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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

CONCERTO: "Sons do Brasil" | Orquestra das Beiras & Gileno Santana



CONCERTO: “Sons do Brasil”
Orquestra das Beiras & Gileno Santana
Direcção músical | Fernando Marinho
Estarrejazz 2025
Cine-Teatro de Estarreja
11 Out 2025 | sab | 21:30


A encerrar mais uma edição do Estarrejazz, o Cine-Teatro de Estarreja acolheu um concerto verdadeiramente singular que uniu o trompetista brasileiro Gileno Santana à Orquestra Filarmonia das Beiras, sob a direção do maestro Fernando Marinho. A proposta, descrita como “um diálogo com as influências culturais que conectam Brasil e Portugal”, ganhou forma através de arranjos assinados por compositores de enorme craveira internacional, casos de Gil Goldstein ou Nelson Ayres, alguns deles criados em especial para esta ocasião. O repertório viajou por marcos emblemáticos da música brasileira — “Garota de Ipanema”, “Carinhoso”, “Aquarela do Brasil”, “Dindi”, “Vambora” ou “Tico-Tico no Fubá” —, evocando não apenas a beleza melódica destes temas, mas também o seu contexto histórico e afectivo, agora reinterpretado com a densidade tímbrica e harmónica de uma orquestra clássica. A presença de Gileno Santana, considerado um dos mais talentosos trompetistas da sua geração, trouxe um sopro de autenticidade e sofisticação a este encontro cultural de grande fôlego artístico, contribuindo para uma experiência sonora marcada pela confluência de linguagens aparentemente distintas, mas profundamente conectadas.

A singularidade destes “Sons do Brasil” residiu, em grande parte, na forma como se cruzaram os universos da música erudita e dos ritmos populares brasileiros — uma amálgama que, longe de ser apenas um exercício de estilo, é reveladora de afinidades profundas entre estas expressões musicais. Do samba à bossa nova, do choro ao frevo, passando ainda por influências do baião e sem esquecer o jazz, o programa destacou a riqueza e complexidade rítmica do Brasil, que encontrou na Orquestra Filarmonia das Beiras um intérprete à altura do desafio. Com mais de duas décadas de actividade, a Orquestra tem vindo a afirmar-se como uma referência nacional no panorama da música clássica, destacando-se pela versatilidade com que transita entre o repertório sinfónico, a música contemporânea e projectos interdisciplinares. Sob a batuta precisa de Fernando Marinho, os músicos souberam captar as nuances da linguagem popular brasileira, sem perder a clareza e o rigor próprios da execução orquestral, revelando uma escuta mútua rara e um compromisso artístico colectivo notável.

Com uma secção rítmica de luxo - João Ferreira (piano), Gonçalo Cravinho (contrabaixo) e João Cunha (bateria) -, Gileno Santana viu neste concerto representou mais do que uma colaboração entre todos os intervenientes — foi, segundo o próprio, “um dos mais aguardados” momentos da sua vida. Nascido em Salvador da Bahia e radicado em Portugal, Gileno construiu um percurso ímpar que atravessa o jazz, a música clássica e os ritmos afro-brasileiros, tendo já partilhado o palco com nomes como Hermeto Pascoal, Maria João, Pedro Abrunhosa, Vitorino ou a Banda Sinfónica Portuguesa. A sua abordagem ao trompete funde lirismo e virtuosismo com uma expressividade profundamente enraizada na identidade cultural brasileira. Em Estarreja, essa identidade encontrou ecos na paleta sonora da Orquestra, num espetáculo que foi, acima de tudo, um exercício de empatia musical: entre solista e orquestra, entre tradição e contemporaneidade e entre as duas margens do grande lago Atlântico. Na sua singularidade, “Sons do Brasil” constituiu uma celebração da música como ponte e como espaço de reencontro, cada nota a servir de elo entre mundos distintos mas complementares — o erudito e o popular, o europeu e o tropical, o passado e o presente.

[Foto: Cine-Teatro de Estarreja | https://www.facebook.com/cineteatrodeestarreja]

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

CONCERTO: “Na Pele da Terra” | Mário Barreiros



CONCERTO: “Na Pele da Terra”
Com | Mário Barreiros (bateria), Ricardo Toscano (saxofone alto), Carlos Barreto (contrabaixo) e Leonardo Pinto (electrónica)
EstarreJazz 2025
Cine-Teatro de Estarreja
08 Out 2025 | qua | 21:30


“Na Pele da Terra” começou por ser um projecto apresentado por Mário Barreiros à Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Música – Interpretação Artística, especialização Bateria Jazz. O projecto trazia consigo a ideia de combinar um trio de jazz com processamento electrónico por computador, abrindo espaço a que os músicos controlassem os efeitos e as alterações sonoras durante a performance, apoiando-se na dinâmica transformadora da tecnologia nesse fascinante diálogo entre o orgânico e o digital. “Isso gera uma dinâmica única e imprevisível, desafiando a ideia tradicional de que o jazz é puramente baseado na espontaneidade humana”, referia, a propósito, Mário Barreiros. Graças à electrónica, efeitos como delay, modulação, sampling e distorção tímbrica são passíveis de serem manipulados em tempo real, transformando os sons tradicionais do jazz em paisagens sonoras complexas e camadas texturais que transcendem os limites dos instrumentos acústicos convencionais. Em última análise, a música para trio de jazz com processamento electrónico representaria uma jornada de exploração musical onde o passado encontra o futuro. Uma abordagem disposta a desafiar as convenções, abrindo portas para a criatividade ilimitada e a descoberta sonora.

