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terça-feira, 12 de maio de 2026

TEATRO: "Insegura - Uma Tragédia de Enganos" | Ana Markl



TEATRO: “Insegura - Uma Tragédia de Enganos”
Texto | Ana Markl
Encenação, desenho de som, luz, figurinos e cenários | Leandro Ribeiro
Interpretação | Daniela Adelino, Francisca Nata, Gabriel Garrido, Leonor Iglésias, Leonor Paulino, Mafalda Reis, Margarida Laranjeira, Maria Costa, Maria Inês Campos, Maria Reis, Mariana Costa, Mariana Nunes, Martim Rilho, Matilde Borges, Rita Pereira, Rita Valinho, Sara Leite, Simão Baldaia, Sofia Oliveira, Vicente Melo, Yasmim Lucchi
Produção | Sol d'Alma - Associação de Teatro
PANOS - Palcos Novos Palavras Novas
Auditório Sol d’Alma
10 Mai 2026 | dom | 18:00


Concorrer ao Festival PANOS — Palcos Novos Palavras Novas, iniciativa do Teatro Nacional D. Maria II, com coordenação de Sandro William Junqueira, foi o desafio que o elenco juvenil do Sol d’Alma decidiu abraçar esta temporada. Após as bem sucedidas participações, em 2022 e 2025, num “projecto onde se lê, faz e apresenta teatro de e para jovens, dos 12 aos 19 anos”, este novo trabalho colocou o grupo de vinte e um elementos perante a delicada escolha entre os textos originais “O Meu Pai Carlitos”, de Joaquim Arena, “Olívia”, de Mariana Jones e “Insegura – Uma Tragédia de Enganos”, de Ana Markl. Recaindo sobre este último, a escolha viria a revelar-se particularmente feliz, já que o texto de Ana Markl, de uma enorme inteligência e actualidade no panorama dramatúrgico português, assenta neste grupo como uma luva. Sarcástica, plena de ritmo, assertiva, dolorosamente contemporânea e profundamente humana, “Insegura - Uma Tragédia de Enganos” mascara-se de comédia leve sobre relações amorosas, seguros emocionais e traumas afectivos, ao mesmo tempo que contempla uma reflexão amarga sobre a ansiedade da geração digital, o medo permanente do abandono e a incapacidade de viver o amor sem antecipar a sua ruína.

Por vezes absurdo, por vezes negro, quase sempre desconfortavelmente reconhecível, o humor funciona aqui como mecanismo de sobrevivência perante uma juventude que se mostra disponível para descartar a dor, burocratizar os sentimentos e transformar um desgosto amoroso num serviço contratualizável. Há em “Insegura – Uma Tragédia de Enganos” uma escrita que compreende profundamente o presente, que converte as mensagens em linguagem quotidiana e os “likes” em provas judiciais do amor, que disfarça de independência emocional o medo da solidão e teatraliza a intimidade de forma a sublimar a fragilidade das relações contemporâneas. Nessa tensão constante entre o ridículo e a tragédia, entre a sátira e a vulnerabilidade interior, reside o brilhantismo do texto. A peça desmonta, com admirável sarcasmo, a linguagem terapêutica e corporativa que invadiu a intimidade humana, transformando emoções em pacotes de serviços, traumas em categorias administrativas e afectos em produtos de consumo. Por detrás dessa engenharia cómica, porém, iremos encontrar uma dolorosa melancolia e a certeza de que não há antídoto contra desgostos de amor.

Escapando à caricatura fácil e ao excesso melodramático, a encenação de Leandro Ribeiro mostrou-se suficientemente plástica para sustentar a rapidez verbal do texto sem perder clareza nem intensidade dramática. Uma encenação que, sem obviar a essência dramatúrgica, soube tirar o melhor partido do texto e encontrar o seu próprio caminho. Embora simples, o dispositivo cénico fez da palavra o centro da acção, mas deixou espaço aberto a um momento de karaoke, a uma singular dança das cadeiras, a uma interjeição genuinamente vareira e a uma infinidade de outros pormenores que vieram acrescentar camadas à narrativa e permitiram elevar o acessório à categoria de essencial. Mafalda Reis, no papel de Leonor, foi extraordinária na gestão dessa oscilação permanente entre neurose, fragilidade e ironia, evitando transformar-se numa mera vítima histérica. Pelo contrário, revelou-se capaz de construir uma personagem reconhecível, contemporânea e profundamente triste, mesmo nos momentos mais cómicos. Também Gabriel Garrido, no papel do Perito, demonstrou um excelente domínio do tempo humorístico, sobretudo na forma como transformou o cinismo burocrático da personagem numa figura simultaneamente ridícula e inquietante.

Há uma enorme maturidade interpretativa em todo o elenco, algo de muito relevante numa peça cuja dificuldade reside, precisamente, na velocidade tonal com que passa da farsa ao desamparo, para de seguida regressar à farsa. A certa altura, é evidente que o problema não está apenas no medo de se sofrer um desgosto amoroso, mas no facto de se viver dentro desse sofrimento. Profundamente actual, a ideia é sustentada pelo trabalho de grupo, sobretudo nos momentos em que o texto desacelera e deixa emergir o vazio para além da rábula. No papel de Diogo, Rita Pereira trouxe exactamente essa pausa necessária, graças a um porte sereno, quase luminoso, que permite à peça respirar antes do seu desfecho. Aliás, é a forte presença da actriz que faz com que “Insegura”, num dos seus momentos de maior risco, não resvale para o mau gosto. Falarei, enfim, do Coro, uma das soluções mais deliciosamente irónicas da peça, mas que ficou aquém do desejado em matéria de dicção e ritmo para se mostrar plenamente eficaz no seu desígnio de ser, em simultâneo, consciência grega, voz da ansiedade e mecanismo cómico de desmontagem emocional.

O desfecho final confirma a qualidade estrutural da peça. Quando se percebem as verdadeiras intenções do namorado de Leonor, toda a construção emocional da actriz colapsa de forma simultaneamente trágica e cómica. É aí que “Insegura” deixa de ser apenas uma boa comédia contemporânea para se tornar uma reflexão séria sobre ansiedade, auto-sabotagem e solidão emocional. O último golpe, a revelação de que até o caso romântico com Diogo era parte da encenação - o teatro dentro do teatro é aqui uma ideia recorrente -, encerra a peça com uma crueldade arrepiante: talvez a maior tragédia contemporânea seja já não conseguirmos distinguir o que é genuíno daquilo que foi desenhado para nos confortar. Aceitar trabalhar um texto exigente, intelectualmente sofisticado e emocionalmente desafiante, é revelador da enorme garra, coragem e maturidade do elenco juvenil do Sol d’Alma. É a prova da sua capacidade de fazer teatro, acrescentando-lhe frescura, espontaneidade e verdade cénica. Ao seleccionar esta representação da peça para a fase final do PANOS, o júri mais não fez do que reconhecer um trabalho sério, sólido e comprometido, artisticamente superior e revelador da capacidade rara de um grupo em compreender o presente através do teatro.

Foto: © Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/leandroribeiroteatro]

terça-feira, 24 de março de 2026

TEATRO: "O Colar" | Sophia de Mello Breyner



TEATRO: “O Colar”
Texto | Sophia de Mello Breyner
Adaptação e encenação | Leandro Ribeiro
Coreografia | Eduarda Terra
Cenários, figurinos, desenho de luz, desenho de som | Leandro Ribeiro
Interpretação | João Assunção, Maria Silva, Francisco Fidalgo, Sara Oliveira, Sofia Miguel Costa, Maria Eduarda Terra, Simão Baldaia, Alexandre Pinto, Maria Inês Campos
Produção | Sol d’Alma - Associação de Teatro
90 Minutos | Maiores de 6 Anos
Auditório do Sol d’Alma
21 Mar 2026 | sab | 18:00


Ao olharmos o lado teatral de Sophia de Mello Breyner Andresen, reconhecemos nele um território breve mas revelador no interior da sua obra: apenas cinco peças, sendo “O Colar” (2001) a última, como se nesse gesto final se condensasse uma pulsação dramática sempre latente na sua escrita. Há, de facto, na sua poesia e na sua prosa — sobretudo na destinada à infância — uma teatralidade essencial, feita de vozes que se erguem com nitidez, de gestos que pedem corpo e espaço, vocação confirmada pelas sucessivas adaptações cénicas dos seus textos. Nesse sentido, saúde-se a escolha do Sol d’Alma em levar à cena “O Colar”, não como simples transposição, mas como revelação de algo que é material essencial no ADN da companhia: o apelo à presença, ao dizer incarnado. E, desde o primeiro instante, reconhece-se essa limpidez inconfundível numa linguagem depurada, quase austera, mas atravessada por uma densidade moral e simbólica que cintila como água ao sol, como se cada palavra tivesse sido longamente polida pela memória do mar.

