Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Cine-Teatro Estarreja. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cine-Teatro Estarreja. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 6 de julho de 2026

CONCERTO: Orquestra das Beiras & Rafael Aguirre



CONCERTO: Orquestra das Beiras & Rafael Aguirre
Com | Rafael Aguirre (guitarra clássica)
Direcção musical | Pablo Urbina
FIGA - 2.º Festival Internacional de Guitarra de Aveiro
Cine-Teatro de Estarreja
04 Jul 2026 | sab | 21:30


A segunda edição do Festival Internacional de Guitarra de Aveiro abriu da melhor forma, no Cine-Teatro de Estarreja, com um concerto que confirmou a ambição artística de um certame que pretende afirmar-se entre os mais relevantes do panorama nacional e internacional no seu género. Dirigida pelo maestro convidado Pablo Urbina, a Orquestra Filarmonia das Beiras apresentou um programa integralmente dedicado a dois compositores espanhóis separados por quase um século, mas unidos por uma escrita profundamente idiomática e por uma invulgar capacidade de explorar a cor orquestral. A primeira parte pertenceu a Joaquín Rodrigo e ao seu derradeiro concerto para guitarra e orquestra, “Concierto para una Fiesta”, confiado ao guitarrista espanhol Rafael Aguirre. Desde os primeiros compassos tornou-se evidente a razão do prestígio internacional do intérprete: um domínio técnico absoluto colocado ao serviço da música, um fraseado de grande elegância, uma sonoridade luminosa e uma capacidade rara para fazer respirar cada melodia sem perder jamais o ímpeto rítmico que atravessa a obra. Aguirre encontrou em Pablo Urbina um parceiro atento, que soube equilibrar a massa orquestral e criar espaço para que a guitarra nunca perdesse protagonismo, permitindo um diálogo perfeito entre solista e orquestra. Ficou, contudo, um pequeno desconsolo: a presença de Rafael Aguirre limitou-se à primeira parte do programa. Depois de uma interpretação de tamanha classe, virtuosismo e sensibilidade, a sensação inevitável foi a de que “soube a pouco”.

Após o intervalo, a Filarmonia das Beiras permaneceu sozinha em palco para interpretar a “Sinfonia em Ré Maior”, de Juan Crisóstomo de Arriaga, compositor cuja morte prematura continua a alimentar a imagem do chamado “Mozart espanhol”. A leitura de Pablo Urbina privilegiou a clareza formal e a transparência tímbrica da obra, recusando excessos românticos e sublinhando antes a juventude, a frescura e o equilíbrio clássico da partitura. O primeiro andamento revelou energia e rigor arquitectónico, enquanto o Andante encontrou um discurso “cantabile” de apreciável lirismo, sustentado por cordas homogéneas e madeiras particularmente inspiradas. O “Minueto” surgiu com elegância e vivacidade, preparando um “Finale” conduzido com firmeza e uma pulsação sempre convincente. A Orquestra Filarmonia das Beiras respondeu com segurança às exigências da escrita de Juan Crisóstomo de Arriaga, revelando uma coesão assinalável entre naipes e um som equilibrado, marcados pela transparência e pela atenção ao detalhe. Sem procurar efeitos fáceis, a interpretação valorizou a qualidade intrínseca da obra e confirmou o excelente momento artístico da formação, que voltou a evidenciar flexibilidade estilística e maturidade musical num repertório muito pouco frequente entre nós.

Mas a noite reservaria ainda um momento de absoluta magia. Chamado ao palco no final da sua interpretação pelos aplausos calorosos do público, Rafael Aguirre regressou para oferecer uma obra fora do programa: os intemporais “Recuerdos de la Alhambra”, de Francisco Tárrega. Bastaram poucos segundos para que a atmosfera da sala se transformasse. O célebre trémulo, executado com uma fluidez quase irreal, desenhou uma linha melódica de impressionante continuidade, enquanto cada frase surgiu como que suspensa no tempo, servida por uma delicadeza tímbrica de rara beleza. Foi uma interpretação de enorme contenção expressiva, sem qualquer exibicionismo, onde a perfeição técnica se aliou de forma rara à emoção. A simplicidade do gesto tornou ainda mais eloquente a grandeza da música e justificou, por si só, a prolongada ovação que encerrou a primeira parte do concerto. Se o “Concierto para una Fiesta” já havia confirmado Rafael Aguirre como um guitarrista de excepção, este inesperado “encore” deixou a marca definitiva da sua personalidade artística: a de um intérprete capaz de transformar uma página tantas vezes escutada numa experiência profundamente comovente. Foi um momento memorável para uma noite que lançou o Festival Internacional de Guitarra de Aveiro sob o signo da excelência e deixou a expectativa naturalmente elevada para os concertos que se seguem.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

CONCERTO: Sérgio Godinho & Os Assessores



CONCERTO: Sérgio Godinho & Os Assessores
Com | Sérgio Godinho (voz), Nuno Rafael (direcção musical, guitarras eléctricas e acústicas, cavaquinho, percussão, coros), Miguel Fevereiro (guitarras eléctricas e acústicas, percussão, coros), Nuno Espírito Santo (baixo, guitarra, teclado, percussão), João Cardoso (teclados, samplers, coros), Jorge Costa (bateria, percussão)
Cine-Teatro de Estarreja
28 Mar 2026 | sab | 21:30


Há nomes que não cabem no tempo que ocupam, nem nos oportunos rótulos de épocas ou gerações. Sérgio Godinho é um desses raros casos em que a obra - entre memória e futuro, entre o íntimo e o colectivo - se torna lugar de encontro, presença e certeza. A sua música não é apenas herdeira de um tempo de sonho e encantamento que depressa se esfumou, tampouco se esgota na chamada “música de intervenção”. É, antes, uma cartografia sensível do humano, onde cabe o humor e a ternura, a ironia e a denúncia, a festa e a inquietação. Ao longo de mais de meio século, o escritor de canções soube compôr uma língua própria, feita de palavras que nos surgem simples, mas carregam nelas o mundo inteiro. Ao mesmo tempo, vem-nos brindando com um conjunto de melodias que nos visitam regularmente como se de um regresso a casa se tratasse. E talvez seja por isso que, em cada escuta, há sempre qualquer coisa de inaugural, como se “o primeiro dia” estivesse por acontecer, ali, ao virar de um simples verso. No Cine-Teatro de Estarreja, rodeado de “assessores”, Sérgio Godinho fez com que o milagre se repetisse sem ser nunca o mesmo das vezes anteriores.

