Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Festival Internacional de Guitarra de Aveiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Festival Internacional de Guitarra de Aveiro. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 6 de julho de 2026

CONCERTO: Orquestra das Beiras & Rafael Aguirre



CONCERTO: Orquestra das Beiras & Rafael Aguirre
Com | Rafael Aguirre (guitarra clássica)
Direcção musical | Pablo Urbina
FIGA - 2.º Festival Internacional de Guitarra de Aveiro
Cine-Teatro de Estarreja
04 Jul 2026 | sab | 21:30


A segunda edição do Festival Internacional de Guitarra de Aveiro abriu da melhor forma, no Cine-Teatro de Estarreja, com um concerto que confirmou a ambição artística de um certame que pretende afirmar-se entre os mais relevantes do panorama nacional e internacional no seu género. Dirigida pelo maestro convidado Pablo Urbina, a Orquestra Filarmonia das Beiras apresentou um programa integralmente dedicado a dois compositores espanhóis separados por quase um século, mas unidos por uma escrita profundamente idiomática e por uma invulgar capacidade de explorar a cor orquestral. A primeira parte pertenceu a Joaquín Rodrigo e ao seu derradeiro concerto para guitarra e orquestra, “Concierto para una Fiesta”, confiado ao guitarrista espanhol Rafael Aguirre. Desde os primeiros compassos tornou-se evidente a razão do prestígio internacional do intérprete: um domínio técnico absoluto colocado ao serviço da música, um fraseado de grande elegância, uma sonoridade luminosa e uma capacidade rara para fazer respirar cada melodia sem perder jamais o ímpeto rítmico que atravessa a obra. Aguirre encontrou em Pablo Urbina um parceiro atento, que soube equilibrar a massa orquestral e criar espaço para que a guitarra nunca perdesse protagonismo, permitindo um diálogo perfeito entre solista e orquestra. Ficou, contudo, um pequeno desconsolo: a presença de Rafael Aguirre limitou-se à primeira parte do programa. Depois de uma interpretação de tamanha classe, virtuosismo e sensibilidade, a sensação inevitável foi a de que “soube a pouco”.

Após o intervalo, a Filarmonia das Beiras permaneceu sozinha em palco para interpretar a “Sinfonia em Ré Maior”, de Juan Crisóstomo de Arriaga, compositor cuja morte prematura continua a alimentar a imagem do chamado “Mozart espanhol”. A leitura de Pablo Urbina privilegiou a clareza formal e a transparência tímbrica da obra, recusando excessos românticos e sublinhando antes a juventude, a frescura e o equilíbrio clássico da partitura. O primeiro andamento revelou energia e rigor arquitectónico, enquanto o Andante encontrou um discurso “cantabile” de apreciável lirismo, sustentado por cordas homogéneas e madeiras particularmente inspiradas. O “Minueto” surgiu com elegância e vivacidade, preparando um “Finale” conduzido com firmeza e uma pulsação sempre convincente. A Orquestra Filarmonia das Beiras respondeu com segurança às exigências da escrita de Juan Crisóstomo de Arriaga, revelando uma coesão assinalável entre naipes e um som equilibrado, marcados pela transparência e pela atenção ao detalhe. Sem procurar efeitos fáceis, a interpretação valorizou a qualidade intrínseca da obra e confirmou o excelente momento artístico da formação, que voltou a evidenciar flexibilidade estilística e maturidade musical num repertório muito pouco frequente entre nós.

Mas a noite reservaria ainda um momento de absoluta magia. Chamado ao palco no final da sua interpretação pelos aplausos calorosos do público, Rafael Aguirre regressou para oferecer uma obra fora do programa: os intemporais “Recuerdos de la Alhambra”, de Francisco Tárrega. Bastaram poucos segundos para que a atmosfera da sala se transformasse. O célebre trémulo, executado com uma fluidez quase irreal, desenhou uma linha melódica de impressionante continuidade, enquanto cada frase surgiu como que suspensa no tempo, servida por uma delicadeza tímbrica de rara beleza. Foi uma interpretação de enorme contenção expressiva, sem qualquer exibicionismo, onde a perfeição técnica se aliou de forma rara à emoção. A simplicidade do gesto tornou ainda mais eloquente a grandeza da música e justificou, por si só, a prolongada ovação que encerrou a primeira parte do concerto. Se o “Concierto para una Fiesta” já havia confirmado Rafael Aguirre como um guitarrista de excepção, este inesperado “encore” deixou a marca definitiva da sua personalidade artística: a de um intérprete capaz de transformar uma página tantas vezes escutada numa experiência profundamente comovente. Foi um momento memorável para uma noite que lançou o Festival Internacional de Guitarra de Aveiro sob o signo da excelência e deixou a expectativa naturalmente elevada para os concertos que se seguem.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

