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quinta-feira, 26 de março de 2026

CONCERTO DE PÁSCOA: Requiem, de Gabriel Fauré



CONCERTO DE PÁSCOA: Requiem, de Gabriel Fauré
Orquestra Filarmonia das Beiras
Coro Sinfónico Inês de Castro
Direcção | Tiago Oliveira
Direcção coral | Artur Pinho Maria
Com | Leonor Barbosa de Melo (soprano), Luís Rendas Pereira (barítono)
XIV Ciclo de Requiem Coimbra 2026
Igreja Matriz de Ovar
22 Mar 2026 | dom | 17:30


Integrado na programação das Solenidades Quaresmais de Ovar, teve lugar no passado domingo, na Igreja Matriz, o Concerto de Páscoa pela Orquestra Filarmonia das Beiras e que contou com o Coro Sinfónico Inês de Castro. A abrir o momento, a Sinfonia n.º 49 em Fá menor, “La Passione”, de Joseph Haydn, ergueu-se como um portal meditativo, quase litúrgico, revelando uma inquietação que ultrapassou a mera forma e se inscreveu numa dramaturgia interior de rara intensidade. Com o Adagio inicial a substituir o habitual ímpeto inaugural, a peça pareceu inscrever a música num tempo suspenso, como se cada compasso fosse um passo dolorido na via-sacra. Percebeu-se nela uma emoção contida, um fervor recolhido e austero que convocou o silêncio tanto quanto a música. Sombria e inexorável, a progressão dos andamentos pareceu acompanhar o peso da cruz, a queda e o reerguer, culminando num “Presto” final cuja turbulência não dissipou a dor, antes a tornou mais aguda. Num concerto pascal, esta Sinfonia não só evocou a Paixão, mas foi também um convite à introspecção, à consciência da fragilidade humana e à aceitação do sofrimento como caminho para a redenção.

Se Haydn nos conduziu pela sombra densa da dor, o Requiem de Gabriel Fauré abriu-nos, com infinita delicadeza, a possibilidade da luz. Longe do dramatismo apocalíptico de outras leituras do texto litúrgico, Fauré concebeu uma obra onde a morte não é terror nem ruptura, antes repouso e transfiguração. Desde o “Introit et Kyrie”, cuja penumbra inicial se ilumina na promessa da “lux perpetua”, até ao etéreo “In Paradisum”, tudo pareceu encaminhar o público para uma aceitação serena do fim como princípio. De inspiração quase gregoriana, a escrita coral entrelaçou-se com uma orquestração de transparência rara, onde cada timbre soube respirar e dissolver-se num tecido harmónico de subtil beleza. O “Offertorium”, com a sua súplica reiterada, e o “Agnus Dei”, de pungente expressividade, revelaram um equilíbrio notável entre a dor e a esperança. E, no entanto, foi no “Pie Jesu” que o tempo verdadeiramente se suspendeu: uma linha pura, quase infantil na sua simplicidade, que se elevou como oração íntima, pedindo descanso eterno com uma ternura desarmante. Fauré não descreve a morte: Consola-a, envolve-a, humaniza-a.

Antes do concerto, nas breves palavras que dirigiu ao público, o maestro Tiago Oliveira lembrou que os aplausos devem surgir apenas no final de cada peça, preservando a unidade e o recolhimento da experiência musical. E, contudo, houve um instante em que essa regra pareceu, se não quebrada, pelo menos questionada pelo próprio coração: o “Pie Jesu”, precisamente, interpretado de forma delicada e sentida por Leonor Barbosa de Melo, mereceria, talvez, um gesto espontâneo de gratidão. Foi um momento de rara verdade, em que a música deixou de ser execução para se tornar revelação. De notar, ainda, o desempenho notável do Coro Sinfónico Inês de Castro, cuja coesão e riqueza tímbrica sustentaram com firmeza a arquitectura da obra, beneficiando da opção por uma formação instrumental reduzida, quase camerística. Longe de empobrecer o resultado, essa contenção conferiu maior clareza às linhas vocais e intensificou a intimidade do discurso. Na sombra de Haydn e na luz de Fauré, o concerto desenhou um arco perfeito entre a dor e a esperança, a morte e a promessa de ressurreição, deixando nos espíritos de quem assistiu ao concerto uma paz difícil de traduzir em palavras.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

CONCERTO: Orquestra Filarmonia das Beiras & Anabela



CONCERTO: Orquestra Filarmonia das Beiras & Anabela
Direcção musical | Filipe Fonseca
Centro de Artes de Ovar
13 Dez 2025 | sab | 21:30


Ano após ano, a quadra natalícia regressa envolta em brilho e emoção, feita de memória e afectos, esperança e desejo de comunhão. Nesse território terno e delicado, encontram os concertos de Natal o seu lugar mais pleno, como rituais contemporâneos que são de promoção do encontro e da partilha. Imbuídos deste espírito natalício, foram muitos aqueles que quiseram celebrar o momento através da música, abraçando o convite do Município de Ovar a escutar a Orquestra Filarmonia das Beiras e a sua convidada especial, Anabela, figura incontornável do nosso panorama musical. Ao encontro das mais simbólicas canções de Natal e de melodias intemporais que habitam a nossa memória coletiva, essas que reconhecemos antes mesmo de as ouvir por inteiro, músicos e público souberam unir-se em torno de um alinhamento festivo, fazendo do concerto um gesto de proximidade, capaz de reunir diferentes gerações num mesmo sentimento de júbilo sereno, cada tema a mostrar-se capaz de reacender a ideia de pertença e de humanidade partilhada.

Combinando o apuro técnico e a sensibilidade dos músicos, com o timbre harmonioso e cristalino de uma voz que dispensa apresentações, o Concerto de Natal foi um momento de celebração elegante e acessível, a tradição de mãos dadas com um tratamento sinfónico luminoso e disciplinado. Sob a direção segura de Filipe Fonseca, maestro convidado, o programa construiu-se como uma viagem contínua pelo imaginário natalício, mais evocativa do que solene, mais calorosa do que monumental. Apenas com a orquestra em palco, o início do programa fez-se ao som da “Abertura e Marcha d’O Quebra Nozes”, de Tchaikovski, abrindo espaço à voz da convidada e à criação de um mosaico de melodias familiares que começou a desenhar-se em temas como “Let it Snow”, “The Christmas Song” ou “Somewhere Over the Rainbow”. Nas asas do sonho, o público teve tempo de respirar em passagens contemplativas para, logo de seguida, ser arrastado por um impulso jubiloso, num equilíbrio eficaz entre contenção e exuberância. Seguiram-se quatro temas integrantes das versões em português de outros tantos filmes de animação, reveladores de uma vontade clara de ampliar o horizonte do concerto sem quebrar a coerência do conjunto.