Foi com esta disposição que Mário Barreiros se apresentou ao público de Estarreja, na noite inaugural do EstarreJazz 2025. Em palco, ao seu lado, Ricardo Toscano (saxofone alto) e Carlos Barreto (contrabaixo) assumiram a parte instrumental, enquanto Leonardo Pinto assinou o desenho de som e Nélson Carvalho tratou da sua distribuição espacial - de forma magistral, diga-se. Ao unir a riqueza da tradição do jazz com as possibilidades da tecnologia moderna, os músicos poderam criar uma música enraizada na história e, ao mesmo tempo, verdadeiramente contemporânea. Mas “Na Pele da Terra” foi além deste lado, digamos, experimental (nos anos 1970, já Miles Davis se apoiava na electrónica para desenhar o seu jazz vanguardista). Delicada e elegante, a música contida no projecto é também uma pequena reflexão sobre a frágil e microscópica dimensão daquilo a que chamamos “vida na Terra” quando comparada com a imensidão do Cosmos. A sensação de humildade diante da vastidão do Universo, pode inspirar uma apreciação mais profunda da beleza e da fragilidade da vida na Terra e, nessa medida, “Na Pele da Terra” é um manifesto sobre a responsabilidade, individual e colectiva, que temos no actual estado de pré-colapso do nosso ecossistema e uma homenagem a todos os que participam na preservação do nosso habitat.

Socorro-me da Folha de Sala (um verdadeiro luxo nos tempos que correm) para dar nota do alinhamento de um concerto breve no tempo, mas de alta intensidade, contagiando de emoção e energia um público entusiasta. “O Solo”, composição de Mário Barreiros, abriu o concerto a olhar as árvores e a terra, o que cresce e permanece, oferecendo aos presentes uma experiência sensorial única. Barreiros, Barreto e Toscano punham em prática o seu enorme virtuosismo, mas era na electrónica que o ouvido se apurava, no que reverberava e amplificava de dimensão acústica. Dedicada a todos os que de alguma forma contribuem para uma reconciliação entre a humanidade e a natureza, atitude de importância crucial para o futuro do nosso ecossistema, “One Billion Trees”, de Mário Barreiros, foi um grande momento de jazz, assente na enorme capacidade de improvisação de Ricardo Toscano e Carlos Barreto. “Fall”, de Wayne Shorter, surge como uma meditação sobre a passagem do tempo - o Outono como metáfora da maturidade artística e humana, oferecido em harmonias amplas e movimentos introspectivos, num convite à contemplação do tempo e da existência.

A segunda metade do concerto abriria com “Goal 14”, uma composição assinada conjuntamente por Mário Barreiros e Ricardo Toscano. Apelando à protecção dos ecossistemas marinhos, ao combate à poluição e à sobrepesca, o tema tem como ponto de partida uma improvisação de saxofone alto, pontuado por arcadas de contrabaixo, e processamento electrónico por computador em tempo real. Mário Barreiros compôs “Sol” (fantástica a imagem projectada na tela), balada inspiradíssima que homenageia o coração luminoso que faz pulsar o planeta e que mereceu do público a mais prolongada e entusiástica ovação da noite. John Coltrane não podia faltar no serão de Estarreja e “Naima” foi mais um momento alto do concerto, uma balada pontuada por uma sequência de acordes suspensos capazes de criar uma atmosfera etérea e meditativa. “Na Pele da Terra”, de Leonardo Pinto, encerrou da melhor forma o momento inaugural do EstarreJazz, fazendo assentar a música na crosta terrestre, o verdadeiro palco da vida, a “pele” que sustenta e transforma tudo o que existe à sua margem. O solo inicial do contrabaixo é precioso, como preciosos são os diálogos que virá a estabelecer com o saxofone e a bateria, sob as boas graças - ainda e sempre - da electrónica. Um concerto memorável.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

CONCERTO: Roberta Sá & Daniel Jobim | Chega de Saudade



CONCERTO: Roberta Sá & Daniel Jobim | Chega de Saudade
EstarreJazz 2021
Cine-Teatro de Estarreja
04 Out 2021 | seg | 21:30


