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domingo, 23 de julho de 2023

TEATRO: "Sabão Potassa - Estórias d'Alma Lavada"



TEATRO: “Sabão Potassa - Estórias d’Alma Lavada”
Projecto artístico multidisciplinar, realizado a partir de entrevistas orientadas por Tiago Alves a doze elementos da comunidade local e crónicas radiofónicas da autoria de Liliana Elsig
Direcção artística, dramaturgia, encenação, cenografia | Leandro Ribeiro
Design, adereços e figurinos | Marta Baldaia
Interpretação | Sol d’Alma - Associação de Teatro e comunidade local, com a participação especial de DESAFIO - Grupo de Teatro da Universidade Sénior da Misericórdia de Ovar, Escola de Samba Costa de Prata, Iury Matias (violão), Laura Rui (voz), SEVERI - Grupo de Teatro de Sever do Vouga
Produção executiva | Ana Vila Real, Clara Oliveira
Centro de Arte de Ovar
22 Jul 2023 | sab | 21:30


“Sabão Potassa: O melhor da Praça”. O slogan não poderia ser mais apropriado e eu, que fui um dos muitos que esgotaram o Auditório do Centro de Arte de Ovar, em noite de estreia de “Sabão Potassa - Estórias d’Alma Lavada”, posso confirmá-lo. Entre o terno e o cáustico, o intencional e o inocente, provocador q.b., com muita fantasia e uma ponta de ironia, astucioso, irreverente, descontraído, prático, sensível e sincero, generoso e honesto até à medula, “Sabão Potassa” trouxe-nos as estórias de uns, tornadas de todos pelo poder da dádiva e da partilha. Uma dádiva e uma partilha que teve no jornalista Tiago Alves e nas entrevistas que fez a doze personalidades bem conhecidas da comunidade local, o seu ponto de partida. Posteriormente, pela pena inspirada de Liliana Elsig, os testemunhos foram subtilmente revestidos por uma fina patine de ficção e conheceram a luz do dia sob a forma de crónicas radiofónicas emitidas na rádio local Antena Vareira. Levar a palco o projecto terá sido, desde o momento em que começou a ser desenhado, a grande ambição dos seus criadores. Ontem, em noite de estreia, cumpriu-se o desígnio e o projecto deu-se a ver em toda a sua dimensão. Como referiu Leandro Ribeiro, director artístico, dramaturgo, encenador e cenógrafo da peça, “aconteceu magia”.

Vermos “Sabão Potassa - Estórias d’Alma Lavada” é vermo-nos a nós próprios. É olharmos nos olhos aqueles com quem diariamente nos cruzamos, é escutarmos as suas histórias, recordarmos as suas memórias e percebermos que são de todos e de cada um. Há um gato preto que atravessa a peça e, como é apanágio de ser-se gato e ser-se preto, traz com ele uma nota de fatalismo que as doze reguadas em cada mão que Fátima leva da professora, a “novela” à volta da gravidez da Isabel, a fonte de enriquecimento do Mário, a prisão do Moisés ou o esquecimento a que foi votado um homem que “tinha olhos e coração e fonte de loucura, e soube enaltecer a sua terra sem palavras inúteis”, parecem confirmar. Mas há também histórias de sucesso, como a do Hortênsio, cuja concretização do sonho de ter um restaurante seu não poderia ter sido mais feliz, da Maria de Lurdes, uma das três primeiras mulheres a tornarem-se presidentes de uma autarquia no pós-25 de Abril ou da Laura, uma jovem cantora com uma extraordinária carreira à sua frente. Em todas elas, de comum, encontramos a resistência e a coragem, a força de acreditar, de fazer orelhas moucas aos arautos da desgraça e seguir em frente. Será isto “ser vareiro”?

É de histórias como aquelas que se partilham em “Sabão Potassa - Estórias d’Alma Lavada” que se alimenta a “alma vareira”. Mas não se julgue que esta é uma peça só para “consumo interno”. Leandro Ribeiro soube dotar o texto de qualidades e características que lhe conferem um grau de universalidade e que fazem com que possa ser visto e entendido pelos espectadores sem qualquer tipo de condição prévia. Oferecendo um conjunto de leituras que extravasam o âmbito sociológico ou etnográfico, a peça encontra-se recheada de momentos de enorme simbolismo, de apontamentos coreográficos de grande beleza estética, de interpretações de enorme intensidade e inspiração. Dos anúncios radiofónicos ao Canada Dry e ao Formitrol ao som cavo de um búzio, dos desenhos de Zé Maia às imagens do primeiro título nacional de Basquetebol para a Ovarense, da interpretação magistral de uma versão de “La Llorona” a uma aula de Economia Doméstica, do hediondo de um levantamento rigoroso de todos os pertences de um “perigoso comunista” a uma manifestação visceral sob o lema “Há Que Capturar o Esquecimento”, de um desfile de Carnaval ao insólito de um espectador que faz questão de mostrar a sua indignação com “macacadas” e “politiquices” e abandona a sala sob forte pateada, são muitos e variados os momentos com os quais nos sentimos cúmplices e nos emocionamos. Que nos põem no rosto um sorriso, no coração um afago e nos deixam de alma lavada.

