aldeia, para que o povo se elevasse na comunhão espiritual do belo.”
Professor Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina

Foi em 2016, na primeira edição do ESTAU, que aprendi a olhar para a Arte Urbana. Ou talvez seja mais exacto dizer que foi aí que aprendi a olhar para a cidade. Guiado por Lara Seixo Rodrigues, descobri que uma parede pode ser muito mais do que uma parede e que uma obra de arte pode não pedir apenas para ser contemplada, mas habitar um lugar, conversar com quem passa, escutar uma paisagem, acordar uma memória. Desde então, acompanhei religiosamente o ESTAU, regressando a cada edição com a expectativa de quem sabe que algo de misterioso e belo faz com que a cidade mexa — e, seguramente, alguma coisa dentro de nós mexa também. Vi paredes ganhar outras vidas, lugares esquecidos reencontrarem-se consigo próprios, histórias antigas descobrirem novas linguagens. E fui percebendo que esta é uma das grandes forças do ESTAU: acrescentar à cidade não apenas cor ou beleza, mas espessura. Histórias. Memórias. Significados. Fazer do território um livro que se pode percorrer a pé, onde cada esquina pode esconder uma narrativa e cada obra é uma possibilidade de ver de novo aquilo que julgávamos conhecer. Dez anos depois, Estarreja é também esse museu sem portas nem horários, onde a Arte se mistura com a vida e onde a cidade, sem deixar de ser cidade, se tornou lugar de descoberta.

Guardo imagens. Uma folha que se desprende da sua natureza para se transformar em pássaro. A precisão desconcertante de uma radiografia aberta sobre uma parede. Rostos que parecem querer libertar-se da pedra e conduzir o olhar para lá de si mesmos, até aos arrozais imensos, onde a paisagem se demora. Guardo conversas com artistas, tardes de trabalho, o silêncio de quem observa uma parede antes que ela deixe de ser apenas parede. Guardo também a surpresa de encontrar uma obra onde antes nada havia e a estranha sensação de que, depois dela, deixou de ser possível regressar ao lugar anterior. Foi assim que o ESTAU me ensinou que a Arte pode ser uma forma de pertença. É essa a razão pela qual, ao longo destes dez anos, tenha encontrado nele muito mais do que um festival: um ponto de encontro de vontades, de saberes, de geografias. E de pessoas. Um lugar onde o Baixo Vouga lagunar — a água, o arroz, o bunho, os barcos, os ofícios, as fábricas, as histórias — deixa de ser apenas património para se tornar matéria de criação. O ESTAU não inventou este território. Fez talvez algo mais difícil: ensinou-nos a reconhecê-lo. A aproximarmo-nos dele. A perceber que uma comunidade também pode construir a sua identidade através do seu imaginário.

E depois há o que desaparece. Há obras que já não estão lá. O tempo levou-as, a chuva gastou-lhes as cores, uma parede mudou, uma intervenção cumpriu o seu destino de ser passageira. E houve, confesso, alguma mágoa em vê-las desaparecer. Como se perdêssemos qualquer coisa que julgávamos nossa. Mas é justamente aí que a exposição “10 Anos d'ESTAU” começa a fazer sentido. Porque estas fotografias, estes objectos, estas imagens não são apenas documentos: são vestígios que nos surgem como que colados à pele. Pequenas provas de que estivemos ali. De que alguém criou, alguém olhou, alguém se emocionou. A memória tem também a sua própria arquitectura e, por vezes, aquilo que já não existe é o que mais profundamente permanece. Dez anos de ESTAU são, por isso, dez anos de marcas - algumas inscritas nas paredes, outras na paisagem, outras ainda, talvez as mais importantes, dentro de nós. Esta exposição é feita dessas marcas e das histórias que elas guardam. É uma exposição sobre o tempo, sobre a Arte e sobre a vida, mas sobretudo sobre aquilo que acontece quando as três se encontram. Porque uma cidade não é apenas aquilo que permanece de pé. É também aquilo que recordamos. E, se o ESTAU transformou Estarreja num museu a céu aberto, talvez a sua obra maior seja ter transformado também a nossa memória num lugar onde estas histórias continuamente acontecem.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Ensaios sobre a cegueira” | José António Stréna



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Ensaios sobre a cegueira”,
de José António Stréna
Casa Municipal da Cultura de Estarreja
11 Abr > 23 Maio 2026


