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quinta-feira, 26 de março de 2026

CONCERTO DE PÁSCOA: Requiem, de Gabriel Fauré



CONCERTO DE PÁSCOA: Requiem, de Gabriel Fauré
Orquestra Filarmonia das Beiras
Coro Sinfónico Inês de Castro
Direcção | Tiago Oliveira
Direcção coral | Artur Pinho Maria
Com | Leonor Barbosa de Melo (soprano), Luís Rendas Pereira (barítono)
XIV Ciclo de Requiem Coimbra 2026
Igreja Matriz de Ovar
22 Mar 2026 | dom | 17:30


Integrado na programação das Solenidades Quaresmais de Ovar, teve lugar no passado domingo, na Igreja Matriz, o Concerto de Páscoa pela Orquestra Filarmonia das Beiras e que contou com o Coro Sinfónico Inês de Castro. A abrir o momento, a Sinfonia n.º 49 em Fá menor, “La Passione”, de Joseph Haydn, ergueu-se como um portal meditativo, quase litúrgico, revelando uma inquietação que ultrapassou a mera forma e se inscreveu numa dramaturgia interior de rara intensidade. Com o Adagio inicial a substituir o habitual ímpeto inaugural, a peça pareceu inscrever a música num tempo suspenso, como se cada compasso fosse um passo dolorido na via-sacra. Percebeu-se nela uma emoção contida, um fervor recolhido e austero que convocou o silêncio tanto quanto a música. Sombria e inexorável, a progressão dos andamentos pareceu acompanhar o peso da cruz, a queda e o reerguer, culminando num “Presto” final cuja turbulência não dissipou a dor, antes a tornou mais aguda. Num concerto pascal, esta Sinfonia não só evocou a Paixão, mas foi também um convite à introspecção, à consciência da fragilidade humana e à aceitação do sofrimento como caminho para a redenção.

Se Haydn nos conduziu pela sombra densa da dor, o Requiem de Gabriel Fauré abriu-nos, com infinita delicadeza, a possibilidade da luz. Longe do dramatismo apocalíptico de outras leituras do texto litúrgico, Fauré concebeu uma obra onde a morte não é terror nem ruptura, antes repouso e transfiguração. Desde o “Introit et Kyrie”, cuja penumbra inicial se ilumina na promessa da “lux perpetua”, até ao etéreo “In Paradisum”, tudo pareceu encaminhar o público para uma aceitação serena do fim como princípio. De inspiração quase gregoriana, a escrita coral entrelaçou-se com uma orquestração de transparência rara, onde cada timbre soube respirar e dissolver-se num tecido harmónico de subtil beleza. O “Offertorium”, com a sua súplica reiterada, e o “Agnus Dei”, de pungente expressividade, revelaram um equilíbrio notável entre a dor e a esperança. E, no entanto, foi no “Pie Jesu” que o tempo verdadeiramente se suspendeu: uma linha pura, quase infantil na sua simplicidade, que se elevou como oração íntima, pedindo descanso eterno com uma ternura desarmante. Fauré não descreve a morte: Consola-a, envolve-a, humaniza-a.

Antes do concerto, nas breves palavras que dirigiu ao público, o maestro Tiago Oliveira lembrou que os aplausos devem surgir apenas no final de cada peça, preservando a unidade e o recolhimento da experiência musical. E, contudo, houve um instante em que essa regra pareceu, se não quebrada, pelo menos questionada pelo próprio coração: o “Pie Jesu”, precisamente, interpretado de forma delicada e sentida por Leonor Barbosa de Melo, mereceria, talvez, um gesto espontâneo de gratidão. Foi um momento de rara verdade, em que a música deixou de ser execução para se tornar revelação. De notar, ainda, o desempenho notável do Coro Sinfónico Inês de Castro, cuja coesão e riqueza tímbrica sustentaram com firmeza a arquitectura da obra, beneficiando da opção por uma formação instrumental reduzida, quase camerística. Longe de empobrecer o resultado, essa contenção conferiu maior clareza às linhas vocais e intensificou a intimidade do discurso. Na sombra de Haydn e na luz de Fauré, o concerto desenhou um arco perfeito entre a dor e a esperança, a morte e a promessa de ressurreição, deixando nos espíritos de quem assistiu ao concerto uma paz difícil de traduzir em palavras.