Curiosamente, não foi uma canção de Natal aquela que melhor caiu nas boas graças do público, levando à sua repetição no “encore”. Era obrigatório revisitar “A Cidade até ser Dia”, tema que Anabela levou ao Festival Eurovisão da Canção em 1993, na altura com apenas 16 anos, e a cantora não se fez rogada, arrancando o mais caloroso aplauso do serão. Com enorme sensibilidade e sem recorrer a excessos interpretativos, Anabela e a Orquestra foram capazes de criar uma atmosfera a remeter para uma certa intimidade doméstica que tanto associamos ao Natal, estabelecendo uma enorme empatia com o público e fazendo dele, a espaços, o seu “coro”. Depois de nova pausa para mais um momento instrumental - ainda e sempre com Tchaikovski e “O Quebra Nozes” -, a cantora regressou aos clássicos, fazendo de “My Favourite Things”, “Sleigh Ride”, “Have Yourself a Merry Little Christmas” e “Jingle Bells” um fecho com chave de oiro. Longe de procurar um virtuosismo ostensivo, o concerto afirmou-se pela competência colectiva e pela capacidade de transformar música amplamente conhecida numa experiência viva, pensada tanto para a escuta atenta como para acompanhar, em pano de fundo, o ritual humano e repetido do Natal. Um momento inesquecível de celebração e partilha, tão belo quanto necessário nos dias que vivemos.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

CONCERTO: "Sons do Brasil" | Orquestra das Beiras & Gileno Santana



CONCERTO: “Sons do Brasil”
Orquestra das Beiras & Gileno Santana
Direcção músical | Fernando Marinho
Estarrejazz 2025
Cine-Teatro de Estarreja
11 Out 2025 | sab | 21:30


A encerrar mais uma edição do Estarrejazz, o Cine-Teatro de Estarreja acolheu um concerto verdadeiramente singular que uniu o trompetista brasileiro Gileno Santana à Orquestra Filarmonia das Beiras, sob a direção do maestro Fernando Marinho. A proposta, descrita como “um diálogo com as influências culturais que conectam Brasil e Portugal”, ganhou forma através de arranjos assinados por compositores de enorme craveira internacional, casos de Gil Goldstein ou Nelson Ayres, alguns deles criados em especial para esta ocasião. O repertório viajou por marcos emblemáticos da música brasileira — Garota de IpanemaCarinhosoAquarela do Brasil, “Dindi”, “Vambora” ou “Tico-Tico no Fubá” —, evocando não apenas a beleza melódica destes temas, mas também o seu contexto histórico e afectivo, agora reinterpretado com a densidade tímbrica e harmónica de uma orquestra clássica. A presença de Gileno Santana, considerado um dos mais talentosos trompetistas da sua geração, trouxe um sopro de autenticidade e sofisticação a este encontro cultural de grande fôlego artístico, contribuindo para uma experiência sonora marcada pela confluência de linguagens aparentemente distintas, mas profundamente conectadas.

A singularidade destes “Sons do Brasil” residiu, em grande parte, na forma como se cruzaram os universos da música erudita e dos ritmos populares brasileiros — uma amálgama que, longe de ser apenas um exercício de estilo, é reveladora de afinidades profundas entre estas expressões musicais. Do samba à bossa nova, do choro ao frevo, passando ainda por influências do baião e sem esquecer o jazz, o programa destacou a riqueza e complexidade rítmica do Brasil, que encontrou na Orquestra Filarmonia das Beiras um intérprete à altura do desafio. Com mais de duas décadas de actividade, a Orquestra tem vindo a afirmar-se como uma referência nacional no panorama da música clássica, destacando-se pela versatilidade com que transita entre o repertório sinfónico, a música contemporânea e projectos interdisciplinares. Sob a batuta precisa de Fernando Marinho, os músicos souberam captar as nuances da linguagem popular brasileira, sem perder a clareza e o rigor próprios da execução orquestral, revelando uma escuta mútua rara e um compromisso artístico colectivo notável.

Com uma secção rítmica de luxo - João Ferreira (piano), Gonçalo Cravinho (contrabaixo) e João Cunha (bateria) -, Gileno Santana viu neste concerto representou mais do que uma colaboração entre todos os intervenientes — foi, segundo o próprio, “um dos mais aguardados” momentos da sua vida. Nascido em Salvador da Bahia e radicado em Portugal, Gileno construiu um percurso ímpar que atravessa o jazz, a música clássica e os ritmos afro-brasileiros, tendo já partilhado o palco com nomes como Hermeto Pascoal, Maria João, Pedro Abrunhosa, Vitorino ou a Banda Sinfónica Portuguesa. A sua abordagem ao trompete funde lirismo e virtuosismo com uma expressividade profundamente enraizada na identidade cultural brasileira. Em Estarreja, essa identidade encontrou ecos na paleta sonora da Orquestra, num espetáculo que foi, acima de tudo, um exercício de empatia musical: entre solista e orquestra, entre tradição e contemporaneidade e entre as duas margens do grande lago Atlântico. Na sua singularidade, “Sons do Brasil” constituiu uma celebração da música como ponte e como espaço de reencontro, cada nota a servir de elo entre mundos distintos mas complementares — o erudito e o popular, o europeu e o tropical, o passado e o presente.

