TEATRO: “Insegura - Uma Tragédia de Enganos”
Texto | Ana Markl
Encenação, desenho de som, luz, figurinos e cenários | Leandro Ribeiro
Interpretação | Daniela Adelino, Francisca Nata, Gabriel Garrido, Leonor Iglésias, Leonor Paulino, Mafalda Reis, Margarida Laranjeira, Maria Costa, Maria Inês Campos, Maria Reis, Mariana Costa, Mariana Nunes, Martim Rilho, Matilde Borges, Rita Pereira, Rita Valinho, Sara Leite, Simão Baldaia, Sofia Oliveira, Vicente Melo, Yasmim Lucchi
Produção | Sol d'Alma - Associação de Teatro
PANOS - Palcos Novos Palavras Novas
Auditório Sol d’Alma
10 Mai 2026 | dom | 18:00
Concorrer ao Festival PANOS — Palcos Novos Palavras Novas, iniciativa do Teatro Nacional D. Maria II, com coordenação de Sandro William Junqueira, foi o desafio que o elenco juvenil do Sol d’Alma decidiu abraçar esta temporada. Após as bem sucedidas participações, em 2022 e 2025, num “projecto onde se lê, faz e apresenta teatro de e para jovens, dos 12 aos 19 anos”, este novo trabalho colocou o grupo de vinte e um elementos perante a delicada escolha entre os textos originais “O Meu Pai Carlitos”, de Joaquim Arena, “Olívia”, de Mariana Jones e “Insegura – Uma Tragédia de Enganos”, de Ana Markl. Recaindo sobre este último, a escolha viria a revelar-se particularmente feliz, já que o texto de Ana Markl, de uma enorme inteligência e actualidade no panorama dramatúrgico português, assenta neste grupo como uma luva. Sarcástica, plena de ritmo, assertiva, dolorosamente contemporânea e profundamente humana, “Insegura - Uma Tragédia de Enganos” mascara-se de comédia leve sobre relações amorosas, seguros emocionais e traumas afectivos, ao mesmo tempo que contempla uma reflexão amarga sobre a ansiedade da geração digital, o medo permanente do abandono e a incapacidade de viver o amor sem antecipar a sua ruína.
Por vezes absurdo, por vezes negro, quase sempre desconfortavelmente reconhecível, o humor funciona aqui como mecanismo de sobrevivência perante uma juventude que se mostra disponível para descartar a dor, burocratizar os sentimentos e transformar um desgosto amoroso num serviço contratualizável. Há em “Insegura – Uma Tragédia de Enganos” uma escrita que compreende profundamente o presente, que converte as mensagens em linguagem quotidiana e os “likes” em provas judiciais do amor, que disfarça de independência emocional o medo da solidão e teatraliza a intimidade de forma a sublimar a fragilidade das relações contemporâneas. Nessa tensão constante entre o ridículo e a tragédia, entre a sátira e a vulnerabilidade interior, reside o brilhantismo do texto. A peça desmonta, com admirável sarcasmo, a linguagem terapêutica e corporativa que invadiu a intimidade humana, transformando emoções em pacotes de serviços, traumas em categorias administrativas e afectos em produtos de consumo. Por detrás dessa engenharia cómica, porém, iremos encontrar uma dolorosa melancolia e a certeza de que não há antídoto contra desgostos de amor.
Escapando à caricatura fácil e ao excesso melodramático, a encenação de Leandro Ribeiro mostrou-se suficientemente plástica para sustentar a rapidez verbal do texto sem perder clareza nem intensidade dramática. Uma encenação que, sem obviar a essência dramatúrgica, soube tirar o melhor partido do texto e encontrar o seu próprio caminho. Embora simples, o dispositivo cénico fez da palavra o centro da acção, mas deixou espaço aberto a um momento de karaoke, a uma singular dança das cadeiras, a uma interjeição genuinamente vareira e a uma infinidade de outros pormenores que vieram acrescentar camadas à narrativa e permitiram elevar o acessório à categoria de essencial. Mafalda Reis, no papel de Leonor, foi extraordinária na gestão dessa oscilação permanente entre neurose, fragilidade e ironia, evitando transformar-se numa mera vítima histérica. Pelo contrário, revelou-se capaz de construir uma personagem reconhecível, contemporânea e profundamente triste, mesmo nos momentos mais cómicos. Também Gabriel Garrido, no papel do Perito, demonstrou um excelente domínio do tempo humorístico, sobretudo na forma como transformou o cinismo burocrático da personagem numa figura simultaneamente ridícula e inquietante.
Há uma enorme maturidade interpretativa em todo o elenco, algo de muito relevante numa peça cuja dificuldade reside, precisamente, na velocidade tonal com que passa da farsa ao desamparo, para de seguida regressar à farsa. A certa altura, é evidente que o problema não está apenas no medo de se sofrer um desgosto amoroso, mas no facto de se viver dentro desse sofrimento. Profundamente actual, a ideia é sustentada pelo trabalho de grupo, sobretudo nos momentos em que o texto desacelera e deixa emergir o vazio para além da rábula. No papel de Diogo, Rita Pereira trouxe exactamente essa pausa necessária, graças a um porte sereno, quase luminoso, que permite à peça respirar antes do seu desfecho. Aliás, é a forte presença da actriz que faz com que “Insegura”, num dos seus momentos de maior risco, não resvale para o mau gosto. Falarei, enfim, do Coro, uma das soluções mais deliciosamente irónicas da peça, mas que ficou aquém do desejado em matéria de dicção e ritmo para se mostrar plenamente eficaz no seu desígnio de ser, em simultâneo, consciência grega, voz da ansiedade e mecanismo cómico de desmontagem emocional.
O desfecho final confirma a qualidade estrutural da peça. Quando se percebem as verdadeiras intenções do namorado de Leonor, toda a construção emocional da actriz colapsa de forma simultaneamente trágica e cómica. É aí que “Insegura” deixa de ser apenas uma boa comédia contemporânea para se tornar uma reflexão séria sobre ansiedade, auto-sabotagem e solidão emocional. O último golpe, a revelação de que até o caso romântico com Diogo era parte da encenação - o teatro dentro do teatro é aqui uma ideia recorrente -, encerra a peça com uma crueldade arrepiante: talvez a maior tragédia contemporânea seja já não conseguirmos distinguir o que é genuíno daquilo que foi desenhado para nos confortar. Aceitar trabalhar um texto exigente, intelectualmente sofisticado e emocionalmente desafiante, é revelador da enorme garra, coragem e maturidade do elenco juvenil do Sol d’Alma. É a prova da sua capacidade de fazer teatro, acrescentando-lhe frescura, espontaneidade e verdade cénica. Ao seleccionar esta representação da peça para a fase final do PANOS, o júri mais não fez do que reconhecer um trabalho sério, sólido e comprometido, artisticamente superior e revelador da capacidade rara de um grupo em compreender o presente através do teatro.
Foto: © Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/leandroribeiroteatro]
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