Creio que a rádio merece aqui uma palavra de destaque. Uma das bases mais sólidas de “Sabão Potassa - Estórias d’Alma Lavada” encontramo-la em dois homens da rádio. Tiago Alves, pelo seu trabalho de pesquisa e de entrevista, e Jaime Valente, alma (e corpo) da Rádio Antena Vareira e que tão bem soube dar sequência ao projecto. É justamente a rádio, com tudo aquilo que representa, que se mostra presente nos adereços como nas influências, contando ela própria histórias de resistência e de liberdade (se pensarmos que o projecto nasce em tempo de pandemia e que é nesse tempo que se desenvolvem as entrevistas, percebemos que esta resistência e esta liberdade associadas à rádio, num concelho que viveu uma cerca sanitária, adquirem um impacto e um alcance ainda maiores). A outra palavra de destaque vai para o trabalho de criação artística. É verdadeiramente genial a forma como os quadros se articulam entre si, uma palavra ou um simples gesto a dar a deixa para o quadro seguinte, em raccords que, na maior parte dos casos, roçam a perfeição. A forma como um gato preto dá lugar a um restaurante que dá lugar a um Gabinete de Apoio ao Munícipe que dá lugar a uma manifestação que dá lugar a um desfile de Carnaval… que dá lugar a um gato preto, resulta de um exercício de escrita cuidado, rigoroso, atento ao detalhe, inspirado e livre. O resto faz-se da generosidade de quase uma centena de actores em palco, da sua dedicação e entrega, do seu entusiasmo, da sua arte. Viva o Teatro!

[Foto: Ovar / Cultura | https://www.facebook.com/ovarcultura]

domingo, 13 de junho de 2021

TEATRO: "O Despertar da Primavera"



TEATRO: “O Despertar da Primavera”,
de Frank Wedekind
Encenação e concepção plástica | Leandro Ribeiro
Cenografia | Marta Baldaia
Canção e voz | Beatriz Dias (arranjo musical de Cláudia Dias)
Interpretação | Liliana Elsig, Clara Oliveira, Leandro Ribeiro, Marco Nunes, Leonor Matos, Nicole Gomes, Inês Campos, Beatriz Moreira, Armanda Queiroz, Hernâni Sá, Luís Rola, Cláudia Dias, Guida Bandeira, Mirian Lopes, Mónica Pinto, Sofia Costa, Daniela Adelino, Beatriz Dias, Ana Catarina Pinto, Jorge Azevedo, Sara Oliveira, Maria Silva, Ana Margarida Reis, Mafalda Reis
Produção | Sol d’Alma - Associação de Teatro
130 minutos | Maiores de 12 anos
13 Jun 2021 | dom | 10:30


Se há coisa que a pandemia nos ensinou foi a acreditar nos nossos sonhos e a não largarmos mão dos nossos projectos, convocando para tal uma boa dose de imaginação na busca de novos meios para atingir velhos fins. Ensaiar à distância, tirando partido das plataformas digitais, foi a solução encontrada por muitas companhias de teatro para se manterem vivas. A Associação de Teatro Sol d’Alma não foi excepção. Num caminho feito de falas e deixas, uns e outros ao alcance de um clique, apanham-se pontas soltas, limam-se arestas, busca-se a melhor cadência, marcam-se espaços, recriam-se palcos, afinam-se processos e um sol, de alma feito, vai-se erguendo, generoso e quente. Três a três ou quatro a quatro, os actores começam a encontrar-se. Aponta-se o ensaio geral e a estreia. Cresce a ansiedade. Marcam-se datas extra. A procura é grande, ninguém quer perder o espectáculo. Finalmente, a peça sobe ao palco (usar o plural é, neste caso, mais adequado). À memória vem o actor que decidiu abandonar o palco da vida. Um “acto estranhamente ridículo” para cujas questões não se encontram respostas. A ele é dedicado este “O Despertar da Primavera”.

Pegando pela segunda vez numa das obras-primas mais controversas da literatura universal - uma obra tão audaz na sua análise do processo de auto descoberta de um adolescente, que foi banida dos palcos durante décadas -, Leandro Ribeiro soube tirar o melhor partido dos espaços da antiga Escola Primária onde funciona actualmente a sede da Sol d’Alma, criando um espectáculo deambulante ao longo do qual o espectador é convidado a (re)conhecer os momentos de exaltação e dúvida que envolvem a entrada na adolescência e a descoberta da sexualidade. Tudo isto numa sociedade profundamente preconceituosa e castradora, assente num sistema educativo repressivo e onde falar sobre sexo, religião, gravidez juvenil ou a relação dos jovens com a família e as escolas é socialmente inaceitável. Ao dramatizar estes e outros assuntos, Frank Wedekind faz com que “O Despertar da Primavera” conserve uma frescura e uma vitalidade surpreendentes, mantendo-se absolutamente actual apesar de terem passado 130 anos sobre a sua escrita.

Foi, para mim, uma extraordinária surpresa a descoberta desta peça. As questões convocadas são de uma enorme premência e passíveis de gerar debates muito estimulantes entre pais e filhos, professores e alunos. O uso dos espaços - tanto exteriores quanto interiores - é uma das grandes mais-valias deste espectáculo, a hábil encenação a colocar o espectador na posição do “voyeur”, obrigando-o a integrar-se no espírito da peça e a pôr-se a si próprio no lugar do outro na altura de o julgar. Há, finalmente, os actores, essa extraordinária plêiade de gente jovem e menos jovem que comunga do espaço do palco, que respira teatro. É harmoniosa a mescla dos experientes Liliana Elsig ou Clara Oliveira, com os enormemente promissores Marco Nunes, Leonor Matos, Nicole Gomes ou Beatriz Dias. Tocante de empenho e entrega, o grupo faz da credibilidade uma das pedras de toque da representação, mesmo quando a caricatura e a sátira tomam o lugar do drama. Muitos vivas à Sol d’Alma pela coragem de assumir tão intenso desafio. E muitos vivas ao teatro!