“Ensaios sobre a Cegueira”, de José António Stréna, vive na fronteira entre o confronto e a inquietação, nesse território de desassossego onde a arte abandona uma qualquer intenção contemplativa para assumir um papel de provocação ética e social. Inspirando-se declaradamente no universo simbólico e filosófico de José Saramago, o artista constrói um percurso visual que desafia o visitante a reconhecer as múltiplas formas de cegueira contemporânea: a cegueira perante a desigualdade, perante a corrupção dos valores, perante a banalização da injustiça e, sobretudo, perante a erosão progressiva da compreensão e da cumplicidade, da solidariedade e da empatia. Num tempo marcado pela saturação de informação e pela ambiguidade da opinião, Stréna convoca o público para uma experiência incómoda, onde cada peça funciona como espelho deformado da sociedade actual. O espaço expositivo transforma-se, assim, num laboratório de consciência crítica, em que a observação deixa de ser passiva para se converter num exercício de responsabilidade individual.

Este diálogo implícito não reside apenas na relação física com o espaço, mas na exigência emocional e intelectual colocada a quem observa, obrigando-o a posicionar-se perante os mecanismos de exclusão, silêncio e indiferença que sustentam grande parte das estruturas sociais contemporâneas. Ao longo da mostra, o simbolismo surge como linguagem dominante numa narrativa visual marcada pela tensão entre poder e vulnerabilidade. As figuras representadas oscilam entre o grotesco e o profundamente humano, expondo tanto os rostos da autoridade e da opressão como os corpos invisíveis dos mais frágeis e desprotegidos. O dinheiro assume-se como um poderoso mediador, metáfora de uma balança moral desequilibrada, onde princípios éticos, valores religiosos, decisões políticas e relações sociais parecem constantemente subordinados a uma lógica  mercantilista, de interesses e conveniências. Stréna utiliza essa iconografia não apenas como crítica ao capitalismo ou às estruturas económicas, mas como denúncia mais ampla da degradação moral das sociedades contemporâneas.

Há nas obras uma dimensão quase teatral, onde os elementos visuais coexistem numa aparente desordem carregada de intenção, obrigando o espectador a decifrar significados ocultos e a confrontar-se com os próprios preconceitos. A máscara em relevo, que confere à tela uma tridimensionalidade inesperada, reforça a ironia visual e a inquietação permanente. Uma das obras convida o espectador a olhá-la (e a olhar-se) ao espelho, como que a perguntar até que ponto escolhemos permanecer cegos perante as ameaças ao nosso equilíbrio colectivo, transformando a omissão num acto cúmplice e a passividade numa forma silenciosa de consentimento. A arte de José António Stréna recusa respostas simples e evita qualquer conforto estético, preferindo provocar desconforto, dúvida e questionamento. Entre símbolos de poder, referências religiosas, figuras fragmentadas e sinais de decadência social, emerge uma pergunta essencial: até que ponto cada um de nós, consciente ou inconscientemente, é responsável pela construção das cegueiras colectivas do nosso tempo?

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

EFEMÉRIDE: “1 ano a descascar histórias”



EFEMÉRIDE: “1 ano a descascar histórias”
Museu Fábrica da História - Arroz e Casa Municipal da Cultura de Estarreja
13 e 14 Set 2025


Com uma longa e rica tradição agrícola, a região do Baixo Vouga Lagunar é uma das poucas no país onde a cultura do arroz subsiste. Centro nevrálgico de uma actividade que contribuiu para moldar não apenas a paisagem e a biodiversidade, mas também a identidade cultural da região, Estarreja é, hoje e sempre, uma referência da orizicultura portuguesa, tanto pela persistência de um pequeno núcleo de produtores que teimam em manter vivo o cultivo do arroz, como pela consciência da importância de saber conservar as memórias de um passado significativo. A caminho dos cinco mil visitantes e com um apaixonante Trabalho de Museografia reconhecido pela Associação Portuguesa de Museologia, no passado mês de Junho, com uma Menção Honrosa, o Museu Fábrica da História - Arroz cumpriu, no passado fim de semana, a sua primeira volta ao sol. Porque a efeméride assim o justificava, os seus responsáveis fizeram questão de assinalar a data com um programa rico e variado, graças ao qual foi possível recuar no tempo, voltar a escutar as sons próprios da fábrica, as conversas dos trabalhadores, as manobras dos vagões de carga na vizinha estação de caminho de ferro, a sirene que, quatro vezes ao dia, assinalava o início e o fim de mais uma jornada.