Desde os primeiros versos de “Foi Aos 25 Dias De Abril”, o público mostrou que estava ali para celebrar, partilhar e cantar até que a voz doesse. Num alinhamento que cruzou o “novo” e o “menos novo”, desfilaram canções que são parte de nós, inscritas numa memória colectiva que, “com um brilhozinho nos olhos”, trata por tu a Rita, a Etelvina e o Casimiro, gosta de se juntar ao “coro das velhas” e rejeita “a coboiada em que é tudo do xerife”. Do palco, esse lugar onde a palavra ganha corpo, veio a força de uma obra que convoca e une, braço dado entre gerações, num coro que cresceu até se tornar “maré alta”. Ao longo de uma hora e meia, houve espaço para a evocação dos companheiros de caminho, para os fantasmas bons de outras canções, para o humor e para a dor, mas sobretudo houve essa extraordinária cumplicidade que transforma um concerto num acto comunitário. E quando as vozes se ergueram para cantar “a paz, o pão, a habitação, saúde, educação”, percebeu-se que não é só de música que se faz um concerto de Sérgio Godinho & Os Assessores. Nele impõe-se um gesto, um compromisso e uma lembrança viva de que há palavras que não perderão nunca o sentido.

Mais do que um exercício de memória, voltar a Sérgio Godinho é hoje um acto cívico de vigilância. Tantas vezes envoltas numa doçura quase distraída, as suas canções encerram alertas que ressoam com particular urgência num presente inquieto. Em versos que falam de desigualdade, de exploração, de indiferença ou de injustiça, há uma lucidez que atravessa décadas e se recusa a baixar a guarda. Quando escutamos “Grão da Mesma Mó” ou reconhecemos, em novas roupagens, a sombra dos “Vampiros” ou de “O Charlatão”, não é difícil percebermos que o mundo continua a exigir de nós a maior atenção e firmeza. Num tempo em que são visíveis enormes recuos, em que discursos fáceis procuram apagar conquistas tão difíceis, a obra de Sérgio Godinho permanece como um lugar de consciência, uma lembrança de que a liberdade não é um dado adquirido, antes exige trabalho contínuo nessa luta pela sua defesa. Por isso regressaremos sempre aos concertos de Sérgio Godinho e às suas canções, certos de que preservam bem viva a capacidade de questionar sobre o que estamos nós dispostos a fazer com o mundo que temos.

segunda-feira, 23 de março de 2026

CONCERTO: Chico César - Aos Vivos



CONCERTO: Chico César - Aos Vivos
Cine Teatro de Estarreja
21 Mar 2026 | sab | 21:30


No quase desfecho de uma digressão intensa pelo nosso País, o concerto de Chico César trouxe ao Cine Teatro de Estarreja a nostalgia dos momentos inaugurais, a beleza do reencontro e o fulgor da celebração. Trinta anos depois de “Aos Vivos”, o gesto feito de voz e violão, despojamento radical e risco absoluto, reapareceu não como memória, mas como presença. Em palco, Chico César não representou um passado, antes reabitou-o com a mesma entrega do primeiro instante, como se o tempo não tivesse passado mas apenas aprofundado a escuta. E o público, cúmplice, mostrou saber estar não apenas perante um alinhamento de canções, mas a assistir a um exercício de permanência quase ritual. Num exercício à capella,“Beradêro” abriu o concerto como uma ponte suspensa entre tempos, chamando não só o sertão mas também uma formidável plateia portuguesa e brasileira, já íntima, já pertencente e inscrita nesse território simbólico. A nudez do formato devolveu às palavras o seu peso original e ao silêncio a sua função esquecida, criando uma tensão subtil entre o dito e o sugerido. Nada sobrou, nada faltou. E nessa economia residiu uma força rara, difícil de alcançar, que fez de cada som e cada fala um instante único e necessário.

Erguendo bem alto a bandeira da celebração, Estarreja apresentou-se como território de depuração. Ao longo de quase duas horas, as canções respiraram menos urgentes - à excepção de “Pedrada” e desse grito “fogo nos fascistas”, a fechar a noite - e mais densas, como se cada verso carregasse a poeira de todos os palcos anteriores e a memória de todas as vozes que as cantaram. “Mama África” irrompeu ainda com a sua energia incontornável, mas trouxe consigo uma gravidade nova, iminentemente política, ecoando um mundo que, como o próprio artista tem lembrado, permanece ferido e desigual, atravessado por fracturas que a música não resolve, mas ilumina. Já “À Primeira Vista” desenhou-se com uma delicadeza quase táctil, sem pressas, como se o tempo tivesse aprendido a escutar e a respirar com o público. Entre estas âncoras mais reconhecíveis, houve espaço para o murmúrio íntimo de “Saharienne” ou para a sabedoria terna de “Mulher Eu Sei”, revisitadas como organismos vivos, capazes de se adaptarem ao presente sem perderem a sua raiz profunda. Pelo meio, as histórias, contadas com humor e precisão, foram tecendo uma narrativa paralela, aproximando distâncias e humanizando o gesto artístico.

Mas talvez o mais notável tenha sido essa qualidade de sussurro que atravessou toda a noite, como uma linha invisível a unir palco e plateia. Num tempo saturado de ruído e artifício, o concerto em Estarreja soou, de facto, como um acto de resistência - ou, mais precisamente, de humanidade consciente de si mesma. Chico César cantou como quem conversa, como quem partilha inquietações sem necessidade de as amplificar, confiando na escuta do outro e na força intrínseca da palavra dita com verdade. Tudo naquele serão se vestiu de política, no sentido mais amplo e mais necessário do termo: a escolha de permanecer simples, de insistir na palavra, de convocar afectos como forma de resposta a um mundo crispado e fragmentado. Longe de ser mero espectador, o público tornou-se a extensão desse gesto, cantando, batendo palmas, fazendo coro com o músico e preenchendo os interstícios com uma atenção rara, quase devocional. No final, mais do que a estrondosa apoteose, houve algo talvez mais duradouro e difícil de nomear: a sensação de que aquelas canções, nascidas há três décadas, continuam a atravessar gerações e geografias e a dizer o essencial. E que, apesar dos pesares, seguimos vivos. Ao vivo.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

CONCERTO: "Sons do Brasil" | Orquestra das Beiras & Gileno Santana



CONCERTO: “Sons do Brasil”
Orquestra das Beiras & Gileno Santana
Direcção músical | Fernando Marinho
Estarrejazz 2025
Cine-Teatro de Estarreja
11 Out 2025 | sab | 21:30


A encerrar mais uma edição do Estarrejazz, o Cine-Teatro de Estarreja acolheu um concerto verdadeiramente singular que uniu o trompetista brasileiro Gileno Santana à Orquestra Filarmonia das Beiras, sob a direção do maestro Fernando Marinho. A proposta, descrita como “um diálogo com as influências culturais que conectam Brasil e Portugal”, ganhou forma através de arranjos assinados por compositores de enorme craveira internacional, casos de Gil Goldstein ou Nelson Ayres, alguns deles criados em especial para esta ocasião. O repertório viajou por marcos emblemáticos da música brasileira — “Garota de Ipanema”, “Carinhoso”, “Aquarela do Brasil”, “Dindi”, “Vambora” ou “Tico-Tico no Fubá” —, evocando não apenas a beleza melódica destes temas, mas também o seu contexto histórico e afectivo, agora reinterpretado com a densidade tímbrica e harmónica de uma orquestra clássica. A presença de Gileno Santana, considerado um dos mais talentosos trompetistas da sua geração, trouxe um sopro de autenticidade e sofisticação a este encontro cultural de grande fôlego artístico, contribuindo para uma experiência sonora marcada pela confluência de linguagens aparentemente distintas, mas profundamente conectadas.