[Foto: Cine-Teatro de Estarreja | https://www.facebook.com/cineteatrodeestarreja]

terça-feira, 3 de junho de 2025

CONCERTO: Andreia Bocelli



CONCERTO: Andrea Bocelli
Com | Serena Gamberoni (voz), Rusanda Panfili (violino), Andrea Lykke (voz)
Orquestra Filarmonia das Beiras
Coro do Orfeão de Leiria, Coro Ninfas do Lis, Coro Misto da Associação Académica de Coimbra, Coro Coimbra Vocal, Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra
Direcção musical | Marcello Rota
Estádio Municipal de Leiria
31 Mai 2025 | sab | 21:30


Depois de ter esgotado a Altice Arena em 2017 e 2023 e o Estádio Cidade de Coimbra em 2021, Andrea Bocelli regressou a Portugal, desta feita a Leiria, trazendo consigo uma proposta de viagem pela história da música, das mais conhecidas árias e duetos do repertório operático, aos grandes êxitos da música ligeira, sobretudo italiana e espanhola. O suporte musical esteve a cargo da Orquestra Filarmonia das Beiras e de um conjunto de cinco coros das cidades de Coimbra e Leiria, sob a direcção de Marcello Rota. As peças instrumentais tiveram na violinista Rusanda Panfili uma executante de excepção, enquanto os duetos e alguns temas a solo foram assegurados pela soprano Serena Gamberoni e pela cantora pop Andrea Lykke. A produção do espectáculo tudo fez para proporcionar uma noite inesquecível aos quase 25.000 espectadores que encheram o Estádio Municipal de Leiria, com um alinhamento diversificado e muito inteligente, a par de um palco sumptuoso que se foi preenchendo de imagens de belo efeito, em contraciclo com uma organização que se “esqueceu” de partilhar com os espectadores, na página do evento, nas redes sociais ou através da criação de uma folha de sala, algo tão elementar como informações sobre o programa do concerto, a biografia das principais figuras em palco ou outros elementos julgados de interesse.

A primeira parte do concerto fez-se de algumas das mais icónicas peças do universo operático, mostrando um Andrea Bocelli em grande forma, tanto na sua espantosa técnica vocal, quanto na expressividade e sentimento que, como ninguém, sabe colocar nas suas interpretações. “La donna è mobile”, ária do terceiro acto da ópera “Rigoletto”, de Giuseppe Verdi, abriu o concerto em ambiente de festa e de celebração, numa altura em que o tenor italiano acaba de completar três décadas de intensa e bem sucedida carreira. Após o segundo tema, Bocelli cedeu o palco a Serena Gamberoni, uma voz praticamente desconhecida dos melómanos portugueses, mas uma soprano em ascensão e com presenças de reconhecido mérito em teatros como o La Scala de Milão, o Covent Garden de Londres ou o New National Theater de Tóquio. “O mio babbino caro”, da ópera “Gianni Schichi”, de Giacomo Puccini, foi um momento sublime, abrindo espaço a um dueto com Bocelli, “O soave fanciulla”, do primeiro acto da ópera “La Bohème”, de Giacomo Puccini, e que viria a transformar-se na mais romântica, sensível e comovente interpretação do concerto. Os momentos finais viram em palco a violinista Rusanda Panfili interpretar a peça “Csárdás”, de Vittorio Monti, numa demonstração clara da sua classe e virtuosismo.

Depois do intervalo, o primeiro momento foi assegurado pelos elementos da orquestra e do coro, numa extraordinária homenagem ao compositor italiano Nino Rota, enquanto no ecrã iam passando excertos de filmes como “Amarcord”, “La Strada” ou “La Dolce Vita”, todos com assinatura de Federico Fellini. Depois deste momento delicioso, Andrea Bocelli “abraçou” Luciano Pavarotti com a interpretação de “Funiculì, Funiculà”, um tema que teve o condão de pôr uma parte do público a trautear o refrão. Rusanda Panfili voltaria ao palco para nova peça interpretada a solo, seguindo-se um dueto com Bocelli no muito conhecido “En Aranjuez Com Tu Amor”. Em tempo de homenagens, Enrico Caruso não ficou esquecido com a interpretação de “Granada”, um tema que abriu espaço a Andrea Lykke e a um muito aplaudido “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”, da extraordinária Aretha Franklin. De novo em palco, Bocelli agradeceu timidamente a presença do público e avançou com “Vivo per lei”, em dueto com Andrea Lykke. Os muitos aplausos tiveram o condão de chamar ao palco o tenor, não uma, não duas, mas três vezes: Primeiro, com esse verdadeiro hino napolitano, de Itália e do Mundo, que é “O sole mio”, e depois com “Con te partirò”. A terminar uma noite verdadeiramente memorável, “Nessun dorma”, do terceiro acto da ópera “Turandot”, de Giacomo Puccini, foi a cereja no topo do bolo, consolidando o sentimento de exaltação da voz e da melhor música vivido ao longo de quase duas horas.

[Foto: Município de Leiria | https://www.facebook.com/municipioleiria]

domingo, 4 de maio de 2025

CONCERTO: "Cristo no Monte das Oliveiras" | Ludwig van Beethoven



CONCERTO: “Cristo no Monte das Oliveiras”
Ludwig van Beethoven, “Christus am Ölberge” Op. 85
Orquestra Filarmonia das Beiras
Coro Voz Nua
Com | Regina Freire (soprano), João Barbas (tenor), Ricardo Rebelo (baixo), Aoife Hiney (direcção coral), Jan Wierzba (direção)
Igreja Matriz de Ovar
03 Mai 2025 | sab | 21:30


Beethoven é uma das figuras mais reverenciadas na história da música ocidental, estando as suas obras entre as mais executadas do repertório da música clássica. Porém, compreensivelmente ou não, são muitas as suas peças que foram caindo em desuso ao longo do tempo, acabando por ficar praticamente esquecidas. Está neste caso a oratória “Cristo no Monte das Oliveiras”, quase uma nota de rodapé em relação às grandes obras-primas corais do período tardio de Beethoven, nomeadamente a “Missa solemnis”, a 9.ª Sinfonia ou a ópera “Fidelio”. E, todavia, “Cristo no Monte das Oliveiras” é uma obra a merecer atenção pela sua enorme expressividade, atmosfera tensa e trágica, e realismo no retrato que faz de Cristo, da sua luta interior, sacrifício e redenção triunfante. Saude-se a Orquestra Filarmonia das Beiras e o seu Director Jan Wierzba pela ousadia em trazer para primeiro plano uma peça com tanto de raro quanto de extraordinário. Saudação que se estende a solistas, músicos e coro, pela enorme qualidade das interpretações e pela entrega absoluta à música em condições nada fáceis, com uma charanga a rufar nas alturas do outro lado da rua.