Olhando para trás no tempo, terei de recuar ao dia 24 de Fevereiro de 2020 para me lembrar de um concerto com lotação esgotada ao qual tenha assistido. Na altura, Eliades Ochoa convidava a “bailar un son” e o Tivoli BBVA revivia as grandes noites de festa, o público expectante no contacto com a grande música cubana na voz de um dos seus maiores intérpretes, o calor dos aplausos, no final os comentários que começavam no foyer do teatro e se prolongavam para o exterior numa corrente de entusiasmo e admiração. Foi preciso esperar 588 dias para voltar a sentir o mesmo. Demasiado tempo, demasiadas emoções reprimidas, demasiada cultura em pausa… Em tempo de olhar para a frente, “Chega de Saudade” seria sempre, ainda que apenas por essa nota de esperança no regresso à normalidade, um marco incontornável. Mas a grande música brasileira espalhou-se pela sala e inundou-nos de ritmo e de cor, tornando ainda mais alegre o momento. Daniel Jobim no piano e na voz, Paulo Jobim na viola, Paulinho Braga na bateria, Jacques Morelembaum no violoncelo e Roberta Sá na voz foram de uma entrega e de uma verdade ímpares, oferecendo a melhor música de António Carlos Jobim e prestando-lhe um sentido tributo.

Após um medley introdutório, “Samba De Uma Nota Só” foi o definitivo arranque de uma noite inesquecível. Alegre, vibrante, “Samba do Soho” surgiu na voz de Paulo Jobim, filho de António Carlos. Se lhe acrescentarmos a voz de Daniel Jobim, filho de Paulo e neto de Tom, percebemos o quão intimista o momento se figurou, as três gerações unidas, o mesmo ADN musical a revelar-se em todos os vincos, a figura tutelar de um dos grandes fundadores da Bossa Nova sempre presente. O show prosseguiu com “Bonita” a anteceder a chegada da muito bonita Roberta Sá ao palco. Entrou-se, então, em velocidade de cruzeiro, o extraordinário som da música popular brasileira e os seus poemas de amor tão bem expressos em temas incontormáveis como “Desafinado”, “Água de Beber”, “Só Tinha de Ser Com Você”, “Você Vai Ver”, “Sabiá”, “Caminhos Cruzados” e “Modinha” - “Não seja a vida sempre assim / Como um luar desesperado / A derramar melancolia em mim / Poesia em mim / Vai, triste canção, sai do meu peito / E semeia a emoção / Que chora dentro do meu coração”.

A segunda metade do concerto subiu ainda mais o tom, reforçando a certeza da universalidade da música de António Carlos Jobim. Também as figuras de Vinicius de Moraes e João Gilberto, tal como de Chico Buarque de Hollanda, fizeram sentir-se com enorme força. Daniel Jobim foi tocante na interpretação a solo de “Luiza” e Jacques Morelembau esteve incrível numa versão instrumental de “Retrato em Branco e Preto”, os dois momentos mais intimistas da noite. Num crescendo, à medida que o final se aproximava, o público foi soltando a garganta e mostrou o quão especial é o lugar que a música de Tom Jobim ocupa nos seus corações. “Wave”, “Corcovado”, “Insensatez”, “Só Danço Samba”, “Garota de Ipanema” e “Chega de Saudade” foram cantados com emoção, como se de um fado de Amália se tratasse. Daí os gritos e as palmas, os risos e, certamente, algumas lágrimas também (na sala, o coração dos muitos brasileiros que fizeram questão de marcar presença no concerto ter-se-á apertado não poucas vezes). O muito reclamado e saudado “encore” foi preenchido com “Águas de Março”. “É pau, é pedra, é o fim do caminho”. Um momento para recordar também Elis Regina. Mas chega de saudade!

domingo, 3 de outubro de 2021

CONCERTO: Septeto EstarreJazz



CONCERTO: “Septeto EstarreJazz”
EstarreJazz 2021
Cine-Teatro de Estarreja
02 Out 2021 | sab | 21:30


A segunda noite da presente edição do EstarreJazz trouxe ao palco do Cine-Teatro de Estarreja o Septeto EstarreJazz, formação que engloba a fina flor de um projecto musical maduro e com provas dadas e que tem visto nascer, crescer e afirmar-se no panorama jazzístico português algumas das suas maiores e mais reconhecidas figuras. Foi, pois, com alguma surpresa e frustração, que vimos a sala tão pouco preenchida de público para receber, aclamar e apoiar os seus, como que a confirmar que “santos da casa não fazem milagres”. E foi pena! Não só porque esta formação e estes músicos mereciam mais carinho, mais palmas e mais calor humano, mas sobretudo pela excelente noite que proporcionaram. Um alinhamento criteriosamente escolhido, fazendo realçar os diálogos entre os vários instrumentos, e interpretações inspiradas e de altíssimo nível foram a tónica do concerto, enchendo os corações de todos os presentes e levando-os a classificar o momento como precioso.