Na tessitura desta adaptação, preserva-se essa claridade inaugural, ainda que atravessada por uma escolha estrutural importante: a supressão do terceiro acto. Tal economia, sendo eficaz na forma como concentra a acção na paixão de Vanina por Pietro Alvisi, altera necessariamente o ritmo respiratório da obra, comprimindo o seu fôlego mais amplo. Com esta decisão perde-se a dimensão contemplativa do amor da escritora pelo mar e pela Grécia, um espaço de suspensão que aqui se rarefaz. Perdem-se ainda alguns momentos de graça que a surpreendente Sofia Miguel Costa acrescenta à peça, brilhando no papel da Condessa Zeti e, em particular, nessa graciosa mestiçagem de português e italiano que anima os diálogos e lhes confere um sabor raro. Ainda assim, a mensagem passa sem sobressaltos, o palco a revelar-se como espelho ambíguo, onde visível e invisível se entrelaçam e cada gesto parece abraçar a própria sombra. Há, na palavra dita, uma musicalidade contida, um rigor quase clássico que sustém o excesso e lhe dá forma, conduzindo o espectador a uma região onde beleza e inquietação são matéria inseparável.

Interpretada pela seguríssima M7aria Silva, no centro da acção ergue-se Vanina, figura de sentimentos transparentes e desmesuradas emoções, criatura que acredita no poder do amor com uma inteireza quase feroz, como se o mundo pudesse ainda corresponder ao desenho do desejo. De um profundo lirismo, a sua linguagem revela essa condição inaugural, esse modo de estar que não admite fissuras. E, no entanto, é precisamente essa pureza radical que a expõe ao choque com o real. O colar, objecto e símbolo, concentra essa ambiguidade essencial: promessa de pertença e instrumento de captura, brilho que seduz e laço que prende. Ao aceitá-lo, Vanina entra num jogo de espelhos onde a identidade se fragmenta, onde o eu se descobre vulnerável à encenação do outro. Pietro Alvisi, na pessoa de João Assunção, surge como leveza indecisa, cantor do amor incapaz de o sustentar, enquanto as restantes figuras - entre a sedução e a norma, entre o impulso e a contenção - desenham um campo de forças que empurra e limita. É nesse movimento, quase imperceptível, que a peça atinge a sua verdade mais dolorosa: crescer é aprender a desconfiar do brilho, é reconhecer que nada do que é puro permanece intacto quando tocado pelo mundo.

Consciente dessa matéria subtil, Leandro Ribeiro acentua a teatralidade intrínseca da obra, explorando o seu lado mais íntimo e inquietante. Há uma percepção aguda de que viver é representar, de que as relações se organizam como espectáculo: gestos que são máscaras, palavras que procuram efeito, encontros cuidadosamente coreografados. Ao tornar visível esse artifício, o espectáculo não o anula, antes o ilumina. Os momentos musicais introduzem uma respiração orgânica, como marés que vão e voltam, enquanto os figurinos e a composição visual acrescentam densidade a um universo já por si carregado de sentido. O elenco sustenta essa arquitectura com uma notável homogeneidade, onde cada presença encontra o seu lugar sem ruído, e onde a palavra se torna corpo sem perder a sua transparência. Neste “O Colar”, o teatro cumpre a sua vocação mais elevada, a de criar um instante partilhado de revelação, efémero mas persistente, onde a beleza e a perda continuam, inseparáveis, a dialogar na memória de quem viu e escutou.

[Foto: Sol d'Alma - Associação de Teatro | https://www.facebook.com/share/1DQ7gDHmNt/]

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

TEATRO: “É o Fim do Mundo Tal Como o Conhecemos”



TEATRO: “É o Fim do Mundo Tal Como o Conhecemos”
Texto | “Já passaram quantos anos, perguntou ele”, de Rui Pina Coelho
Adaptação, encenação, desenho de luz e cenografia | Leandro Ribeiro
Fotografia | Manuel Vitoriano
Interpretação | Patrícia Quintino, Marco Nunes, António Alves, Joana Alves Sousa, Clara Oliveira, Luís Rola, Diana Coutinho, Maria João Melo, Jorge Azevedo, Flávia Krishina, Tiago Alves, Palmira Baptista, Otília Borges, Sara Almeida, Sara Moreira, Hernâni Sá
Produção | Sol d'Alma - Associação de Teatro
Auditório Sol d'Alma
18 Jan 2026 | dom | 16:00


Comecemos pelo texto. Da autoria de Rui Pina Coelho, intitula-se “Já passaram quantos anos, perguntou ele” e nasce de uma sensação estrutural: a experiência de suspensão, adiamento e exaustão de uma geração que foi educada para acreditar numa carreira e acordou num mundo carregado de promessas por cumprir. Embora situado no contexto muito concreto do pós-2008 e da precarização dos jovens licenciados portugueses, o texto resiste ao passar dos anos e vai ganhando espessura histórica, podendo hoje ser lido não apenas como retrato de uma crise, mas como o prenúncio de um estado normativo de permanente instabilidade, ansiedade e desorientação. Não é um texto profético no sentido lato; é-o porque o autor cedo percebeu que a excepção iria resultar em regra. Em boa hora Leandro Ribeiro e o elenco do Sol d’Alma decidiram trabalhar o texto e levá-lo à cena. “É o Fim do Mundo Tal Como o Conhecemos” resulta num exercício completo de teatro, oferecendo-nos um significativo momento que oscila entre o humor e a ternura, a revolta e uma funda melancolia.

A peça acompanha de perto a escrita de Rui Pina Coelho no que tem de fragmentário e de profundamente teatral no sentido do tempo, do ritmo e da repetição. A narrativa avança por acumulação, por variações mínimas sobre os mesmos gestos, frases e situações, das entrevistas de emprego às contas por pagar, das notícias do fim do mundo às pequenas humilhações quotidianas. Leandro Ribeiro sabe explorar uma dramaturgia do cansaço, em que a linguagem se esgota como os corpos e as expectativas. O uso insistente da enumeração, da sobreposição de vozes, do coro informal ou da passagem dos dias, cria uma sensação de ruído constante, muito próxima da experiência contemporânea de vivermos rodeados de informação sem sabermos o que fazer com ela. Os valores em jogo são, paradoxalmente, simples e devastadores, centrados na dignidade e no trabalho, no tempo, no amor e no futuro. É palpável a frustração sem saída à vista, sem que haja a possibilidade de identificação de um inimigo claro, apenas sistemas difusos, entrevistas absurdas, chefes prepotentes e promessas vazias.

O encenador revela o seu engenho ao pegar numa peça para quatro actores, fazendo subir ao palco quatro vezes este número. Acrescentar a personagem interpretada por Clara Oliveira ao “núcleo duro” da peça é particularmente inteligente, sobretudo pelo que acrescenta de dinâmica intergeracional, com tudo o que acarreta de incompreensão, injustiça, confronto e culpa. As referências à música, aos filmes de catástrofe ou aos discursos sobre o fim do mundo funcionam como espelhos distorcidos de um colapso íntimo que já aconteceu. O verdadeiro apocalipse não é cósmico, é interior: é deixar de saber quem se é, o que se quer, para quê se vive. A precariedade não surge apenas como situação económica, mas como condição existencial. Tudo é provisório, até os afectos. A gravidez de Alice, o desejo de ter filhos, as relações entre os amigos e o medo constante do colapso (económico, ambiental, simbólico) revelam um mundo em que a vida adulta foi adiada indefinidamente. Não é uma peça cínica; é uma peça ferida. E é precisamente essa ferida, a de quem acreditou, que lhe dá força ética.

