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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

TEATRO: “É o Fim do Mundo Tal Como o Conhecemos”



TEATRO: “É o Fim do Mundo Tal Como o Conhecemos”
Texto | “Já passaram quantos anos, perguntou ele”, de Rui Pina Coelho
Adaptação, encenação, desenho de luz e cenografia | Leandro Ribeiro
Fotografia | Manuel Vitoriano
Interpretação | Patrícia Quintino, Marco Nunes, António Alves, Joana Alves Sousa, Clara Oliveira, Luís Rola, Diana Coutinho, Maria João Melo, Jorge Azevedo, Flávia Krishina, Tiago Alves, Palmira Baptista, Otília Borges, Sara Almeida, Sara Moreira, Hernâni Sá
Produção | Sol d'Alma - Associação de Teatro
Auditório Sol d'Alma
18 Jan 2026 | dom | 16:00


Comecemos pelo texto. Da autoria de Rui Pina Coelho, intitula-se “Já passaram quantos anos, perguntou ele” e nasce de uma sensação estrutural: a experiência de suspensão, adiamento e exaustão de uma geração que foi educada para acreditar numa carreira e acordou num mundo carregado de promessas por cumprir. Embora situado no contexto muito concreto do pós-2008 e da precarização dos jovens licenciados portugueses, o texto resiste ao passar dos anos e vai ganhando espessura histórica, podendo hoje ser lido não apenas como retrato de uma crise, mas como o prenúncio de um estado normativo de permanente instabilidade, ansiedade e desorientação. Não é um texto profético no sentido lato; é-o porque o autor cedo percebeu que a excepção iria resultar em regra. Em boa hora Leandro Ribeiro e o elenco do Sol d’Alma decidiram trabalhar o texto e levá-lo à cena. “É o Fim do Mundo Tal Como o Conhecemos” resulta num exercício completo de teatro, oferecendo-nos um significativo momento que oscila entre o humor e a ternura, a revolta e uma funda melancolia.

A peça acompanha de perto a escrita de Rui Pina Coelho no que tem de fragmentário e de profundamente teatral no sentido do tempo, do ritmo e da repetição. A narrativa avança por acumulação, por variações mínimas sobre os mesmos gestos, frases e situações, das entrevistas de emprego às contas por pagar, das notícias do fim do mundo às pequenas humilhações quotidianas. Leandro Ribeiro sabe explorar uma dramaturgia do cansaço, em que a linguagem se esgota como os corpos e as expectativas. O uso insistente da enumeração, da sobreposição de vozes, do coro informal ou da passagem dos dias, cria uma sensação de ruído constante, muito próxima da experiência contemporânea de vivermos rodeados de informação sem sabermos o que fazer com ela. Os valores em jogo são, paradoxalmente, simples e devastadores, centrados na dignidade e no trabalho, no tempo, no amor e no futuro. É palpável a frustração sem saída à vista, sem que haja a possibilidade de identificação de um inimigo claro, apenas sistemas difusos, entrevistas absurdas, chefes prepotentes e promessas vazias.

O encenador revela o seu engenho ao pegar numa peça para quatro actores, fazendo subir ao palco quatro vezes este número. Acrescentar a personagem interpretada por Clara Oliveira ao “núcleo duro” da peça é particularmente inteligente, sobretudo pelo que acrescenta de dinâmica intergeracional, com tudo o que acarreta de incompreensão, injustiça, confronto e culpa. As referências à música, aos filmes de catástrofe ou aos discursos sobre o fim do mundo funcionam como espelhos distorcidos de um colapso íntimo que já aconteceu. O verdadeiro apocalipse não é cósmico, é interior: é deixar de saber quem se é, o que se quer, para quê se vive. A precariedade não surge apenas como situação económica, mas como condição existencial. Tudo é provisório, até os afectos. A gravidez de Alice, o desejo de ter filhos, as relações entre os amigos e o medo constante do colapso (económico, ambiental, simbólico) revelam um mundo em que a vida adulta foi adiada indefinidamente. Não é uma peça cínica; é uma peça ferida. E é precisamente essa ferida, a de quem acreditou, que lhe dá força ética.

