TEATRO: “É o Fim do Mundo Tal Como o Conhecemos”
Texto | “Já passaram quantos anos, perguntou ele”, de Rui Pina Coelho
Adaptação, encenação, desenho de luz e cenografia | Leandro Ribeiro
Fotografia | Manuel Vitoriano
Interpretação | Patrícia Quintino, Marco Nunes, António Alves, Joana Alves Sousa, Clara Oliveira, Luís Rola, Diana Coutinho, Maria João Melo, Jorge Azevedo, Flávia Krishina, Tiago Alves, Palmira Baptista, Otília Borges, Sara Almeida, Sara Moreira, Hernâni Sá
Produção | Sol d'Alma - Associação de Teatro
Auditório Sol d'Alma
18 Jan 2026 | dom | 16:00
Comecemos pelo texto. Da autoria de Rui Pina Coelho, intitula-se “Já passaram quantos anos, perguntou ele” e nasce de uma sensação estrutural: a experiência de suspensão, adiamento e exaustão de uma geração que foi educada para acreditar numa carreira e acordou num mundo carregado de promessas por cumprir. Embora situado no contexto muito concreto do pós-2008 e da precarização dos jovens licenciados portugueses, o texto resiste ao passar dos anos e vai ganhando espessura histórica, podendo hoje ser lido não apenas como retrato de uma crise, mas como o prenúncio de um estado normativo de permanente instabilidade, ansiedade e desorientação. Não é um texto profético no sentido lato; é-o porque o autor cedo percebeu que a excepção iria resultar em regra. Em boa hora Leandro Ribeiro e o elenco do Sol d’Alma decidiram trabalhar o texto e levá-lo à cena. “É o Fim do Mundo Tal Como o Conhecemos” resulta num exercício completo de teatro, oferecendo-nos um significativo momento que oscila entre o humor e a ternura, a revolta e uma funda melancolia.
A peça acompanha de perto a escrita de Rui Pina Coelho no que tem de fragmentário e de profundamente teatral no sentido do tempo, do ritmo e da repetição. A narrativa avança por acumulação, por variações mínimas sobre os mesmos gestos, frases e situações, das entrevistas de emprego às contas por pagar, das notícias do fim do mundo às pequenas humilhações quotidianas. Leandro Ribeiro sabe explorar uma dramaturgia do cansaço, em que a linguagem se esgota como os corpos e as expectativas. O uso insistente da enumeração, da sobreposição de vozes, do coro informal ou da passagem dos dias, cria uma sensação de ruído constante, muito próxima da experiência contemporânea de vivermos rodeados de informação sem sabermos o que fazer com ela. Os valores em jogo são, paradoxalmente, simples e devastadores, centrados na dignidade e no trabalho, no tempo, no amor e no futuro. É palpável a frustração sem saída à vista, sem que haja a possibilidade de identificação de um inimigo claro, apenas sistemas difusos, entrevistas absurdas, chefes prepotentes e promessas vazias.
O encenador revela o seu engenho ao pegar numa peça para quatro actores, fazendo subir ao palco quatro vezes este número. Acrescentar a personagem interpretada por Clara Oliveira ao “núcleo duro” da peça é particularmente inteligente, sobretudo pelo que acrescenta de dinâmica intergeracional, com tudo o que acarreta de incompreensão, injustiça, confronto e culpa. As referências à música, aos filmes de catástrofe ou aos discursos sobre o fim do mundo funcionam como espelhos distorcidos de um colapso íntimo que já aconteceu. O verdadeiro apocalipse não é cósmico, é interior: é deixar de saber quem se é, o que se quer, para quê se vive. A precariedade não surge apenas como situação económica, mas como condição existencial. Tudo é provisório, até os afectos. A gravidez de Alice, o desejo de ter filhos, as relações entre os amigos e o medo constante do colapso (económico, ambiental, simbólico) revelam um mundo em que a vida adulta foi adiada indefinidamente. Não é uma peça cínica; é uma peça ferida. E é precisamente essa ferida, a de quem acreditou, que lhe dá força ética.
É chegada a altura de olhar nos olhos os dezasseis actores e de lhes dar os parabéns pelo excelente momento de teatro proporcionado. A cena final de despedida, autêntico inventário de pequenas coisas banais - o gesto de enumerar tornado gesto de resistência - é um dos momentos mais comoventes do texto ao afirmar que a vida, mesmo diminuída, será sempre merecedora do nosso abraço. Este facto reforça ainda mais a premência e actualidade da peça, ou não se mostrassem os horizontes ainda mais carregados do que há quinze anos atrás. Alargou-se a precariedade, normalizou-se a ansiedade e multiplicaram-se os discursos catastrofistas em torno do clima, da política, da civilização. Não sendo uma peça datada, “É o Fim do Mundo Tal Como o Conhecemos” revela-se uma peça “cansada”. Tal como cada um de nós. A sua importância está em recusar soluções fáceis e em insistir na busca de uma resposta para a dúvida que mói cada vez mais, a de como viver quando tudo parece adiado. A decisão do Sol d’Alma e de Leandro Ribeiro em abraçar estas questões está longe de ser um exercício nostálgico. É antes um gesto crítico que nos vem lembrar que o mal-estar não passou, que apenas mudou de forma. E que, enquanto não for enfrentado, continuaremos a repetir, com ironia e medo, a mesma pergunta: “O que é que eu estou aqui a fazer?”
[Foto: Manuel Vitoriano | https://www.facebook.com/soldalma]
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