“Ensaios sobre a Cegueira”, de José António Stréna, vive na fronteira entre o confronto e a inquietação, nesse território de desassossego onde a arte abandona uma qualquer intenção contemplativa para assumir um papel de provocação ética e social. Inspirando-se declaradamente no universo simbólico e filosófico de José Saramago, o artista constrói um percurso visual que desafia o visitante a reconhecer as múltiplas formas de cegueira contemporânea: a cegueira perante a desigualdade, perante a corrupção dos valores, perante a banalização da injustiça e, sobretudo, perante a erosão progressiva da compreensão e da cumplicidade, da solidariedade e da empatia. Num tempo marcado pela saturação de informação e pela ambiguidade da opinião, Stréna convoca o público para uma experiência incómoda, onde cada peça funciona como espelho deformado da sociedade actual. O espaço expositivo transforma-se, assim, num laboratório de consciência crítica, em que a observação deixa de ser passiva para se converter num exercício de responsabilidade individual.
Este diálogo implícito não reside apenas na relação física com o espaço, mas na exigência emocional e intelectual colocada a quem observa, obrigando-o a posicionar-se perante os mecanismos de exclusão, silêncio e indiferença que sustentam grande parte das estruturas sociais contemporâneas. Ao longo da mostra, o simbolismo surge como linguagem dominante numa narrativa visual marcada pela tensão entre poder e vulnerabilidade. As figuras representadas oscilam entre o grotesco e o profundamente humano, expondo tanto os rostos da autoridade e da opressão como os corpos invisíveis dos mais frágeis e desprotegidos. O dinheiro assume-se como um poderoso mediador, metáfora de uma balança moral desequilibrada, onde princípios éticos, valores religiosos, decisões políticas e relações sociais parecem constantemente subordinados a uma lógica mercantilista, de interesses e conveniências. Stréna utiliza essa iconografia não apenas como crítica ao capitalismo ou às estruturas económicas, mas como denúncia mais ampla da degradação moral das sociedades contemporâneas.
Há nas obras uma dimensão quase teatral, onde os elementos visuais coexistem numa aparente desordem carregada de intenção, obrigando o espectador a decifrar significados ocultos e a confrontar-se com os próprios preconceitos. A máscara em relevo, que confere à tela uma tridimensionalidade inesperada, reforça a ironia visual e a inquietação permanente. Uma das obras convida o espectador a olhá-la (e a olhar-se) ao espelho, como que a perguntar até que ponto escolhemos permanecer cegos perante as ameaças ao nosso equilíbrio colectivo, transformando a omissão num acto cúmplice e a passividade numa forma silenciosa de consentimento. A arte de José António Stréna recusa respostas simples e evita qualquer conforto estético, preferindo provocar desconforto, dúvida e questionamento. Entre símbolos de poder, referências religiosas, figuras fragmentadas e sinais de decadência social, emerge uma pergunta essencial: até que ponto cada um de nós, consciente ou inconscientemente, é responsável pela construção das cegueiras colectivas do nosso tempo?
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