Com uma partitura para três solistas, coro e orquestra, “Cristo no Monte das Oliveiras” baseia-se num libreto de Franz Xavier Huber que Beethoven musicou nos primeiros meses de 1803, enquanto residia no Theater an der Wien. Conhecedor das oratórias de Haydn e Handel, compositores muito populares à época, Beethoven mostrava-se apostado em não se quedar na sombra dos seus predecessores, pelo que adoptou uma abordagem algo diferente para a sua obra. Em relação ao relato bíblico, Huber tomara muitas liberdades com o seu libreto, chamando para primeiro plano apenas três personagens: Cristo, o seu discípulo Pedro e um anjo. Em torno deles, o compositor criou um fabuloso conjunto de corais, com hostes de anjos, hordas ameaçadoras de soldados e uma poderosa irmandade de discípulos. Uma abertura apropriadamente sombria põe em movimento a oratória, com sinistros apelos de metais, juntamente com figuras rápidas de cordas e passagens líricas de sopros, dando a ver um Monte das Oliveiras lúgubre, envolto numa densa névoa, palco perfeito para a presença de um Cristo agónico, aterrorizado com o cálice que lhe é dado a beber.

Jan Wierzba vai guiando o público nas várias passagens da obra, ao mesmo tempo que explica as personagens que solistas e coro encarnam. Na voz de João Barbas, Jesus é retratado na sua figura humana, dilacerado pela dúvida até à aceitação do seu destino redentor. A profunda solidão em que caíra é interrompida pela chegada do anjo, interpretado por Regina Freire com uma bravura vocal convincente. Acompanhado pelo coro, o anjo tranquiliza Cristo, num quadro marcado por um sublime dueto. A transformação de Jesus, desde a inicial vulnerabilidade até à tranquilidade corajosa, assim como a presença divina do anjo, foram defendidos com requinte pelos dois solistas, excelentes na representação da enorme variedade e intensidade de estados de espírito que o quadro contempla. Beethoven musicou a detenção de Jesus com uma imaginação viva. Cantada por vozes masculinas, os soldados envolvem-se num contrapontístico jogo do gato e do rato, enraizado numa esplêndida dramaturgia. Fabulosamente interpretado pelo coro, o quadro da prisão foi mesmo um dos pontos mais altos da noite.

O terceiro solista, Pedro, surge apenas no quadro final. Na voz de Ricardo Rebelo, ele é a personificação da humanidade, com todas as suas emoções e motivações, forças e fraquezas. O trio final é o culminar dramático da oratória. A vingança é transformada em compaixão, quando a raiva de Pedro é acalmada por Jesus e pelo anjo. Aqui reside o triunfo final de Cristo. A oratória termina com um belíssimo final fugal para coro e orquestra, de enorme dinamismo e expressividade. Atenta, cuidada, musculada, a direcção musical de Jan Wierzba atingiu um plano de excelência, galvanizando todos os intervenientes e revelando-se determinante para uma atuação arrebatadora. Uma palavra também para Aoife Hiney e para o coro aveirense Voz Nua, excelentes na combinação de vozes e efeitos que em muito elevaram a prestação do conjunto. Um concerto memorável, num espaço com notáveis condições acústicas, a merecer um sublinhado do público, infatigável na calorosa ovação prestada no final.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

CONCERTO: “Beethoven – 200 Anos da 9.ª Sinfonia”



CONCERTO: “Beethoven – 200 Anos da 9.ª Sinfonia”
Orquestra Filarmonia das Beiras
Orquestra Sinfónica do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro
Direcção musical | Luís Carvalho
Com Beatriz Maia (soprano), Rafaela Veiga (contralto), Pedro Rodrigues (tenor), Luís Rendas Pereira (barítono)
Centro de Artes de Ovar
21 Dez 2024 | sab | 21:30

“Freude, schöner Götterfunken / Tochter aus Elysium / Wir betreten feuertrunken / Himmlische, dein Heiligtum // Deine Zauber binden wieder / Was die Mode streng geteilt / Alle Menschen werden Brüder / Wo dein sanfter Flügel weilt”. Lidos assim, isoladamente, poucos de nós identificarão os versos em alemão, mas saíram da pena de Ludwig van Beethoven há 200 anos, numa adaptação livre de um poema de Friedrich Schiller. Sobejamente conhecidos, se associados à música, são parte integrante do quarto andamento da 9.ª Sinfonia do génio alemão, “Coral”, a última sinfonia completa que compôs. Motivada por uma encomenda da Philharmonic Society de Londres, a obra foi estreada a 7 de Maio de 1824 no Theater am Kärntnertor, em Viena, e dedicada a Frederico Guilherme III, rei da Prússia. Beethoven recapitulou os moldes do ideal sinfónico que contribuiu para estabelecer, enriquecendo-os com solistas e coro no andamento final, desta forma condensando vários elementos do Classicismo tardio, como a expansão tímbrica e numérica da orquestra e a influência da música coral usada para educar e galvanizar multidões nos anos que se seguiram à Revolução Francesa. É neste pressuposto que se inscreve o “Hino à Alegria”, trazendo com ele uma mensagem de igualdade e fraternidade, de paz, união e liberdade, tão cara ao compositor.

Estreada há 200 anos, a Sinfonia Coral é uma das criações humanas mais influentes da Contemporaneidade. Com uma complexidade formal sem precedentes, uma orquestração que rompia horizontes, uma tal ousadia diante das premissas artísticas e ideológicas vigentes, tornou-se grandiosa – verdadeiramente monumental. O andamento inicial é uma forma sonata que se materializa a partir de uma pequena célula descendente dominada pela ambiguidade tonal. À atmosfera tensa e trágica, com jogos de pergunta-resposta e contrastes dinâmicos, segue-se um tema lírico e contemplativo. O andamento termina com uma longa coda contrapontística que mistura elementos novos com os temas previamente apresentados. O segundo andamento é marcado pela vivacidade rítmica, em torno de uma célula percussiva, associada a um crescendo. O terceiro andamento apresenta e varia uma melodia lírica inspirada na vocalidade. A melodia, o ritmo e a harmonia são progressivamente transformados, com o processo a ser interrompido por fanfarras percussivas. Misturando a organização da forma sonata com tema e variações, o último andamento começa de forma tensa e dramática, para terminar numa fuga cinética que recapitula e mistura temas dos andamentos anteriores num final glorioso, encarnando em som as novas ideias de Humanidade propagadas pelas Luzes.