O programa comemorativo teve início na Casa Municipal da Cultura de Estarreja com a inauguração de uma parte da exposição de fotografia de Camilo Rego, “do teu arrozal.”. São imagens que exprimem um olhar atento à relação íntima entre o ser humano e a natureza, que nos levam a compreender - numa paisagem dominada pelo azul da água, o verde das hastes de arroz que dela parecem brotar e o âmbar das espigas maduras - uma história de esforço e comunhão, cuidado e resiliência, elevando o quotidiano rural à dignidade da arte visual. Nas breves, mas muito belas palavras dirigidas ao presentes, Camilo Rego disse, e cito de cor, que podemos podar uma planta, despi-la de folhas, que ela regenar-se-á. Só não podemos cortar-lhe a raíz. É um pouco nesse sentido que o trabalho do fotógrafo é dirigido, contribuindo para preservar a memória de uma prática que importa alavancar - pela biodiversidade única e por toda uma rica herança cultural que lhe estão associadas. Por isso, “do teu arrozal.” é trabalho. Mas é também identidade e território, sementeira e colheita, grão e laço. “O elo entre o passado e o presente, entre o bago e as gentes da terra”.

Já no Museu, teve lugar a inauguração do Percurso Sonoro e Emotivo, um convite ao público a que percorra o espaço e viva uma visita sensorial e emotiva. O texto é de Ricardo Correia, a banda sonora e gravação estúdio de Luís Pedro Madeira e as vozes pertencem a um conjunto de pessoas da comunidade estarrejense, algumas delas antigos trabalhadores da “Hidro-Eléctrica”. Basta um telemóvel e uns auscultadores, e abrem-se aos sentidos os sons e silêncios do trabalho, da pausa e da animação, os nomes dos equipamentos usados no processo de descasque, a história do fundador Carlos Marques Rodrigues, os testemunhos daqueles que à fábrica dedicaram parte das suas vidas, deles transparecendo o sentimento de pertença e o envolvimento com um património que urge preservar. “Mondando Contos”, com Luís Correia Carmelo e Estefânia Surreira, fechou o dia da melhor forma. Ao longo de pouco mais de uma hora, o duo trouxe-nos, de forma terna e sensível, o seu olhar apaixonado sobre as particularidades da natureza humana. Uma “monda de palavras” ditas, revivendo a tradição de partilhar histórias ao serão e lembrando a riqueza de permanecer num lugar-comum feito de simplicidade e muito amor.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

EXPOSIÇÃO DE ESCULTURA, PINTURA E DESENHO: "Esboços do Corpo"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE PINTURA, ESCULTURA E DESENHO: “Esboços do Corpo”,
de Ana Sousa Santos
Casa Municipal da Cultura de Estarreja
23 Abr > 22 Mai 2022


A menos de uma semana para o final, importa falar da exposição “Esboços do Corpo” e do trabalho de Ana Sousa Santos, das peças que integram esta mostra, da forma como dialogam entre si e das questões que convocam. Movendo-se no vasto espaço entre a escultura e o desenho artístico, a artista faz recair o seu interesse na figura humana, atenta ao movimento do corpo, à sua volumetria e ao sentimento expresso em diversas posições. Partindo da observação, o processo artístico desenvolve-se mediante a identificação pessoal das múltiplas linguagens que a figura humana pode assumir, capturando-lhe as nuances e projectando-as numa vasta gama de materiais, nomeadamente o barro cerâmico, o gesso e a resina. A exposição é composta por um conjunto de esbocetos de figuras humanas, passadas a gesso, modelações em barro cerâmico, pinturas de vários formatos e alguns desenhos, ocupando todo o espaço da Casa Municipal da Cultura de Estarreja.

Forma maior do pensamento artístico, a representação do corpo humano tem algo de divino. No processo criativo que encerra, o trabalho sobre o corpo transcende a dimensão artística, expandindo-a a áreas do pensamento abstracto onde se cruzam conceitos como os de génese, inspiração, intimidade, moralidade, pudor, perfeição, Deus. Entre o que se espalha e o que se dilui, do cérebro que cria às mãos que executam, Ana Sousa Santos mostra o quanto de primordial há nas suas obras, de fogo e de terra, de ar e de água. Criaturas tocadas pela graça de uma criadora inspirada, cada uma das peças concentra em si a forma e o vigor dos gestos da artista, prolongando-a num espaço irredutivelmente seu e tornando corpóreo aquilo que, instantes atrás, se mostrava confinado ao mundo das ideias. As cores sublinham essa forte ligação a um espaço orgânico e telúrico, os pigmentos de café, curcuma ou beterraba assumindo a mesma importância de aguarelas, acrílicos e bioxenes.