Com uma frente de saxofones - Domingos da Luz Henriquez, Miguel Valente e Ricardo Rosas no saxofone tenor e João Mortágua no saxofone alto - e uma retaguarda onde pontificaram Carlos Azevedo no piano e nos arranjos, João Fragoso no contrabaixo e Paulo Bandeira na bateria, o agrupamento soube gerir na perfeição os tempos das várias composições. Ora vibrantes, ora intimistas, em conversa aberta e diálogos mordazes ou nos mais confessionais solos, o septeto mostrou uma enorme desenvoltura e mestria musical mas, acima de tudo, uma superior cumplicidade, ingrediente maior em qualquer projecto musical. Poderia falar do “eco” do piano de Carlos Azevedo sobre os trechos líricos do saxofone de João Mortágua ou de Miguel Valente, da forma subtil como o contrabaixo de João Fragoso se imiscuiu no mais íntimo de cada peça ou no domínio da bateria de Paulo Bandeira, o riscar dos pratos a sugerir paisagens áridas, mas correria o risco de estender a crónica para lá do desejável. Fica a certeza de que, no todo ou na soma das partes, o grande beneficiado foi sempre o público.

O concerto abriu com três composições de Wayne Shorter - “Night Dreamer”, “Fee-Fi-Fo-Fum” e “This is for Albert” -, convidando à fruição plena de um jazz harmonioso e límpido, marcado por apontamentos intensos e breves de reconfortante improviso, a evidenciar um extraordinário domínio instrumental. Usando da palavra, Paulo Bandeira deixou vincado o quanto de emoção envolve este projecto, emoção essa que se espalhou pela sala com “Better Times”, de Steve Swallow, mas sobretudo com a maravilhosa composição de Thad Jones que é “A Child is Born” (trazendo à memória um concerto inesquecível do Avishai Cohen Trio, em Matosinhos, no Verão de 2019). A música de Steve Swallow voltou a escutar-se com “Let’s Eat” e as duas últimas composições trouxeram ainda mais vida, força e ritmo a um concerto memorável com “You Stepped Out of a Dream”, de Nacio Herb Brown e “Take the Coltrane”, de Duke Ellington e do próprio John Coltrane. Ao cabo de pouco mais de uma hora chegava ao fim um concerto aplaudido de pé e com todo o vigor, pese embora tal não fosse suficiente para trazer o septeto ao palco para o sempre esperado encore. Ficam os momentos de enorme beleza e partilha, e fica uma noite que se guarda na memória da forma mais grata.

domingo, 11 de outubro de 2020

CONCERTO: Orquestra de Jazz de Estarreja convida Kiko Pereira



CONCERTO: Orquestra de Jazz de Estarreja convida Kiko Pereira
EstarreJazz 2020
Cine-Teatro de Estarreja
10 Out 2020 | sab | 21:30


A propósito da recente atribuição do Prémio Nobel da Literatura à norte-americana Louise Glück, Luís Osório escreveu, e passo a citar: “Nunca tinha ouvido falar de Louise Glück. (...) Vivemos numa redoma onde aquilo que lemos, vemos e ouvimos é uma ínfima parte do que existe para ser lido, ouvido e visto. Por vezes, damos por nós a comprar o que não é assim tão bom. Canções. Poemas. Romances. Quadros. Filmes. E somos atordoados com o que dizem as máquinas de fazer ídolos. Atordoados pelo modo como somos torpedeados pela imposição do gosto e de figuras que tiveram a sorte de estar do lado certo da paragem de comboio. Louise Gluck é a prova disso.” Tal como Luís Osório, não conhecia Louise Glück. Mas o que ele diz em relação à poeta, pode dizer-se em relação a uma série de artistas de enorme valor e que desconhecemos completamente. O que me leva ao encontro de Kiko Pereira e do extraordinário concerto no Cine-Teatro de Estarreja, na noite de ontem, a fechar o EstarreJazz 2020.

Não consigo deixar de pensar porque raio, sendo eu uma pessoa minimamente interessada e atenta ao fenómeno do Jazz, desconhecia por completo a existência desta voz. Uma excelente voz que, complementada por uma fortíssima presença em palco, faz de Kiko Pereira um dos maiores artistas portugueses que tive o prazer de escutar até ao dia de hoje. Se dúvidas houvesse, bastaria a interpretação de “Georgia On My Mind”, estrondoso êxito da autoria de Hoagy Carmichael, para as dissipar. Mas as boas surpresas não se quedaram por aqui, tendo sido possível escutar um conjunto de temas notáveis, de “My Ideal” a “Save Your Love For Me”, “But Not For Me”, “Just The Two Of Us” ou “Nevermind”, Chet Baker, Buddy Johnson, George Gershwin ou Bill Withers unidos num abraço pela voz de Kiko Pereira. Também a sua qualidade de compositor ficou bem patente em “Subliminal French” e “Hunger Sold”, este último sob um poema de Charles Bukowski, a mensagem social e política igualmente presente. “Queda do Império”, um dos temas imortais de Vitorino, recebeu a maior ovação da noite, tendo direito a “bis” já no encore.