A singularidade destes “Sons do Brasil” residiu, em grande parte, na forma como se cruzaram os universos da música erudita e dos ritmos populares brasileiros — uma amálgama que, longe de ser apenas um exercício de estilo, é reveladora de afinidades profundas entre estas expressões musicais. Do samba à bossa nova, do choro ao frevo, passando ainda por influências do baião e sem esquecer o jazz, o programa destacou a riqueza e complexidade rítmica do Brasil, que encontrou na Orquestra Filarmonia das Beiras um intérprete à altura do desafio. Com mais de duas décadas de actividade, a Orquestra tem vindo a afirmar-se como uma referência nacional no panorama da música clássica, destacando-se pela versatilidade com que transita entre o repertório sinfónico, a música contemporânea e projectos interdisciplinares. Sob a batuta precisa de Fernando Marinho, os músicos souberam captar as nuances da linguagem popular brasileira, sem perder a clareza e o rigor próprios da execução orquestral, revelando uma escuta mútua rara e um compromisso artístico colectivo notável.

Com uma secção rítmica de luxo - João Ferreira (piano), Gonçalo Cravinho (contrabaixo) e João Cunha (bateria) -, Gileno Santana viu neste concerto representou mais do que uma colaboração entre todos os intervenientes — foi, segundo o próprio, “um dos mais aguardados” momentos da sua vida. Nascido em Salvador da Bahia e radicado em Portugal, Gileno construiu um percurso ímpar que atravessa o jazz, a música clássica e os ritmos afro-brasileiros, tendo já partilhado o palco com nomes como Hermeto Pascoal, Maria João, Pedro Abrunhosa, Vitorino ou a Banda Sinfónica Portuguesa. A sua abordagem ao trompete funde lirismo e virtuosismo com uma expressividade profundamente enraizada na identidade cultural brasileira. Em Estarreja, essa identidade encontrou ecos na paleta sonora da Orquestra, num espetáculo que foi, acima de tudo, um exercício de empatia musical: entre solista e orquestra, entre tradição e contemporaneidade e entre as duas margens do grande lago Atlântico. Na sua singularidade, “Sons do Brasil” constituiu uma celebração da música como ponte e como espaço de reencontro, cada nota a servir de elo entre mundos distintos mas complementares — o erudito e o popular, o europeu e o tropical, o passado e o presente.

[Foto: Cine-Teatro de Estarreja | https://www.facebook.com/cineteatrodeestarreja]

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

CONCERTO: “Na Pele da Terra” | Mário Barreiros



CONCERTO: “Na Pele da Terra”
Com | Mário Barreiros (bateria), Ricardo Toscano (saxofone alto), Carlos Barreto (contrabaixo) e Leonardo Pinto (electrónica)
EstarreJazz 2025
Cine-Teatro de Estarreja
08 Out 2025 | qua | 21:30


“Na Pele da Terra” começou por ser um projecto apresentado por Mário Barreiros à Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Música – Interpretação Artística, especialização Bateria Jazz. O projecto trazia consigo a ideia de combinar um trio de jazz com processamento electrónico por computador, abrindo espaço a que os músicos controlassem os efeitos e as alterações sonoras durante a performance, apoiando-se na dinâmica transformadora da tecnologia nesse fascinante diálogo entre o orgânico e o digital. “Isso gera uma dinâmica única e imprevisível, desafiando a ideia tradicional de que o jazz é puramente baseado na espontaneidade humana”, referia, a propósito, Mário Barreiros. Graças à electrónica, efeitos como delay, modulação, sampling e distorção tímbrica são passíveis de serem manipulados em tempo real, transformando os sons tradicionais do jazz em paisagens sonoras complexas e camadas texturais que transcendem os limites dos instrumentos acústicos convencionais. Em última análise, a música para trio de jazz com processamento electrónico representaria uma jornada de exploração musical onde o passado encontra o futuro. Uma abordagem disposta a desafiar as convenções, abrindo portas para a criatividade ilimitada e a descoberta sonora.

Foi com esta disposição que Mário Barreiros se apresentou ao público de Estarreja, na noite inaugural do EstarreJazz 2025. Em palco, ao seu lado, Ricardo Toscano (saxofone alto) e Carlos Barreto (contrabaixo) assumiram a parte instrumental, enquanto Leonardo Pinto assinou o desenho de som e Nélson Carvalho tratou da sua distribuição espacial - de forma magistral, diga-se. Ao unir a riqueza da tradição do jazz com as possibilidades da tecnologia moderna, os músicos poderam criar uma música enraizada na história e, ao mesmo tempo, verdadeiramente contemporânea. Mas “Na Pele da Terra” foi além deste lado, digamos, experimental (nos anos 1970, já Miles Davis se apoiava na electrónica para desenhar o seu jazz vanguardista). Delicada e elegante, a música contida no projecto é também uma pequena reflexão sobre a frágil e microscópica dimensão daquilo a que chamamos “vida na Terra” quando comparada com a imensidão do Cosmos. A sensação de humildade diante da vastidão do Universo, pode inspirar uma apreciação mais profunda da beleza e da fragilidade da vida na Terra e, nessa medida, “Na Pele da Terra” é um manifesto sobre a responsabilidade, individual e colectiva, que temos no actual estado de pré-colapso do nosso ecossistema e uma homenagem a todos os que participam na preservação do nosso habitat.

Socorro-me da Folha de Sala (um verdadeiro luxo nos tempos que correm) para dar nota do alinhamento de um concerto breve no tempo, mas de alta intensidade, contagiando de emoção e energia um público entusiasta. “O Solo”, composição de Mário Barreiros, abriu o concerto a olhar as árvores e a terra, o que cresce e permanece, oferecendo aos presentes uma experiência sensorial única. Barreiros, Barreto e Toscano punham em prática o seu enorme virtuosismo, mas era na electrónica que o ouvido se apurava, no que reverberava e amplificava de dimensão acústica. Dedicada a todos os que de alguma forma contribuem para uma reconciliação entre a humanidade e a natureza, atitude de importância crucial para o futuro do nosso ecossistema, “One Billion Trees”, de Mário Barreiros, foi um grande momento de jazz, assente na enorme capacidade de improvisação de Ricardo Toscano e Carlos Barreto. “Fall”, de Wayne Shorter, surge como uma meditação sobre a passagem do tempo - o Outono como metáfora da maturidade artística e humana, oferecido em harmonias amplas e movimentos introspectivos, num convite à contemplação do tempo e da existência.