É chegada a altura de olhar nos olhos os dezasseis actores e de lhes dar os parabéns pelo excelente momento de teatro proporcionado. A cena final de despedida, autêntico inventário de pequenas coisas banais - o gesto de enumerar tornado gesto de resistência - é um dos momentos mais comoventes do texto ao afirmar que a vida, mesmo diminuída, será sempre merecedora do nosso abraço. Este facto reforça a premência e actualidade da peça, ou não se mostrassem os horizontes ainda mais carregados do que há quinze anos atrás. Alargou-se a precariedade, normalizou-se a ansiedade e multiplicaram-se os discursos catastrofistas em torno do clima, da política, da civilização. Não sendo uma peça datada, “É o Fim do Mundo Tal Como o Conhecemos” revela-se uma peça “cansada”. Tal como cada um de nós. A sua importância está em recusar soluções fáceis e em insistir na busca de uma resposta para a dúvida que mói cada vez mais, a de como viver quando tudo parece adiado. A decisão do Sol d’Alma e de Leandro Ribeiro em abraçar estas questões está longe de ser um exercício nostálgico. É antes um gesto crítico que nos vem lembrar que o mal-estar não passou, que apenas mudou de forma. E que, enquanto não for enfrentado, continuaremos a repetir, com ironia e medo, a mesma pergunta: “O que é que eu estou aqui a fazer?”

[Foto: Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/soldalma]

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

TEATRO: “Chuva Pasmada” | Mia Couto



TEATRO: “Chuva Pasmada”
Texto original | Mia Couto
Adaptação, direcção artística e encenação | Leandro Ribeiro
Compositor, pianista | Hélder Bruno Martins
Interpretação | Clara Oliveira, Mafalda Reis, Maria Inês Campos, Paulo Cruz e Rita Camões, com elementos da comunidade local, Ana Albertina Pereira, Ana Silva, Ana Gabriela Tavares, Augusta Graça, Daniela Morence, Helena Barbosa, Isabela Amaral, João Figueiredo, Lucas Silva, Luiza Cassin, Mário Silva, Mónica Pires, Natália Fernandes e Vasco Figueiras
Produção | Sol d’Alma – Associação de Teatro
100 Minutos | Maiores de 6 anos
Centro das Artes do Espectáculo Sever do Vouga
16 Nov 2025 | dom | 16:00


Depois da estreia em Ovar, no passado mês de Setembro, “Chuva Pasmada” voltou à cena para uma representação única em Sever do Vouga. Em dia de festa e de celebração pelo 24.º aniversário do seu Centro das Artes do Espectáculo, os severenses cruzaram-se com a prosa poética de Mia Couto e perceberam, entre nuvens remexidas e lentilhas atiradas ao ar, que o teatro é também uma forma de salvação. Numa peça que tanto disse a muitos dos presentes – “Chuva Pasmada” foi mesmo a minha estreia em palco -, olhá-la do lado do espectador, após ter sido vivida na pele do actor, não podia deixar de ter um significado especial. Não que nela não houvesse já a certeza da viagem, o assombro do reencontro com a escrita de Mia Couto, a inteligência e delicadeza de uma encenação atenta ao mais ínfimo detalhe, a embriaguez de uma música emotiva, o espanto perante tão poderosas interpretações. Mas porque voltar a mergulhar num texto onde a chuva se detém pasmada e a mente aprende a sonhar, é renovar a ideia de que o teatro prolonga a página, que a palavra dita faz eco no sentir, que as emoções invadem o coração como água: “Clara, farta, risonha”.

“Chuva Pasmada” é um imenso, intenso milagre. A sensibilidade que Mia Couto coloca em cada palavra, a forma como, entre a voz e o silêncio, leva a que identidade e memória dancem em comunhão, é um convite à autodescoberta, um rasgar de atalhos para o mais fundo de cada um de nós. Motor secreto da peça e do romance, o amor é semente capaz de transformar dúvidas em certezas, a hesitação em voo, o receio em pertença. A materialização de todo este imaginário fabuloso constrói-se em comunhão de talentos: Onde apenas existiam telas, as luzes abrem rios; o vazio veste-se de emoção ao som de uma música inspirada; o invisível faz-se presente na riqueza dos sons; os figurinos acrescentam cor à própria respiração. E há os actores, enormes de talento, a provarem que o teatro é vida... e a vida é o teatro. Em harmonia, tudo vibra como na pequena aldeia, onde o natural e o sobrenatural se passeiam de mãos dadas e as histórias adormecidas vêm à superfície ao menor rumor de transformação ou magia.

Em Sever do Vouga, palco e plateia voltaram a partilhar os mesmos ventos. Ambos foram lugares de fronteira ao longo da qual nos reinventámos face aos nossos medos e incertezas, à nossa própria finitude. Nesse lugar de partilha, onde a inocência das crianças e o saber dos mais velhos alcança o equilíbrio num mesmo fôlego, é em conjunto que se molda o corpo ao verbo e o verbo ao corpo. Em Sever do Vouga, como em Ovar, o teatro levou a que cada espectador fizesse o mais difícil, o olhar-se no outro, o ver-se nele sem sobranceria ou imodéstia – antes de forma cúmplice, com humildade e empatia, actores que todos somos no palco desta vida. Então fomos capazes de rir e chorar, na certeza de quem aceita sonhar o mesmo sonho. Da vulnerabilidade de uns e do silêncio atento de outros, nasceu um pacto invisível entre quem sabe reconhecer-se na mesma emoção, o palco como espelho encantado onde cada gesto encontra quem o acolha e cada olhar abraça quem o transforme em magia. No final, todos - narradora com narradora, forasteiro com forasteiro, patrão da fábrica com patrão da fábrica - se cingiram num abraço, gratos pelo milagre que é o teatro.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

TEATRO: "Chuva Pasmada"



TEATRO: “Chuva Pasmada”
Texto original | Mia Couto
Adaptação, direcção artística e encenação | Leandro Ribeiro
Compositor, pianista | Hélder Bruno Martins
Design, desenho e execução de figurinos | Marta Baldaia
Desenho de cenografia e adereços | Leandro Ribeiro e Marta Baldaia
Sonoplastia e operação de som | Hugo Gamelas
Desenho e operação de luz | Cárin Geada
Interpretação | Clara Oliveira, Mafalda Reis, Maria Inês Campos, Paulo Cruz e Rita Camões, com elementos da comunidade local, Alice Baldaia, Cândida Jardim, Carla Reis, Carmo Seixas, Celeste Lopes, Cristina Santos, Gabriela Silva, Graça Carrapatoso, João Pedro Teixeira, Joaquim Margarido, Leonor Baldaia, Manuela Marques, Maria Silva, Martim Rilho, Rosa Maria Leite, Rosana Henriques
Produção executiva | Clara Oliveira
Apoio à produção | Inês Fonseca
Produção | Sol d’Alma – Associação de Teatro
Promoção | Câmara Municipal de Ovar
100 Minutos | Maiores de 6 anos
Centro de Artes de Ovar
12 Set 2025 | sex | 15:00 e 21:30


“Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.”
Excerto do poema “Ítaca”, de Konstantínos Kaváfis (tradução de Jorge de Sena)

“No princípio era o verbo”. Elejo uma frase bíblica para iniciar esta reflexão, mas na verdade é um mistério o porquê dessa escolha. Como é um mistério o convite para fazer parte do elenco desta peça, ou mesmo a razão pela qual o aceitei. Que obra do acaso me terá feito arriscar pisar um palco pela primeira vez, me terá juntado a um grupo tão diverso, disposto a aprender falas e deixas, a seguir a dinâmica de uma peça, a ser pedra e patrão, bailarino e aldeão, enfim, a ser tudo o que me dissessem para ser? Sou daqueles que crê que nada acontece por acaso e, após o “sim” no altar do teatro, eis-me mergulhado na peça, a começar nessa “Chuva Pasmada”, romance de Mia Couto, inventor de palavras e de sonhos, cuja escrita me arrastou desde sempre para lugares de encantamento e magia. O livro é maravilhoso e nele reencontrei o místico, o espiritual e o fantástico, em convivência estreita com o dia-a-dia simples, com a inocência das crianças e o conhecimento milenar dos anciãos, portas e janelas abertas sobre as questões universais da humanidade.

