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segunda-feira, 30 de setembro de 2024

LUGARES: Museu Fábrica da História - Arroz



LUGARES: Museu Fábrica da História - Arroz
Rua Dr. Dionísio de Moura, 5 - Estarreja
Horários | De terça-feira a sábado, das 10:00 às 18:00
Ingressos | Entrada gratuita


“São duzentas mulheres. Cantam não sei que mágoa
Que se debruça e já não mostra o rosto.
Cantam, plantadas n’água,
Ao sol e à monda neste mês de Agosto.

Cantam o Norte e o Sul duma só vez.
Cantam baixo, e parece
Que na raíz humana dos seus pés
Qualquer coisa apodrece.”

Miguel Torga

“O verde do arroz é o mais belo da natureza”. É Anabela Amorim quem o afirma, comparando a história do cultivo do arroz com a sua própria estória, “alguém que, transplantada, ganhou raízes numa região em que o lodo e a terra, a água e o céu, são as bases de um ecossistema único. Uma história da identidade do Baixo Vouga Lagunar (e)ternamente escrita com amor, sonho e muita resiliência.” Recupero estas palavras de um muito belo texto, editado aquando da inauguração do Museu Fábrica da História - Arroz, em Estarreja. Um texto de cariz pessoal, mas que espelha o viver e o sentir das gentes de Estarreja perante uma das marcas identitárias do seu território. Está dado o mote para uma visita ao mais recente equipamento cultural do Município, aberto ao público desde o passado dia 14 de Setembro e que tem para oferecer um mundo de saberes único, feito de histórias e memórias alicerçadas no “delicioso e gomoso bago único”, invólucro minúsculo onde cabem “anos, gerações, trabalhos, sonhos, desilusões, esperanças, vidas, amor.”

Entramos no Museu Fábrica da História - Arroz por uma rampa que conduz à recepção. Amplo, o espaço convida a uma pausa, adivinhando-se nas suas paredes robustas, em pedra viva, aquilo que foi a Hidro-Eléctrica de Estarreja. A fábrica principiou a laborar no dia 17 de Janeiro de 1922, época áurea do cultivo do arroz em toda a vasta região do Baixo Vouga Lagunar, encerrando definitivamente no final da década de 80, mas com um pouco de imaginação talvez ainda se consigam escutar as sons próprios da sua maquinaria, as conversas dos trabalhadores, as manobras dos vagões de carga na vizinha estação de caminho de ferro, a sirene da fábrica que, quatro vezes ao dia, assinalava o início e o fim da jornada de trabalho. Num dos espaços do átrio, uma curiosa instalação prende a atenção do visitante. Simulando a planta do arroz, dezenas de lâmpadas vão mudando de cor, marcando o ritmo do trabalho nos arrozais, os ambientes diurnos e nocturnos, a marcha inexorável do tempo que, no caso concreto, vai da sementeira ao cereal cozinhado e servido das mais variadas formas à mesa de cada um.

A palavra cabe agora a Juliana Cunha, coordenadora do espaço e figura vital nos processos de levantamento documental, implementação física e ordenamento museológico. Combinando um vasto conhecimento com a paixão que nutre por uma casa que sente como sua, começa por chamar a atenção para os belíssimos versos de Miguel Torga que recebem o visitante na subida ao piso superior. Aí somos brindados com um conjunto de painéis explicativos, harmoniosamente dispostos numa sequência envolvente, que nos levam ao encontro do arroz como símbolo de vida e prosperidade, do seu papel na alimentação, valor ecológico, importância económica e outras curiosidades. Uma velha debulhadora, um relógio de parede ou um maço de notas de mil escudos fazem brotar histórias mirabolantes, que Juliana Cunha partilha com emoção. Fundador da fábrica de descasque de arroz - a “Hidro-Eléctrica” de Estarreja -, Carlos Marques Rodrigues merece uma particular referência pela sua visão empreendedora e engenho. A construção da “turbina”, central de energia eléctrica situada no lugar da Quinta da Costa, é disso um bom exemplo, levando a fama da sua actividade aos centros de maior expansão.