domingo, 8 de março de 2026

CONCERTO: “De Folias, Chaconas e Fandangos” | Ensemble Allettamento



CONCERTO: “De Folias, Chaconas e Fandangos”
Ensemble Allettamento
Com | Carlos Oramas (teorba e guitarra barroca), Mario Braña (violino), Sergio Suárez (violino), Elsa Pidre (violoncelo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
06 Mar 2026 | sex | 21:00


Os séculos XVII e XVIII herdaram da tradição popular alguns dos seus mais persistentes impulsos rítmicos, transformando-os em matéria de invenção musical de extraordinária riqueza. Entre esses gestos que atravessaram fronteiras sociais e geográficas destacam-se a folia, a chacona e o fandango, três formas que nasceram do movimento do corpo e da celebração colectiva antes de encontrarem lugar nos salões aristocráticas e no imaginário instrumental barroco. A folia, em particular, constitui um dos exemplos mais fascinantes dessa transfiguração cultural. Muito antes de ser esquema harmónico solene, capaz de sustentar sucessivas variações, viveu como dança popular exuberante, associada à energia das festas e a uma certa vertigem coreográfica. Não deixa de ser revelador que, já no início do século XVI, Gil Vicente a mencionasse no seu “Auto da Sibila Cassandra”, testemunhando a presença da “folia” no universo festivo do quotidiano. O mesmo se poderia dizer da chacona ou do fandango, danças de carácter vivo e teatral, profundamente ligadas ao gesto e à pulsação rítmica. Todos estes géneros partilham uma origem comum: o encontro entre música e movimento, entre improvisação e estrutura, entre a espontaneidade das gentes e a sofisticação das linguagens barrocas. Escutá-los hoje é escutar também a memória de um percurso histórico em que a música absorveu, refinou e perpetuou a energia de antigas danças, convertendo-as em verdadeiros laboratórios de expressão.

Foi precisamente esse universo de ressonâncias ibéricas e europeias que o Ensemble Allettamento trouxe, na noite de ontem, à Igreja Matriz de Ovar, no âmbito do CásterAntiqua. O programa desenhou uma viagem através de diferentes geografias sonoras, abrindo com a imaginação instrumental de Giovanni Girolamo Kapsberger, cujas “arpeggiate” e “toccatas” deixaram logo perceber a liberdade inventiva do barroco inicial. Seguiram-se as danças de Andrea Falconieri e o refinamento guitarrístico de Francesco Corbetta, antes de o repertório ibérico ganhar particular evidência nas páginas de Santiago de Murcia e de Gaspar Sanz. Neste último, o tema “Canários e Jácaras” proporcionou um dos momentos mais luminosos da noite, graças ao virtuosismo e à expressividade de Carlos Oramas, cuja interpretação fez cintilar cada gesto rítmico com naturalidade contagiante. Merece também destaque a inclusão no programa do compositor português Pedro Lopes Nogueira, presença preciosa que recorda como estas danças e esquemas harmónicos se disseminavam entre culturas e repertórios, revelando a vitalidade das trocas musicais na Península. O percurso culminou com páginas de Antonio Vivaldi, entre as quais o Concerto em Ré maior RV 93 e, sobretudo, a célebre Sonata Op. 1 n.º 12 “La Follia”, interpretada com entusiasmo e grande cumplicidade entre os músicos, cujos instrumentos dialogaram em permanência, num tecido de harmonias ricas, feito de graça e luminosidade. Já no encore, o ensemble ofereceu ainda uma delicada chacona de Arcangelo Corelli, extraída da Sonata Op. 2 n.º 12, encerrando o concerto com um gesto de elegância serena.

