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terça-feira, 12 de maio de 2026

TEATRO: "Insegura - Uma Tragédia de Enganos" | Ana Markl



TEATRO: “Insegura - Uma Tragédia de Enganos”
Texto | Ana Markl
Encenação, desenho de som, luz, figurinos e cenários | Leandro Ribeiro
Interpretação | Daniela Adelino, Francisca Nata, Gabriel Garrido, Leonor Iglésias, Leonor Paulino, Mafalda Reis, Margarida Laranjeira, Maria Costa, Maria Inês Campos, Maria Reis, Mariana Costa, Mariana Nunes, Martim Rilho, Matilde Borges, Rita Pereira, Rita Valinho, Sara Leite, Simão Baldaia, Sofia Oliveira, Vicente Melo, Yasmim Lucchi
Produção | Sol d'Alma - Associação de Teatro
PANOS - Palcos Novos Palavras Novas
Auditório Sol d’Alma
10 Mai 2026 | dom | 18:00


Concorrer ao Festival PANOS — Palcos Novos Palavras Novas, iniciativa do Teatro Nacional D. Maria II, com coordenação de Sandro William Junqueira, foi o desafio que o elenco juvenil do Sol d’Alma decidiu abraçar esta temporada. Após as bem sucedidas participações, em 2022 e 2025, num “projecto onde se lê, faz e apresenta teatro de e para jovens, dos 12 aos 19 anos”, este novo trabalho colocou o grupo de vinte e um elementos perante a delicada escolha entre os textos originais “O Meu Pai Carlitos”, de Joaquim Arena, “Olívia”, de Mariana Jones e “Insegura – Uma Tragédia de Enganos”, de Ana Markl. Recaindo sobre este último, a escolha viria a revelar-se particularmente feliz, já que o texto de Ana Markl, de uma enorme inteligência e actualidade no panorama dramatúrgico português, assenta neste grupo como uma luva. Sarcástica, plena de ritmo, assertiva, dolorosamente contemporânea e profundamente humana, “Insegura - Uma Tragédia de Enganos” mascara-se de comédia leve sobre relações amorosas, seguros emocionais e traumas afectivos, ao mesmo tempo que contempla uma reflexão amarga sobre a ansiedade da geração digital, o medo permanente do abandono e a incapacidade de viver o amor sem antecipar a sua ruína.

Por vezes absurdo, por vezes negro, quase sempre desconfortavelmente reconhecível, o humor funciona aqui como mecanismo de sobrevivência perante uma juventude que se mostra disponível para descartar a dor, burocratizar os sentimentos e transformar um desgosto amoroso num serviço contratualizável. Há em “Insegura – Uma Tragédia de Enganos” uma escrita que compreende profundamente o presente, que converte as mensagens em linguagem quotidiana e os “likes” em provas judiciais do amor, que disfarça de independência emocional o medo da solidão e teatraliza a intimidade de forma a sublimar a fragilidade das relações contemporâneas. Nessa tensão constante entre o ridículo e a tragédia, entre a sátira e a vulnerabilidade interior, reside o brilhantismo do texto. A peça desmonta, com admirável sarcasmo, a linguagem terapêutica e corporativa que invadiu a intimidade humana, transformando emoções em pacotes de serviços, traumas em categorias administrativas e afectos em produtos de consumo. Por detrás dessa engenharia cómica, porém, iremos encontrar uma dolorosa melancolia e a certeza de que não há antídoto contra desgostos de amor.

Escapando à caricatura fácil e ao excesso melodramático, a encenação de Leandro Ribeiro mostrou-se suficientemente plástica para sustentar a rapidez verbal do texto sem perder clareza nem intensidade dramática. Uma encenação que, sem obviar a essência dramatúrgica, soube tirar o melhor partido do texto e encontrar o seu próprio caminho. Embora simples, o dispositivo cénico fez da palavra o centro da acção, mas deixou espaço aberto a um momento de karaoke, a uma singular dança das cadeiras, a uma interjeição genuinamente vareira e a uma infinidade de outros pormenores que vieram acrescentar camadas à narrativa e permitiram elevar o acessório à categoria de essencial. Mafalda Reis, no papel de Leonor, foi extraordinária na gestão dessa oscilação permanente entre neurose, fragilidade e ironia, evitando transformar-se numa mera vítima histérica. Pelo contrário, revelou-se capaz de construir uma personagem reconhecível, contemporânea e profundamente triste, mesmo nos momentos mais cómicos. Também Gabriel Garrido, no papel do Perito, demonstrou um excelente domínio do tempo humorístico, sobretudo na forma como transformou o cinismo burocrático da personagem numa figura simultaneamente ridícula e inquietante.

Há uma enorme maturidade interpretativa em todo o elenco, algo de muito relevante numa peça cuja dificuldade reside, precisamente, na velocidade tonal com que passa da farsa ao desamparo, para de seguida regressar à farsa. A certa altura, é evidente que o problema não está apenas no medo de se sofrer um desgosto amoroso, mas no facto de se viver dentro desse sofrimento. Profundamente actual, a ideia é sustentada pelo trabalho de grupo, sobretudo nos momentos em que o texto desacelera e deixa emergir o vazio para além da rábula. No papel de Diogo, Rita Pereira trouxe exactamente essa pausa necessária, graças a um porte sereno, quase luminoso, que permite à peça respirar antes do seu desfecho. Aliás, é a forte presença da actriz que faz com que “Insegura”, num dos seus momentos de maior risco, não resvale para o mau gosto. Falarei, enfim, do Coro, uma das soluções mais deliciosamente irónicas da peça, mas que ficou aquém do desejado em matéria de dicção e ritmo para se mostrar plenamente eficaz no seu desígnio de ser, em simultâneo, consciência grega, voz da ansiedade e mecanismo cómico de desmontagem emocional.