Deixarmo-nos guiar ao longo do bonito e bem cuidado espaço é estar disponível para abraçar uma história que tem no território favorável, na água abundante e num povo de labor os impulsos perfeitos para alavancar a orizicultura na região. É saber que estamos perante o terceiro cereal mais produzido no mundo, o mais usado na alimentação humana e, também, que Portugal é o maior consumidor europeu de arroz. É ver que o arroz é trabalho, mas também pausa e animação. É “tropeçar” nos nomes dos equipamentos usados no processo de descasque, do classificador à tarára de limpeza, do branqueador ao separador paddy. É, enfim, escutar os testemunhos daqueles que à fábrica dedicaram parte das suas vidas, percebendo o seu envolvimento com um património que urge preservar. “De sabor único e bago sublime, o cultivo do cereal em território estarrejense é um reencontro com as técnicas, os métodos e os saberes tradicionais, e uma perfeita simbiose entre o homem e a natureza.” No início do próximo ano, será possível complementar a visita com uma aventura gastronómica no Restaurante que se prevê implementar no piso superior. Até lá, saboreie-se o que oferece o Museu Fábrica da História - Arroz, um espaço que tanto prazer nos dá.

sábado, 28 de setembro de 2024

FESTIVAL: ESTAU - Estarreja Arte Urbana 2024



FESTIVAL: ESTAU - Estarreja Arte Urbana 2024
Vários Locais
14 > 22 Set 2024

“É a primeira vez que venho a Portugal e estou a gostar muito. Tenho encontrado aqui muitos amigos.” As palavras são de Tellas, talentoso artista de Cagliari, na Sardenha, com quem troquei algumas palavras no decurso da visita que fiz a Estarreja e à sexta edição do ESTAU - Estarreja Arte Urbana 2024. A palavra “amigos” tem aqui um valor real, já que Tellas se referia a um conjunto de artistas que, tal como ele, têm passado por Estarreja, deixando a sua marca em peças de enorme beleza e significado. Amigos de outras paragens, de outros festivais, de quem se guarda o convívio, a troca de saberes e experiências, o nome e o traço nas peças que assinam, a partilha da paixão pela Arte Urbana. Amigos que se podem “rever” numa parede, num muro, num posto de transformação eléctrico ou num depósito de água. Não em Stavanger ou Grenoble, Montreal ou Brisbane, mas aqui bem perto, em Estarreja. E é isto, o ESTAU: Um ponto de convergência entre a arte e a cultura, uma forma de juntar a comunidade em torno das suas histórias e memórias, enfim, uma oportunidade única de ver ao vivo o trabalho dos artistas que vêm visitando Estarreja desde 2016, que fazem da rua o seu atelier e tornam a arte acessível a todos, difundindo-a e democratizando-a.

À semelhança das edições anteriores, também este ano o primeiro fim de semana do ESTAU foi dedicado ao conhecimento do território, permitindo aos artistas perceber melhor a realidade desta magnífica região do Baixo Vouga Lagunar. Nesse contacto inicial reside a força inspiradora que permite, nos dias seguintes, partir para o terreno com ideias bem assentes e trabalhar peças que, nos seus mais diversos estilos, são evocativas da identidade estarrejense e prestam homenagem à terra e às suas gentes. Parto ao encontro do trabalho acabado ou por acabar e, com a preciosa ajuda de Lara Seixo Rodrigues, traço o meu próprio roteiro. Começo pelo centro da cidade onde, no Mercado Municipal de Estarreja, a ilustradora e artista visual Barbara R. põe em prática “Exquis”, resultado de uma acção comunitária com alunos da turma de Artes do 12º ano da Escola Secundária de Estarreja. Rumando a Sul, a próxima paragem é Salreu, onde o argentino Facio presta homenagem ao Visconde de Salreu. De regresso a Estarreja, é tempo de apreciar o mural de Tellas que faz do depósito de água junto à Estação de Comboios um espaço viçoso e verdejante, que mescla a realidade com a abstracção.