A atmosfera da Igreja Matriz de Ovar contribuiu decisivamente para a intensidade desta experiência musical. Marcado pela solenidade das suas proporções e pela generosa ressonância acústica, o espaço acolheu o público num silêncio quase reverencial, desses silêncios que antecedem a música como quem prepara o espírito para a escuta. Ao longo do concerto, foi possível ler nos rostos atentos uma mistura de concentração e alegria, como se cada nova dança abrisse uma pequena janela sobre o passado e sobre a vitalidade expressiva do barroco. A qualidade do Ensemble Allettamento revelou-se nessa cumplicidade artística: os dois violinos e o violoncelo formaram a base de um tecido sonoro flexível e vibrante, sustentando com elegância a arquitectura musical de cada peça. No centro desse diálogo destacou-se Carlos Oramas, cuja presença como solista fez brilhar as cordas da teorba e da guitarra barroca com uma expressividade rara. O seu toque, simultaneamente preciso e imaginativo, desenhou linhas de grande delicadeza sobre o manto sonoro do conjunto, equilibrando virtuosismo e subtileza. Quando as últimas notas se dissiparam no ar, permaneceu a sensação de que aquelas antigas folias, chaconas e fandangos tinham cumprido novamente a sua vocação primordial, a de reunir intérpretes e ouvintes numa mesma alegria partilhada, levando a beleza da música ao encontro do seu eco mais humano.

segunda-feira, 2 de março de 2026

CONCERTO: “Um Outro Café Zimmermann” | Musurgia Ensemble



CONCERTO: “Um Outro Café Zimmermann”
Musurgia Ensemble 
Direcção musical | João Francisco Távora
Com | João Francisco Távora (Flauta de Bisel), Marta Gonçalves (Traverso), Xurxo Varela (Viola da Gamba), Rodolfo Richter (Violino I), Sergio Suárez (Violino II), Mário Braña (Viola), Marta Jiménez Ramírez (Violoncelo), Hélder Sousa (Cravo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
27 Fev 2026 | sex | 21:00


Na Leipzig do segundo quartel do século XVIII, a música habitava profusamente igrejas e palácios, mas era igualmente possível escutar a sua respiração no burburinho do Café Zimmermann, no coração da elegante Katharinenstrasse, graças à paixão pela música do dono do Café, o senhor Gottfried Zimmermann. Imaginemo-nos a franquear a porta desse edifício barroco e a sorver o aroma do café acabadinho de torrar, enquanto olhamos em volta e percebemos o rumor expectante de uma burguesia letrada. As mesas alinham-se sob a luz de velas vacilantes, enquanto damas e cavalheiros se acomodam para escutar o Collegium Musicum, dirigido por Johann Sebastian Bach ou, antes dele, pelo seu fundador, Georg Philipp Telemann. Os jovens intérpretes afinam os seus instrumentos, trocam olhares cúmplices. Um cravo ensaia discretamente uma cadência e dá-se início ao concerto: uma abertura solene, talvez uma suite francesa, seguida de um diálogo vibrante de cordas e sopros e de uma ária secular insinuando ironias mundanas. Entre goles de café e apartes sussurrados, a cidade aprende a ouvir-se a si mesma. Não há bilhete a pagar, apenas a promessa de duas horas de invenção sonora, sustentadas pela hospitalidade do anfitrião e pela curiosidade de um público que ali encontra, simultaneamente, entretenimento e elevação.

Mais do que uma recriação, foi a evocação dessa memória que o Musurgia Ensemble chamou à Igreja Matriz de Ovar, na abertura da segunda edição do CásterAntiqua. O “desconcerto” inicial na proposta implícita a que o público se reposicionasse como se de um café setecentista se tratasse não foi mero artifício cénico. Foi, isso sim, um convite a abraçar, com outra disposição do corpo e do espírito, uma música com tanto de presença como de pertença. Inteligentemente urdido, o programa poderia muito bem ter ecoado no próprio Café Zimmermann há três séculos, de tal forma as peças escolhidas são das mais representativas do barroco tardio. A Suite em Si bemol Maior, op. 1 nº3, de Johann Caspar Ferdinand Fischer abriu espaço à elegância coreográfica das danças francesas; os concertos em Lá menor TWV 52:a1 e Mi menor TWV 52:e1, de Telemann, desenharam contrastes de afectos; e as sinfonias e páginas orquestrais de Bach - da BWV 175 à BWV 150, do Oratório da Páscoa BWV 249/2 à Suite Orquestral nº 3 BWV 1068 - transfiguraram a densidade teológica em gesto instrumental. Na nave ampla do templo vareiro, a acústica expandiu o que outrora teria sido intimidade de salão, sem trair nunca o espírito de partilha tão característico das mais brilhantes academias musicais setecentistas.