Mas Kiko Pereira não esteve sozinho em palco. A Orquestra de Jazz de Estarreja acompanhou na perfeição o cantor e também ela é uma surpresa. Não creio que a tivesse ouvido depois de Abril de 2018, quando convidou um dos seus, João Mortágua, e há uma clara evolução na sua música, no à vontade em palco, na forma como se abraçam solos e se elevam à perfeição momentos únicos. Carlos Azevedo voltou a dirigir esta Orquestra e fez questão de salientar isso mesmo. Ter nos diversos naipes executantes da qualidade de um Tomás Marques, Ricardo Rosas, João Fragoso, Domingos Henriquez ou Ricardo Alves é uma felicidade. E termino esta crónica como a comecei, com outras palavras de Luís Osório que poderiam ser as nossas: “Porém, meus amigos que (como eu) nunca tinham ouvido falar dos poemas de Louise. Vejam lá a sorte que temos. Amanhã quando acordarmos, no calorzinho de um sábado de outono [neste caso uma segunda feira], saberemos que existe muito para ser descoberto. Muitos livros para ser lidos. Muitos poemas que nos arrebatarão quando os conhecermos. Muitos filmes que nos farão pensar. Muitos quadros que não vimos. E pensamentos. E perguntas por perguntar. Uma sorte. Um desafio ao nosso olhar que, tantas e tantas vezes, olha sem ver.”

sábado, 10 de outubro de 2020

CONCERTO: Paulo Bandeira Trio convida Camané



CONCERTO: Paulo Bandeira Trio convida Camané
EstarreJazz 2020
Cine-Teatro de Estarreja
09 Out 2020 | sex | 21:30


Harmonizar. Instalada no nosso quotidiano, a palavra quer dizer, segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, “conciliar”, “fazer concordar”, “estabelecer harmonia entre”. Qualquer um destes significados deveria ser precedido da palavra “arte”. Pelo menos no meu entender e, quero crer, no de todos quantos, na noite de ontem, tiveram o privilégio de assistir ao concerto do Paulo Bandeira Trio com um convidado de luxo, Camané, no Cine-Teatro de Estarreja. De um lado, a excelência do piano de Paulo Esteves da Silva, do contrabaixo de Nélson Cascais e da bateria de Paulo Bandeira; do outro, a voz superlativa de Camané. Um concerto que resultou na harmonização perfeita entre o Jazz e o Fado, na demonstração do quanto a sua substância essencialmente visceral se mistura e confunde, no que de sujeito e complemento há de comum a ambos. O único senão foi mesmo o tempo do concerto, a sua duração, escassa hora e meia que pareceu não mais do que meia hora.

Abrindo o último de dois fins de semana do EstarreJazz 2020, o concerto teve duas partes distintas, a primeira das quais viu subirem ao palco apenas os músicos do agrupamento de Paulo Bandeira. Homenageando Bernardo Sasseti, que este ano sopraria cinquenta velas caso estivesse ainda entre nós, o Trio começou por interpretar “O Outro Lado”, “Olhar” e “Quando Volta o Encanto”, três temas belíssimos do malogrado compositor, com muito de intimismo, que caminham nessa faixa indistinta onde se juntam a matriz jazzística de Sasseti e a alma do ser português que a todos une e se expressa numa “congénita” tristeza e melancolia. Na mesma linha, ouviu-se também Kenny Wheeler e esse delicado “Everybody’s Song But My Own”, para depois viajarmos por outras áreas, com temas de Paulo Bandeira, nomeadamente um inspirado “Remix”.

Cinquenta minutos decorridos desde o início do concerto, Camané junta-se ao Trio em ambiente de enorme expectativa. Talvez não tanto pela curiosidade em perceber como resultaria, em palco, essa harmonização do Fado com o Jazz (as indicações dadas pelo trio deixavam antever um grande momento), mas sobretudo pela possibilidade de perceber as diferenças do piano de João Esteves da Silva para o de Mário Laginha que, ao lado de Camané, vem registando um enorme sucesso com o trabalho “Aqui Está-se Sossegado”. O resultado não deixa de ser surpreendente, o pianista a revelar-se excepcional nos arranjos e no acompanhamento, todo ele contenção e subtileza. Foi assim em “Quadras”, que abriu a sua actuação, mas também em “Ele Tinha Uma Amiga”, o piano a resistir ao apelo “fadístico” e a privilegiar as linhas com que se cose o próprio Jazz. Desfeitas as dúvidas, houve ainda um cheirinho de bolero e de bossa nova, com “Chega-se a Este Ponto” e essa obra-prima de Tom Jobim que é “Inútil Paisagem”, seguido de “A Correr”, sobre um poema magistral de Manuela de Freitas e “Sei de Um Rio”, a fechar o alinhamento. O público não poupou nos aplausos e as “Quadras” voltaram ao palco num “encore” muito apreciado. A noite foi enorme mas, repito, soube a pouco!