A segunda metade do concerto abriria com “Goal 14”, uma composição assinada conjuntamente por Mário Barreiros e Ricardo Toscano. Apelando à protecção dos ecossistemas marinhos, ao combate à poluição e à sobrepesca, o tema tem como ponto de partida uma improvisação de saxofone alto, pontuado por arcadas de contrabaixo, e processamento electrónico por computador em tempo real. Mário Barreiros compôs “Sol” (fantástica a imagem projectada na tela), balada inspiradíssima que homenageia o coração luminoso que faz pulsar o planeta e que mereceu do público a mais prolongada e entusiástica ovação da noite. John Coltrane não podia faltar no serão de Estarreja e “Naima” foi mais um momento alto do concerto, uma balada pontuada por uma sequência de acordes suspensos capazes de criar uma atmosfera etérea e meditativa. “Na Pele da Terra”, de Leonardo Pinto, encerrou da melhor forma o momento inaugural do EstarreJazz, fazendo assentar a música na crosta terrestre, o verdadeiro palco da vida, a “pele” que sustenta e transforma tudo o que existe à sua margem. O solo inicial do contrabaixo é precioso, como preciosos são os diálogos que virá a estabelecer com o saxofone e a bateria, sob as boas graças - ainda e sempre - da electrónica. Um concerto memorável.

terça-feira, 24 de junho de 2025

CONCERTO: Jorge Palma & Júlio Resende



CONCERTO: Jorge Palma & Júlio Resende
Cine-Teatro de Estarreja
21 Jun 2025 | sab | 21:30


Ponto alto das comemorações do 20.º aniversário da reabertura do Cine-Teatro de Estarreja, o concerto do passado sábado chamou àquele espaço dois nomes maiores do panorama nacional, dois músicos de excepção, distantes entre si na idade e no tempo de palco, mas irmanados na qualidade e virtuosismo das suas composições e interpretações. Falo de Jorge Palma e Júlio Resende, reunidos num projecto único que revisita, com bom gosto e enorme sensibilidade, mais de cinquenta anos de uma bem-sucedida carreira do autor de “Frágil”, ao mesmo tempo que evidencia os extraordinários dotes de arranjador e improvisador de Júlio Resende. Num processo simbiótico a raiar a perfeição, a dupla teve para oferecer quase duas horas da melhor música, trazendo para primeiro plano temas de todos conhecidos, enriquecidos com novas roupagens, feitas de prelúdios e interlúdios belos e livres, escutados num silêncio reverencial por um público completamente rendido à sua riqueza e inspiração.

Os acordes que precederam “O Meu Amor Existe”, tema de abertura do concerto, faziam antever algo de muito especial. Ainda que facilmente reconhecíveis, Júlio Resende soube revesti-los de um lirismo único, uma quase pureza, transportando o público ao “grau zero” da criação. Mas foi quando as palavras, frágeis e incertas, se soltaram da garganta de Jorge Palma, que o concerto se estabeleceu nesse lugar único onde os homens e os deuses se tocam. Com uma voz que “é a sua, e pronto”, o cantor ofereceu-se inteiro e limpo naquilo que é, sem truques na manga, contando para tal com um apurado trabalho no som, com a assinatura de M.P. . A partir daqui foi somar dois mais dois, o tempo do concerto transformado num tempo de intimidade e cumplicidade ímpar com o público, ao qual bastou aceitar o convite à viagem pelos caminhos do jazz, dos blues e de outros géneros comuns ao universo musical de ambos os artistas e entregar-se ao muito de bom que, tema após tema, o concerto teve para oferecer.

Desconstruídas, rearranjadas, canções como “Quem és tu, de novo”, “Bairro do Amor”, “Canção de Lisboa”, “À espera do fim” ou “Frágil” iam abrindo espaço à contemplação do que é novo não o sendo. A anteceder “Só”, Júlio Resende pôs “ordem na casa” ao falar de um projecto com um ano de existência e três subidas únicas ao palco, o que só se pode lamentar. “Mano a Mano” juntou na voz de Jorge Palma a poesia de Maria do Rosário Pedreira e a música de Júlio Resende. Seguiu-se então uma divertida “dança das cadeiras”, com Júlio Resende a tocar de forma única “Come Together”, dos Beatles, e “(A Casa da) Mariquinhas”, alternando Jorge Palma na interpretação de “Deixa-me Rir”, “Estrela do Mar”, “Acorda menina Linda” e “Dormia tão Sossegada”. “Encosta-te a Mim” colocou um ponto final no alinhamento, chegando, enfim, o “encore” com um inicial “Blowin’ in the Wind”, de Bob Dylan e dedicado “ao povo da Palestina”. “Na Terra dos Sonhos” e “A Gente Vai Continuar” fecharam em definitivo um concerto extraordinário a todos os títulos. Enquanto houver estrada para andar...

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

OPERETA: "A Nossa Aldeia"



OPERETA: “A Nossa Aldeia”,
de Egas Moniz
Adaptação, direcção artística, encenação e cenografia | Leandro Ribeiro
Composição e direcção musical | Vítor Sousa
Figurinos e adereços | Marta Baldaia
Coreografia | Vera Lopes
Captação, edição de vídeo e fotografia de cena | Diogo Marques
Interpretação | Gabriel Garrido, Ana Rodrigues, Marco Nunes, Sara Moreira, José António Stréna, António Alves, Armanda Queirós, Margarida Laranjeira, Ana Paula Lapas, Gustavo Silva, Emília Maia, Luna Rodrigues, Carolina Santos, Bernardo Azevedo, Patrícia Quintino, Mónica Pinto, Otília Borges, Dionísia Santos, Ana Rita Ferreira, Palmira Baptista, Maria João Melo, Luís Rola, José Marques, Diana Coutinho, Maria Guimarães, Joana Guimarães, Vítor Sousa, Mariana Valente, Rita Lucas, Flávia Lucchi, Bruno Azevedo, Ana Moutela, Francisco Laranjeira, Paulo Santos, Jorge Azevedo, Fábio Vaz, Cândida Jardim, Hernâni Sá e comunidade estarrejense.
Produção | Município de Estarreja, No Sorriso da Lua e Sol d’Alma - Associação de Teatro
120 Minutos | Maiores de 6 Anos
Cine Teatro de Estarreja
30 Nov 2024 | sab | 21:30


29 de novembro de 1874. Nesta data, nascia em Avanca aquele que viria a ser o Prémio Nobel da Medicina em 1949, o médico e cientista António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz. Ao cumprirem-se 150 anos sobre a efeméride, o Município de Estarreja apresentou ao público o espetáculo multidisciplinar “A Nossa Aldeia”, baseado na opereta que Egas Moniz escreveu e levou à cena na Casa do Marinheiro a 22 de setembro de 1920. A história original conta-se em dois actos e retrata a chegada a Avanca, vindos de Lisboa, dos irmãos José Maria e Maria José, a quem o Regedor obriga a abrir as malas para investigar se não traziam bombas, pois “com gente de Lisboa é preciso ter muito cuidado”, numa alusão irónica aos distúrbios constantes na capital. Os irmãos vêm à procura da “cadeira marcónica”, um aparelho maravilhoso que permite viajar no tempo e que os levará a apreciar o contraste entre a “Avanca do passado”, que cultivava a distinção e as boas maneiras, a “Avanca de hoje”, que apreciava a vida simples, e a “Avanca de amanhã”, dos “sports” e do “feminismo”, que dançava o “foxtrot” e o “twostep” e que dispunha de um teatro em que actuavam cantores vindos de Paris pelo Sud Express. Entretanto chega um rapaz, o Manuel da Rosa, que está de partida para a América, para onde iria emigrar, deixando chorosas as moças da terra.