Preparo-me para seguir rumo ao Bairro da Teixugueira quando, ao fazer a manobra, vejo pelo retrovisor, mesmo atrás de mim, uma estranha personagem a passear-se com um carrinho de compras do supermercado. É Jaune, artista de nacionalidade belga, que tem como protagonistas das suas humorísticas instalações e quadros, funcionários de limpeza urbana, trabalho que o próprio exerceu durante algum tempo. No caso de Estarreja, o alvo da sua homenagem foram os bombeiros, verdadeiros heróis no combate aos incêndios que devastaram áreas enormes dos concelhos vizinhos de Oliveira de Azeméis e Albergaria-a-Velha, e que se podem encontrar um pouco por toda a cidade, em muros e bancos, em portas e caixas eléctricas. No Bairro da Teixugueira, por fim, vejo como o espanhol Sojo interpreta, de forma singular, o Carnaval de Estarreja. A viagem de regresso faz-se pela EN 109 onde, num dos muros que delimitam os terrenos da Bondalti, se abre ao nosso olhar a “missão impossível” de Bigod, jovem artista de Benfica do Ribatejo que evoca os que (ainda) trabalham a terra. E digo “missão impossível” porque o multicolorido mural, onde não faltam os tractores, tem só 540 metros. De fora ficou Tiago Hesp e o trabalho que desenvolveu numa casa isolada nas margens do Esteiro de Salreu, praticamente inacessível num período que coincidiu com as marés vivas na Ria de Aveiro.

Mas não acaba aqui o ESTAU - Estarreja Arte Urbana 2024. Rico e variado, o programa integrou um vasto conjunto de oficinas, visitas guiadas, cinema, exposições, instalações e concertos. E é justamente de duas destas iniciativas que quero dar nota, visto ter participado em ambas (e me ter deixado encantar). A primeira é “O Som da Fábrica”, oficina desenvolvida pela Frenesim Cooperativa Cultural, com a Rita Campos Costa e o José Figueiredo como formadores. Dividida em três fases, a oficina convidou os participantes a viver e sentir os ambientes do recém inaugurado Museu Fábrica da História - Arroz. O resultado foi uma peça sonora inspirada e animada, feita de nomes, frases, sons, cantares e ambientes únicos. A segunda trata-se do “Gamelão de Porcelana e Cristal”, instalação sonora desenvolvida pela Companhia de Música Teatral, na pessoa de Mariana Miguel. “Instrumento musical coletivo” constituído por centenas de peças de porcelana, faiança, grés, vidro e cristal, o gamelão reuniu à sua volta um numeroso grupo de pequenos artistas, fascinados com o som extraído de tão exótico instrumento, cientes de estarem a fazer música. Fascínio que me invadiu, igualmente, não só pela competência da Mariana, pela sua mímica coontagiante e pel forma como soube cativar a plateia, mas também por ter podido experimentar um objeto visual versátil e de tanto encanto.

domingo, 25 de setembro de 2022

INSTALAÇÃO: "Entre Agulhas - Um Novo Olhar Sobre o ESTAU"


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INSTALAÇÃO: “Entre Agulhas - Um Novo Olhar Sobre o ESTAU”
Projecto “Entre Agulhas”
ESTAU - Estarreja Arte Urbana 2022
Varanda dos Paços do Concelho
13 Set > 14 Out 2022


Desenganem-se aqueles que pensam que o ESTAU - Estarreja Arte Urbana se limita à concepção de murais. Um olhar rápido sobre o programa permite perceber que há toda uma série de actividades a decorrer em paralelo e que, no seu todo, fazem do Festival uma grande festa. Das instalações artísticas “Provocar a Paisagem” e da exposição de fotografia “Fábrica de Histórias”, já me debrucei aqui de forma circunstanciada. Espero ainda falar de João Carlos Celestino Gomes e do seu trabalho de ilustração que está patente na Casa da Cultura e toma o delicioso título de “João, Querido Amigo”. Mas a oferta desta quinta edição rodou igualmente em torno de manifestações artísticas tão diversas como o teatro, a música e o cinema, as conversas com os artistas, os workshops e as visitas guiadas, acrescentando-lhe variedade, qualidade e interesse. Destas não falarei, porque as não vi. Há, contudo, um momento do qual quero falar, do qual é obrigatório falar. Trata-se da instalação “Entre Agulhas - Um Novo Olhar Sobre o ESTAU” e que, até ao dia 14 de Outubro, embeleza a fachada dos Paços do Concelho, bem no coração da cidade.