A qualidade do concerto confirmou o Musurgia Ensemble como guardião atento e criativo da música antiga. Fundado em 2020 por João Francisco Távora e Hélder Sousa, o agrupamento alia investigação e prática historicamente informada a uma pulsação viva, comprometida e revigorada, nunca museológica. O cuidado com a harmonia revelou-se na clareza das vozes intermédias. O ritmo, firme mas elástico, sustentou as danças sem rigidez, os diálogos instrumentais a surgirem como conversas inteligentes, feitas de animados momentos de pergunta e resposta. Particularmente memorável foi o encontro tímbrico entre a flauta de bisel de João Francisco Távora e o traverso de Marta Gonçalves: dois sopros, duas cores, duas respirações que se entrelaçaram com naturalidade, ora em contraste, ora em fusão luminosa. Houve momentos em que o som pareceu suspender o tempo, deixando-se surpreender num Largo em suspenso ou numa Gavotte de sorriso discreto e graça plena. Nesse equilíbrio entre rigor e imaginação, o Musurgia Ensemble mostrou-se hábil no seu compromisso com o passado, tornando-o presente, pulsante e necessário. Um extraordinário concerto de abertura do Festival, a fazer adivinhar dois fins de semana que se afiguram memoráveis.

domingo, 4 de maio de 2025

CONCERTO: "Cristo no Monte das Oliveiras" | Ludwig van Beethoven



CONCERTO: “Cristo no Monte das Oliveiras”
Ludwig van Beethoven, “Christus am Ölberge” Op. 85
Orquestra Filarmonia das Beiras
Coro Voz Nua
Com | Regina Freire (soprano), João Barbas (tenor), Ricardo Rebelo (baixo), Aoife Hiney (direcção coral), Jan Wierzba (direção)
Igreja Matriz de Ovar
03 Mai 2025 | sab | 21:30


Beethoven é uma das figuras mais reverenciadas na história da música ocidental, estando as suas obras entre as mais executadas do repertório da música clássica. Porém, compreensivelmente ou não, são muitas as suas peças que foram caindo em desuso ao longo do tempo, acabando por ficar praticamente esquecidas. Está neste caso a oratória “Cristo no Monte das Oliveiras”, quase uma nota de rodapé em relação às grandes obras-primas corais do período tardio de Beethoven, nomeadamente a “Missa solemnis”, a 9.ª Sinfonia ou a ópera “Fidelio”. E, todavia, “Cristo no Monte das Oliveiras” é uma obra a merecer atenção pela sua enorme expressividade, atmosfera tensa e trágica, e realismo no retrato que faz de Cristo, da sua luta interior, sacrifício e redenção triunfante. Saude-se a Orquestra Filarmonia das Beiras e o seu Director Jan Wierzba pela ousadia em trazer para primeiro plano uma peça com tanto de raro quanto de extraordinário. Saudação que se estende a solistas, músicos e coro, pela enorme qualidade das interpretações e pela entrega absoluta à música em condições nada fáceis, com uma charanga a rufar nas alturas do outro lado da rua.

Com uma partitura para três solistas, coro e orquestra, “Cristo no Monte das Oliveiras” baseia-se num libreto de Franz Xavier Huber que Beethoven musicou nos primeiros meses de 1803, enquanto residia no Theater an der Wien. Conhecedor das oratórias de Haydn e Handel, compositores muito populares à época, Beethoven mostrava-se apostado em não se quedar na sombra dos seus predecessores, pelo que adoptou uma abordagem algo diferente para a sua obra. Em relação ao relato bíblico, Huber tomara muitas liberdades com o seu libreto, chamando para primeiro plano apenas três personagens: Cristo, o seu discípulo Pedro e um anjo. Em torno deles, o compositor criou um fabuloso conjunto de corais, com hostes de anjos, hordas ameaçadoras de soldados e uma poderosa irmandade de discípulos. Uma abertura apropriadamente sombria põe em movimento a oratória, com sinistros apelos de metais, juntamente com figuras rápidas de cordas e passagens líricas de sopros, dando a ver um Monte das Oliveiras lúgubre, envolto numa densa névoa, palco perfeito para a presença de um Cristo agónico, aterrorizado com o cálice que lhe é dado a beber.