“No princípio era o verbo”, sim. A palavra, o discurso, a lógica, uma espécie de razão ou lei universal. Um preceito que torna o universo inteligível e harmonioso, tão necessário quanto único, tal como se oferece nesta história dominada pelo poder transformador do amor. Do sonho à realidade vai um piscar de olhos, o mesmo piscar de olhos que torna a dúvida em certezas: “Não é possível transpor o romance para teatro”, pensei. Estávamos no início de Agosto e, na Sede do Sol d’Alma, a Clara, a Marta e o Leandro recebiam-nos com o maior dos sorrisos. Falámos de nós, dissemos da peça. Projectada numa tela improvisada, a história de Mia Couto rasgava as fronteiras de cada uma das páginas e, num passe de magia, alcançava uma dimensão insuspeitada. O caminho abria-se em espanto e promessa. Impossível? Quem falou em impossíveis? Titubeante e inseguro, como quem se deixa levar na corrente de um rio largo, parti rumo a Ítaca, disposto a abraçar terras e gentes, mas sobretudo a aproveitar bem a viagem e a abraçar-me a mim próprio.

“Que comecem os ensaios”, pareceu-me ouvir Talma dizer. Passo a passo, o espectáculo foi-se construindo. De surpresa em surpresa, tudo em redor foi sendo força acrescentada à força que vinha de trás. Suave e breve como um fio de água ou pujante e tumultuosa como um rio que promete tudo arrastar à sua passagem, a música de Hélder Bruno Martins vestia as cenas de emoção e sentimento. As luzes de Cárin Geada abriam rios onde só se viam panos, céus onde só havia terra, deuses onde havia apenas gente. O som de Hugo Gamelas levou-me a escutar o que nunca tinha escutado, os ruídos fugazes da floresta, o cavo clamor de um búzio, um frasco de perfume quebrado em mil pedaços. A delicadeza e harmonia dos figurinos de Marta Baldaia acrescentou à peça cor e brilho, fazendo de todos – quero acreditar - pessoas (ainda) mais bonitas. E senti-me bem. Senti-me mesmo bem, investido de uma força inabalável, da certeza das coisas certas, do orgulho de ser peça da engrenagem, elo de inquebrável cadeia, grão da mesma mó.

Em bando, em cardume ou em bolinha, aprendi a interrogar os céus e a remexer as nuvens, a entrar na dança e a rir da desgraça alheia, a chapinhar na água, a recolher lentilhas e a fazer o sinal da cruz. A ser máquina de fábrica e margem de rio, onda e correnteza, rocha que não mexe (por muito que doam ossos e articulações). De fora de cena ou pelo canto do olho, fui sentindo o coração pequenino ao ver como a Clara, a Rita e o Paulo, a Inês, a Mafalda e o Martim, a Maria e o João, cresciam nos seus papéis. Como se agigantavam, enchendo a peça com a força da sua presença, do seu saber estar em palco. Com eles aprendi a ser “forte, polido e maneiroso. Um casca fina. A falar um português com mais ondas que curvaturas”. A afunilar os olhos babões na Rita, que nem pelicano fixando o peixe. Na pose, no gesto e na voz, foram eles a força inspiradora de um grupo de não actores que soube espantar-se, aprimorar-se, crescer. Estão todos no meu coração, em especial a Narradora, que não apenas pelo óbvio.

“No princípio era o Leandro”. Isto dito, sinto que finalmente se quebrou o mistério e tudo se encaixa. Irrepreensível na forma como colocou as peças no lugar certo do tabuleiro e as fez mexer com inteligência, suavidade e elegância, Leandro Ribeiro soube transformar o complexo em simples, alquimista das palavras que é, feiticeiro dos gestos, génio que das pedras faz brotar água – “clara, farta, risonha.” Regresso a “Ítaca”, à viagem, àquilo que é mais importante que o destino. Ao verdadeiro valor da vida que reside no caminho percorrido, nas experiências vividas, no enriquecimento pessoal, que não na conquista de Ítaca. Uma viagem rica e transformadora, que tomou conta de mim por inteiro, que me levou a fazer caretas em frente ao espelho, a dar passeios à beira-mar com a música da peça a rivalizar com os gritos das gaivotas, a implorar ao sono que viesse porque “aquela deixa” não me saía da cabeça, a regressar do trabalho com a pressa de quem sabe que o esperam três horas de empolgante comunhão e partilha. Vou sentir falta desta chuva, sei-o bem. Dentro de poucas horas o pano irá subir. É tempo de entrar em cena com o pé direito. “Pai nosso, cristais no céu…”

[Foto: Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/ovarcultura]

segunda-feira, 7 de julho de 2025

TEATRO: "Vida: Uma Aplicação"



TEATRO: “Vida - Uma Aplicação”
Texto | Gisela Casimiro
Encenação, desenho de som, luz, cenografia e figurinos | Leandro Ribeiro
Design e apoio aos figurinos | Marta Baldaia
Interpretação | Daniela Adelino, Yasmin Lucchi, Renata Resende, Alexandre Pinto, Maria Reis, Maria Silva, Mariana Costa, Francisco Fidalgo, Sofia Oliveira, Sofia Miguel Costa, Margarida Laranjeira, Madalena Carvalho, Filipe Marques, Leonor Eglésias, Francisca Nata, Gabriel Garrido, Eduarda Terra, Rita Pereira, Maria Inês Campos, Sara Oliveira e Mafalda Reis
Produção | Sol d'Alma - Teatro
Promotor | Teatro Nacional D. Maria II - Projecto PANOS
75 Minutos | Maiores de 6 Anos
Auditório Sol d’Alma
05 Jul 2025 | sab | 17:00


Depois de, em 2022, ter sido seleccionado para a fase final do Concurso Nacional de Teatro Juvenil do Projecto PANOS - Palcos Novos, Palavras Novas, com a peça “As Cigarras Septendecim e Tredecim”, o elenco juvenil do Sol d’Alma - Associação de Teatro voltou a abraçar o desafio em nova edição do PANOS e, de novo, marcou presença num espectáculo final que teve lugar no Convento de S. Francisco, em Coimbra. Daí que o primeiro aplauso vá, com a devida vénia, para os actores e restante equipa do Sol d’Alma que fazem acontecer, dedicadamente e com enorme trabalho, coisas bonitas como esta. O aplauso maior vai para a forma como souberam pegar num texto que se instala no quotidiano de um mundo cada vez mais cego e surdo, e reflectir sobre o uso excessivo do telemóvel e suas redes sociais, onde o que conta é o captar da mais bonita fotografia ou da postagem instantânea do vídeo mais inusitado. Num registo que se aproxima do Teatro do Absurdo, o que a peça nos vem dizer é que absurda é a vida e o mundo em que coexistimos e não o Teatro. Mas vamos por partes.

Tudo começa numa típica tasca lisboeta, algures na segunda metade do século passado. Uma tasca frequentada por operários e donas de casa, escritores e senhorecas, onde se ouve Amália, se anuncia “O Costa do Castelo”, se celebram os Santos Populares e o tasqueiro é... uma tasqueira. É neste cenário que a nota de inverosimilhança se impõe na figura de uma “influencer” que, munida de telemóvel, tudo regista e tudo partilha nas redes sociais, ávida de mostrar ao mundo as personagens que tipificam um muito peculiar microcosmos social e de receber, em doses generosas, os correspondentes “likes”. Entre viagens de metro, combóio, autocarro, barco, taxi ou bicicleta, e respectivos pontos de recolha ou salas de espera, aquilo que a peça mostra é a quebra irremediável dos vínculos comunitários, da partilha de olhares, palavras e sentimentos, do cimento que nos torna cúmplices e solidários, em desfavor do imediatismo de uma mensagem num telemóvel, de um vocabulário reduzido a palavras como “postar”, “tweetar” ou “trollar”, dos egos reforçados por recompensas contadas em “gostos”, do “apagar memórias para instalar mais uma rede social”.