Proposta do Município de Ovar para evocar este Natal, a 9.ª Sinfonia de Beethoven veio mostrar que a música salva-nos. No mesmo dia em que um louco apoiante de um partido de extrema-direita alemã semeou o terror num Mercado de Natal em Magdeburgo, no dia seguinte a termos assistido, em Lisboa, a um largo conjunto de pessoas encostadas à parede pela polícia em função da cor da pele, na mesma semana em que o Barómetro da Imigração, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, vem mostrar o quanto há de discriminação e preconceito na nossa forma de ver aqueles que escolheram Portugal para viver e trabalhar - e quando à nossa volta a Guerra na Ucrânia escala, o genocídio do povo Palestiniano parece não ter fim e a extrema-direita, populista e paranóica, cresce a olhos vistos em todo o mundo -, escutamos esta música celestial e damos por nós a pensar que, realmente, a música salva-nos. Depois de três andamentos orquestrais que nos vão preparando para o grande final, Luís Rendas Pereira, num timbre baixo e modulado, clama “freude, freude” [“alegria, alegria”] e as preocupações como que se desvanecem. É o céu que se abre em fulgor divino, em palavras que juntam os homens e se vertem em amizade, humildade e lealdade. Sob a direcção musical de Luís Carvalho, a Orquestra Filarmonia das Beiras soube estar à altura desta obra apaixonada e apaixonante, para a qual contribuíram os seus quase sessenta instrumentistas, assim como o coro. Foi uma noite da melhor música e, como se disse, de salvação. Noite de paz, noite de amor. Um Feliz Natal a todos!

terça-feira, 7 de maio de 2024

CONCERTO: Cuca Roseta com Orquestra Filarmonia das Beiras



CONCERTO: Cuca Roseta com Orquestra Filarmonia das Beiras
Direcção Musical | Jan Wierzba
Arranjos | Marino de Freitas
Maio do Azulejo 2024
Igreja Matriz de Válega
05 Mai 2024 | dom | 18h00


Ao falarmos da nova geração de fadistas portugueses, há uma mão cheia de nomes que nos acorre de imediato, sendo incontornável, entre eles, mencionar o de Cuca Roseta. Possuidora de uma extraordinária voz, exímia na expressão dos sentimentos de saudade, nostalgia e resignação que são essência do Fado, é com naturalidade que lhe incorpora ritmos e cores mais alegres, inspirados na música de raiz popular portuguesa e em géneros musicais tão diversos como a world music, os blues ou o jazz. Foi esse ecletismo, a qualidade e bom gosto postos no saber fundir tradição com modernidade, que a fadista trouxe para o concerto do passado domingo, no espaço emblemático do nosso património azulejar que é a Igreja Matriz de Válega. Acompanhada pelos músicos Francisco Sales (guitarra clássica), Sandro Costa (guitarra portuguesa), Pity (baixo) e Vicky Marques (bateria) e pela Orquestra Filarmonia das Beiras, sob a direcção do maestro Jan Wierzba, Cuca Roseta cantou e encantou, na sua forma única de saber extrair a emoção das palavras e de transformar a voz em sentimento.

Seleccionados de forma criteriosa, os temas que se foram alinhando ao longo do concerto tiveram o condão de mostrar a variedade, riqueza e versatilidade do Fado. Colocando em confronto “Ai Mouraria” e “Marcha da Mouraria”, os dois temas que abriram o concerto, Cuca Roseta provou que é muito mais o que une as diferentes variações do Fado, do que aquilo que as separa. Se o primeiro tema é melancólico, sentido, lamentoso, feito de “guitarra[s] a soluçar”, já o segundo é mexido e atiradiço, “alegre, boémio, fadista”. Mas o bairrismo, esse, corre da mesma forma nas veias de um e outro, com o mesmo amor e ciúme, o mesmo “mistério de moura encantada”, o mesmo vulto da Severa. Levado pela fadista numa viagem de descoberta, entre um mexer de ombros e as inevitáveis palmas a compasso, o público seguiu num “Finalmente” ao encontro do “Amor Ladrão”, uma “Lágrima” devolveu-lhe a certeza de que “Havemos de ir a Viana” e no “Amor de Domingo” encontrou uma “Estranha Forma de Vida”.

“Canção do Mar” haveria de colocar um ponto final no alinhamento, prolongado num “encore” em dois tempos, o último dos quais, “Rosinha da Serra d’Arga”, firmaria um concerto de grande intensidade e beleza. Mas é do primeiro tema do “encore” que gostaria de falar, um tema que não era suposto ser cantado, mas que em boa hora uma pessoa do público pediu e ao qual, em melhor hora, a fadista acedeu. Cantado “a capella”, “Ave Maria”, de Schubert, foi um momento de intensa espiritualidade, uma homenagem sublime a Maria num espaço onde o culto mariano se exprime de forma vibrante, um abraço a todas as mães naquele que foi o Dia da Mãe. Apenas mais uma nota para o momento de “Guitarrada”, uma superior demonstração de classe e virtuosismo dos quatro músicos que acompanham Cuca Roseta, mas sobretudo a lição que importa reter quanto às potencialidades da canção nacional. Se dúvidas houvesse, a forma como o Fado tendeu para o campo dos Blues, do Clássico ou do Jazz, graças, respectivamente, aos acordes de Francisco Sales, Sandro Costa e Pity, acabaria por dissipá-las.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

CONCERTO: Ricardo Ribeiro com Orquestra Filarmonia das Beiras



CONCERTO: Ricardo Ribeiro com Orquestra Filarmonia das Beiras
Direcção musical | Leandro Alves
Arranjos | João Martins
Ciclo de Fado 2023
Cineteatro Alba
25 Nov 2023 | sab | 21:30


Quatro anos depois de “Respeitosa Mente”, um álbum surgido em contraciclo com a sua vocação fadista, Ricardo Ribeiro está de regresso com “Terra Que Vale o Céu”, voltando a abraçar o género que o celebrizou e que faz dele um dos mais notáveis intérpretes da “canção nacional”. Quatro anos é também o tempo que medeia entre a sua anterior passagem por Albergaria-a-Velha e esta ocorrida na noite de sábado onde, no Cineteatro Alba, brilhou ao lado da Orquestra Filarmonia das Beiras, sob a direcção do maestro Leandro Alves, e de um trio de cordas onde pontificaram Carlos Manuel Proença (viola), Daniel Pinto (viola baixo) e Luís Guerreiro (guitarra portuguesa). Uma noite de puro deleite para um público que praticamente esgotou a sala, de regresso às raízes mais profundas da tradição fadista, de reencontro com uma voz e um canto inconfundíveis. Uma noite de “fado antigo que sabe a novo, mas ao mesmo tempo um fado novo que sabe a antigo”, citando Rui Vieira Nery e as palavras que escreveu a propósito do mais recente trabalho do artista.