Jan Wierzba vai guiando o público nas várias passagens da obra, ao mesmo tempo que explica as personagens que solistas e coro encarnam. Na voz de João Barbas, Jesus é retratado na sua figura humana, dilacerado pela dúvida até à aceitação do seu destino redentor. A profunda solidão em que caíra é interrompida pela chegada do anjo, interpretado por Regina Freire com uma bravura vocal convincente. Acompanhado pelo coro, o anjo tranquiliza Cristo, num quadro marcado por um sublime dueto. A transformação de Jesus, desde a inicial vulnerabilidade até à tranquilidade corajosa, assim como a presença divina do anjo, foram defendidos com requinte pelos dois solistas, excelentes na representação da enorme variedade e intensidade de estados de espírito que o quadro contempla. Beethoven musicou a detenção de Jesus com uma imaginação viva. Cantada por vozes masculinas, os soldados envolvem-se num contrapontístico jogo do gato e do rato, enraizado numa esplêndida dramaturgia. Fabulosamente interpretado pelo coro, o quadro da prisão foi mesmo um dos pontos mais altos da noite.

O terceiro solista, Pedro, surge apenas no quadro final. Na voz de Ricardo Rebelo, ele é a personificação da humanidade, com todas as suas emoções e motivações, forças e fraquezas. O trio final é o culminar dramático da oratória. A vingança é transformada em compaixão, quando a raiva de Pedro é acalmada por Jesus e pelo anjo. Aqui reside o triunfo final de Cristo. A oratória termina com um belíssimo final fugal para coro e orquestra, de enorme dinamismo e expressividade. Atenta, cuidada, musculada, a direcção musical de Jan Wierzba atingiu um plano de excelência, galvanizando todos os intervenientes e revelando-se determinante para uma atuação arrebatadora. Uma palavra também para Aoife Hiney e para o coro aveirense Voz Nua, excelentes na combinação de vozes e efeitos que em muito elevaram a prestação do conjunto. Um concerto memorável, num espaço com notáveis condições acústicas, a merecer um sublinhado do público, infatigável na calorosa ovação prestada no final.

sábado, 22 de março de 2025

CONCERTO: “Ad Vesperas - Música para as Vésperas do Corpus Christi” | Musurgia Ensemble & Quarto Tom Ensemble



CONCERTO: “Ad Vesperas - Música para as Vésperas do Corpus Christi”
Musurgia Ensemble & Quarto Tom Ensemble
Musurgia Ensemble | João Francisco Távora (flauta de bisel e direcção artística), Silvia Cortini (flauta de bisel), Xurxo Varela (viola da gamba), Francisco Luengo (viola da gamba), Hélder Sousa (órgão e direcção artística)
Quarto Tom Ensemble | Eva Braga Simões (tiple), Gabriela Braga Simões (alto), Luís Toscano (tenor), Nuno Mendes (baixo)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
21 Mar 2025 | sex | 21:30


Corpus Christi ou Corpo de Deus é o nome dado à solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, a qual é celebrada pela Igreja sessenta dias após a Páscoa, na quinta-feira que se segue à Solenidade da Santíssima Trindade. A sua celebração pretende sublinhar a centralidade da Eucaristia na vida cristã, ou seja, “a doação que Jesus Cristo faz de si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus por cada homem”. Instituída pelo Papa Urbano IV, em 1264, pretendeu pôr cobro às heresias que colocavam em causa a presença do Cristo verdadeiro na Eucaristia, mas também responder ao movimento de devoção ao Santíssimo Sacramento que vinha a intensificar-se na prática dos fiéis. Esta festa convida os crentes a deterem-se, mais demorada e profundamente, no mistério que celebram e que é o centro vital da sua vida crente, renovando a profissão de fé em Cristo, vivo e presente neste Sacramento. O cerimonial deve culminar com uma Procissão Eucarística, de acordo com as orientações da Igreja, sendo a música parte integrante das celebrações, desempenhando um papel fundamental no que lhes acrescenta de solenidade e espiritualidade.

