Os séculos XVII e XVIII herdaram da tradição popular alguns dos seus mais persistentes impulsos rítmicos, transformando-os em matéria de invenção musical de extraordinária riqueza. Entre esses gestos que atravessaram fronteiras sociais e geográficas destacam-se a folia, a chacona e o fandango, três formas que nasceram do movimento do corpo e da celebração colectiva antes de encontrarem lugar nos salões aristocráticas e no imaginário instrumental barroco. A folia, em particular, constitui um dos exemplos mais fascinantes dessa transfiguração cultural. Muito antes de ser esquema harmónico solene, capaz de sustentar sucessivas variações, viveu como dança popular exuberante, associada à energia das festas e a uma certa vertigem coreográfica. Não deixa de ser revelador que, já no início do século XVI, Gil Vicente a mencionasse no seu “Auto da Sibila Cassandra”, testemunhando a presença da “folia” no universo festivo do quotidiano. O mesmo se poderia dizer da chacona ou do fandango, danças de carácter vivo e teatral, profundamente ligadas ao gesto e à pulsação rítmica. Todos estes géneros partilham uma origem comum: o encontro entre música e movimento, entre improvisação e estrutura, entre a espontaneidade das gentes e a sofisticação das linguagens barrocas. Escutá-los hoje é escutar também a memória de um percurso histórico em que a música absorveu, refinou e perpetuou a energia de antigas danças, convertendo-as em verdadeiros laboratórios de expressão.
Foi precisamente esse universo de ressonâncias ibéricas e europeias que o Ensemble Allettamento trouxe, na noite de ontem, à Igreja Matriz de Ovar, no âmbito do CásterAntiqua. O programa desenhou uma viagem através de diferentes geografias sonoras, abrindo com a imaginação instrumental de Giovanni Girolamo Kapsberger, cujas “arpeggiate” e “toccatas” deixaram logo perceber a liberdade inventiva do barroco inicial. Seguiram-se as danças de Andrea Falconieri e o refinamento guitarrístico de Francesco Corbetta, antes de o repertório ibérico ganhar particular evidência nas páginas de Santiago de Murcia e de Gaspar Sanz. Neste último, o tema “Canários e Jácaras” proporcionou um dos momentos mais luminosos da noite, graças ao virtuosismo e à expressividade de Carlos Oramas, cuja interpretação fez cintilar cada gesto rítmico com naturalidade contagiante. Merece também destaque a inclusão no programa do compositor português Pedro Lopes Nogueira, presença preciosa que recorda como estas danças e esquemas harmónicos se disseminavam entre culturas e repertórios, revelando a vitalidade das trocas musicais na Península. O percurso culminou com páginas de Antonio Vivaldi, entre as quais o Concerto em Ré maior RV 93 e, sobretudo, a célebre Sonata Op. 1 n.º 12 “La Follia”, interpretada com entusiasmo e grande cumplicidade entre os músicos, cujos instrumentos dialogaram em permanência, num tecido de harmonias ricas, feito de graça e luminosidade. Já no encore, o ensemble ofereceu ainda uma delicada chacona de Arcangelo Corelli, extraída da Sonata Op. 2 n.º 12, encerrando o concerto com um gesto de elegância serena.
A atmosfera da Igreja Matriz de Ovar contribuiu decisivamente para a intensidade desta experiência musical. Marcado pela solenidade das suas proporções e pela generosa ressonância acústica, o espaço acolheu o público num silêncio quase reverencial, desses silêncios que antecedem a música como quem prepara o espírito para a escuta. Ao longo do concerto, foi possível ler nos rostos atentos uma mistura de concentração e alegria, como se cada nova dança abrisse uma pequena janela sobre o passado e sobre a vitalidade expressiva do barroco. A qualidade do Ensemble Allettamento revelou-se nessa cumplicidade artística: os dois violinos e o violoncelo formaram a base de um tecido sonoro flexível e vibrante, sustentando com elegância a arquitectura musical de cada peça. No centro desse diálogo destacou-se Carlos Oramas, cuja presença como solista fez brilhar as cordas da teorba e da guitarra barroca com uma expressividade rara. O seu toque, simultaneamente preciso e imaginativo, desenhou linhas de grande delicadeza sobre o manto sonoro do conjunto, equilibrando virtuosismo e subtileza. Quando as últimas notas se dissiparam no ar, permaneceu a sensação de que aquelas antigas folias, chaconas e fandangos tinham cumprido novamente a sua vocação primordial, a de reunir intérpretes e ouvintes numa mesma alegria partilhada, levando a beleza da música ao encontro do seu eco mais humano.
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