O desfecho final confirma a qualidade estrutural da peça. Quando se percebem as verdadeiras intenções do namorado de Leonor, toda a construção emocional da actriz colapsa de forma simultaneamente trágica e cómica. É aí que “Insegura” deixa de ser apenas uma boa comédia contemporânea para se tornar uma reflexão séria sobre ansiedade, auto-sabotagem e solidão emocional. O último golpe, a revelação de que até o caso romântico com Diogo era parte da encenação - o teatro dentro do teatro é aqui uma ideia recorrente -, encerra a peça com uma crueldade arrepiante: talvez a maior tragédia contemporânea seja já não conseguirmos distinguir o que é genuíno daquilo que foi desenhado para nos confortar. Aceitar trabalhar um texto exigente, intelectualmente sofisticado e emocionalmente desafiante, é revelador da enorme garra, coragem e maturidade do elenco juvenil do Sol d’Alma. É a prova da sua capacidade de fazer teatro, acrescentando-lhe frescura, espontaneidade e verdade cénica. Ao seleccionar esta representação da peça para a fase final do PANOS, o júri mais não fez do que reconhecer um trabalho sério, sólido e comprometido, artisticamente superior e revelador da capacidade rara de um grupo em compreender o presente através do teatro.

Foto: © Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/leandroribeiroteatro]

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

TEATRO: “Chuva Pasmada” | Mia Couto



TEATRO: “Chuva Pasmada”
Texto original | Mia Couto
Adaptação, direcção artística e encenação | Leandro Ribeiro
Compositor, pianista | Hélder Bruno Martins
Interpretação | Clara Oliveira, Mafalda Reis, Maria Inês Campos, Paulo Cruz e Rita Camões, com elementos da comunidade local, Ana Albertina Pereira, Ana Silva, Ana Gabriela Tavares, Augusta Graça, Daniela Morence, Helena Barbosa, Isabela Amaral, João Figueiredo, Lucas Silva, Luiza Cassin, Mário Silva, Mónica Pires, Natália Fernandes e Vasco Figueiras
Produção | Sol d’Alma – Associação de Teatro
100 Minutos | Maiores de 6 anos
Centro das Artes do Espectáculo Sever do Vouga
16 Nov 2025 | dom | 16:00


Depois da estreia em Ovar, no passado mês de Setembro, “Chuva Pasmada” voltou à cena para uma representação única em Sever do Vouga. Em dia de festa e de celebração pelo 24.º aniversário do seu Centro das Artes do Espectáculo, os severenses cruzaram-se com a prosa poética de Mia Couto e perceberam, entre nuvens remexidas e lentilhas atiradas ao ar, que o teatro é também uma forma de salvação. Numa peça que tanto disse a muitos dos presentes – “Chuva Pasmada” foi mesmo a minha estreia em palco -, olhá-la do lado do espectador, após ter sido vivida na pele do actor, não podia deixar de ter um significado especial. Não que nela não houvesse já a certeza da viagem, o assombro do reencontro com a escrita de Mia Couto, a inteligência e delicadeza de uma encenação atenta ao mais ínfimo detalhe, a embriaguez de uma música emotiva, o espanto perante tão poderosas interpretações. Mas porque voltar a mergulhar num texto onde a chuva se detém pasmada e a mente aprende a sonhar, é renovar a ideia de que o teatro prolonga a página, que a palavra dita faz eco no sentir, que as emoções invadem o coração como água: “Clara, farta, risonha”.

“Chuva Pasmada” é um imenso, intenso milagre. A sensibilidade que Mia Couto coloca em cada palavra, a forma como, entre a voz e o silêncio, leva a que identidade e memória dancem em comunhão, é um convite à autodescoberta, um rasgar de atalhos para o mais fundo de cada um de nós. Motor secreto da peça e do romance, o amor é semente capaz de transformar dúvidas em certezas, a hesitação em voo, o receio em pertença. A materialização de todo este imaginário fabuloso constrói-se em comunhão de talentos: Onde apenas existiam telas, as luzes abrem rios; o vazio veste-se de emoção ao som de uma música inspirada; o invisível faz-se presente na riqueza dos sons; os figurinos acrescentam cor à própria respiração. E há os actores, enormes de talento, a provarem que o teatro é vida... e a vida é o teatro. Em harmonia, tudo vibra como na pequena aldeia, onde o natural e o sobrenatural se passeiam de mãos dadas e as histórias adormecidas vêm à superfície ao menor rumor de transformação ou magia.

Em Sever do Vouga, palco e plateia voltaram a partilhar os mesmos ventos. Ambos foram lugares de fronteira ao longo da qual nos reinventámos face aos nossos medos e incertezas, à nossa própria finitude. Nesse lugar de partilha, onde a inocência das crianças e o saber dos mais velhos alcança o equilíbrio num mesmo fôlego, é em conjunto que se molda o corpo ao verbo e o verbo ao corpo. Em Sever do Vouga, como em Ovar, o teatro levou a que cada espectador fizesse o mais difícil, o olhar-se no outro, o ver-se nele sem sobranceria ou imodéstia – antes de forma cúmplice, com humildade e empatia, actores que todos somos no palco desta vida. Então fomos capazes de rir e chorar, na certeza de quem aceita sonhar o mesmo sonho. Da vulnerabilidade de uns e do silêncio atento de outros, nasceu um pacto invisível entre quem sabe reconhecer-se na mesma emoção, o palco como espelho encantado onde cada gesto encontra quem o acolha e cada olhar abraça quem o transforme em magia. No final, todos - narradora com narradora, forasteiro com forasteiro, patrão da fábrica com patrão da fábrica - se cingiram num abraço, gratos pelo milagre que é o teatro.