Menos de vinte e quatro horas decorridas sobre o excepcional concerto dos Seconda Prat!ca, a Igreja Matriz voltou a acolher um numeroso público, ávido de escutar as propostas do Musurgia Ensemble e do Quarto Tom Ensemble, para a celebração das Vésperas do Corpo de Deus, tal como se faria em Portugal no século XVII. Integrado no programa do CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar, o concerto teve por base a recolha de música vocal e instrumental conservada em arquivos musicais portugueses e recebeu o título “Ad Vesperas – Música para as Vésperas do Corpus Christi”. A partir do repertório de um vasto conjunto de artistas ibéricos, conhecidos e menos conhecidos - e alguns anónimos -, dos séculos XVI e XVII, os dois agrupamentos trabalharam uma vasta selecção de composições, convidando os presentes a nova viagem pelos tempos da História e seus contornos musicais, voltados inequivocamente para o interior da própria Igreja, com a sua liturgia, os seus dogmas, a sua essência canónica. Daqui resultou uma entre muitas propostas possíveis para as vésperas desta festa de grande solenidade, não apenas em relação ao alinhamento do concerto, mas também no que toca ao número de vozes e à própria parte instrumental seleccionada.

Assente na polifonia e no cantochão, em obras instrumentais e em variadas combinações destes efectivos, o concerto assumiu como prioridade o respeito pela estrutura quase fixa desta festa de grande solenidade, composta por uma evocação, cinco salmos, um hino, um cântico e uma benção final. De Manuel Cardoso a Pero Vaz Rego, de Frei Agostinho da Cruz a Manuel Rodrigues Coelho, o público teve a graça de escutar um conjunto de composições inspiradas, cujos acordes ecoaram no coração da Igreja Matriz com fervor e devoção. Eva Braga Simões e a sua voz cristalina brilharam no “Pange Língua” de Juan Navarro, hino devocional de rara beleza e que possui a particularidade de fugir ao cânone romano e assumir um carácter ibérico. O “Magnificat”, de João Lourenço Rebelo, e o “Benedicamus Domino”, de Aires Fernandes, foram outros dois momentos de profunda espiritualidade, escutados pelo público no mais reverencial silêncio. Já no capítulo dos Salmos, o destaque maior vai para a viola da gamba de Xurxo Varela e para a flauta de bisel de João Francisco Távora, capazes de momentos da maior beleza e emoção. Na linha dos anteriores concertos, “Ad Vesperas - Música para as Vésperas do Corpus Christi” foi mais um momento de altíssima qualidade e a melhor forma de assinalar o Dia Europeu da Música Antiga.

sexta-feira, 21 de março de 2025

CONCERTO: "Nova Europa" | Seconda Prat!ca



CONCERTO: “Nova Europa”
Seconda Prat!ca
Com | Sofia Pedro (soprano), Sophia Patsi (alto), Emilio Aguilar (tenor), João Paixão (barítono), Bram Trouwborst (baixo), Nuno Atalaia (barítono, flautas e direção artística), Asuka Sumi (violino), Xander Baker (viola da gamba), Hugo Sanches (guitarra barroca e tiorba), Martin Billé (guitarra barroca e tiorba)
CásterAntiqua - Festival de Música Antiga de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
20 Mar 2025 | qui | 21:30


“Voltando ao assunto, creio que não existe nada de bárbaro ou selvagem nesta nação, pelo que me foi dito; excepto, que toda a gente chama de bárbaro ao que não é o seu costume. De facto, parece que não temos outro guia para a verdade, para a razão, do que o exemplo e as ideias e as opiniões e os costumes do país onde vivemos. Lá, está sempre a religião perfeita, a etiqueta perfeita, o uso perfeito e realizado de todas as coisas.”
Michel de Montaigne, in “Dos Canibais”

Ao analisar os costumes do povo Tupinambá, Michel de Montaigne, jurista, político, filósofo, escritor e humanista, nascido em 1533 na Dordonha, França, desenvolveu uma notável reflexão sobre “barbárie” e “civilização”, questionando quem estaria com a razão, se o povo Tupinambá ou o Europeu, que em nome de civilizar e tirar os outros povos da barbárie, cometia as maiores atrocidades. Este embate civilizacional, decorrente do achamento do “Novo Mundo” no dealbar do século XVI, levou a que a Europa, até então “o Mundo”, quisesse ser “o Centro do Mundo”. Como resultado imediato, dos vinte e cinco milhões de indígenas do México, só alguns milhares se mantinham vivos passado um século e a população andina diminuiu oitenta por cento em trinta anos. À luta pela sobrevivência seguiu-se a dominação cultural. Não sendo facilmente transmitida pelas armas, a fé cristã teve de ser incutida em cada mente através da arte e da música. Paradoxo dos paradoxos: Nascido em condições atrozes, no meio da destruição e do massacre, o barroco musical colonial está repleto de obras-primas, como facilmente se percebeu na noite de ontem graças ao maravilhoso concerto do Seconda Prat!ca.