domingo, 4 de outubro de 2020

CONCERTO: Iván Sanjuán Cuarteto



CONCERTO: Iván Sanjuán Cuarteto
EstarreJazz 2020
Cine-Teatro de Estarreja
03 Out 2020 | sab | 21:30


Foi sob o signo da amizade que o Iván Sanjuán Cuarteto se apresentou no Auditório do Cine-Teatro de Estarreja, fechando o primeiro de dois fins de semana do EstarreJazz 2020. Perante uma moldura de público bastante aceitável, cuidadoso mas muito teimoso, que rejeita ser vencido pelo malvado vírus e faz questão de, com a sua presença, manter vivos os equipamentos onde se oferece cultura, o quarteto que se fez à estrada desde o país irmão veio mostrar-nos como a música e a amizade podem ser duas faces da mesma moeda. Amizade porque, nas relações humanas que estabelecemos, nunca como hoje a lealdade, o altruísmo, a cooperação, a solidariedade e a partilha foram valores tão importantes. Amizade, porque a música é um veículo de união de interesses e vontades, que nos aproxima e abraça. E amizade (“Friendship”), porque é esse o título do primeiro álbum de originais deste quarteto, editado no ano passado e que serviu de base ao concerto da noite de ontem.

Com uma formação clássica composta por Iván Sanjuán na bateria, Joaquín de la Montaña no saxofone tenor, Pedro Calero no piano e Enrique Tejado no contrabaixo, o Iván Sanjuán Cuarteto ofereceu-nos setenta minutos de um jazz belíssimo, harmonioso, essencialmente “smooth” mas capaz de crescer para formas mais “free” e assente nas inspiradas composições de Iván Sanjuán, um percussionista com fortes ligações ao nosso país. “Brooklin With You” abriu a sessão e abriu, ao mesmo tempo, as mentes para um jazz feito de emoção e sentimento, que teve o condão de nos levar a saborear um final de tarde de Verão numa esplanada à beira-mar, as brincadeiras e os risos das nossas crianças ou um beijo apaixonado no meio de um campo de girassóis. Seguiu-se “Head Street”, numa alusão à “Rua da Cabeça” onde reside Iván Sanjuán, mas sobretudo uma sentida homenagem ao Bairro de Lavapiés, outrora um arrabalde da cidade medieval de Madrid e hoje um centro da multiculturalidade e do activismo. Mais ritmado e livre, “Electric Miniamba” transportou-nos aos grandes centros urbanos da África Negra, deixando adivinhar as influências do jazz que se faz em Bamako, Abidjan, Bissau ou Dakar.

A dolência de “Para El Recuerdo” veio evidenciar a excelência interpretativa de Joaquín de la Montaña, um saxofonista de primeira água que distribuiu afectos no embalo do seu saxofone e apontou caminhos de verdadeira felicidade. Vieram depois “Raquel”, e também “UHJAD”, dois temas carregados de “swing”, alegres e brincalhões, numa homenagem aos sobrinhos do líder deste quarteto. Com o concerto a aproximar-se do final, “Para Ti” constituiu o momento mais alto do serão, a bela e inspirada composição como um bálsamo, as teclas delicadamente dedilhadas por Pedro Calero a porém um calorzinho bom no coração de cada um dos presentes. “No Es Tan Duro” encerrou o concerto, colocando uma nota de esperança e de confiança num futuro que se quer “clean & safe”, evidentemente, mas que nos permita voltar a respirar “sem filtros” e a viver a cultura como deve ser vivida: sem barreiras, nem distâncias. Obrigado Iván Sanjuán Cuarteto por este pedacinho de felicidade. E de amizade!

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

CONCERTO: Tomás Marques Quinteto



CONCERTO: Tomás Marques Quinteto
EstarreJazz 2019
Cine-Teatro de Estarreja
03 Out 2019 | qui | 21:30


Embora não sejam propriamente uns ilustres desconhecidos, é para o Tomás Marques Quinteto que vão algumas palavras de apresentação, visto estarmos perante um projecto muito recente, feito de amigos com percursos diferentes, mas que têm no gosto pelo jazz e pela improvisação um denominador comum. Da vontade de tocarem juntos surgiu um primeiro concerto, em 2018, a partir do qual o estarrejense Tomás Marques decidiu afirmar a banda, arregaçando as mangas e dando asas à sua veia artística através da criação de um conjunto de músicas pensadas especificamente para o novo agrupamento. Explorando um vasto naipe de sonoridades, o Tomás Marques Quinteto tem hoje para oferecer um jazz moderno onde se percebem influências que vão da mais pura ortodoxia jazzística ao gosto pela electrónica, aventurando-se por caminhos onde a experimentação e o improviso se afirmam de forma irreverente e inspiradora.