Quem leu o excelente “Estendais”, de Gisela Casimiro, sabe que é para nós que a autora escreve. Para todos e cada um de nós, sublinhe-se, mesmo que as prioridades divirjam, as rotinas se estranhem ou as origens se afastem. Através da escrita, a autora mostra-nos os seus lugares, as suas vivências, a sua forma de ver e sentir o espaço em volta, porque sabe que, tal como sucede consigo, haverá sempre alguém que encontrará o fim do mundo em Carnaxide ou em Válega. Isto sente-se e é por isso que nos toca tanto escutarmos, da sua voz, que “a negação caminha de mão dada com a prostração”, que “a fome é uma ameaça que demora muito a deixar-se ver” ou que “parecemos cada vez mais desabituados uns dos outros”. “Vida - Uma Aplicação” não é diferente. “Filha do Senhor Emoji e da Dona Figurinha”, a geração zoomer é a prova do quão mudado está o paradigma social, um olho no ecrã e outro no acontecimento, porque importa partilhar nas redes sociais as imagens da dor e do sofrimento, em vez de prestar auxílio e mostrar-se solidário com quem verdadeiramente precisa.

Está de parabéns Leandro Ribeiro por, uma vez mais, ter conseguido “dar a volta ao texto” e levar à cena, com imaginação e humor, uma peça complexa e aberta a múltiplas abordagens. Alicerçado num grupo de enormes actrizes e actores, o resultado final surpreende pela forma como tratou temas complexos sem os reduzir a meras metáforas. Na mente do espectador ficará o extraordinário quadro da agressão a uma passageira de autocarro, a remeter para o caso Cláudia Simões, com o julgamento em praça pública amplificado pela omnipresença dos telemóveis; como ficará o quadro da influencer a maquilhar-se enquanto explica uma cena banal do quotidiano. Ficará, sobretudo, um dos quadros finais que junta quatro pessoas num mesmo espaço, mas que dialogam entre si ao telemóvel para dizer, entre muitas outras coisas, que “a vida está tão José Régio”. “Beijinhos à família antes que me esqueça” e, enfim, toca a levantar do sofá onde lêem isto e a cantar comigo, bem alto, “e se a vida ligar / se a vida mandar mensagem / se ela não parar / e tu não tiveres coragem de atender / tu já sabes o que é que vai acontecer / eu vou descer a minha escada / eu vou estragar o telemóvel, o telele / eu vou partir o telemóvel”.

[Foto: © Manuel Vitoriano / https://www.facebook.com/soldalma]

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

OPERETA: "A Nossa Aldeia"



OPERETA: “A Nossa Aldeia”,
de Egas Moniz
Adaptação, direcção artística, encenação e cenografia | Leandro Ribeiro
Composição e direcção musical | Vítor Sousa
Figurinos e adereços | Marta Baldaia
Coreografia | Vera Lopes
Captação, edição de vídeo e fotografia de cena | Diogo Marques
Interpretação | Gabriel Garrido, Ana Rodrigues, Marco Nunes, Sara Moreira, José António Stréna, António Alves, Armanda Queirós, Margarida Laranjeira, Ana Paula Lapas, Gustavo Silva, Emília Maia, Luna Rodrigues, Carolina Santos, Bernardo Azevedo, Patrícia Quintino, Mónica Pinto, Otília Borges, Dionísia Santos, Ana Rita Ferreira, Palmira Baptista, Maria João Melo, Luís Rola, José Marques, Diana Coutinho, Maria Guimarães, Joana Guimarães, Vítor Sousa, Mariana Valente, Rita Lucas, Flávia Lucchi, Bruno Azevedo, Ana Moutela, Francisco Laranjeira, Paulo Santos, Jorge Azevedo, Fábio Vaz, Cândida Jardim, Hernâni Sá e comunidade estarrejense.
Produção | Município de Estarreja, No Sorriso da Lua e Sol d’Alma - Associação de Teatro
120 Minutos | Maiores de 6 Anos
Cine Teatro de Estarreja
30 Nov 2024 | sab | 21:30


29 de novembro de 1874. Nesta data, nascia em Avanca aquele que viria a ser o Prémio Nobel da Medicina em 1949, o médico e cientista António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz. Ao cumprirem-se 150 anos sobre a efeméride, o Município de Estarreja apresentou ao público o espetáculo multidisciplinar “A Nossa Aldeia”, baseado na opereta que Egas Moniz escreveu e levou à cena na Casa do Marinheiro a 22 de setembro de 1920. A história original conta-se em dois actos e retrata a chegada a Avanca, vindos de Lisboa, dos irmãos José Maria e Maria José, a quem o Regedor obriga a abrir as malas para investigar se não traziam bombas, pois “com gente de Lisboa é preciso ter muito cuidado”, numa alusão irónica aos distúrbios constantes na capital. Os irmãos vêm à procura da “cadeira marcónica”, um aparelho maravilhoso que permite viajar no tempo e que os levará a apreciar o contraste entre a “Avanca do passado”, que cultivava a distinção e as boas maneiras, a “Avanca de hoje”, que apreciava a vida simples, e a “Avanca de amanhã”, dos “sports” e do “feminismo”, que dançava o “foxtrot” e o “twostep” e que dispunha de um teatro em que actuavam cantores vindos de Paris pelo Sud Express. Entretanto chega um rapaz, o Manuel da Rosa, que está de partida para a América, para onde iria emigrar, deixando chorosas as moças da terra.

Espectáculo que, na sua multidisciplinaridade, abraça a figura eclética, dinâmica e empreendedora de Egas Moniz, “A Nossa Aldeia” é um arrojado exercício artístico que contou com o envolvimento de mais de uma centena de elementos, entre actores, figurantes, músicos e equipa técnica. A união do texto original com um aturado trabalho de investigação sobre a vida e obra do Nobel da Medicina forneceu a matéria-prima para a construção dos vários quadros que a peça contempla, aos quais Leandro Ribeiro soube acrescentar emoção, ironia e humor em doses generosas, desenhando um retrato de época que, bem vistas as coisas, acaba por se revelar particularmente actual. Mas se o trabalho de adaptação da obra e a sua encenação envolveram enormes desafios, o que dizer da parte musical cuja partitura original, da autoria de Estefânia Macieira, cunhada de Egas Moniz, e do condiscípulo Alberto Rego - além de incluir melodias tradicionais e fragmentos de outras origens, como a ópera “Manon” de Massenet -, se perdeu. Apoiando-se nas anotações de Acafem (pseudónimo sob o qual Egas Moniz escreveu a opereta), Vítor Sousa assumiu a tarefa de compor uma nova partitura, fazendo o acompanhamento da peça nas suas diversas variações e revelando-se em engenho e virtuosismo nos quadros estritamente musicais.

Imaginativo, ousado, irreverente, provocador, o espectáculo oferece momentos de boa disposição, a começar na longa viagem que leva os irmãos até Avanca, numa sucessão inesgotável de meios de transporte. A interpretação de uma cantiga na festa de despedida de Manuel da Rosa é um momento de grande emoção, tal como o excerto da ópera “Manon”, n’O Grande Lírico Avancanense, cantado a quatro vozes. A jornada das peixeiras que, de canastra à cabeça, levavam a sardinha da Torreira até ao Loureiro não ficou esquecida, como não ficaram esquecidas as colecções do Marinheiro, as lavadeiras no Rio Gonde, a saborosa broa de Avanca e uma Santa Marinha rezingona. Ao longo de quase duas horas houve alecrim e camarinhas pelo chão, um amolador de facas, tesouras e línguas, um rally automóvel, o desfilar dos ofícios, Carmen Miranda e o reclame radiofónico da Companhia de Curtumes de Antuã, os anúncios da Nestlé, as cadeiras da Adico nas esplanadas de Paris, uma cigana a ler a sina, um coro de omnipresentes alcoviteiras, burros em figura de gente e gente em figura de burro. O tema da emigração assumiu lugar de destaque, sobretudo as ligações inquebráveis entre quem parte e quem fica. A multiplicidade de referências às gentes e aos lugares arrancou gargalhadas à plateia e o resultado é de aplaudir pela inteligência e dignidade da obra e pelo empenho de todos quantos nela participaram. Caso fosse vivo, Egas Moniz sentiria orgulho em ver, na nossa aldeia, esta versão da sua opereta.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