A relação ética, política e musical entre a Europa e a América do Sul colonizada está no centro de “Nova Europa”, título do concerto e projecto musical do Seconda Prat!ca, de visita a Ovar na abertura do segundo fim de semana do CásterAntiqua – Festival de Música Antiga de Ovar. Numa Igreja Matriz repleta de público, o grupo teve para oferecer uma viagem musical através de um mundo em expansão, seguindo os passos da migração e hibridação da cultura europeia. “Distância”, “Missões”, “Crioulização” e “Catedral” foram quatro etapas de um processo de exploração das mutações das fronteiras e percepções dos continentes recém-colonizados, através da sua música. Mas o programa quis ver mais longe ao propor uma reavaliação dos fundamentos históricos que ainda nos levam a chamar “Novo Mundo” a territórios e culturas previamente existentes, e cuja opressão não é deveras passada. Daí que duas questões se imponham com a força e acutilância que o assunto deve merecer: E se um Novo Mundo nunca existiu? E se a Europa tivesse precisado de inventar um?

Foi, portanto, uma viagem. Através dela, as reflexões maduras andaram a par com os pensamentos de uma música em construção. Margens, tradição e civilização foram laços tecidos entre as diferentes peças, relevando o quanto de artístico, religioso, cultural e político se abriga em cada uma delas. Numa primeira etapa, percebemos a evolução das relações entre o estilo musical europeu e aquele da América do Sul colonizada. Foi tempo de escutar, entre outros, os sublimes “Dime Pedro por tu vida” e “Entre dos álamos verdes”, duas peças extraídos do Codex Zuola, de Cuzco, antiga capital do império Inca, e apreciar o resultado de uma verdadeira mestiçagem cultural. Num segundo momento, vimos como a música, embora com o claro objectivo de transmitir a fé religiosa, persistia nessa mistura de estilos, sendo possível encontrar em Arcangelo Corelli e D. Zipolli, do arquivo de Chiquitos, o muito que os une.

A “crioulização” deu conta da permeabilidade entre a cultura pré-colombiana e a europeia, com um tema como “Lanchas para baylar” (Anónimo, Codex Martinez Compañon, Trujillo) a revelar uma insuspeitada proximidade à passacaglia. Na última etapa, vimos como a música litúrgica se apropria do villancico, de origem profana, nesse afã de converter a população ao Cristianismo. “A la xácara, xacarilla” (J. Gutierrez de Padilla, Maitines de Natividad, Puebla) é disto um delicioso exemplo. Alternando música instrumental com vozes à Capella, coros polifónicos e prédicas recitativas, declamações ou simples apontamentos explicativos de carácter histórico, o Seconda Prat!ca proporcionou uma hora e meia de extraordinária música, no seio de um mundo de uma violência atroz e repleto de contradições. Uma palavra para os instrumentistas, cujos registos notáveis tiveram o condão de nos guiar entre dois mundos tão distintos e, contudo, tão próximos. Mas foi nas vozes das maravilhosas Sofia Pedro e Sophia Patsi, mas também de Emilio Aguilar, João Paixão e Bram Trouwborst que o concerto ganhou asas e se elevou a patamares de excelência. Uma noite inolvidável.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

ENCONTRO: Cantar os Reis



ENCONTRO: “Cantar os Reis”
Encontro com as quatro Troupes de Reis mais antigas de Ovar
Igreja Matriz de Ovar
04 Jan 2025 | sab | 21:00


“Pela calada da noite ecoarão arpejos tristes de violões, vibrarão trinados de bandolins e morrerá ao longe entoado dolente, o chorar dos violinos… percorrendo o povoado seguindo à luz avermelhada do lampião secular, ao alpendre da casa, ou ao pátio senhorial gritar: oh! da casa nobre gente escutai e ouvireis.”
António Santiago, jornal O Ideal Vareiro, 1917