Com a consciência sábia do passado e os olhos abertos para o presente e para o futuro, Ricardo Ribeiro teve para oferecer uma parte do seu mundo interior, inspirado pelo sul, cingindo num abraço o Mediterrâneo e o Oriente. Como quem escava a terra do próprio peito, o fadista foi ao encontro da tradição, trazendo à superfície fados como o “Acácio”, o “Azenha” ou o “Franklim”, num estilo interpretativo onde cabe uma boa dose de novidade. Pedro Homem de Melo, Rosa Lobato Faria e Ary dos Santos ofereceram, a par de Amélia Muge, Paulo de Carvalho, Carminho, Tozé Brito e outros, as palavras que depois nos seriam devolvidas em músicas da tradição fadista, mas também de enormes compositores como João Paulo Esteves da Silva ou Rão Kyao. Do próprio Ricardo Ribeiro pudemos escutar algumas composições, nomeadamente “Vira-Voltas” e “Tronco e Raíz”, este último um extraordinário pedaço de intimidade, com o pequenino Francisco ao colo, a harmónica de Luís Trigo a vincar o lirismo das palavras e da música, num ponto final no alinhamento do concerto absolutamente inesquecível.

No saboroso desfiar das páginas íntimas que Ricardo Ribeiro escolheu partilhar com o público, começámos por escutar “Antes Só”, um muito saudado encontro com o enorme Artur Ribeiro. “Soneto de Mal Amar” permitiu visitar o álbum “Hoje é Assim, Amanhã Não Sei” (2016), mas não ficou por aqui o exercício de recordar este trabalho, já que dele também se escutou “Nos Dias de Hoje” e, no primeiro de dois encores, o muito divertido “Fadinho Alentejano”. Do álbum “Largo da Memória” (2013) ouviu-se “Entrega” e “Porta do Coração”, álbum de 2010, emprestou ao concerto “Moreninha da Travessa”, o seu tema mais conhecido. Para além de “Antes Só”, Ricardo Ribeiro deu a conhecer sete temas do seu novo disco, dos quais destacaria, pela beleza das palavras e pelas sonoridades meridionais, “Terras Dum Mar Interior” e “Tirai os Olhos de Mim”, este último musicando um poema de Gil Vicente. O concerto viria a terminar em apoteose, numa segunda vinda ao palco de Ricardo Ribeiro, com um muito reclamado “Mondadeiras”, tema que firmou a união do fado e do cante, do corpo e da alma, do norte e do sul, do sol e do sal. Inesquecível!

[Foto: Cineteatro Alba | https://www.facebook.com/CineteatroAlba]

domingo, 25 de junho de 2023

CINE-CONCERTO: "Maria do Mar"



CINE-CONCERTO: “Maria do Mar”
Realização | Leitão de Barros (1930)
Argumento | Leitão de Barros, António Lopes Ribeiro
Fotografia | Salazar Dinis, Manuel Luís Vieira
Montagem | Leitão de Barros
Interpretação | Rosa Maria, Oliveira Martins, Adelina Abranches, Alves da Cunha, Perpetua dos Santos, Horta e Costa, Maria Leo, António Duarte, Celestino Pedroso, Mário Duarte, Rafael Alves, Galiana Murraças
Música | Bernardo Sassetti
Orquestra Filarmonia das Beiras
Maestro | Vasco Pearce de Azevedo
Piano | Pedro Burmester
Voz | Filipa Pais
105 Minutos | Maiores de 12 anos
Centro de Arte de Ovar
24 Jun 2023 | sab | 21:30


No dia em que se cumpriram 53 anos sobre a data de nascimento de Bernardo Sassetti, a Cinemateca Portuguesa trouxe ao Centro de Arte de Ovar o filme “Maria do Mar”, de Leitão de Barros. Escrita originalmente por Bernardo Sassetti em 2000 e revista em 2010, a obra foi considerada pelo artista como a mais querida de todas quantas produziu ao longo de uma carreira extraordinariamente rica e produtiva, interrompida brutalmente aos 41 anos na sequência da queda de uma falésia. Em palco, por detrás da tela, a partitura de “Maria do Mar” foi interpretada pela Orquestra Filarmonia das Beiras, sob a direcção do maestro Vasco Pearce de Azevedo, e teve no pianista Pedro Burmester e na cantora Filipa Pais dois convidados de excelência. Com cerca de meia casa, o Centro de Artes foi o fulcro de uma noite mágica, a intensidade e beleza das imagens na tela sublinhadas por um fraseado musical particularmente inspirado, a extraordinária simbiose entre a música e o filme a resultar num processo de valorização mútua da qual sai a ganhar, sobretudo, o espectador.

Obra fundadora na história do cinema português e um marco do património cinematográfico europeu, “Maria do Mar” é vista por historiadores e investigadores como a segunda etnoficção mundial (depois de “Moana”, de Robert Flaherty) e uma das primeiras docuficções da História do Cinema. Neste filme são consensuais as influências do expressionismo alemão e da escola russa, expressas na audácia formal, nos grandes planos, na utilização criteriosa da luz e das sombras, numa estética que não desdenha a distorção das imagens, no sentido do ritmo ao nível da montagem. Rodado na Praia da Nazaré (os interiores filmados nalgumas dependências do Teatro S. Luís, onde Leitão de Barros tinha o seu escritório), o filme é um notável trabalho de integração da paisagem marítima e da vida dos pescadores da Nazaré numa ficção construída à volta do ódio entre duas famílias por causa da morte de um pescador, provocada acidentalmente por outro. Acabará por ser na sequência da união amorosa dos filhos que virá a acontecer a reconciliação.