É chegada a altura de olhar nos olhos os dezasseis actores e de lhes dar os parabéns pelo excelente momento de teatro proporcionado. A cena final de despedida, autêntico inventário de pequenas coisas banais - o gesto de enumerar tornado gesto de resistência - é um dos momentos mais comoventes do texto ao afirmar que a vida, mesmo diminuída, será sempre merecedora do nosso abraço. Este facto reforça a premência e actualidade da peça, ou não se mostrassem os horizontes ainda mais carregados do que há quinze anos atrás. Alargou-se a precariedade, normalizou-se a ansiedade e multiplicaram-se os discursos catastrofistas em torno do clima, da política, da civilização. Não sendo uma peça datada, “É o Fim do Mundo Tal Como o Conhecemos” revela-se uma peça “cansada”. Tal como cada um de nós. A sua importância está em recusar soluções fáceis e em insistir na busca de uma resposta para a dúvida que mói cada vez mais, a de como viver quando tudo parece adiado. A decisão do Sol d’Alma e de Leandro Ribeiro em abraçar estas questões está longe de ser um exercício nostálgico. É antes um gesto crítico que nos vem lembrar que o mal-estar não passou, que apenas mudou de forma. E que, enquanto não for enfrentado, continuaremos a repetir, com ironia e medo, a mesma pergunta: “O que é que eu estou aqui a fazer?”

[Foto: Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/soldalma]

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

TEATRO: “Chuva Pasmada” | Mia Couto



TEATRO: “Chuva Pasmada”
Texto original | Mia Couto
Adaptação, direcção artística e encenação | Leandro Ribeiro
Compositor, pianista | Hélder Bruno Martins
Interpretação | Clara Oliveira, Mafalda Reis, Maria Inês Campos, Paulo Cruz e Rita Camões, com elementos da comunidade local, Ana Albertina Pereira, Ana Silva, Ana Gabriela Tavares, Augusta Graça, Daniela Morence, Helena Barbosa, Isabela Amaral, João Figueiredo, Lucas Silva, Luiza Cassin, Mário Silva, Mónica Pires, Natália Fernandes e Vasco Figueiras
Produção | Sol d’Alma – Associação de Teatro
100 Minutos | Maiores de 6 anos
Centro das Artes do Espectáculo Sever do Vouga
16 Nov 2025 | dom | 16:00


Depois da estreia em Ovar, no passado mês de Setembro, “Chuva Pasmada” voltou à cena para uma representação única em Sever do Vouga. Em dia de festa e de celebração pelo 24.º aniversário do seu Centro das Artes do Espectáculo, os severenses cruzaram-se com a prosa poética de Mia Couto e perceberam, entre nuvens remexidas e lentilhas atiradas ao ar, que o teatro é também uma forma de salvação. Numa peça que tanto disse a muitos dos presentes – “Chuva Pasmada” foi mesmo a minha estreia em palco -, olhá-la do lado do espectador, após ter sido vivida na pele do actor, não podia deixar de ter um significado especial. Não que nela não houvesse já a certeza da viagem, o assombro do reencontro com a escrita de Mia Couto, a inteligência e delicadeza de uma encenação atenta ao mais ínfimo detalhe, a embriaguez de uma música emotiva, o espanto perante tão poderosas interpretações. Mas porque voltar a mergulhar num texto onde a chuva se detém pasmada e a mente aprende a sonhar, é renovar a ideia de que o teatro prolonga a página, que a palavra dita faz eco no sentir, que as emoções invadem o coração como água: “Clara, farta, risonha”.

“Chuva Pasmada” é um imenso, intenso milagre. A sensibilidade que Mia Couto coloca em cada palavra, a forma como, entre a voz e o silêncio, leva a que identidade e memória dancem em comunhão, é um convite à autodescoberta, um rasgar de atalhos para o mais fundo de cada um de nós. Motor secreto da peça e do romance, o amor é semente capaz de transformar dúvidas em certezas, a hesitação em voo, o receio em pertença. A materialização de todo este imaginário fabuloso constrói-se em comunhão de talentos: Onde apenas existiam telas, as luzes abrem rios; o vazio veste-se de emoção ao som de uma música inspirada; o invisível faz-se presente na riqueza dos sons; os figurinos acrescentam cor à própria respiração. E há os actores, enormes de talento, a provarem que o teatro é vida... e a vida é o teatro. Em harmonia, tudo vibra como na pequena aldeia, onde o natural e o sobrenatural se passeiam de mãos dadas e as histórias adormecidas vêm à superfície ao menor rumor de transformação ou magia.