Espectáculo que, na sua multidisciplinaridade, abraça a figura eclética, dinâmica e empreendedora de Egas Moniz, “A Nossa Aldeia” é um arrojado exercício artístico que contou com o envolvimento de mais de uma centena de elementos, entre actores, figurantes, músicos e equipa técnica. A união do texto original com um aturado trabalho de investigação sobre a vida e obra do Nobel da Medicina forneceu a matéria-prima para a construção dos vários quadros que a peça contempla, aos quais Leandro Ribeiro soube acrescentar emoção, ironia e humor em doses generosas, desenhando um retrato de época que, bem vistas as coisas, acaba por se revelar particularmente actual. Mas se o trabalho de adaptação da obra e a sua encenação envolveram enormes desafios, o que dizer da parte musical cuja partitura original, da autoria de Estefânia Macieira, cunhada de Egas Moniz, e do condiscípulo Alberto Rego - além de incluir melodias tradicionais e fragmentos de outras origens, como a ópera “Manon” de Massenet -, se perdeu. Apoiando-se nas anotações de Acafem (pseudónimo sob o qual Egas Moniz escreveu a opereta), Vítor Sousa assumiu a tarefa de compor uma nova partitura, fazendo o acompanhamento da peça nas suas diversas variações e revelando-se em engenho e virtuosismo nos quadros estritamente musicais.

Imaginativo, ousado, irreverente, provocador, o espectáculo oferece momentos de boa disposição, a começar na longa viagem que leva os irmãos até Avanca, numa sucessão inesgotável de meios de transporte. A interpretação de uma cantiga na festa de despedida de Manuel da Rosa é um momento de grande emoção, tal como o excerto da ópera “Manon”, n’O Grande Lírico Avancanense, cantado a quatro vozes. A jornada das peixeiras que, de canastra à cabeça, levavam a sardinha da Torreira até ao Loureiro não ficou esquecida, como não ficaram esquecidas as colecções do Marinheiro, as lavadeiras no Rio Gonde, a saborosa broa de Avanca e uma Santa Marinha rezingona. Ao longo de quase duas horas houve alecrim e camarinhas pelo chão, um amolador de facas, tesouras e línguas, um rally automóvel, o desfilar dos ofícios, Carmen Miranda e o reclame radiofónico da Companhia de Curtumes de Antuã, os anúncios da Nestlé, as cadeiras da Adico nas esplanadas de Paris, uma cigana a ler a sina, um coro de omnipresentes alcoviteiras, burros em figura de gente e gente em figura de burro. O tema da emigração assumiu lugar de destaque, sobretudo as ligações inquebráveis entre quem parte e quem fica. A multiplicidade de referências às gentes e aos lugares arrancou gargalhadas à plateia e o resultado é de aplaudir pela inteligência e dignidade da obra e pelo empenho de todos quantos nela participaram. Caso fosse vivo, Egas Moniz sentiria orgulho em ver, na nossa aldeia, esta versão da sua opereta.

terça-feira, 26 de março de 2024

CONCERTO: Buba Espinho & Bandidos do Cante



CONCERTO: Buba Espinho & Bandidos do Cante
Cine-Teatro de Estarreja
23 Mar 2024 | sab | 21:30


“No Verão / A brasa dourada e celeste / Queimando este solo agreste / Dourando mais as espigas / Ceifeiros, corpos curvados / Ceifando e atando em molhos / A benção loira da vida”. Entoadas numa voz límpida e melodiosa, foram estas as palavras que abriram o concerto de Buba Espinho, na noite do passado sábado, no Cine-Teatro de Estarreja. Escutada em respeitoso silêncio, ou não fosse “Verão, Alentejo e os Homens” um Fado, a música abraça, na voz do cantor, o espírito do Cante Alentejano, género musical profundamente inculcado nas suas raízes de bejense de gema. Estava dado o mote para uma hora e meia de concerto, marcado pela perfeita união entre dois patrimónios culturais imateriais da humanidade, mas também pela forte empatia que, desde os instantes iniciais, se estabeleceu entre músicos e público. Empatia devida, no essencial, à generosidade e humildade de Buba Espinho, à sua genuinidade e espontaneidade, à forma como olha o público e a ele se dirige, ao seu bonito sorriso a espelhar a alegria de poder fazer aquilo que mais gosta e que é cantar.

Acompanhado por um extraordinário quinteto de músicos onde pontificam Manuel Oliveira (teclados), Bruno Chaveiro (guitarra portuguesa), Luis Aleixo (guitarra e voz), Chico Santos (baixo elétrico) e Francisco Santos (bateria), Buba Espinho embarcou  numa viagem por alguns dos seus temas mais recentes, mostrando o quanto de tradição pode caber na música dita ligeira. São disto exemplo “Larguei as Cordas”, “Hoje é o Dia”, “Ao teu Ouvido”, “Os Guardas Bateram” e, sobretudo, “Folga do Arlequim”, poema e música de Agir, pedacinho de felicidade a unir os presentes e a aconchegar o peito com um calorzinho bom. Com “Casa”, o público deu as mãos “em nome do amor” e mal romperam os primeiros acordes, soltaram-se as gargantas: “A dar-te um beijo / Aninhado ao teu peito”. Gargantas que não tiveram como calar-se face ao apelo de alguns dos temas que se seguiram, verdadeiros “hinos nacionais”, como o são “Gotinha de Água”, “Roubei-te um Beijo” ou “Menina Estás à Janela”, este último já com os Bandidos do Cante em palco.

Convidados de honra de Buba Espinho neste concerto em Estarreja, os Bandidos do Cante – Duarte Farias, Francisco Raposo, Miguel Costa e Francisco Pestana, a quem se junta o já referido Luís Aleixo – cantaram e encantaram. Foi com o acrescento das suas vozes que o Cante Alentejano se mostrou em toda a sua pureza e beleza. “Um Dia hei-de Voltar” trouxe-nos o ondular das searas ao vento e o aroma do trigo acabado de ceifar, prolongados no muito sentido “Menina Estás à Janela” e no jovial e atiradiço “Não é Tarde nem é Cedo”, palmas a compasso e uma música feita assobio a pôr os maiores sorrisos nos rostos de todos. Houve ainda esse momento de exclusividade, apenas com os “cinco bandidos” em palco, “Se eu soubesse / Serias minha amiga eterna / Não deixaria a minha terra / Amigos coloridos só.” Um muito aplaudido fado “Zé de Alfama” colocou um ponto final no alinhamento do concerto, mas Buba Espinho e os seus convidados haveriam de voltar ao palco para espalhar magia com “É Tão Grande”, o Cante entoado na sua forma mais pura, sem o acompanhamento dos instrumentos. “Casa” voltou a cantar-se em uníssono, com mais força ainda, deixando essa nota de “verdade” e de “família” que a todos uniu no tempo deste magnífico concerto.

domingo, 29 de outubro de 2023

CONCERTO: Sara Correia



CONCERTO: Sara Correia
Cine-Teatro de Estarreja
28 Out 2023 | sab | 21:30


Foi em nome de/a “Liberdade”, o seu mais recente trabalho discográfico, que Sara Correia subiu ontem ao palco do Cine-Teatro de Estarreja para uma noite de fado absolutamente memorável. Desde logo, porque não é todos os dias que vemos o fado ser tratado com tanto cuidado, no respeito pelas suas particularidades: os tempos, o ritmo, o silêncio, o virtuosismo instrumental, o saber estar e ser. Mas, sobretudo, pela emoção e arrebatamento que se desprendem de uma voz que é uma dádiva dos céus, cuja força e intensidade não são deste mundo e que faz de Sara Correia uma personalidade ímpar no fado. Afinal, quem como ela, nos tempos que correm, mais e melhor ergue a bandeira deste verdadeiro Património Cultural Imaterial da Humanidade que é o fado? Quem é capaz de, com tanta arte e paixão, recuperar a alma de temas tão enraizados no nosso ADN como “Balada de Outono”, “Madrugada de Alfama” ou “Estranha Forma de Vida”? “Não é escolha, é ser, é estar marcado”.

