CINEMA: “Riefenstahl”
Realização | Andres Veiel
Argumento | Andres Veil
Fotografia | Toby Cornish
Montagem | Alfredo Castro, Stephan Krumbiegel, Olaf Voigtländer
Interpretação | Ulrich Noethen, Leni Riefenstahl, Albrecht Knaus, Raimund le Viseur, Ernest A. Ostro, Dieter Wild, Heinrich Breloer, Joseph Goebbels, Rudolf Hess, Adolf Hitler, Horst Kettner, Elfriede Kretschmer, Ray Müller, Hansjürgen Rosenbauer, Albert Speer, Willy Zielke
Produção | Sandra Maischberger
Alemanha | 2024 | Documentário | 115 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 - Sala 17
23 Mar 2026 | seg | 13:25
A figura de Leni Riefenstahl permanece, quase vinte e cinco anos após a sua morte, como uma das mais inquietantes e ambíguas da história do cinema. Realizadora, actriz, bailarina e fotógrafa, a alemã construiu uma obra simultaneamente inovadora e profundamente comprometida com o regime nazi, circunstância que ensombra qualquer tentativa de avaliação puramente estética do seu legado. Filmes como “O Triunfo da Vontade” e “Olympia” não só redefiniram a linguagem cinematográfica através de técnicas de montagem, enquadramento e captação de massas, como também serviram de instrumento de exaltação ideológica. Ao longo da vida, Riefenstahl insistiu na separação entre arte e política, alegando desconhecimento dos crimes do regime que a financiou e promoveu. No entanto, essa narrativa defensiva, reiterada em entrevistas e memórias, revela-se frágil quando confrontada com documentos, imagens e testemunhos que sugerem uma proximidade efectiva com o poder nazi, incluindo relações directas com figuras como Adolf Hitler e Joseph Goebbels. A tensão entre génio artístico e cumplicidade política constitui, assim, o núcleo de uma controvérsia que nunca cessou de se reconfigurar.
É precisamente essa ambivalência que o documentarista Andres Veiel explora em “Riefenstahl”, obra apresentada fora de competição no Festival de Veneza, em Agosto de 2024, e construída a partir de um vasto espólio inédito, composto por cerca de 700 caixas de arquivos pessoais. Longe de uma biografia linear, o filme adopta uma estrutura fragmentária e situacional, cruzando excertos de entrevistas, telefonemas privados, cartas e imagens de arquivo com cenas dos próprios filmes da realizadora. Veiel opta por uma abordagem contida, deixando que as contradições de Riefenstahl emerjam das suas próprias palavras, frequentemente desmentidas pelas imagens que produziu. Ao invés de um julgamento explícito, o realizador propõe um confronto subtil entre discurso e evidência, revelando uma personalidade que oscila entre a auto-mitificação e a negação persistente. Episódios como a sua presença na Polónia em 1939 ou a utilização de figurantes ciganos em “Tiefland” são revisitados à luz de novos indícios, sugerindo níveis de conhecimento e responsabilidade mais profundos do que aqueles que a própria admitia.
Paralelamente, o filme traça o retrato de uma mulher que soube reinventar-se ao longo de décadas, mantendo um controlo rigoroso sobre a sua imagem pública. Da jovem actriz de filmes simples à cineasta consagrada do Terceiro Reich, passando pelas expedições fotográficas no Sudão ou pelos projectos subaquáticos na velhice, Riefenstahl encarnou uma modernidade inquietante, marcada pela capacidade de adaptação e pela recusa em abdicar de protagonismo. Mesmo nas suas incursões africanas, onde fotografou o povo Nuba com um olhar simultaneamente estético e problemático, reencontra-se a mesma lógica de idealização visual que marcou a sua obra anterior. Veiel sugere, assim, que a realizadora não só antecipou práticas contemporâneas de auto-promoção e financiamento artístico, como também ilustra, de forma paradigmática, os dilemas éticos da criação em contextos de poder autoritário. Entre verdade e ficção, memória e omissão, o retrato que emerge é o de uma artista que fez da própria vida uma encenação contínua. E cuja verdadeira face talvez permaneça, ainda hoje, irremediavelmente fora de campo.
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