TEATRO: “O Legado de Anne – Histórias Reais de uma Guerra Real”



TEATRO: “O Legado de Anne – Histórias Reais de uma Guerra Real”
Dramaturgia e encenação | Leandro Ribeiro, a partir de “O Diário de Anne Frank” e de outros escritos e depoimentos de sobreviventes do Holocausto
Cenografia, som e luz | Leandro Ribeiro
Figurinos e design | Marta Baldaia
Operação de som | Sara Oliveira, Jorge Azevedo
Fotografia | Manuel Vitoriano
Interpretação | Clara Oliveira, Daniela Adelino, Flávia Krishina, Gabriel Garrido, Hernani Sá, Inês Campos, Jorge Azevedo, José António Stréna, Josué Ferreira, Luís Rola, Mafalda Reis, Marco Nunes, Maria João Melo, Maria Reis, Nicole Gomes, Otília Borges, Palmira Baptista, Patrícia Quintino, Renata Resende, Rita Pereira, Sara Almeida, Sofia Oliveira, Sofia Miguel Costa, Yasmin Krishina
Apoio à produção | Clara Oliveira, Patrícia Quintino, Mónica Pinto, Marco Nunes
Produção | Sol d’Alma – Associação de Teatro
Sede da Sol d’Alma – Associação de Teatro
26 Mai 2024 | dom | 18:30


Com o cair da tarde chega ao fim, na sede da Sol d’Alma, “O Legado de Anne – Histórias Reais de uma Guerra Real”. Trata-se da última de quatro representações num extenuante fim-de-semana, sempre com a lotação esgotada. De mãos dadas à boca de cena, os actores recebem os aplausos que os espectadores, tomados pela comoção, lhes votam por largos minutos. Na mente de todos ecoam as derradeiras palavras de um extraordinário monólogo que lembra que “o neonazismo, os movimentos de extrema-direita e os discursos de ódio estão a aumentar”, reforçando a importância do legado de Anne Frank, verdadeiro “símbolo dos direitos universais da criança”. “A alma de uma única criança vale uma vida inteira”, ouve-se, como se de um grito se tratasse. Ironicamente, à mesma hora, um campo de refugiados em Rafah é bombardeado, causando a morte de dezenas de civis, entre os quais crianças, imagens que o mundo pôde testemunhar. Para Benjamin Netanyahu, o bárbaro e covarde massacre não passou de “um incidente trágico”, mas todos temos consciência de que este foi apenas mais um capítulo no processo genocidário do povo palestiniano, levado a cabo de forma determinada e sistemática até à plena tomada de posse de um território entendido pelo movimento sionista como “uma terra sem povo para um povo sem terra.”

Descrito como uma adaptação livre de “O Diário de Anne Frank” e de depoimentos de sobreviventes do Holocausto, “O Legado de Anne” conta-nos a história de uma adolescente que se vê forçada a esconder-se num anexo secreto da fábrica do seu pai, juntamente com mais sete pessoas, durante dois anos. Ao longo da sua estadia e à medida que a II Guerra Mundial alastra, uma outra guerra toma proporções enormes no seu interior. Na viragem para a adolescência, Anne vivencia sonhos, dúvidas e inseguranças. Passa pela puberdade fechada entre quatro paredes, ao lado de uma família e amigos que não a compreendem e são castradores da sua imaginação. Refugia-se então num diário ao qual dá o nome de “Kitty” e a quem confessa o desejo de “continuar a viver, mesmo após a morte”. No dia 4 de Agosto de 1944, o anexo é descoberto e os seus ocupantes, depois de interrogados, são deportados para o campo de extermínio de Auschwitz. Três meses mais tarde, Anne e a sua irmã Margot são transferidas para o campo de concentração de Bergen-Belsen, onde viriam a morrer de tifo em Fevereiro de 1945. O diário de Anne Frank é salvo e conhecerá uma primeira edição em 1947. Hoje está traduzido em cerca de setenta línguas e tem sido alvo das mais variadas adaptações para teatro e cinema, sempre com a mensagem implícita da tomada de consciência dos perigos da xenofobia, do racismo e do discurso de ódio contra as minorias.

Numa peça escrita e encenada com o coração, o olhar delicado e atento de Leandro Ribeiro impõe-se em cada detalhe. A comovente adaptação que faz deste clássico da literatura olha o espectador nos olhos, convida-o a entrar no anexo e pede-lhe que seja Anne. Não por um instante, não por duas horas ou dois anos, mas sempre. É por isso que esta Anne que nos deixa um legado é a mesma Anne que se anuncia sem apelidos. Por ela, por nós, importa que sejamos todos Anne e o façamos saber ao mundo. Explorando as potencialidades de um espaço cénico reduzido e dos adereços que o preenchem, a peça tem o seu início no exterior do edifício em ambiente de festa. A cena é breve, mas suficientemente eloquente para nos dar a ver as nuvens ameaçadoras que pairam sobre aquelas pessoas em cujas roupas se distingue a estrela de seis pontas com a inscrição “jude”. Entra-se na casa, passando por uma porta estreita onde somos obrigados a baixar a cabeça. A subida ao sótão representará uma descida aos infernos. Ali, a individualidade de cada um colide com a partilha dos espaços exíguos, a rigidez dos horários, a escassez de meios e de bens. Os diálogos são cirurgicamente interrompidos e fazem-se ouvir os testemunhos de sobreviventes dos campos de concentração, mostrando o quanto tudo nesta vida é relativo. Há um nó a estrangular-nos a garganta.

Mescla de juventude e veterania, os vinte e quatro actores em palco são outro enorme trunfo desta peça, graças à sua entrega e talento. Entre todos, permito-me destacar as muito jovens Inês Campos e Mafalda Reis, no papel de Anne (aos 13 e aos 15 anos, respectivamente) e ainda uma extraordinária Sofia Miguel Costa, no papel de Kitty, empenhadas e seguras nos momentos mais fortes e decisivos da peça. Enquanto testemunho do poder do espírito humano, contado pelos olhos de uma corajosa rapariga de 13 anos, o texto é sufocante, tornado suportável graças a uma encenação inteligente que, sem aligeirar, sabe balancear na exacta medida os momentos de tensão e as situações de maior leveza. Para lá das cortinas sabemos que o sol brilha, mas é do lado da escuridão que devemos permanecer: Do lado dos mais fracos, dos perseguidos e privados da sua liberdade, tomando como nossa a sua raiva e a sua dor. Por isso os olhos se rasam de lágrimas ao vermos que, oito décadas depois, a história como que se repete. Elevar a guarda em tempos incertos, abraçar Anne Frank e o seu legado e travar a barbárie que volta a cobrir-nos de vergonha e a manchar de sangue inocente toda a Humanidade é a extraordinária mensagem desta extraordinária peça. Para que o Holocausto jamais se repita.

[Foto: Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/soldalma]

domingo, 23 de julho de 2023

TEATRO: "Sabão Potassa - Estórias d'Alma Lavada"



TEATRO: “Sabão Potassa - Estórias d’Alma Lavada”
Projecto artístico multidisciplinar, realizado a partir de entrevistas orientadas por Tiago Alves a doze elementos da comunidade local e crónicas radiofónicas da autoria de Liliana Elsig
Direcção artística, dramaturgia, encenação, cenografia | Leandro Ribeiro
Design, adereços e figurinos | Marta Baldaia
Interpretação | Sol d’Alma - Associação de Teatro e comunidade local, com a participação especial de DESAFIO - Grupo de Teatro da Universidade Sénior da Misericórdia de Ovar, Escola de Samba Costa de Prata, Iury Matias (violão), Laura Rui (voz), SEVERI - Grupo de Teatro de Sever do Vouga
Produção executiva | Ana Vila Real, Clara Oliveira
Centro de Arte de Ovar
22 Jul 2023 | sab | 21:30


“Sabão Potassa: O melhor da Praça”. O slogan não poderia ser mais apropriado e eu, que fui um dos muitos que esgotaram o Auditório do Centro de Arte de Ovar, em noite de estreia de “Sabão Potassa - Estórias d’Alma Lavada”, posso confirmá-lo. Entre o terno e o cáustico, o intencional e o inocente, provocador q.b., com muita fantasia e uma ponta de ironia, astucioso, irreverente, descontraído, prático, sensível e sincero, generoso e honesto até à medula, “Sabão Potassa” trouxe-nos as estórias de uns, tornadas de todos pelo poder da dádiva e da partilha. Uma dádiva e uma partilha que teve no jornalista Tiago Alves e nas entrevistas que fez a doze personalidades bem conhecidas da comunidade local, o seu ponto de partida. Posteriormente, pela pena inspirada de Liliana Elsig, os testemunhos foram subtilmente revestidos por uma fina patine de ficção e conheceram a luz do dia sob a forma de crónicas radiofónicas emitidas na rádio local Antena Vareira. Levar a palco o projecto terá sido, desde o momento em que começou a ser desenhado, a grande ambição dos seus criadores. Ontem, em noite de estreia, cumpriu-se o desígnio e o projecto deu-se a ver em toda a sua dimensão. Como referiu Leandro Ribeiro, director artístico, dramaturgo, encenador e cenógrafo da peça, “aconteceu magia”.