Distribuídos por uma hora e meia de concerto, os dezassete temas alinhados tiveram o condão de dar a ver “Liberdade” em canções como “Madrugou”, “Era o Adeus”, “Que da Voz te Nasçam Pombas” ou esse verdadeiro fenómeno de popularidade que é “Chelas”. A fadista, porém, não esqueceu os seus dois anteriores trabalhos, “Sara Correia” e “Do Coração” e, por caminhos do fado ou da marcha, recuperou “Não se Demore” (Fado Cravo) ou “Tu Ganhas Sempre”, “Porquê do Fado” - “um retrato da forma como o fado me recebeu e me deixou ser dele também” - ou o incontornável “Quero É Viver”, verdadeiro tributo a António Variações. Mas não foi só Variações, a sua música e poesia, que Sara Correia chamou ao palco. Ao seu lado estiveram David Mourão Ferreira e Alfredo Marceneiro, José Afonso e Pedro Abrunhosa, Carolina Deslandes e Joana Espadinha, entre outros, numa demonstração do ecletismo e versatilidade da fadista.

Falar deste concerto é falar de quatro músicos de excepção e de uma prestação imaculada: Diogo Clemente na viola de fado e direcção artística, Ângelo Freire na guitarra portuguesa, Frederico Gato no baixo acústico e Joel Silva na bateria. É, também, falar de um público entusiasta, conhecedor e que se quedou rendido à qualidade e emoção que se foi desprendendo do palco a cada novo tema. Arrepiante a longa pausa que antecedeu as cinco palavrinhas mágicas - “foi por vontade de Deus” -, o silêncio reverencial que tomou conta da sala, a explosão de júbilo no final do “encore”, no final do concerto. À medida que vamos saindo, percebemos o quanto letras e músicas lançaram âncora nas nossas mentes e nos pedem que as trauteemos. A alegria espelha-se nos rostos, contrariando o ar tempestuoso que se faz sentir no exterior do Cine-Teatro de Estarreja. E lá vamos nós - “vou viver” - a cantarmos quase num sussurro - “até quando, eu não sei” -, tomados de certezas e esperança - “não me importa o que serei, quero é viver!”.

domingo, 28 de maio de 2023

CONCERTO: Adriana Calcanhotto



CONCERTO: Adriana Calcanhotto
Concertos Íntimos
Cine-Teatro de Estarreja
27 Mai 2023 | sab | 21:30


Adriana Calcanhotto elegeu o nosso país para dar início à “tour” mundial de apresentação de “Errante”, o seu décimo terceiro álbum de estúdio e o vigésimo da carreira. Depois de Coimbra e Lisboa, ontem foi a vez de Estarreja receber a artista, numa noite que encerrou o ciclo de Concertos Íntimos da temporada. Esta referência aos “Concertos Íntimos” não é inocente, já que de intimidade se vestiu a quase hora e meia que durou o concerto, repartindo-se por dezassete temas (dois dos quais já no “encore”) cantados praticamente em sistema “non-stop”. Através deles deu a cantora a escutar dez dos onze temas que compõem este novo trabalho, havendo ainda espaço para recuar a “Enguiço”, álbum de estreia datado de 1990, do qual cantou “Naquela estação”, uma das suas músicas mais icónicas. Cobrindo um arco temporal de mais de trinta anos de carreira, nesta revisitação não ficaram esquecidos “Beijo Sem”, “Mais Feliz”, “Maresia”, “Fico Assim Sem Você”, o incontornável “Esquadros” (com um arranjo inicial a beber a inspiração em Richard Strauss e no conhecido tema de abertura do filme “2001:Odisseia no Espaço”) e esse beijo a Coimbra que é “Corre o Munda”, do álbum “Só” (2020).

Acompanhada pelos músicos Jorge Continentino (flauta, saxofone, teclados), Diogo Gomes (trompete), Marlon Sette (trombone), Guto Wirtti (contrabaixo), Domenico Lancellotti (bateria) e Pedro Sá (guitarra), Adriana Calcanhotto abriu o concerto com “Prova dos Nove”, justamente o tema que inaugura o seu novo trabalho. Nele a cantora parece querer justificar esta sua “errância” - “Tenho o corpo italiano / O nascimento no Brasil / A alma lusitana / A mátria africana (…) / E a crença na alegria como prova dos nove” - , mas rapidamente se percebe que a errância será sobretudo íntima, interior, e a “alegria como prova dos nove” surgirá vertida na tristeza de quem se vê preterida por “não ser branca, não ser moça, por ser mulher” (“Quem Te Disse”), de quem perde um amor (“Era Isso o Amor?”), de quem não se vê correspondida (“Horário de Verão), de quem não aceita a despedida para sempre (“Reticências”). A errância, portanto, o ser “Nômade”, “sem pouso, ser aquilo que se carrega amanhã cedo, ser aquilo que se carrega amanhecendo”.

Dolorida, magoada, carregando no seu seio uma enorme tristeza (da doença? da perda? do luto?), foi esta a Adriana Calcanhotto que vi no palco do Cine-Teatro de Estarreja. A sua alegria contagiante, a sua energia e entusiasmo inspiradores, primaram pela ausência na noite de ontem. Às palmas que celebravam cada uma das músicas, respondeu com um sorriso tímido e um discreto “obrigada” que os acordes da música seguinte se encarregaram de abafar rapidamente. Nunca “provocou” o público e apenas na última música virou o microfone para a audiência, escutando, no retorno, “por que é que tem que ser assim / se o meu desejo não tem fim.” Foi uma Adriana Calcanhotto fragilizada, desprotegida, vulnerável, aquela que vi em palco. Uma Adriana com uma voz menos ágil, que dispensa o atrevimento do gesto, que caminha lentamente como quem percorre um trilho pejado de espinhos. Que mostra consciência das suas limitações (e isto é a minha sensibilidade a dizê-lo) e não desiste de as desafiar e de as assumir. Mas foi assim, despida de fantasias, inteira e limpa, que escolheu dar-se a ver. Tocante de humanidade, transformou o gesto e a palavra em instantes sublimes e únicos. E fez do concerto um dos mais belos momentos de sempre.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