Seria sempre imperdível a possibilidade de ver aquele que é, para muitos, a obra-prima do cinema mudo português, com cópias nos arquivos das Cinematecas de Londres, Nova Iorque, Moscovo e Tóquio. É um privilégio poder saborear uma história feita de imagens tão belas, de sentimentos tão intensos, de emoções tão fortes, numa cópia brilhantemente restaurada, naquele que seria o primeiro projeto de restauro do laboratório do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento. Mas há ainda o lado musical, a partitura de Bernardo Sassetti, expoente de inventividade da escrita do genial criador, sempre atenta aos cambiantes emocionais da realização de Leitão de Barros. No ouvido do espectador fica a música e, no olhar, as imagens do fragor das ondas a embater nas rochas, a multidão que desce a correr as dunas para acudir à tragédia, a “ousadia” de seis raparigas “que vão a banhos” num pequeno barco a remos, as estreitas veredas da Nazaré com as mulheres de preto sentadas à soleira, a faina do mar, as festividades, a ida às sortes, as preces a Nossa Senhora dos Aflitos. Fica o encantamento de uma obra que é eterna.

domingo, 23 de abril de 2023

CONCERTO: Maria Mendes & Orquestra Filarmonia das Beiras



CONCERTO: Maria Mendes & Orquestra Filarmonia das Beiras
Direcção | António Vassalo Lourenço
Ovar em Jazz 2023
Centro de Arte de Ovar
22 Abr 2023 | sab | 21:30


Em ambiente de grande festa e celebração da música, chegou ao fim a quinta edição do Ovar em Jazz. Uma edição que, à semelhança das anteriores, fica marcada pelo ecletismo das suas propostas, pela variedade de abordagens ao jazz e pela qualidade intrínseca dos momentos vividos entre o palco do Centro de Arte de Ovar, o bar do CAO e a Escola de Artes e Ofícios. Na mente fica, em jeito de balanço, uma forte aposta na fusão de géneros e expressões artísticas como elemento comum aos vários concertos, o jazz como pólo aglutinador de interesses e vontades, a sua enorme plasticidade como campo fértil ao experimentalismo e à inovação. A aposta em nomes como Carmen Souza, Marc Ribot, Maria Mendes, Nuno Trocado & Jorge Louraço Figueira, João Mortágua, Maria João e projecto Fuzzo revelou-se acertada e o público soube corresponder ao esforço da organização, preenchendo os espaços de forma bastante consistente e mostrando-se incansável no momento de aplaudir. O nome do Ovar em Jazz sai reforçado desta edição, as expectativas para 2024 mais elevadas que nunca.

Aclamada pela prestigiada Downbeat como “uma cantora de jazz da mais alta ordem”, única artista portuguesa no feminino a receber uma nomeação para um Grammy americano até à data, Maria Mendes subiu ao palco do Centro de Arte para apresentar “Saudade, Colour of Love”, o seu mais recente trabalho. A acompanhá-la teve os seus músicos habituais - Cédric Hanriot no piano, Jasper Somsen no contrabaixo e Mário Costa na bateria - e ainda a Orquestra Filarmonia das Beiras, dirigida pelo maestro António Vassalo Lourenço. Extraindo do Fado uma quota maior de singularidade e riqueza, bebendo-lhe no mais fundo da alma, a cantora propôs uma abordagem jazzística e sinfónica do género que resultou surpreendente. Uma surpresa que só não foi maior porque “Close To Me”, o seu álbum anterior, já explorava este universo de fusão e dera ensejo a um momento inesquecível na Casa da Criatividade, em S. João da Madeira, em Novembro de 2021. Todavia, a solidez dos arranjos para orquestra, que partilha com o pianista, produtor e orquestrador americano John Beasley, empresta aos temas um inesperado tom de frescura e liberdade, “encorpando-os” com interlúdios sinfónicos de grande harmonia e solos virtuosos e enormemente criativos.

“Há Uma Música do Povo” foi o tema de abertura do concerto e teve o condão de pôr os pontos nos ii desde o primeiro instante. Aqui, o Fado e o Jazz encontram-se para lá das suas próprias fronteiras. Mesmo os puristas do Jazz não desdenharão das propostas, sabendo encontrar nelas méritos firmados nas qualidades vocais de Maria Mendes e na intensidade e emoção que coloca na interpretação de cada tema. Já os amantes do fado, seguramente mais conservadores, mostrar-se-ão renitentes a uma adesão incondicional. De uma coisa estou certo: Ninguém fica indiferente ao cuidado e empenho da cantora em ser veículo da “canção das emoções” e em ampliar o conhecimento dos nossos maiores poetas, de Fernando Pessoa a Luís Vaz de Camões. “Com Que Voz”, “Asas Fechadas” ou “E Se Não For Fado”, juntaram-se a uma composição da própria Maria Mendes, “Fado da Invejosa” e a uma outra de Hermeto Paschoal, “Hermeto’s Fado For Maria”, reafirmando o que atrás foi dito. Entre todas, ficam na memória a primorosa interpretação de “Barco Negro”, num diálogo exclusivo entre voz e piano e “Verdes Anos”, sobre música de Carlos Paredes, peça instrumental cantada em scat e cujo acompanhamento orquestral raiou o sublime. Até já, Ovar em Jazz.


domingo, 26 de janeiro de 2020

CONCERTO: Elevação de Estarreja a Cidade | Orquestra Filarmonia das Beiras



CONCERTO: “Elevação de Estarreja a Cidade”
Orquestra Filarmonia das Beiras
Maestro | Cláudio Ferreira
Solistas | Gabriel Antão (trombone), Ricardo Antão (eufónio)
Cine-Teatro de Estarreja
26 Jan 2020 | dom | 16:00


É indiscutível que o dia 26 de janeiro de 2005 permanecerá na história do Município de Estarreja. Era então publicada no Diário da República a Lei nº 3/2005 que oficializava a elevação de Estarreja à categoria de cidade. Daí que o dia de hoje seja um dia de festa para o Município, ao cumprirem-se 15 anos sobre a efeméride. A assinalar a data - e como vem sendo hábito -, a cidade ofereceu à população um concerto de música clássica, ao mesmo tempo mostrando que continua a valorizar os agentes culturais locais. Assim, convidou para o palco do Cine-Teatro de Estarreja a Orquestra Filarmonia das Beiras, sob a direcção do Maestro Cláudio Ferreira, tendo como solistas o trombonista Gabriel Antão e o eufonista Ricardo Antão, três talentos desta bonita quanto dinâmica terra e que tiveram o merecido destaque neste dia de celebração.

