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domingo, 4 de maio de 2025

CONCERTO: "Cristo no Monte das Oliveiras" | Ludwig van Beethoven



CONCERTO: “Cristo no Monte das Oliveiras”
Ludwig van Beethoven, “Christus am Ölberge” Op. 85
Orquestra Filarmonia das Beiras
Coro Voz Nua
Com | Regina Freire (soprano), João Barbas (tenor), Ricardo Rebelo (baixo), Aoife Hiney (direcção coral), Jan Wierzba (direção)
Igreja Matriz de Ovar
03 Mai 2025 | sab | 21:30


Beethoven é uma das figuras mais reverenciadas na história da música ocidental, estando as suas obras entre as mais executadas do repertório da música clássica. Porém, compreensivelmente ou não, são muitas as suas peças que foram caindo em desuso ao longo do tempo, acabando por ficar praticamente esquecidas. Está neste caso a oratória “Cristo no Monte das Oliveiras”, quase uma nota de rodapé em relação às grandes obras-primas corais do período tardio de Beethoven, nomeadamente a “Missa solemnis”, a 9.ª Sinfonia ou a ópera “Fidelio”. E, todavia, “Cristo no Monte das Oliveiras” é uma obra a merecer atenção pela sua enorme expressividade, atmosfera tensa e trágica, e realismo no retrato que faz de Cristo, da sua luta interior, sacrifício e redenção triunfante. Saude-se a Orquestra Filarmonia das Beiras e o seu Director Jan Wierzba pela ousadia em trazer para primeiro plano uma peça com tanto de raro quanto de extraordinário. Saudação que se estende a solistas, músicos e coro, pela enorme qualidade das interpretações e pela entrega absoluta à música em condições nada fáceis, com uma charanga a rufar nas alturas do outro lado da rua.

Com uma partitura para três solistas, coro e orquestra, “Cristo no Monte das Oliveiras” baseia-se num libreto de Franz Xavier Huber que Beethoven musicou nos primeiros meses de 1803, enquanto residia no Theater an der Wien. Conhecedor das oratórias de Haydn e Handel, compositores muito populares à época, Beethoven mostrava-se apostado em não se quedar na sombra dos seus predecessores, pelo que adoptou uma abordagem algo diferente para a sua obra. Em relação ao relato bíblico, Huber tomara muitas liberdades com o seu libreto, chamando para primeiro plano apenas três personagens: Cristo, o seu discípulo Pedro e um anjo. Em torno deles, o compositor criou um fabuloso conjunto de corais, com hostes de anjos, hordas ameaçadoras de soldados e uma poderosa irmandade de discípulos. Uma abertura apropriadamente sombria põe em movimento a oratória, com sinistros apelos de metais, juntamente com figuras rápidas de cordas e passagens líricas de sopros, dando a ver um Monte das Oliveiras lúgubre, envolto numa densa névoa, palco perfeito para a presença de um Cristo agónico, aterrorizado com o cálice que lhe é dado a beber.

Jan Wierzba vai guiando o público nas várias passagens da obra, ao mesmo tempo que explica as personagens que solistas e coro encarnam. Na voz de João Barbas, Jesus é retratado na sua figura humana, dilacerado pela dúvida até à aceitação do seu destino redentor. A profunda solidão em que caíra é interrompida pela chegada do anjo, interpretado por Regina Freire com uma bravura vocal convincente. Acompanhado pelo coro, o anjo tranquiliza Cristo, num quadro marcado por um sublime dueto. A transformação de Jesus, desde a inicial vulnerabilidade até à tranquilidade corajosa, assim como a presença divina do anjo, foram defendidos com requinte pelos dois solistas, excelentes na representação da enorme variedade e intensidade de estados de espírito que o quadro contempla. Beethoven musicou a detenção de Jesus com uma imaginação viva. Cantada por vozes masculinas, os soldados envolvem-se num contrapontístico jogo do gato e do rato, enraizado numa esplêndida dramaturgia. Fabulosamente interpretado pelo coro, o quadro da prisão foi mesmo um dos pontos mais altos da noite.

