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domingo, 3 de outubro de 2021

CONCERTO: Septeto EstarreJazz



CONCERTO: “Septeto EstarreJazz”
EstarreJazz 2021
Cine-Teatro de Estarreja
02 Out 2021 | sab | 21:30


A segunda noite da presente edição do EstarreJazz trouxe ao palco do Cine-Teatro de Estarreja o Septeto EstarreJazz, formação que engloba a fina flor de um projecto musical maduro e com provas dadas e que tem visto nascer, crescer e afirmar-se no panorama jazzístico português algumas das suas maiores e mais reconhecidas figuras. Foi, pois, com alguma surpresa e frustração, que vimos a sala tão pouco preenchida de público para receber, aclamar e apoiar os seus, como que a confirmar que “santos da casa não fazem milagres”. E foi pena! Não só porque esta formação e estes músicos mereciam mais carinho, mais palmas e mais calor humano, mas sobretudo pela excelente noite que proporcionaram. Um alinhamento criteriosamente escolhido, fazendo realçar os diálogos entre os vários instrumentos, e interpretações inspiradas e de altíssimo nível foram a tónica do concerto, enchendo os corações de todos os presentes e levando-os a classificar o momento como precioso.

Com uma frente de saxofones - Domingos da Luz Henriquez, Miguel Valente e Ricardo Rosas no saxofone tenor e João Mortágua no saxofone alto - e uma retaguarda onde pontificaram Carlos Azevedo no piano e nos arranjos, João Fragoso no contrabaixo e Paulo Bandeira na bateria, o agrupamento soube gerir na perfeição os tempos das várias composições. Ora vibrantes, ora intimistas, em conversa aberta e diálogos mordazes ou nos mais confessionais solos, o septeto mostrou uma enorme desenvoltura e mestria musical mas, acima de tudo, uma superior cumplicidade, ingrediente maior em qualquer projecto musical. Poderia falar do “eco” do piano de Carlos Azevedo sobre os trechos líricos do saxofone de João Mortágua ou de Miguel Valente, da forma subtil como o contrabaixo de João Fragoso se imiscuiu no mais íntimo de cada peça ou no domínio da bateria de Paulo Bandeira, o riscar dos pratos a sugerir paisagens áridas, mas correria o risco de estender a crónica para lá do desejável. Fica a certeza de que, no todo ou na soma das partes, o grande beneficiado foi sempre o público.

O concerto abriu com três composições de Wayne Shorter - “Night Dreamer”, “Fee-Fi-Fo-Fum” e “This is for Albert” -, convidando à fruição plena de um jazz harmonioso e límpido, marcado por apontamentos intensos e breves de reconfortante improviso, a evidenciar um extraordinário domínio instrumental. Usando da palavra, Paulo Bandeira deixou vincado o quanto de emoção envolve este projecto, emoção essa que se espalhou pela sala com “Better Times”, de Steve Swallow, mas sobretudo com a maravilhosa composição de Thad Jones que é “A Child is Born” (trazendo à memória um concerto inesquecível do Avishai Cohen Trio, em Matosinhos, no Verão de 2019). A música de Steve Swallow voltou a escutar-se com “Let’s Eat” e as duas últimas composições trouxeram ainda mais vida, força e ritmo a um concerto memorável com “You Stepped Out of a Dream”, de Nacio Herb Brown e “Take the Coltrane”, de Duke Ellington e do próprio John Coltrane. Ao cabo de pouco mais de uma hora chegava ao fim um concerto aplaudido de pé e com todo o vigor, pese embora tal não fosse suficiente para trazer o septeto ao palco para o sempre esperado encore. Ficam os momentos de enorme beleza e partilha, e fica uma noite que se guarda na memória da forma mais grata.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

CONCERTO: "Axes"



CONCERTO: João Mortágua | AXES
Hot Club de Portugal
14 Dez 2019 | sex | 22:30


Foi em Estarreja, a sua terra natal, que João Mortágua deu os primeiros passos na música. Tinha então 7 anos de idade e até ao Conservatório, onde acumulou o estudo do piano com o saxofone, foi um pequenino passo. Seguiu-se a ida para Lisboa, a fim de estudar Ciências da Comunicação, e o ingresso na escola do Hot Club de Portugal. O resto condensa-se em intensas experiências musicais, um leque de ambiciosos projectos, muito trabalho e muito talento, o que faz dele, no presente, um dos maiores saxofonistas da cena jazz nacional. E foi precisamente João Mortágua quem, na noite da passada sexta-feira, regressou à mítica sala lisboeta - “o clube mais quente da capital” -, trazendo na bagagem uma proposta de revisitação do seu álbum “AXES”, de 2017, com a chancela da Carimbo Porta-Jazz.