Em Sever do Vouga, palco e plateia voltaram a partilhar os mesmos ventos. Ambos foram lugares de fronteira ao longo da qual nos reinventámos face aos nossos medos e incertezas, à nossa própria finitude. Nesse lugar de partilha, onde a inocência das crianças e o saber dos mais velhos alcança o equilíbrio num mesmo fôlego, é em conjunto que se molda o corpo ao verbo e o verbo ao corpo. Em Sever do Vouga, como em Ovar, o teatro levou a que cada espectador fizesse o mais difícil, o olhar-se no outro, o ver-se nele sem sobranceria ou imodéstia – antes de forma cúmplice, com humildade e empatia, actores que todos somos no palco desta vida. Então fomos capazes de rir e chorar, na certeza de quem aceita sonhar o mesmo sonho. Da vulnerabilidade de uns e do silêncio atento de outros, nasceu um pacto invisível entre quem sabe reconhecer-se na mesma emoção, o palco como espelho encantado onde cada gesto encontra quem o acolha e cada olhar abraça quem o transforme em magia. No final, todos - narradora com narradora, forasteiro com forasteiro, patrão da fábrica com patrão da fábrica - se cingiram num abraço, gratos pelo milagre que é o teatro.

domingo, 23 de julho de 2023

TEATRO: "Sabão Potassa - Estórias d'Alma Lavada"



TEATRO: “Sabão Potassa - Estórias d’Alma Lavada”
Projecto artístico multidisciplinar, realizado a partir de entrevistas orientadas por Tiago Alves a doze elementos da comunidade local e crónicas radiofónicas da autoria de Liliana Elsig
Direcção artística, dramaturgia, encenação, cenografia | Leandro Ribeiro
Design, adereços e figurinos | Marta Baldaia
Interpretação | Sol d’Alma - Associação de Teatro e comunidade local, com a participação especial de DESAFIO - Grupo de Teatro da Universidade Sénior da Misericórdia de Ovar, Escola de Samba Costa de Prata, Iury Matias (violão), Laura Rui (voz), SEVERI - Grupo de Teatro de Sever do Vouga
Produção executiva | Ana Vila Real, Clara Oliveira
Centro de Arte de Ovar
22 Jul 2023 | sab | 21:30


“Sabão Potassa: O melhor da Praça”. O slogan não poderia ser mais apropriado e eu, que fui um dos muitos que esgotaram o Auditório do Centro de Arte de Ovar, em noite de estreia de “Sabão Potassa - Estórias d’Alma Lavada”, posso confirmá-lo. Entre o terno e o cáustico, o intencional e o inocente, provocador q.b., com muita fantasia e uma ponta de ironia, astucioso, irreverente, descontraído, prático, sensível e sincero, generoso e honesto até à medula, “Sabão Potassa” trouxe-nos as estórias de uns, tornadas de todos pelo poder da dádiva e da partilha. Uma dádiva e uma partilha que teve no jornalista Tiago Alves e nas entrevistas que fez a doze personalidades bem conhecidas da comunidade local, o seu ponto de partida. Posteriormente, pela pena inspirada de Liliana Elsig, os testemunhos foram subtilmente revestidos por uma fina patine de ficção e conheceram a luz do dia sob a forma de crónicas radiofónicas emitidas na rádio local Antena Vareira. Levar a palco o projecto terá sido, desde o momento em que começou a ser desenhado, a grande ambição dos seus criadores. Ontem, em noite de estreia, cumpriu-se o desígnio e o projecto deu-se a ver em toda a sua dimensão. Como referiu Leandro Ribeiro, director artístico, dramaturgo, encenador e cenógrafo da peça, “aconteceu magia”.