O terceiro solista, Pedro, surge apenas no quadro final. Na voz de Ricardo Rebelo, ele é a personificação da humanidade, com todas as suas emoções e motivações, forças e fraquezas. O trio final é o culminar dramático da oratória. A vingança é transformada em compaixão, quando a raiva de Pedro é acalmada por Jesus e pelo anjo. Aqui reside o triunfo final de Cristo. A oratória termina com um belíssimo final fugal para coro e orquestra, de enorme dinamismo e expressividade. Atenta, cuidada, musculada, a direcção musical de Jan Wierzba atingiu um plano de excelência, galvanizando todos os intervenientes e revelando-se determinante para uma atuação arrebatadora. Uma palavra também para Aoife Hiney e para o coro aveirense Voz Nua, excelentes na combinação de vozes e efeitos que em muito elevaram a prestação do conjunto. Um concerto memorável, num espaço com notáveis condições acústicas, a merecer um sublinhado do público, infatigável na calorosa ovação prestada no final.

terça-feira, 7 de maio de 2024

CONCERTO: Cuca Roseta com Orquestra Filarmonia das Beiras



CONCERTO: Cuca Roseta com Orquestra Filarmonia das Beiras
Direcção Musical | Jan Wierzba
Arranjos | Marino de Freitas
Maio do Azulejo 2024
Igreja Matriz de Válega
05 Mai 2024 | dom | 18h00


Ao falarmos da nova geração de fadistas portugueses, há uma mão cheia de nomes que nos acorre de imediato, sendo incontornável, entre eles, mencionar o de Cuca Roseta. Possuidora de uma extraordinária voz, exímia na expressão dos sentimentos de saudade, nostalgia e resignação que são essência do Fado, é com naturalidade que lhe incorpora ritmos e cores mais alegres, inspirados na música de raiz popular portuguesa e em géneros musicais tão diversos como a world music, os blues ou o jazz. Foi esse ecletismo, a qualidade e bom gosto postos no saber fundir tradição com modernidade, que a fadista trouxe para o concerto do passado domingo, no espaço emblemático do nosso património azulejar que é a Igreja Matriz de Válega. Acompanhada pelos músicos Francisco Sales (guitarra clássica), Sandro Costa (guitarra portuguesa), Pity (baixo) e Vicky Marques (bateria) e pela Orquestra Filarmonia das Beiras, sob a direcção do maestro Jan Wierzba, Cuca Roseta cantou e encantou, na sua forma única de saber extrair a emoção das palavras e de transformar a voz em sentimento.

Seleccionados de forma criteriosa, os temas que se foram alinhando ao longo do concerto tiveram o condão de mostrar a variedade, riqueza e versatilidade do Fado. Colocando em confronto “Ai Mouraria” e “Marcha da Mouraria”, os dois temas que abriram o concerto, Cuca Roseta provou que é muito mais o que une as diferentes variações do Fado, do que aquilo que as separa. Se o primeiro tema é melancólico, sentido, lamentoso, feito de “guitarra[s] a soluçar”, já o segundo é mexido e atiradiço, “alegre, boémio, fadista”. Mas o bairrismo, esse, corre da mesma forma nas veias de um e outro, com o mesmo amor e ciúme, o mesmo “mistério de moura encantada”, o mesmo vulto da Severa. Levado pela fadista numa viagem de descoberta, entre um mexer de ombros e as inevitáveis palmas a compasso, o público seguiu num “Finalmente” ao encontro do “Amor Ladrão”, uma “Lágrima” devolveu-lhe a certeza de que “Havemos de ir a Viana” e no “Amor de Domingo” encontrou uma “Estranha Forma de Vida”.

“Canção do Mar” haveria de colocar um ponto final no alinhamento, prolongado num “encore” em dois tempos, o último dos quais, “Rosinha da Serra d’Arga”, firmaria um concerto de grande intensidade e beleza. Mas é do primeiro tema do “encore” que gostaria de falar, um tema que não era suposto ser cantado, mas que em boa hora uma pessoa do público pediu e ao qual, em melhor hora, a fadista acedeu. Cantado “a capella”, “Ave Maria”, de Schubert, foi um momento de intensa espiritualidade, uma homenagem sublime a Maria num espaço onde o culto mariano se exprime de forma vibrante, um abraço a todas as mães naquele que foi o Dia da Mãe. Apenas mais uma nota para o momento de “Guitarrada”, uma superior demonstração de classe e virtuosismo dos quatro músicos que acompanham Cuca Roseta, mas sobretudo a lição que importa reter quanto às potencialidades da canção nacional. Se dúvidas houvesse, a forma como o Fado tendeu para o campo dos Blues, do Clássico ou do Jazz, graças, respectivamente, aos acordes de Francisco Sales, Sandro Costa e Pity, acabaria por dissipá-las.