No princípio eram… as Janeiras. Até finais do século XIX, à imagem do que se fazia um pouco por toda a parte, eram as Janeiras que se cantavam em Ovar. Bandas, bombeiros, colectividades locais ou grupos anónimos, civis ou religiosos, organizavam-se e saíam à rua, de porta em porta, visitando as famílias economicamente mais favorecidas, delas recebendo ofertas em troca da singeleza dos seus cânticos. Eram as vulgares Janeiras, ou Santos Reis, canções ao Deus Menino e Benditos, acompanhadas com instrumentos que iam da viola e do cavaquinho, ao bombo e aos ferrinhos, à pandeireta e ao acordeão. Em Ovar, nos dias de hoje, já ninguém confunde o cantar os Reis com o cantar as Janeiras, pese embora as Janeiras se mantenham firmes na tradição, verificando-se o seu cantar com maior incidência nas Beiras e no Norte de Portugal. A forma como, a partir de 1893, a tradição evoluiu no nosso Concelho, acabou por “delimitar, de modo claro e inequívoco, as fronteiras entre as duas realidades: no tempo, nos objectivos, nas temáticas desenvolvidas, na música, nos instrumentos e nas suas origens.” O reconhecimento desta singularidade levou a que o Cantar dos Reis em Ovar viesse a ser inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (D.R. n.º 228/2020, Série II de 2020-11-23).

“Ovar está / Mais um ano a cantar os réis / E certamente ouvireis / As trupes no vosso lar // A tradição / Que é tão nobre e secular / Da nossa cidade de Ovar / Única em Portugal”. Poemas inspirados, composições de elevada qualidade e uma melodiosa harmonia vocal são marcas identitárias do nosso Cantar os Reis, como o comprova, no ano que agora se inicia, o labor em torno desta tradição secular desenvolvido pelas 15 troupes adultas e 12 troupes infantis actualmente existentes no Concelho. São elas que, ano após ano, continuam a levar a mensagem, a melodia e o aconchego do Cantar os Reis a casas particulares, estabelecimentos comerciais, instituições e entidades, envolvendo largas centenas de vareiras e vareiros. Espaço de excelência para a apresentação dos respectivos repertórios - constituídos, tradicionalmente, pela “Saudação”, “Mensagem” e “Agradecimento” -, a Igreja Matriz de Ovar foi palco, na noite do passado sábado, de um encontro com as quatro troupes de Reis mais antigas de Ovar. Momento muito belo, de luz e esperança nas palavras ao Divino, nele se evidenciou o valor da tradição, assente não apenas na qualidade de letras e músicas ou na beleza das vozes, mas sobretudo no que implicam de união e companheirismo, amizade e solidariedade no seio das comunidades.

“És a estrela. Infinita bondade / Realidade. Tão verdadeira / És paz no mundo transmites o amor / Do redentor à humanidade // Raio de luz, Abraço fraternal / Guia e seduz, O simples mortal”. Troupe de Reis do Orfeão de Ovar, Troupe de Reis da Associação Desportiva Ovarense, Troupe de Reis JOC/LOC e Troupe de Reis da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Ovar ocuparam o centro da Igreja por esta ordem, trazendo nas suas mensagens a paz e a dádiva, o amor e a partilha. Entre violas e flautas, violinos e bandolins (e até um violoncelo), as vozes elevaram-se em graça e beleza, fazendo rimar missão, bonança, pensamento e calor com coração, esperança, sentimento e amor. Pode uma voz mais baixa não se ter feito ouvido, um grupo se ter atrasado ou os acordes de uma flauta terem saído do tom, mas o que é isso perante “canções originais / tão belas e tão cordiais”, entoadas em coro com a força do coração, por gente “dos oito aos oitenta e oito”? Foi uma noite de paz, uma noite de amor, que a todos preencheu com os valores da bondade e da amizade. Faltou apenas aquele toque de graça levado à prática, o profano que justifica o sagrado, “(…) sem bombos para acompanhar / sem gaitinhas e sem sanfonas”: Uma mesa farta numa das laterais da Igreja, onde não faltasse “O pão de ló, ó ó / Que bom que é, se é / E se for pi, to to / É com colher, co lher // E o porti, nho nho / Prá acompanhar / Bebe pouco senão vais tombar”. Mas isto sou eu a dizer!

[Os versos apresentados são excertos dos números cantados pela Troupe de Reis JOC/LOC]