Com o muito jovem Tomás Marques no saxofone, Augusto Baschera na guitarra, Óscar Marcelino da Graça nos teclados, Rodrigo Correia no contrabaixo e Diogo Alexandre na bateria, o quinteto teve honras de abertura da 14ª edição do EstarreJazz e mostrou-se enorme em talento e virtuosismo. Para Tomás Marques foi quase uma repetição, depois de ter estado em palco no primeiro dos seis dias do EstarreJazz 2018, então com o contrabaixista Bernardo Moreira a liderar um quinteto que fez as delícias do público num concerto de homenagem a Carlos Paredes. Também Óscar Marcelino da Graça repetiu a presença em dois anos consecutivos, depois de ter integrado o Jeffery Davis Quinteto, num concerto de excelente memória. Para quem teve o privilégio de os voltar a escutar, estes foram momentos de confirmação da sua enorme qualidade, contribuindo de forma inestimável para um concerto que viveu em grande medida de apontamentos individuais. Neste particular aspecto, Augusto Baschera revelou-se um gigante entre gigantes, os seus solos de guitarra proporcionando alguns dos grandes momentos da noite.

“Neve”, “Mel”, “Light”, o irreverente “Medieval Future”, “Areias Passadas” ou “Window”, o único tema que não conta com a assinatura de Tomás Marques, foram páginas delicadas dum álbum sorvido com deleite página a página, convidando a atentar no detalhe. O resultado final obriga-nos a olhar para estes jovens e para a sua música com redobrada atenção. Sobretudo Tomás Marques, pela clareza do seu fraseado enquanto compositor e intérprete, pelas ideias e emoção postas na sua música, revela-se um instrumentista de enorme potencial, com uma capacidade de composição invejável. Chega a ser comovente a forma como, propositadamente, se esconde na sombra dos restantes instrumentistas, para os quais escreve de forma claramente dirigida, dando-lhes o devido e merecido protagonismo. Músicos e público, todos saímos a ganhar!

[Foto: Isabel Pinto / facebook.com/isabel.pinto.127]

domingo, 14 de outubro de 2018

CONCERTO: Marta Hugon



CONCERTO: Marta Hugon
Estarrejazz 2018
Cine-Teatro de Estarreja
12 Out 2018 | sex | 21:30


Depois de aqui ter estado, em 2014, a celebrar o Dia Mundial do Jazz, Marta Hugon regressou a Estarreja na noite da passada sexta feira para um concerto inserido no Estarrejazz 2018. A acompanhá-la em palco estiveram Ana Cláudia Serrão no violoncelo, João Hasselberg no contrabaixo, Pedro Branco na guitarra e Joel Silva na bateria, o suporte perfeito para uma voz quente e harmoniosa, desta vez a cantar exclusivamente em português. Terá sido esta a grande novidade do concerto, ao longo do qual foi possível apreciar a apaixonante combinação entre a poesia e a música e antever o novo trabalho da cantora, previsto para 2019.

Com arranjos de Luis Figueiredo, as canções interpretadas por Marta Hugon levaram o público numa viagem por geografias dispersas à volta do mundo, mas também numa viagem ao interior de cada um, carregada de palavras meigas, de sonho e magia. Por ritmos quentes e adocicados, “Praia” levou-nos a Cabo Verde; “Sicília” foi um passeio pelo eterno jardim do Mediterrâneo, a guitarra de Pedro Branco a impor-se e a mimetizar um bandolim nos acordes finais; “Fugaz”, o tema que abriu o concerto, foi também ele uma viagem ao som dos ritmos latinos, o Caribe aqui tão perto; e houve ainda Angola, no tema “Nascer Outra Vez”, um poema lindíssimo de José Eduardo Águalusa para a música de Luís Figueiredo.

Mas este foi também um concerto de palavras, a condição da língua portuguesa em plano de evidência, Marta Hugon a provar que o Jazz cantado em português tem mais encanto. Joana Espadinha, Francisca Cortesão, Afonso Cabral, Nádia Schilling, Filipe Melo ou a própria Marta Hugon para isso muito contribuíram, as suas letras e músicas a abrirem-se de forma intensa e sensível em temas como “Pressa”, “Lado Lunar”, “Longe”, “A Voz” ou “Beija-Flor”, este último do álbum “Bittersweet” (2016) e “reciclado” para português. Já no “encore”, uma cedência à língua inglesa para a interpretação de um dos seus maiores êxitos, o dolente “Swim Slow”, do álbum “A Different Time” (2011) , a encerrar uma noite de emoções à flor da pele. Agora só podemos pedir que o disco saia depressa enquanto vamos sonhando com o prazer do reencontro.