CONCERTO: Rui Veloso Trio



CONCERTO: Rui Veloso Trio
Cine-Teatro de Estarreja
10.Dez.2022 | sab | 21:30


A memória vai-me pregando algumas partidas, mas estou em crer que foi em finais de 1987, no Coliseu do Porto, que escutei Rui Veloso pela primeira vez. Quarto álbum da sua carreira, “Rui Veloso” andava nas bocas do mundo ao sabor de temas tão marcantes como “O Negro do Rádio de Pilhas”, “Cavaleiro Andante”, “Porto Côvo” ou “Porto Sentido”. A estes juntaram-se “Bairro do Oriente”, “Sayago Blues”, “Um Café e Um Bagaço”, “A Rapariguinha do Shopping” ou o incontornável “Chico Fininho”, composições icónicas dos seus trabalhos anteriores, e o concerto saldar-se-ía por um conjunto de momentos exaltantes, de verdadeira euforia, recordados com ternura ao longo do tempo. São trinta e cinco, os anos que separam esse concerto do Coliseu e este a que assisti na noite do passado sábado, num Cine-Teatro de Estarreja com lotação esgotada. Trinta e cinco anos de um longo vazio que as vicissitudes da vida justificarão em certa medida. Daí que o reencontro tenha constituído um momento singular, de júbilo, mas também de gratidão pelo tanto que Rui Veloso me tem dado e continua a dar.

Viagem em modo acústico pela música do “pai do Rock português”, o concerto foi emocionante a muitos títulos. Alexandre Manaia e Eduardo Espinho revelaram-se dois extraordinários intérpretes, com as suas vozes e as suas guitarras a brilharem a grande nível, acompanhando na perfeição os quase vinte temas que integraram o alinhamento. Quanto a Rui Veloso, apetece-me parafrasear uma espectadora que, mesmo ao meu lado, aproveitando a pausa entre duas músicas, expressou o seu sentir, alto e bom som: “Estás na mesma!” Inspirado, quiçá, no verde que caracteriza a bonita região do Baixo Vouga Lagunar onde Estarreja se insere, Rui Veloso começou por cantar “Sei de uma camponesa”, com o público a replicar “sem campo sem quintal” e a provar que também sabia dessa camponesa. E mesmo sendo verdade que “como havia antigamente / Já não há canções de amor”, não será menos verdade que “o calmo improviso do poente” é o mesmo de há mais de três décadas, com o seu sabor das laranjas na falésia, o seu cantar dos rouxinóis nas redondezas, o seu sargo a assar no braseiro ou o seu desfiar da lenda de um Vizir de Odemira que, na ilha, plantou um pessegueiro e por amor se matou novo.

“Nunca me esqueci de ti”, cantamos, com “uma mão cheia de nada / E o mundo à cabeceira”, para logo de seguida escutarmos “A Explicação das Estrelas”, numa primeira incursão pelo projecto que, em 2002, juntou Rui Veloso, Jorge Palma, Tim e João Gil sob o nome de “Cabeças no Ar”. O que não tem explicação é aquilo que está a acontecer com as mulheres do Irão, “heroínas do ano” para a revista Time, a quem o artista dedicou “Saiu Para a Rua”, louvando a sua “luta pela liberdade”. E porque a notícia do dia foi a eliminação de Portugal no Mundial do Catar face a Marrocos, Rui Veloso não quis deixar passar em claro o malogro - “os mouros são danados”, disse, em jeito de desabafo - e dedicou a música seguinte à nossa selecção, nem mais nem menos do que “Voar Como o Jardel”. Das cordas das guitarras sobe um clamor que dá expressão ao “Fado do Ladrão Enamorado”, uma gargantilha a brilhar “no bico do teu decote” e a chamar por um “Primeiro Beijo”, como que a provar que “muito mais é o que nos une / que aquilo que nos separa!”

O primeiro momento de verdadeira apoteose viria então com “Porto Sentido”, hino à cidade do Porto como não há outro, as vozes a elevarem-se em uníssono, “da Ribeira até à Foz / Por pedras sujas e gastas / E lampiões tristes e sós”. “Maravilhosa esta diálise” - e quem o diz é Rui Veloso e não o saudoso Serafim Saudade - a envolver todos os presentes. “Beirã” mostrou que somos “um bichinho do betão / que nunca viu o alecrim” e “Lado Lunar” lembrou-nos que há lados solares que só duram um segundo. Entre ambos, Eduardo Espinho protagonizou um momento inesperado ao cantar “As Meninas da Ribeira do Sado”, naquilo que foi um abraço ao seu pai, Luís Espinho, dos Adiafa. Com “Rio abaixo rio acima”, os blues espalharam-se pela sala nesse longuíssimo (e maravilhoso) intróito de “Sayago Blues”, prolongando-se no genuíno e autêntico “hino nacional” que é “Chico Fininho”. A fechar o alinhamento, “Não Há Estrelas no Céu” resultou noutro momento apoteótico, as palmas e gritos do público a estenderem-se por vários minutos e a obrigarem os músicos a regressar ao palco para um muito ansiado “encore”.“Um Trolha d’Areosa” abriu o momento e “Presépio de Lata” colocou-lhe um ponto final. Pelo meio, o último tema de grande emoção (e não foram todos?), “Anel de Rubi”, deu-nos a dimensão do quanto amamos Rui Veloso, consubstanciado nas inúmeras vezes que o ouvimos. “Não se ama alguém que não ouve a mesma canção”, certo?

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

FADO / CONCERTO: "Bate Fado"



DANÇA / CONCERTO: “Bate Fado”
Direção artística e coreografia | Jonas & Lander
Composição musical | Jonas, Lander Patrick
Cenografia | Rita Torrão
Figurinos | Fábio Rocha de Carvalho, Jonas
Calçado | Gradaschi
Interpretação | Catarina Campos, Jonas, Lander Patrick, Lewis Seivwright, Melissa Sousa, Acácio Barbosa, Rui Poço, Tiago Valentim, Yami Aloelela
Produção | Associação Cultural Sinistra
Maiores de 6 anos | 100 Minutos
Cine-Teatro de Estarreja
19 Nov 2022 | sab | 21:30


“Silêncio que se vai dançar o fado!”. Não resisto a pegar no trocadilho e, desta forma, começar as minhas impressões acerca de “Bate Fado”, mesmo correndo o risco de deixar subentendido que se trata de um espectáculo de dança. Isto será verdade apenas pela metade, já que é justo referir que a componente de fado (música e voz) está presente em iguais termos, rivalizando com a dança em expressividade e intensidade. Se dúvidas restassem, o belíssimo “Fado Hilário”, que encheu de emoção o “encore”, ali estaria a sublinhá-lo. Mas vamos por partes, começando pelo princípio, pelo processo de investigação histórica que sustenta uma parte fundamental do labor criativo de “Bate Fado”. É consensual que as origens do fado remontam ao Brasil do século XVII enquanto dança afro-brasileira mesclada com o fandango. Trazido pelos marinheiros, o fado e as suas danças acabaram por se instalar em Lisboa, sendo o Fado Batido a vertente da dança do fado que viria a ganhar maior expressão entre nós. O acto de “bater o fado” mais não seria do que um exercício de percussão e um sapateado enérgico que servia para desenhar os compassos da guitarra. Mas era, também, um exercício de destreza, em que ganhava às "pernadas" quem resistisse mais tempo de pé.