CONCERTO: Berta Rojas



CONCERTO: Berta Rojas
Festival Internacional de Guitarra de Aveiro
Centro Cultural e de Congressos de Aveiro
13 Jul 2025 | dom | 18:00


Consabidamente, a cultura não tem sido merecedora, por parte da nossa classe dirigente, da atenção e dos apoios devidos, ocupando o lugar de parente pobre aos olhos de uma parte importante da sociedade portuguesa. Acabam por ser as autarquias locais ou entidades privadas a descobrir as realidades de um vasto leque de projectos altamente meritórios, assumindo-os na qualidade de mecenas e garantindo as condições necessárias para que as coisas aconteçam. Está neste caso o Festival Internacional de Guitarra de Aveiro, em ano de estreia, que ao longo de uma semana transformou a cidade num palco de cordas mil, graças a um diversificado conjunto de manifestações musicais e artísticas em torno da guitarra. Concertos, masterclasses, cinema, um Encontro Nacional de Professores de Guitarra e uma Conferência Internacional foram núcleos de um evento estrategicamente pensado e que soube posicionar-se, desde a primeira hora, com a ambição de vir a tornar-se uma referência no panorama dos festivais de guitarra a nível internacional.

Cabeça de cartaz do certame, a guitarrista paraguaia Berta Rojas subiu ao palco do Centro de Congressos de Aveiro ao final da tarde do passado domingo para o concerto de encerramento. Trazia consigo o reconhecimento do público e da crítica como uma das mais renomadas intérpretes de guitarra clássica da actualidade, alicerçado na conquista de um Grammy Latino para Melhor Álbum Clássico, com o seu trabalho “Legado” (2022). E foi precisamente por aqui que a artista começou, interpretando duas peças de Ida Presti, compositora clássica francesa e, para muitos, “a maior guitarrista do século XX, e possivelmente de todos os tempos”. Títulos à parte, Presti desempenhou um papel extraordinário ao mostrar o valor da mulher num mundo dominado, quase em exclusivo, por homens, abrindo portas a que muitas outras mulheres mostrassem o seu potencial e valor e singrassem no mundo da música. “Segovia” e “Danse Rythmique” foram os dois temas tocados, intercalados por “Idylle pour Ida”, de John Duarte. Na primeira parte do concerto seria ainda possível escutar, de Federico Moreno Torroba, “Sonatina”, sendo evidente o significado da escolha destas peças, mas sobretudo a técnica excepcional e a habilidade expressiva de Berta Rojas. Navegando cuidadosamente pelas melodias flutuantes das peças, a guitarrista pôs em destaque a sensibilidade rítmica dos compositores, o seu talento melódico e um suave - mas colorido - cromatismo.

A segunda parte do concerto foi toda ela dedicada a Agustin Barrios Mangoré, virtuoso guitarrista e compositor clássico paraguaio, amplamente considerado um dos maiores intérpretes e indiscutivelmente o compositor mais prolífico para guitarra de sempre. Berta Rojas foi exímia na interpretação das várias peças eleitas para o alinhamento desta segunda metade, em particular a incontornável “Catedral” e, já no “encore”, um maravilhoso “Choro da Saudade”. No ouvido ficam influências da música folclórica sul-americana e centro-americana nas composições de Agustin Barrios, mas também texturas que vão beber aos clássicos, nomeadamente a Johann Sebastian Bach. Comovente, hipnótica, a música interpretada com tanta maestria e emoção convida-nos a ver nela um elemento aglutinador de esforços e talentos, independentemente dos nomes, nacionalidades, épocas ou cor da pele de quem deu o seu contributo para o estudo, evolução e consolidação dos mais variados estilos musicais em torno deste instrumento tão amplamente divulgado. Um enorme concerto de uma enorme guitarrista, marcado pela negativa pelas péssimas condições do Auditório, com assentos desconfortáveis e a rangerem ao mínimo movimento, uma sala impossível de calor, espectadores indiferentes à necessidade de desligarem os telemóveis e um fotógrafo que fez da sua câmara uma metralhadora e rivalizou em protagonismo com a artista.