Vermos “Sabão Potassa - Estórias d’Alma Lavada” é vermo-nos a nós próprios. É olharmos nos olhos aqueles com quem diariamente nos cruzamos, é escutarmos as suas histórias, recordarmos as suas memórias e percebermos que são de todos e de cada um. Há um gato preto que atravessa a peça e, como é apanágio de ser-se gato e ser-se preto, traz com ele uma nota de fatalismo que as doze reguadas em cada mão que Fátima leva da professora, a “novela” à volta da gravidez da Isabel, a fonte de enriquecimento do Mário, a prisão do Moisés ou o esquecimento a que foi votado um homem que “tinha olhos e coração e fonte de loucura, e soube enaltecer a sua terra sem palavras inúteis”, parecem confirmar. Mas há também histórias de sucesso, como a do Hortênsio, cuja concretização do sonho de ter um restaurante seu não poderia ter sido mais feliz, da Maria de Lurdes, uma das três primeiras mulheres a tornarem-se presidentes de uma autarquia no pós-25 de Abril ou da Laura, uma jovem cantora com uma extraordinária carreira à sua frente. Em todas elas, de comum, encontramos a resistência e a coragem, a força de acreditar, de fazer orelhas moucas aos arautos da desgraça e seguir em frente. Será isto “ser vareiro”?

É de histórias como aquelas que se partilham em “Sabão Potassa - Estórias d’Alma Lavada” que se alimenta a “alma vareira”. Mas não se julgue que esta é uma peça só para “consumo interno”. Leandro Ribeiro soube dotar o texto de qualidades e características que lhe conferem um grau de universalidade e que fazem com que possa ser visto e entendido pelos espectadores sem qualquer tipo de condição prévia. Oferecendo um conjunto de leituras que extravasam o âmbito sociológico ou etnográfico, a peça encontra-se recheada de momentos de enorme simbolismo, de apontamentos coreográficos de grande beleza estética, de interpretações de enorme intensidade e inspiração. Dos anúncios radiofónicos ao Canada Dry e ao Formitrol ao som cavo de um búzio, dos desenhos de Zé Maia às imagens do primeiro título nacional de Basquetebol para a Ovarense, da interpretação magistral de uma versão de “La Llorona” a uma aula de Economia Doméstica, do hediondo de um levantamento rigoroso de todos os pertences de um “perigoso comunista” a uma manifestação visceral sob o lema “Há Que Capturar o Esquecimento”, de um desfile de Carnaval ao insólito de um espectador que faz questão de mostrar a sua indignação com “macacadas” e “politiquices” e abandona a sala sob forte pateada, são muitos e variados os momentos com os quais nos sentimos cúmplices e nos emocionamos. Que nos põem no rosto um sorriso, no coração um afago e nos deixam de alma lavada.

Creio que a rádio merece aqui uma palavra de destaque. Uma das bases mais sólidas de “Sabão Potassa - Estórias d’Alma Lavada” encontramo-la em dois homens da rádio. Tiago Alves, pelo seu trabalho de pesquisa e de entrevista, e Jaime Valente, alma (e corpo) da Rádio Antena Vareira e que tão bem soube dar sequência ao projecto. É justamente a rádio, com tudo aquilo que representa, que se mostra presente nos adereços como nas influências, contando ela própria histórias de resistência e de liberdade (se pensarmos que o projecto nasce em tempo de pandemia e que é nesse tempo que se desenvolvem as entrevistas, percebemos que esta resistência e esta liberdade associadas à rádio, num concelho que viveu uma cerca sanitária, adquirem um impacto e um alcance ainda maiores). A outra palavra de destaque vai para o trabalho de criação artística. É verdadeiramente genial a forma como os quadros se articulam entre si, uma palavra ou um simples gesto a dar a deixa para o quadro seguinte, em raccords que, na maior parte dos casos, roçam a perfeição. A forma como um gato preto dá lugar a um restaurante que dá lugar a um Gabinete de Apoio ao Munícipe que dá lugar a uma manifestação que dá lugar a um desfile de Carnaval… que dá lugar a um gato preto, resulta de um exercício de escrita cuidado, rigoroso, atento ao detalhe, inspirado e livre. O resto faz-se da generosidade de quase uma centena de actores em palco, da sua dedicação e entrega, do seu entusiasmo, da sua arte. Viva o Teatro!