Fado dançado? Para quem tem presente algumas sequências de “Fados”, o filme de Carlos Saura, talvez o assunto não seja uma novidade completa. A verdade é que esta associação histórica entre a dança e a música de fado foi-se apagando aos poucos da nossa memória coletiva e não são muitos aqueles que, nos dias que correm, têm consciência de que o fado era dançado. Ao pensar naquilo que é a essência do samba, do flamenco ou até mesmo do fandango, géneros profundamente enraizados no movimento, no ritmo e na coreografia, não podemos deixar de estranhar que a componente da dança tenha, em relação ao fado, perdido fulgor e representação, cedendo lugar à voz e à melodia, até desaparecer completamente. Foi numa certa dimensão boémia e de festa inerente ao Fado Batido que Jonas & Lander decidiram apostar, criando um espectáculo que recupera as origens do fado, invadindo os espaços de tavernas e baiucas e reinterpretando de forma livre o seu espírito ancestral.

Extraordinariamente eficaz no seu minimalismo, o dispositivo cénico oferece várias leituras. Mais igreja que coreto, entre o dentro e o fora, o sagrado e o profano, ele amplia a forma de abordar os sentimentos mais extremados, a traição e o ciúme de mãos dadas com a paixão e o arrebatamento. Debaixo daquele céu, as guitarras são canto e alegria, choro e dor, da mesma forma que são remo e vela, cruz e pendão, almofada para repousar a cabeça e espingarda que fere e mata. A elas e à música que delas emana, junta-se o ritmado de um sapatear vigoroso e expedito, penetrante, exaltante, que contamina e arrasta o público numa enorme torrente de força e energia. Os números sucedem-se e o diálogo entre o fado batido e as danças tradicionais portuguesas e afro-brasileiras estreita-se. “Por riba se ceifa o pão” cruza-se com “Maria La Portuguesa” com a mesma naturalidade com que se cruzam o “Fado Bailado” e “A Morte do Surubim”. As pequenas peças que faltam para completar o puzzle, impossíveis de encontrar naquilo que sobrou da verdade histórica do Fado Batido, vão buscá-las Jonas & Lander ao seu próprio imaginário coreográfico. A eles se deve a construção de um espectáculo visualmente riquíssimo, irrepreensível do ponto de vista das interpretações e que tem ainda esse lado didático, que acrescenta e enriquece. Para eles vai o mais vivo e caloroso aplauso.

[Foto: Município de Lagoa | https://www.facebook.com/municipio.lagoa/]

terça-feira, 1 de novembro de 2022

TEATRO: "Kinski - Roi des Rats"



TEATRO: “Kinski - Roi das Rats”
Conceito, direcção artística e performance | Rui Paixão
Direcção plástica, apoio dramatúrgico, máscaras e adereços | Cristóvão Neto
Desenho e execução de figurino | Lola Sousa, Nuno Encarnação
Produção | Les Subs, Rui Paixão/HolyClowns
50 Minutos | Maiores de 3 anos
Cine-Teatro de Estarreja
29 Out 2022 | sab | 21:30 


Chama-se Kinski e é actor. Um actor problemático, acrescente-se. Caído no desemprego, sem as rotinas habituais a que estava obrigado graças às exigências da profissão, deixa-se vencer pela inércia, deprime e acaba por engordar de forma desmesurada. Entretanto, para sobreviver, abraça a carreira de vendedor de dentes de vampiro, mas a atitude deselegante e agressiva face aos seus potenciais clientes afasta-os irremediavelmente, deixando Kinski ainda mais desesperado e revoltado. Levado numa espiral de alienação e insanidade, acabará por se transformar num rato, espalhando o caos à sua volta e contaminando aqueles que com ele se cruzam. Este parece ser um bom resumo do espectáculo que Rui Paixão trouxe ao palco do Cine-Teatro de Estarreja, na noite do passado sábado. Será, pelo menos, uma leitura possível, quiçá a mais imediata. Mas são muitas as leituras que a peça oferece, a começar pelo actor problemático que é Kinski, remetendo de forma directa para Klaus Kinski, um génio terrível num actor magnífico, capaz de levar ao desespero qualquer realizador (que o diga Werner Herzog, que terminou uma cena de “Aguirre, o Aventureiro” com uma arma apontada à cabeça de Kinski, ameaçando matá-lo e matar-se em seguida).

Afinal, de que nos fala “Kinski - Roi das Rats”? Que mensagem ou mensagens pretendem Rui Paixão e Cristóvão Neto (que assina o apoio à dramaturgia) fazer passar com este trabalho? A questão não é de resposta fácil, desde logo tendo em conta que a própria peça se assume como um “work in progress”, a versão apresentada em Estarreja sendo diferente da versão inicial, estreada no festival “Imaginarius”, de Santa Maria da Feira, nos passados dias 27 e 28 de Maio. A animada conversa entre Rui Paixão e o público, no final do espectáculo, foi determinante para se perceber que há ideias muito claras que marcam uma boa parte da peça, assumindo Rui Paixão o risco de deixar o restante por conta do improviso. É bem patente a ideia do actor enquanto ser “particular”, caprichoso e volúvel, mas igualmente vulnerável e exposto, sobretudo numa época em que a precariedade tomou conta da cultura e seus agentes. O papel de Nosferatu, que Klaus Kinski representa no filme homónimo de Herzog, deixa uma pista para as figuras do vampiro e do rato. E depois há Roger Ballen, fotógrafo do submundo, cuja estética muito própria relaciona a arte com a imundície, o esgoto e os ratos.

Depois da transformação de Kinski em rato, é pedido ao espectador que se levante da cadeira e embarque numa viagem. À medida que os espaços se vão abrindo, aumenta a cumplicidade entre o rato e o público. Entender a peça passa por uma identificação com ela, algo que Kinski deixa bem vincado na mensagem inscrita no espelho, servindo-se das palavras de Ballen: “My house has no address. It is impossible to find unless you are a rat. It is in the underworld, a place of my rat mind, my human mind, your mind.” O espectáculo chega ao fim quando Kinski parte e deixa o espectador entregue a si próprio. É então que percebemos que existe em nós o poder de, ainda que noutro plano ou dimensão, continuar a alimentar os nossos sonhos e a fazer aquilo que mais gostamos. Esta será, porventura, a grande mensagem de uma peça que tem em Rui Paixão um actor de excelência. À enorme exigência física do papel de Kinski, responde o actor com uma entrega inexcedível, prendendo o espectador durante uma hora de teatro físico e psicológico de grande nível. Um forte aplauso, igualmente, para o trabalho de luz e para a concepção do figurino, de Lola Sousa e Nuno Encarnação, mais valias extraordinárias num grande trabalho de palco. Bravo!

[Foto: João Versos Roldão]