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quinta-feira, 26 de março de 2026

CONCERTO DE PÁSCOA: Requiem, de Gabriel Fauré



CONCERTO DE PÁSCOA: Requiem, de Gabriel Fauré
Orquestra Filarmonia das Beiras
Coro Sinfónico Inês de Castro
Direcção | Tiago Oliveira
Direcção coral | Artur Pinho Maria
Com | Leonor Barbosa de Melo (soprano), Luís Rendas Pereira (barítono)
XIV Ciclo de Requiem Coimbra 2026
Igreja Matriz de Ovar
22 Mar 2026 | dom | 17:30


Integrado na programação das Solenidades Quaresmais de Ovar, teve lugar no passado domingo, na Igreja Matriz, o Concerto de Páscoa pela Orquestra Filarmonia das Beiras e que contou com o Coro Sinfónico Inês de Castro. A abrir o momento, a Sinfonia n.º 49 em Fá menor, “La Passione”, de Joseph Haydn, ergueu-se como um portal meditativo, quase litúrgico, revelando uma inquietação que ultrapassou a mera forma e se inscreveu numa dramaturgia interior de rara intensidade. Com o Adagio inicial a substituir o habitual ímpeto inaugural, a peça pareceu inscrever a música num tempo suspenso, como se cada compasso fosse um passo dolorido na via-sacra. Percebeu-se nela uma emoção contida, um fervor recolhido e austero que convocou o silêncio tanto quanto a música. Sombria e inexorável, a progressão dos andamentos pareceu acompanhar o peso da cruz, a queda e o reerguer, culminando num “Presto” final cuja turbulência não dissipou a dor, antes a tornou mais aguda. Num concerto pascal, esta Sinfonia não só evocou a Paixão, mas foi também um convite à introspecção, à consciência da fragilidade humana e à aceitação do sofrimento como caminho para a redenção.

Se Haydn nos conduziu pela sombra densa da dor, o Requiem de Gabriel Fauré abriu-nos, com infinita delicadeza, a possibilidade da luz. Longe do dramatismo apocalíptico de outras leituras do texto litúrgico, Fauré concebeu uma obra onde a morte não é terror nem ruptura, antes repouso e transfiguração. Desde o “Introit et Kyrie”, cuja penumbra inicial se ilumina na promessa da “lux perpetua”, até ao etéreo “In Paradisum”, tudo pareceu encaminhar o público para uma aceitação serena do fim como princípio. De inspiração quase gregoriana, a escrita coral entrelaçou-se com uma orquestração de transparência rara, onde cada timbre soube respirar e dissolver-se num tecido harmónico de subtil beleza. O “Offertorium”, com a sua súplica reiterada, e o “Agnus Dei”, de pungente expressividade, revelaram um equilíbrio notável entre a dor e a esperança. E, no entanto, foi no “Pie Jesu” que o tempo verdadeiramente se suspendeu: uma linha pura, quase infantil na sua simplicidade, que se elevou como oração íntima, pedindo descanso eterno com uma ternura desarmante. Fauré não descreve a morte: Consola-a, envolve-a, humaniza-a.

Antes do concerto, nas breves palavras que dirigiu ao público, o maestro Tiago Oliveira lembrou que os aplausos devem surgir apenas no final de cada peça, preservando a unidade e o recolhimento da experiência musical. E, contudo, houve um instante em que essa regra pareceu, se não quebrada, pelo menos questionada pelo próprio coração: o “Pie Jesu”, precisamente, interpretado de forma delicada e sentida por Leonor Barbosa de Melo, mereceria, talvez, um gesto espontâneo de gratidão. Foi um momento de rara verdade, em que a música deixou de ser execução para se tornar revelação. De notar, ainda, o desempenho notável do Coro Sinfónico Inês de Castro, cuja coesão e riqueza tímbrica sustentaram com firmeza a arquitectura da obra, beneficiando da opção por uma formação instrumental reduzida, quase camerística. Longe de empobrecer o resultado, essa contenção conferiu maior clareza às linhas vocais e intensificou a intimidade do discurso. Na sombra de Haydn e na luz de Fauré, o concerto desenhou um arco perfeito entre a dor e a esperança, a morte e a promessa de ressurreição, deixando nos espíritos de quem assistiu ao concerto uma paz difícil de traduzir em palavras.

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