Composto por Nino Rota e apresentado pela primeira vez em 6 de Março de 1969 no Conservatorio di Musica “Giuseppe Verdi”, em Milão, o Concerto para Trombone e Orquestra abriu esta tarde de festa. Considerado uma das mais importantes obras para trombone do repertório clássico, o concerto estende-se ao longo de três curtos andamentos e é pontuado por um naipe de instrumentos bastante ligeiro, nomeadamente ao nível dos metais, deixando o caminho livre para o trombone solo, aqui tendo por intérprete Gabriel Antão. Embora não muito expressivo, o solista demonstrou um belíssimo controlo sobre toda a gama do instrumento, mostrando-se particularmente à vontade na exploração do registo alto do trombone no segundo andamento e nesse delicioso divertimento que é o terceiro andamento, digno de uma comédia de Fellini. Os aplausos pelo seu desempenho foram mais do que merecidos.

A segunda peça interpretada foi uma estreia e resultou duma encomenda do Município ao compositor estarrejense Alexandre Almeida. Intitulada “Antão e quê...? Divertimento para Trombone, Eufónio e Orquestra”, com os solistas Gabriel Antão e Ricardo Antão em trombone e eufónio, respectivamente, a peça saldou-se por um momento delicioso graças às suas inspiradas linhas melódicas e ao desempenho dos solistas. Ainda que resumindo-se a um único andamento, neste “Antão e quê...?” cabem os momentos de festa e de folia que pontuam a vida das gentes, como cabem o dramatismo dos elementos e a dor da perda. Fruto dum trabalho inspirado, os diálogos entre os dois instrumentos solistas e destes com a orquestra são harmoniosos e de uma enorme riqueza tímbrica e rítmica. Gabriel e Ricardo Antão mostraram-se ao mais alto nível na interpretação deste “divertimento”, sabendo transmitir à plateia a felicidade do momento. No final o público não se fez rogado, coroando músicos e compositor com uma enorme ovação.

E porque a tarde era de festa e de celebração, foi em festa que se encerrou o programa com a magnífica Sinfonia nº 4, Op. 90, “Italiana”, de Felix Mendelssohn. Sem desprimor para as peças anteriormente apresentadas, é com as alegres e festivas melodias do primeiro andamento desta sinfonia na cabeça que deixamos o teatro. Mas o carácter introspectivo e o bucolismo dos segundo e terceiro andamentos, associados ao enérgico quarto andamento, um “saltarello”, dança leve e alegre típica da Itália, fazem do todo um dos pontos altos do período romântico. Parabéns Estarreja por este 15º aniversário e parabéns a quem faz da cultura uma das prioridades do Concelho. A encomenda de uma peça clássica e a oferta do Concerto à cidade são disso prova clara.

domingo, 27 de janeiro de 2019

CONCERTO: Orquestra Filarmonia das Beiras



CONCERTO: Orquestra Filarmonia das Beiras
Concerto Comemorativo de Elevação de Estarreja a Cidade
Direcção | Maestro Cláudio Ferreira
Solista | Angelina Rodrigues (flauta)
Cine-Teatro de Estarreja
26 Jan 2019 | sáb | 21:30


Na passagem dos 14 anos sobre a publicação em Diário da República da Lei nº3/2005, onde se refere que “a Vila de Estarreja, no Município de Estarreja, é elevada à categoria de Cidade”, tomou a Câmara Municipal de Estarreja a iniciativa de assinalar a data com um concerto oferecido à população. Pisando de novo o palco do Cine-Teatro de Estarreja, a Orquestra Filarmonia das Beiras trouxe-nos um programa que incluiu a Abertura de As Bodas de Fígaro, de Wolfgang Amadeus Mozart, o Concerto para Flauta de Jacques Ibert, interpretado pela flautista Angelina Rodrigues, e a Sinfonia nº7 de Ludwig van Beethoven, sob a direcção do maestro Cláudio Ferreira. Uma palavra muito particular para Angelina Rodrigues e Cláudio Ferreira, dois talentos nascidos em Estarreja, com percursos académicos e artísticos brilhantes, como, de resto, ficou bem provado na noite de ontem.

Da Abertura de As Bodas de Fígaro, não haverá muito a dizer. Não correrei o risco de errar ao afirmar que, algures no mundo, pela mesma altura, estaria a ser tocada esta mesma peça, tal é a sua popularidade. E, no entanto, esta como outras peças não fazem grande sentido se tocadas isoladamente. É alegre e divertida, prepara-nos para uma comédia que se abre vibrante e cheia de peripécias, mas no final fica sempre aquela nota de desconsolo por tudo não ter passado de um ténue vislumbre, embora também não seja por aí que virá grande mal ao mundo. O público apreciou claramente, aplaudiu com entusiasmo e preparou-se para escutar o que vinha a seguir. E a seguir veio o Concerto para Flauta de Jacques Ibert, na verdade o momento alto do programa, não apenas pela genialidade duma obra que não é frequente ouvir em sala, como pela forma como a Orquestra – e Angelina Rodrigues, em particular – a soube interpretar. Entre o impressionismo francês e o expressionismo alemão, tendências antagónicas que dominaram a cena musical de inícios do século passado, Ibert coloca a flauta no centro das atenções, conduzindo a obra através de paisagens sonoras vivas de ritmo e fantasia. Angelina Rodrigues teve a audácia de desafiar uma das mais difíceis peças do repertório flautístico, oferecendo um conjunto de poemas musicais profundamente inspirados. O resultado final foi absolutamente brilhante, para glória da solista e para gáudio de uma plateia que não poupou nos aplausos.

Após um breve intervalo, a grande música voltou-se para Ludwig van Beethoven e para a sua Sétima Sinfonia, considerada por vários autores como a melhor sinfonia do génio alemão. Da serena melodia a irromper num esplendor de música do primeiro andamento, à inesperada dança do Presto (terceiro andamento) ou ao virtuosismo quase imperial do último andamento, é todo o ideal romântico, ao mesmo tempo inovador e libertador, que se exprime nesta obra. Destaque, sobretudo, para o segundo andamento, Alegretto, “obra de dor extra-humana, lamentação de amor patético”, como a definiu Federico Garcia Llorca, interpretado com rigor e emoção e escutado em sentido recolhimento. Uma vez mais, a Orquestra Filarmonia das Beiras mostrou-se em superior plano, permitindo-me destacar o entusiasmo contagiante que Cláudio Ferreira evidenciou na sua condução. Em dia de aniversário, excelente momento aquele que nos foi oferecido por um Município que aposta claramente na cultura como elemento mobilizador e dinamizador dos interesses e valores, não apenas da cidade como de toda uma região.

[Foto: Isabel Pinto / facebook.com/isabel.pinto.127]