Vermos “Sabão Potassa - Estórias d’Alma Lavada” é vermo-nos a nós próprios. É olharmos nos olhos aqueles com quem diariamente nos cruzamos, é escutarmos as suas histórias, recordarmos as suas memórias e percebermos que são de todos e de cada um. Há um gato preto que atravessa a peça e, como é apanágio de ser-se gato e ser-se preto, traz com ele uma nota de fatalismo que as doze reguadas em cada mão que Fátima leva da professora, a “novela” à volta da gravidez da Isabel, a fonte de enriquecimento do Mário, a prisão do Moisés ou o esquecimento a que foi votado um homem que “tinha olhos e coração e fonte de loucura, e soube enaltecer a sua terra sem palavras inúteis”, parecem confirmar. Mas há também histórias de sucesso, como a do Hortênsio, cuja concretização do sonho de ter um restaurante seu não poderia ter sido mais feliz, da Maria de Lurdes, uma das três primeiras mulheres a tornarem-se presidentes de uma autarquia no pós-25 de Abril ou da Laura, uma jovem cantora com uma extraordinária carreira à sua frente. Em todas elas, de comum, encontramos a resistência e a coragem, a força de acreditar, de fazer orelhas moucas aos arautos da desgraça e seguir em frente. Será isto “ser vareiro”?

É de histórias como aquelas que se partilham em “Sabão Potassa - Estórias d’Alma Lavada” que se alimenta a “alma vareira”. Mas não se julgue que esta é uma peça só para “consumo interno”. Leandro Ribeiro soube dotar o texto de qualidades e características que lhe conferem um grau de universalidade e que fazem com que possa ser visto e entendido pelos espectadores sem qualquer tipo de condição prévia. Oferecendo um conjunto de leituras que extravasam o âmbito sociológico ou etnográfico, a peça encontra-se recheada de momentos de enorme simbolismo, de apontamentos coreográficos de grande beleza estética, de interpretações de enorme intensidade e inspiração. Dos anúncios radiofónicos ao Canada Dry e ao Formitrol ao som cavo de um búzio, dos desenhos de Zé Maia às imagens do primeiro título nacional de Basquetebol para a Ovarense, da interpretação magistral de uma versão de “La Llorona” a uma aula de Economia Doméstica, do hediondo de um levantamento rigoroso de todos os pertences de um “perigoso comunista” a uma manifestação visceral sob o lema “Há Que Capturar o Esquecimento”, de um desfile de Carnaval ao insólito de um espectador que faz questão de mostrar a sua indignação com “macacadas” e “politiquices” e abandona a sala sob forte pateada, são muitos e variados os momentos com os quais nos sentimos cúmplices e nos emocionamos. Que nos põem no rosto um sorriso, no coração um afago e nos deixam de alma lavada.

Creio que a rádio merece aqui uma palavra de destaque. Uma das bases mais sólidas de “Sabão Potassa - Estórias d’Alma Lavada” encontramo-la em dois homens da rádio. Tiago Alves, pelo seu trabalho de pesquisa e de entrevista, e Jaime Valente, alma (e corpo) da Rádio Antena Vareira e que tão bem soube dar sequência ao projecto. É justamente a rádio, com tudo aquilo que representa, que se mostra presente nos adereços como nas influências, contando ela própria histórias de resistência e de liberdade (se pensarmos que o projecto nasce em tempo de pandemia e que é nesse tempo que se desenvolvem as entrevistas, percebemos que esta resistência e esta liberdade associadas à rádio, num concelho que viveu uma cerca sanitária, adquirem um impacto e um alcance ainda maiores). A outra palavra de destaque vai para o trabalho de criação artística. É verdadeiramente genial a forma como os quadros se articulam entre si, uma palavra ou um simples gesto a dar a deixa para o quadro seguinte, em raccords que, na maior parte dos casos, roçam a perfeição. A forma como um gato preto dá lugar a um restaurante que dá lugar a um Gabinete de Apoio ao Munícipe que dá lugar a uma manifestação que dá lugar a um desfile de Carnaval… que dá lugar a um gato preto, resulta de um exercício de escrita cuidado, rigoroso, atento ao detalhe, inspirado e livre. O resto faz-se da generosidade de quase uma centena de actores em palco, da sua dedicação e entrega, do seu entusiasmo, da sua arte. Viva o Teatro!

[Foto: Ovar / Cultura | https://www.facebook.com/ovarcultura]

segunda-feira, 24 de abril de 2023

TEATRO: "Em Camisa"



TEATRO: “Em Camisa”,
Inspirado no romance “Lisboa em Camisa”, de Gervásio Lobato
Dramaturgia, encenação, figurinos, cenários, som e luz | Leandro Ribeiro
Desenho | Marta Baldaia
Interpretação | Ana Catarina, Ana Rodrigues, Clara Oliveira, Cláudia Dias, Diana Coutinho, Fábio Vaz, Flávia Krishina, Hernâni Sá, Joana Sousa, Leandro Ribeiro, Luís Rola, Marco Nunes, Mónica Pinto, Otília Pereira, Palmira Baptista, Patrícia Quintino, Sara Moreira
Produção | Sol d’Alma – Associação de Teatro
135 Minutos | Maiores de 6
Auditório Sol d’Alma
23 Abr 2023 | dom | 18:30


“O Sr. Antunes, desposando a filha do administrador do concelho, desposou também o seu ponto de vista político. Ora, com esta opinião, vai-se longe em Portugal, muito mais longe que do Algarve a Lisboa. O Sr. Antunes veio até Lisboa. Seu sogro fez por lá sandice grossa, e para não se verem obrigados a demiti-lo, fizeram-no chefe de uma repartição. A filha não quis mais tempo viver naquele inculto concelho, onde a eloquência de seu pai não tinha florido. Antunes viu-se embaraçado, tinha de um lado a política de seu sogro, do outro os figos de seu pai. Decidiu-se pela política de seu sogro, que o fazia segundo-oficial das Obras Públicas, Comércio e Indústria, e abandonou os figos da sua infância.”

Um quase desconhecido do nosso espectro literário, Gervásio Lobato foi um autor muito apreciado no seu tempo pela forma como transformava os seus escritos em estudos humorísticos da vida lisboeta. Publicada originalmente em 1882, a novela “Lisboa em Camisa” representa um dos pontos mais altos da sua obra ao explorar o lado risível da vida humana, detalhando o quotidiano de uma franja da pequena burguesia da capital. Foi justamente neste livro que Leandro Ribeiro se inspirou para criar “Em Camisa”, peça de teatro em um acto (e a ameaça de um segundo) que a Sol d’Alma – Associação de Teatro estreou no passado dia 02 de Abril. O ambiente é de expectativa quando os actores se reúnem com o mestre para a escolha da peça e distribuição de papéis. É este o ponto de partida de um espectáculo que, ao longo de um pouco mais de duas horas, nos conduz pelos meandros da criação artística, expondo ao olhar do público as relações, nalguns casos tóxicas, que os actores estabelecem entre si e com o mestre. O carácter de “peça dentro da peça” permitirá conhecer a história de Justino Antunes e penetrar no seu ambiente familiar e social, ao mesmo tempo que é traçado um retrato burlesco, mas também amargo, dos bastidores do teatro.