Com Alexandre Lázaro e Pedro Vasconcelos nas baterias e, nos saxofones, José Soares, Hugo Ciríaco e Rui Teixeira, para além, naturalmente, de João Mortágua, o sexteto proporcionou momentos de excelência, recebendo o tributo de um público conhecedor e entusiasta, sob a forma de calorosos aplausos. “Bird Drible” deu o pontapé de saída do concerto, espalhando no ar uma energia contagiante, os saxofones a fazerem ecoar na sala ressonâncias campestres, a música dos Balcãs a impor-se como uma forte influência. Numa onda mais experimentalista, “Fadecafone” constituiu outro grande momento, os saxofones em roda livre na parte inicial do tema, para se irem ajustando aos poucos até se harmonizarem por completo, logo tudo “desfeito” com vibrantes solos de bateria para se voltar a recompor mais à frente.

O mais belo momento da noite chegaria com “Pyramidal”, uma composição inspiradíssima assente num diálogo intenso entre os saxofones de João Mortágua e de José Soares, o jazz fortemente irmanado com a música barrroca, para gozo e gáudio dos presentes. “Shiny Axe” e “Methall” mantiveram o concerto em alta, terminando com outra enorme composição, “Decablues”, Rui Teixeira a destacar-se como o grande saxofonista que é. Duas notas de cariz pessoal a terminar: A primeira para dizer o quanto gostei da música de João Mortágua, da tremenda evolução sentida desde que o vi pela primeira vez com a Big Band Estarrejazz, mas também da sua presença leve e descontraída em palco, deixando transparecer o quanto há de vigoroso e inovador no jazz que lhe corre nas veias. A segunda, para dar conta da emoção que senti em, pela primeira vez, assistir a um concerto de jazz nesta sala emblemática. O “dois em um” perfeito!

segunda-feira, 30 de abril de 2018

CONCERTO: "Big Band Estarrejazz convida João Mortágua"



CONCERTO: “Big Band Estarrejazz convida João Mortágua”
Cine-Teatro de Estarreja
29 Abr 2018 | dom | 17:00


Quando se assinala, em 190 países à volta do Mundo, mais um Dia Internacional do Jazz, recuamos doze horas na linha do tempo, ao encontro do concerto da Big Band Estarrejazz e do seu convidado, o saxofonista João Mortágua, que ontem mesmo, num Cine-Teatro de Estarreja despido de público, fez questão de, antecipadamente, marcar a efeméride. Pela segunda vez no seu historial, a Big Band Estarrejazz teve a dirigi-la Carlos Azevedo, um homem que se define acima de tudo como compositor mas que tem sido um importante protagonista do movimento jazzístico português, tanto no campo educativo – associou-se à fundação da Escola de Jazz do Porto nos anos 80 e criou a primeira Licenciatura em Jazz do país, na Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo (ESMAE), em 2001 – como performativo – partilha com Pedro Guedes, desde 1999, a Direcção Musical da Orquestra Jazz de Matosinhos.

Assente na enorme qualidade dos seus executantes que, embora muito jovens, são já uma certeza da cena jazzística nacional - casos do trombonista Rui Bandeira, dos saxofonistas Ricardo Rosas, Tiago Silva, Domingos Henriques, Miguel Valente e Tomás Marques, do pianista José Diogo, do guitarrista Ricardo Alves ou do contrabaixista João Fragoso - a Big Band Estarrejazz ofereceu um concerto de grande nível, interpretando alguns standards de maneira absolutamente genial. De “Just In Time”, do compositor britânico-americano Jule Styne ou “Do Nothing Till You Hear From Me”, do fabuloso Duke Ellington, as duas peças que abriram o concerto, a “Straight, No Chaser”, de Thelonious Monk, com direito a repetição, já no “encore”, o público foi brindado com momentos de grande qualidade e intensidade interpretativa, ao encontro de temas indelevelmente gravados na memória de todos e cujas sonoridades remetem para a sofisticação dum Cotton Club, para as Noites Escaldantes de Gere e Turner, para Nicolas Cage, perdido de bêbado, em Leaving Las Vegas ou para o que se quiser, desde que com o Jazz em pano de fundo.

Ainda antes da presença de João Mortágua em palco, foi possível escutar “Flight Of The Foo Birds”, de Neal Hefti e o já referido “Straight, No Chaser”, para logo de seguida o saxofone alto do “convidado-estrela”, como foi definido por Carlos Azevedo, começar a debitar magia. “Long Ago (And Far Away)”, de Jerome Kern, voltou a convocar o grande ecrã e Cover Girl, com Rita Hayworth e Gene Kelly. “There Will Never Be Another You”, de Harry Warren, imortalizado na voz de Chet Baker e aquele que foi o grande momento da tarde, com “Skylark”, de Hoagy Carmichael, num arranjo fabuloso de Bob Brookmeyer, completaram um concerto que teve uma revelação – com Carlos Azevedo a assumir-se como “o Mourinho das Big Band” -, uma provocação – com “vivas” reiteradas ao Tondela - e uma explosão (!) ... que não magoou ninguém!