[Foto: Ovar / Cultura | https://www.facebook.com/ovarcultura]

domingo, 13 de junho de 2021

TEATRO: "O Despertar da Primavera"



TEATRO: “O Despertar da Primavera”,
de Frank Wedekind
Encenação e concepção plástica | Leandro Ribeiro
Cenografia | Marta Baldaia
Canção e voz | Beatriz Dias (arranjo musical de Cláudia Dias)
Interpretação | Liliana Elsig, Clara Oliveira, Leandro Ribeiro, Marco Nunes, Leonor Matos, Nicole Gomes, Inês Campos, Beatriz Moreira, Armanda Queiroz, Hernâni Sá, Luís Rola, Cláudia Dias, Guida Bandeira, Mirian Lopes, Mónica Pinto, Sofia Costa, Daniela Adelino, Beatriz Dias, Ana Catarina Pinto, Jorge Azevedo, Sara Oliveira, Maria Silva, Ana Margarida Reis, Mafalda Reis
Produção | Sol d’Alma - Associação de Teatro
130 minutos | Maiores de 12 anos
13 Jun 2021 | dom | 10:30


Se há coisa que a pandemia nos ensinou foi a acreditar nos nossos sonhos e a não largarmos mão dos nossos projectos, convocando para tal uma boa dose de imaginação na busca de novos meios para atingir velhos fins. Ensaiar à distância, tirando partido das plataformas digitais, foi a solução encontrada por muitas companhias de teatro para se manterem vivas. A Associação de Teatro Sol d’Alma não foi excepção. Num caminho feito de falas e deixas, uns e outros ao alcance de um clique, apanham-se pontas soltas, limam-se arestas, busca-se a melhor cadência, marcam-se espaços, recriam-se palcos, afinam-se processos e um sol, de alma feito, vai-se erguendo, generoso e quente. Três a três ou quatro a quatro, os actores começam a encontrar-se. Aponta-se o ensaio geral e a estreia. Cresce a ansiedade. Marcam-se datas extra. A procura é grande, ninguém quer perder o espectáculo. Finalmente, a peça sobe ao palco (usar o plural é, neste caso, mais adequado). À memória vem o actor que decidiu abandonar o palco da vida. Um “acto estranhamente ridículo” para cujas questões não se encontram respostas. A ele é dedicado este “O Despertar da Primavera”.

Pegando pela segunda vez numa das obras-primas mais controversas da literatura universal - uma obra tão audaz na sua análise do processo de auto descoberta de um adolescente, que foi banida dos palcos durante décadas -, Leandro Ribeiro soube tirar o melhor partido dos espaços da antiga Escola Primária onde funciona actualmente a sede da Sol d’Alma, criando um espectáculo deambulante ao longo do qual o espectador é convidado a (re)conhecer os momentos de exaltação e dúvida que envolvem a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade. Tudo isto numa sociedade profundamente preconceituosa e castradora, assente num sistema educativo repressivo e onde falar sobre sexo, religião, gravidez juvenil ou a relação dos jovens com a família e as escolas é socialmente inaceitável. Ao dramatizar estes e outros assuntos, Frank Wedekind faz com que “O Despertar da Primavera” conserve uma frescura e uma vitalidade surpreendentes, mantendo-se absolutamente actual apesar de terem passado 130 anos sobre a sua escrita.

Foi, para mim, uma extraordinária surpresa a descoberta desta peça. As questões convocadas são de uma enorme premência e passíveis de gerar debates muito estimulantes entre pais e filhos, professores e alunos. O uso dos espaços - tanto exteriores quanto interiores - é uma das grandes mais-valias deste espectáculo, a hábil encenação a colocar o espectador na posição do “voyeur”, obrigando-o a integrar-se no espírito da peça e a pôr-se a si próprio no lugar do outro na altura de o julgar. Há, finalmente, os actores, essa extraordinária plêiade de gente jovem e menos jovem que comunga do espaço do palco, que respira teatro. É harmoniosa a mescla dos experientes Liliana Elsig ou Clara Oliveira, com os enormemente promissores Marco Nunes, Leonor Matos, Nicole Gomes ou Beatriz Dias. Tocante de empenho e entrega, o grupo faz da credibilidade uma das pedras de toque da representação, mesmo quando a caricatura e a sátira tomam o lugar do drama. Muitos vivas à Sol d’Alma pela coragem de assumir tão intenso desafio. E muitos vivas ao teatro!