Há aspectos que importa realçar nesta peça e que fazem com que ela não se resuma a um mero exercício de representação. A “ambição” de centrar a acção em Ovar, “uma grande capital europeia”, é um deles e mostra que Ovar ou Lisboa é apenas uma questão de geografia. Esta opção permite aproximar o texto do público, explorando referências que, entre o ingénuo e o mordaz, colocam nos rostos o mais amplo dos sorrisos. Fazer da Rua dos Fanqueiros a Rua de Timor ou do Museu do Carmo a Casa-Museu Júlio Dinis (encerrada aos domingos), são apontamentos que “casam” na perfeição com as figuras de Santa Camarão ou do Visconde de Ovar, a requalificação do Cais da Tijosa ou os atractivos da Noite Mágica. As rábulas sucedem-se. Há corpos insinuantes, desmaios alarmantes, discursos desesperantes, perucas berrantes, barrigas extravagantes, jantares volantes. Canta-se em alemão uma ária da “Traviata”, reclama-se o pagamento do estrago numa jarra, aguarda-se com impaciência a chegada do “senhor VIP”. Um momento de pausa transforma-se no primado da imbecilidade. A tensão estala por um “s” a mais num nome. Mesmo que “a cara não bata com a careta”, há homens no papel de mulheres, mulheres no papel de homens e até há quem tenha o papel de não ter papel nenhum.

As muitas leituras que “Em Camisa” oferece, confluem na direcção do teatro amador e do que representa no espectro cultural de uma sociedade que, cada vez mais, confunde cultura com entretenimento. É deste teimar que surgem projectos firmados, se consolidam públicos e se ousam propostas como “Em Camisa”, uma peça que é tudo menos fácil. Mas teimar a que preço? Ao escutarmos a “Presidenta” a deitar contas à vida, a lamentar a escassez de coberturas do seguro, a apontar o dedo às Finanças ou a pactuar com a aceitação das meninas do “papátrocinador”, apetece dizer que “Deus sabe de todos e a Sol d’Alma sabe de si”. Falta falar do elenco e de como souberam interpretar os seus papéis na perfeição. Nas pausas hesitantes, nos olhares medrosos, nas inflexões tímidas das vozes, adivinha-se a complexidade de ser actor por cima do actor. Assente nessa condição dúplice, uma nota de humanidade atravessa toda a peça e convida o espectador a olhar para o seu próprio papel no teatro da vida. No final, clama-se pelas vanguardas à falta de luz, partem-se as ventas ao senhor VIP e a poesia é mera música de fundo. Na mente, uma frase ergue-se, enfática, vibrante: “Não existem pequenos papéis, o que existem são grandes actores”.

[Foto: Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/soldalma]

quarta-feira, 8 de junho de 2022

TEATRO: "As Cigarras Septendecim e Tredecim"



TEATRO: “As Cigarras Septendecim e Tredecim” 
Texto | Afonso Cruz
Encenação, figurinos, cenários e desenho de luz | Leandro Ribeiro
Design e edição de fotos| Marta Baldaia
Fotografia de cena e vídeo | Manuel Vitoriano
Interpretação | Beatriz Dias, Beatriz Santos, Daniela Adelino, Duarte Rodrigues, Eduarda Terra, Gabriel Garrido, Inês Campos, Inês Costa Silva, Jorge Azevedo, Laura Afonso, Leonor Matos, Mafalda Reis, Maria Silva, Nicole Gomes, Rita Pereira, Sara Oliveira, Sofia Almeida Costa, Sofia Pinto Costa
Produção | Sol d'Alma - Associação de Teatro
Promotor | Teatro Nacional D. Maria II - Projeto PANOS
Centro de Arte de Ovar
05 Jun 2022 | dom | 18:00


Bizarro, absolutamente original, o título desta peça remete para os nomes científicos Magicicada septendecim e Magicicada tredecim, dois géneros de cigarras existentes nos Estados Unidos e que emergem em ciclos de 17 anos e 13 anos, respectivamente. Estranha e misteriosa, confundindo-se com o húmus na escuridão da terra por um tão largo período de tempo, a existência destes insectos revela-se finalmente no ambiente único e mágico de uma noite na floresta, quando os indivíduos adultos eclodem à superfície para se alimentar, cantar, acasalar, pôr os seus ovos e, três semanas mais tarde, morrer. Mas a estranheza do fenómeno não se fica por aqui, uma vez que a assincronia dos ritmos biológicos de ambas as espécies leva a que a sua existência seja marcada por contínuos desencontros. “Será possível que duas sombras respirem ao mesmo tempo, como imaginou Henri Michaux? Será possível que o dezassete e o treze tenham um instante comum, ou, melhor ainda, eternidade comum?”

Empenhado em concorrer à edição deste ano do “PANOS – palcos novos palavras novas”, projecto promovido actualmente pelo Teatro Nacional D. Maria II e que visa cruzar o teatro escolar e juvenil com as novas dramaturgias, o elenco juvenil do Sol d’Alma – Associação de Teatro começou por enfrentar uma decisão difícil: eleger entre os textos originais de Afonso Cruz – “As Cigarras Septendecim e Tredecim” -, Keli Freitas – “Fábrica de Matar Baleia” - e Joanna Murray-Smith, com tradução de Joana Frazão – “Rio Sombrio”, aquele que melhor lhe convinha para levar à cena. Optou - e optou bem! - por estas cigarras de nome impronunciável. O mérito de saber interpretar e representar a peça foi reconhecido e premiado pelos responsáveis do projecto e, entre meia centena de candidatos, acabou sendo selecionado para apresentar a peça em Lisboa, na Sala Estúdio do TNDMII. Recheado de emoção, o momento pode ser revivido no palco do Centro de Arte de Ovar, três semanas depois, perante um público que praticamente esgotou a sala e vibrou com a peça do primeiro ao último minuto.

São vários os motivos que importa realçar e que contribuem para que esta seja uma peça que merece ser vista com a máxima atenção. Começo pelo texto, belíssimo, de Afonso Cruz, que quase me obriga a trautear a “Balada Astral”, de Miguel Araújo, “os astros a conspirar, no seu cósmico vagar”. Só que, neste caso, os astros e os signos, os desígnios e as constelações não se puseram de acordo - “as trelas dos cães não se ensarilharam” - e as vidas acabaram por se perder no horizonte, como os trilhos de um comboio que seguem lado a lado sem nunca se encontrarem. À intensidade e exigência do texto, respondeu Leandro Ribeiro com um trabalho de encenação versátil e eficaz, capaz de cruzar a acção em vários planos temporais e de estabelecer uma adequada correspondência entre os momentos da peça e os suportes e adereços aos quais inteligentemente recorreu. Reforçando a ideia da passagem do tempo, a projecção de fotografias antigas encerra momentos de uma enorme poesia e mostra que este recurso pode ser muito mais do que uma mera muleta do encenador quando se torna evidente que as soluções cénicas se esgotaram.

Falarei, enfim, do elenco juvenil do Sol d’Alma e da sua entrega, ritmo, energia e alegria. Está a fazer precisamente um ano que pude assistir à peça “O Despertar da Primavera” e na qual uma boa parte destes jovens actuava. E se nessa altura dei conta do meu entusiasmo perante “essa extraordinária plêiade de gente jovem e menos jovem que comunga do espaço do palco, que respira teatro”, dando algum destaque aos nomes de Leonor Matos, Nicole Gomes e Beatriz Dias, reforço agora as minhas palavras e estendo a devida vénia a todo o elenco. Na mente de todos permanecerá por muito tempo a cena final, a caixinha de música a tocar uma melodia muito triste em pano de fundo, a mulher que toma conta da criança autista a descobrir na base do sofá da sala o destino dado às suas revistas rasgadas, duas vidas que finalmente se encontram, ainda que apenas por um breve instante. Parabéns ao Sol d’Alma e que viva o teatro!

[Foto: Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/leandroribeiroteatro]