Se a questão dos elementos é particularmente relevante no trabalho de Ana Sousa Dias, justificando por si só uma visita à exposição, valerá a pena explorar outras virtualidades do trabalho da artista, nomeadamente a forma como as peças dialogam entre si. No contraponto entre os esbocetos em gesso e as figuras em barro cerâmico encontramos os caminhos daquilo que se convencionou chamar o perfeito e o imperfeito, mas que no contexto da obra da artista são conceitos que parecem contradizer-se, subvertendo e inquietando. Atente-se também na forma como a tela recebe o gesso com o mesmo gesto que seria usado para modelar um busto, por exemplo. Também aqui a passagem do tridimensional para o bidimensional não corresponde necessariamente à transmutação do complexo em simples, afastando a discussão dos consensos, fazendo-a fluir de forma desordenada e transgressora. Eis alguns motivos pelos quais esta exposição é de visita obrigatória. Mas há mais!

quinta-feira, 4 de abril de 2019

EXPOSIÇÃO: "Para a Construção do Museu de Causas / Coleções Agostinho Santos"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO: “Para a Construção do Museu de Causas”,
de Adias Machado, Agostinho Santos, Alberto Péssimo, António Franchini, Avelino Rocha, Balbina Mendes, Danilson Fernandes, Diogo Goes, Do Carmo Vieira, Eduardo Castro, Elizabeth Leite, Emília Viana, Fernando Barros, Filipe Rodrigues, Florentina Resende, Francisco Laranjo, Gérard Morla, Grupo GIA, Humberto Nelson, Ícaro, Isaura Sousa, Jayme Reis, José Rodrigues, José Silva, Júlio Resende, Liseta Amaral, Luis de Melo, M. Barroso Gomes, Maria Afonso, Otília Santos, Ricardo de Campos, Ricardo Cardoso, Rosa Úbeda, Rui da Graça, Sérgio D'Azeredo, Sérgio Reis, Susana Bravo, Valter Hugo Mãe
Casa Municipal da Cultura de Estarreja
30 Mar > 01 Mai 2019


Ao longo de todo o mês de Abril, o projecto museológico “Para a Construção do Museu de Causas / Coleções Agostinho Santos” instala-se na Casa Municipal da Cultura de Estarreja, através de uma exposição representativa das colecções que irão integrar o futuro museu gaiense. Com curadoria da artista plástica Maria Afonso, esta mostra reúne 50 obras de 38 artistas de várias origens geográficas, formações artísticas e sensibilidades estéticas, unidos pela consciência da responsabilidade social do artista.

Tendo como ponto de partida o trabalho de investigação “Paleta Contemporânea – Museu de Causas”, título da tese de doutoramento de Agostinho Santos em Museologia da Faculdade de Letras e Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, este é um projecto que consiste na elaboração de um processo que incorpora um acervo de mais de 6.500 obras de arte, entre desenho, pintura, escultura e objectos, constituído por uma colecção de trabalhos da autoria do seu mentor e outra composta por trabalhos de mais de 350 artistas, maioritariamente portugueses. Pretende-se, assim, que o “Museu de Causas / Coleções Agostinho Santos” se assuma como instituição museológica de âmbito nacional, que se afirme como um verdadeiro centro cultural e se transforme num polo catalisador da arte contemporânea em Portugal, protagonizando o desenvolvimento do processo criativo e das suas potencialidades de intervenção social.

Enquanto isso, o projecto vai-se “construindo” e fazendo o seu caminho. Depois de uma mostra inaugural em Gaia, há sensivelmente um ano, e da passagem por Santa Marta de Penaguião, Gondomar e Seia, eis que chega agora a Estarreja com novos artistas e novas peças. Esta é uma oportunidade única de apreciar um conjunto de obras significativas de diferentes correntes estéticas mas com uma idêntica preocupação na mensagem que veiculam, a da denúncia dos flagelos sociais que assolam o mundo. Nesta verdadeira “família” em torno da arte, o artista é um defensor de causas. Da crise dos refugiados ao flagelo dos sem-abrigo, das profundas desigualdades sociais às catástrofes ecológicas, o dedo que denuncia é o do artista, que encontra na obra criada uma forma de inquietar o mundo. Inquietemo-nos, pois!