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Vemos, ouvimos e lemos... #10



1. Desde que a pandemia se instalou, muitos de nós fechámo-nos em casa, mas a solidariedade nunca deixou de sair à rua, afoita e decidida. Nestes dias de recolhimento e isolamento social, percebemos o quão realmente importantes são os pequenos gestos. Na Antena 1, ao longo de 15 semanas, Tiago Alves e Ana Rita Ramos deram-nos a escutar “Um Mundo Melhor”, programa do qual me tornei ouvinte assíduo. Muitas das histórias que por lá passaram são de uma riqueza incrível, sublimes, inspiradoras. Muitas mais poderiam ter passado, mas não haveria tempo para as contar a todas. Entre as que ficaram de fora uma há que merece ser aqui partilhada. Chama-se “Pé d’Orelha” e é uma iniciativa conjunta de Clara Oliveira e Inês Severino, duas mulheres com um coração enorme, que se propõem, no breve espaço de uma chamada telefónica, recitar um poema ou contar uma pequena história. Sem truques, sem custos, só por amor à poesia e porque precisamos muito de nos voltarmos a aproximar uns dos outros. Eu quis experimentar e, do outro lado da linha, uma voz disse-me assim: “Pensei em desenhar-te uma praia, cheia de sol e de rochedos onde, ao longe, alguém te perguntasse por mim e tu, mesmo sem saberes, dissesses: vem já, não demora! Mas não tenho papel, nem lápis coloridos, nem tintas, nem nada. Olha, se estiveres de acordo, invento-te um percurso, entre dois pedaços de mar! E depois tu vais, pés descalços sobre a areia, ao encontro do último brilho do sol que se deita sempre além, entre azuis, laranjas e verdes (...).” Tão, mas tão belo. Muito obrigado às duas. Direi apenas que a Clara responde no 928 056 848 e que a Inês atende no 919 170 047. Deixe-se tentar.

2. O iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes está de regresso, e com ele, o mundo volta a abrir-se na magia de um clique, graças ao olhar e à sensibilidade de fotógrafos das mais variadas geografias. De 04 a 30 de Setembro, difícil vai ser acertar o calendário para poder apreciar todas as propostas que esta sétima edição do Festival tem para oferecer. Espalhados por quatro pólos, em 15 lugares distintos, fotógrafos de Espanha, Itália, Holanda, Finlândia, Brasil, Colômbia, Cabo Verde, Moçambique, Japão e Portugal mostram o seu trabalho em 26 exposições imperdíveis. Entre elas, chamada de atenção para “Conexões”, uma colectiva luso-finlandesa que irá estar patente na galeria da Junta de Freguesia de Avintes, “Via Crucis”, do fotógrafo espanhol Blas González, montada no Clube Recreativo Avintense e “A Jaula”, de António Campos Leal, que pode ser visitada na Casa da Cultura de Avintes. “Trilhos d’alma, sulcos de luz”, de Cristina Vicente, “Madrinhas de guerra”, do moçambicano Amilton Neves, “11 Milhas”, do espanhol Quico Garcia e “Tás co’ olho !?”, conjunto de 75 imagens da autoria de Milton Ostetto, Tadeu Vilani e Orlando Azevedo sobre os descendentes de açorianos no sul do Brasil, são ainda alguns exemplos do muito que o iNstantes tem para oferecer. O programa completo pode ser consultado em http://www.instantesffa.com/.

3.  No tempo de Egas Moniz, o único Prémio Nobel português da Medicina, a Quinta do Marinheiro era uma festa. Sempre que ele chegava a Avanca para as férias de verão, a quinta ganhava vida. É esse lado carismático da personalidade do cientista que inspira mais uma edição do evento “Há Festa na Quinta”. Nos próximos dias 04, 05 e 06 de Setembro, os portões da Quinta do Marinheiro abrem-se a todos com uma enorme oferta de atividades culturais e de lazer. No primeiro dia, o serão estará a cargo de João Diogo Leitão, tangedor de violas várias, nomeadamente de viola braguesa, num momento que se espera de grande intimismo. No sábado haverá passeios de moliceiro, com experiência piscatória e observação de flora e fauna, mas também visitas guiadas e encenadas à Casa Museu num espetáculo que tem por título “Confidências de Acafem” e que repetirá no domingo. “Por um fio”, espectáculo de acrobacia aérea, encerra o segundo dia do evento, enquanto a tarde de domingo será preenchida com Yoga para crianças (entre os 3 e os 10 anos), o “Circ’au’léu”, espectáculo circense para famílias, uma demonstração e exibição de aves de rapina e ainda o teatro de marionetas tradicional, o nosso bem conhecido Dom Roberto. Mais informações em https://casamuseuegasmoniz.com/ ou através do telefone 234 884 518.