sábado, 13 de outubro de 2018

CONCERTO: Jeffery Davis Quinteto



CONCERTO: Jeffery Davis Quinteto
Estarrejazz 2018
Cine-Teatro de Estarreja
11 Out 2018 | qui | 21:30


Enquanto o seu mais recente trabalho não vê a luz do dia, o Jeffery Davis Quinteto vai-se apresentando em palco e revelando ao público a sua música. Foi assim na abertura da segunda semana do Estarrejazz 2018, em ambiente marcadamente intimista, o virtuosismo e cumplicidade dos cinco músicos a espelhar-se em composições de grande riqueza melódica e rítmica. Jeffery Davis no vibrafone, Óscar Marcelino da Graça no piano, José Soares nos saxofones alto e soprano, Francisco Brito no contrabaixo e Marcos Cavaleiro na bateria proporcionaram momentos de enorme prazer a todos os presentes, uma onda relaxante a invadir a sala, as mentes libertas por sonoridades harmoniosas, navegando num mar de calma e felicidade.

“Who said monopoly is fun” foi o tema que abriu o concerto, logo aí se percebendo o lugar de destaque que o vibrafone viria a ocupar no naipe completo de instrumentos, revelando-se em toda a sua versatilidade nas mãos de Jeffery Davis. “The Man From Hills” e, sobretudo, “Gray”, reforçaram uma certa tendência “smooth” do concerto, as paisagens sonoras delicadamente esculpidas. “Mr. Bloom” ofereceu um jogo de alternância entre o saxofone e o vibrafone que fez as delícias do público e “For Mad People Only” e “Obsession” permitiram perceber quão determinantes são a bateria e o contrabaixo no desempenho global do Quinteto.

“Monkey Business” encerrou o concerto da melhor forma mas antes disso tivemos “Between a Rock and a Hard Place”, quiçá o momento alto do concerto, o piano de Óscar Marcelino da Graça e o vibrafone de Jeffery Davis a dialogarem de forma magistral, um cheirinho de Gary Burton e Chick Korea a espalhar-se pelo Cine-Teatro de Estarreja, para gozo e gáudio de um público absolutamente rendido. Foram quase hora e meia de concerto mas ninguém deu pelo tempo passar. Na memória perdurará o prazer da grande música, alicerçada na magia e sensibilidade desse grande vibrafonista e compositor que é Jeffery Davis. A não perder de vista!

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

CONCERTO: Quinteto Bernardo Moreira | Entre Paredes



CONCERTO: Quinteto Bernardo Moreira | Entre Paredes
Estarrejazz 2018
Cine-Teatro de Estarreja
04 Out 2018 | qui | 21:30


Foi ao tom da música de Carlos Paredes que arrancou o Estarrejazz 2018, a cumprir este ano a sua 13ª edição. Em palco, o Quinteto de Bernardo Moreira homenageou o mais notável guitarrista da história da música portuguesa, um dos raros vultos a recolher a unanimidade de opiniões e a ser reconhecido como um génio. Uma homenagem que foi, acima de tudo, a revisitação dum músico muito querido a Bernardo Moreira e um regresso, quinze anos depois, ao universo de “Ao Paredes Confesso”, disco que ocupa um lugar deveras importante na história do jazz em Portugal.

Com Tomás Marques no saxofone, Gonçalo Neto na guitarra, o mano João Moreira no trompete e João Pereira na bateria, Bernardo Moreira optou por um alinhamento onde privilegiou as mais conhecidas de Paredes, “Mudar de Vida” servindo de ponto de partida a uma viagem simbiótica entre dois universos riquíssimos. Temas como, “Canto do Amanhecer”, “Sede e Morte”, o lindíssimo “Dança dos Montanheses” ou “Variações sobre uma Dança Popular”, que encerrou o concerto, puseram à prova o quinteto no seu todo, fazendo sobressair a qualidade individual dos seus elementos, os solos inspirados a sucederem-se e a mostrarem a versatilidade do Jazz num universo tão próprio quanto o de Paredes. “António Marinheiro” constituiu outro dos grandes momentos do concerto, mas foi com “Verdes Anos” - dialogo intenso e inebriante entre a guitarra de Gonçalo Neto e o contrabaixo de Bernardo Moreira - que a beleza e emoção atingiram o zénite.

Tratou-se de um concerto intimista, reforçado pelo cuidado extremo no fraseado dos metais – chapelada para o rigor e maturidade do muito jovem Tomás Marques, a “jogar em casa” -, a homegeneidade tímbrica a criar um envolvimento muito especial com a genialidade de Paredes e a conferir ao concerto um carácter próximo de um contexto popular. A isto respondeu o (pouco) público com entusiásticos aplausos, o corpo em movimento, a pulsação clara e enérgica a verter-se do palco para a plateia, uma viagem sonora feita de deslumbramento e deleite. Daquelas que apetece eternizar!