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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

CONCERTO: "Sons do Brasil" | Orquestra das Beiras & Gileno Santana



CONCERTO: “Sons do Brasil”
Orquestra das Beiras & Gileno Santana
Direcção músical | Fernando Marinho
Estarrejazz 2025
Cine-Teatro de Estarreja
11 Out 2025 | sab | 21:30


A encerrar mais uma edição do Estarrejazz, o Cine-Teatro de Estarreja acolheu um concerto verdadeiramente singular que uniu o trompetista brasileiro Gileno Santana à Orquestra Filarmonia das Beiras, sob a direção do maestro Fernando Marinho. A proposta, descrita como “um diálogo com as influências culturais que conectam Brasil e Portugal”, ganhou forma através de arranjos assinados por compositores de enorme craveira internacional, casos de Gil Goldstein ou Nelson Ayres, alguns deles criados em especial para esta ocasião. O repertório viajou por marcos emblemáticos da música brasileira — “Garota de Ipanema”, “Carinhoso”, “Aquarela do Brasil”, “Dindi”, “Vambora” ou “Tico-Tico no Fubá” —, evocando não apenas a beleza melódica destes temas, mas também o seu contexto histórico e afectivo, agora reinterpretado com a densidade tímbrica e harmónica de uma orquestra clássica. A presença de Gileno Santana, considerado um dos mais talentosos trompetistas da sua geração, trouxe um sopro de autenticidade e sofisticação a este encontro cultural de grande fôlego artístico, contribuindo para uma experiência sonora marcada pela confluência de linguagens aparentemente distintas, mas profundamente conectadas.

A singularidade destes “Sons do Brasil” residiu, em grande parte, na forma como se cruzaram os universos da música erudita e dos ritmos populares brasileiros — uma amálgama que, longe de ser apenas um exercício de estilo, é reveladora de afinidades profundas entre estas expressões musicais. Do samba à bossa nova, do choro ao frevo, passando ainda por influências do baião e sem esquecer o jazz, o programa destacou a riqueza e complexidade rítmica do Brasil, que encontrou na Orquestra Filarmonia das Beiras um intérprete à altura do desafio. Com mais de duas décadas de actividade, a Orquestra tem vindo a afirmar-se como uma referência nacional no panorama da música clássica, destacando-se pela versatilidade com que transita entre o repertório sinfónico, a música contemporânea e projectos interdisciplinares. Sob a batuta precisa de Fernando Marinho, os músicos souberam captar as nuances da linguagem popular brasileira, sem perder a clareza e o rigor próprios da execução orquestral, revelando uma escuta mútua rara e um compromisso artístico colectivo notável.

Com uma secção rítmica de luxo - João Ferreira (piano), Gonçalo Cravinho (contrabaixo) e João Cunha (bateria) -, Gileno Santana viu neste concerto representou mais do que uma colaboração entre todos os intervenientes — foi, segundo o próprio, “um dos mais aguardados” momentos da sua vida. Nascido em Salvador da Bahia e radicado em Portugal, Gileno construiu um percurso ímpar que atravessa o jazz, a música clássica e os ritmos afro-brasileiros, tendo já partilhado o palco com nomes como Hermeto Pascoal, Maria João, Pedro Abrunhosa, Vitorino ou a Banda Sinfónica Portuguesa. A sua abordagem ao trompete funde lirismo e virtuosismo com uma expressividade profundamente enraizada na identidade cultural brasileira. Em Estarreja, essa identidade encontrou ecos na paleta sonora da Orquestra, num espetáculo que foi, acima de tudo, um exercício de empatia musical: entre solista e orquestra, entre tradição e contemporaneidade e entre as duas margens do grande lago Atlântico. Na sua singularidade, “Sons do Brasil” constituiu uma celebração da música como ponte e como espaço de reencontro, cada nota a servir de elo entre mundos distintos mas complementares — o erudito e o popular, o europeu e o tropical, o passado e o presente.

[Foto: Cine-Teatro de Estarreja | https://www.facebook.com/cineteatrodeestarreja]

quinta-feira, 18 de abril de 2024

CONCERTO: Mário Costa Quarteto



CONCERTO: Mário Costa Quarteto
Ovar em Jazz 2024
Centro de Arte de Ovar
17 Abr 2024 | qua | 21:30


O Ovar em Jazz está de regresso com a sua sétima edição. Assente numa programação diversificada e de enorme qualidade, que o vem consolidando como um dos grandes eventos do género no nosso país, o Festival volta a oferecer, ao longo de quatro dias, um conjunto de momentos fortemente alicerçados no melhor que o Jazz pode oferecer, combinando a aprendizagem com a experimentação, a escuta com a festa e a celebração. O “pontapé de saída” foi dado na noite de ontem, cabendo ao Mário Costa Quarteto o momento inaugural com a chamada para primeiro plano de “Chromosome”, o mais recente trabalho discográfico do agrupamento. Depois dos merecidos elogios ao seu álbum de estreia “Oxy Patina” – considerado pela Jazz.pt como o “melhor disco de jazz nacional” em 2018 –, e da recente nomeação de “Chromosome” para os Prémios Play na categoria de Melhor Álbum de Jazz, este concerto era aguardado com natural expectativa e o mínimo que se pode dizer é que não defraudou os presentes, saldando-se por uma extraordinária noite.

Partilhando com os músicos o intimismo da caixa de palco do Centro de Arte de Ovar, o público teve a oportunidade, desde os momentos iniciais, de perceber a noção de “cromossoma” que subjaz ao título do concerto e do álbum. Gileno Santana no trompete, Benoît Delbecq no piano, sintetizadores e samplers, Bruno Chevillon no contrabaixo e Mário Costa na bateria, fizeram questão de mostrar as formas e cores do material genético que incorpora a sua música, dissecando, nas componentes estruturais, o ritmo e a harmonia, pondo em evidência a “tetraploidia” que é, neles, sinónimo de cumplicidade, e fazendo dos emparelhamentos, translocações e crossovers entre si, momentos de intimidade e liberdade, prazer e fruição. Ao rigor e talento da sua escrita, junta Mário Costa o cuidado pelas particularidades de cada um dos músicos, o respeito pela sua individualidade, o valor do seu ADN, material genético onde a ousadia se combina com a irreverência, a subtileza com a elegância, a versatilidade com a espontaneidade e a genialidade.

Sem território definido, entre o clássico e a vanguarda, o swing e o experimental, com uma não desprezível componente electrónica e um piscar de olho ao rock, o concerto começou por propor uma viagem em águas abertas ao encontro de um tremendo “Adamastor”. Com Mário Costa ao leme, dobrada a tormenta, foi o Pacífico que se abriu à nossa frente, numa subversão geográfica, uma daquelas excentricidades metafóricas que fazem parte do ADN do próprio Jazz. O trompete de Santana conduziu-nos às ilhas “Moluccas” e daí seguimos até à Lua, experimentando a gravidade zero de “Moonwalk”, impulsionados por Chevillon e pelo seu contrabaixo em registo minimalista. Descemos então à terra, ao corpo, ao núcleo do núcleo da célula e percebemos a maravilhosa diversidade de “Chromosome”. Enfim, tocados pelo melodrama, contemplámos a tenda de circo remendada, os palhaços tristes e o amor impossível do trapezista por “Victoria”, a rapariga de tranças que vende bilhetes, chupa-chupas e batatas fritas. Fazendo a ponte com o ábum anterior, “Erosion” fechou a noite da melhor forma. Um concerto memorável, que podemos classificar numa palavra apenas: Perfeição!

[Foto: Ovar/Cultura]