Combinação de quadrados e retângulos bordados e ligados entre si, de cores harmoniosas e dimensões generosas, a peça impõe-se pelo seu significado e beleza. Não passará despercebida aos muitos que atravessam em passo apressado a Praça Francisco Barbosa, embora nela não consigam ver mais do que uma simples colcha. Se a olharmos com atenção, porém, é uma singela e sentida homenagem ao ESTAU aquilo que se abre ao nosso olhar, numa fusão de saber e tradição com a arte e a cultura. Uma tecedeira, a fachada de uma casa, uma mãos que se estendem, uma viola, um rosto de todos conhecido, peixes, aves e plantas, saltam das paredes e muros das casas para as linhas e tecidos e, com bom gosto, dedicação e muito amor, trazem com eles os nomes de Millo e Ana Maria, Camilla Watson e Mohamed L’Ghacham, Fintan Magee e The Caver, Kruella d’Enfer, Pedro Podre e todos os outros que, com engenho e talento, vêm fazendo de Estarreja um verdadeiro museu de Arte Urbana. Neste labor entre agulhas, nem mesmo a artista polaca Nespoon faltou à chamada, ainda que o seu maravilhoso bordado tenha deixado de fazer parte do “reino dos vivos”.

Chegar até este “Entre Agulhas - Um Novo Olhar Sobre o ESTAU” convida a percorrer um caminho que cruza a cultura e o lazer com a arte e os saberes, num exercício feito de paixão, afectos, memórias, competências, cumplicidade e solidariedade. Criado em 2018 no âmbito do Programa “Viver +”, o projecto “Entre Agulhas” é dinamizado pelo Laboratório de Aprendizagem Criativa da Câmara Municipal de Estarreja. Cruzando a Acção Social com o Turismo e a Cultura, esta é uma forma de dar resposta aos desafios relacionados com a longevidade e o envelhecimento da população, valorizando a aprendizagem ao longo da vida e a educação pela arte. Neste ano de 2022, o “Entre Agulhas” envolveu utentes de dez instituições locais e ainda uma instituição da Torreira, no vizinho concelho da Murtosa, fazendo da Arte Urbana o seu mote e pondo em evidência as capacidades, competências, saberes e cultura das pessoas envolvidas, num exercício que é também uma forma de valorizar a sua auto-estima e a sua auto-confiança. Até ao dia 14 de Outubro ainda vai a tempo de apreciar a peça e de se deixar surpreender.

[Foto gentilmente cedida por Ana Paula Lapas]

terça-feira, 20 de setembro de 2022

CERTAME: ESTAU Estarreja Arte Urbana 2022


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CERTAME: ESTAU – Estarreja Arte Urbana 2022
Estarreja, vários locais
10 Set > 18 Set 2022


Domingo, dez da manhã. O amontoado de nuvens no céu não impede o sol de brilhar e adivinha-se um dia de muito calor. A caminho de Ribeira de Aldeia, o verde dos milheirais preenche o olhar. No centro de Pardilhó, são muitos aqueles que gozam a sombra do jardim público e põem a conversa em dia. Estamos no último dia do ESTAU – Estarreja Arte Urbana e importa apreciar devidamente o resultado final desta quinta edição. Vou ao encontro de Bordalo II, um dos mais conceituados artistas a nível mundial, um génio a transformar o desperdício em arte. A expectativa não sai gorada, já que a visão da peça não poderia ser mais impactante. Verdadeiro ex-libris da fauna da Ria, majestosa no seu voo, uma Águia-sapeira repousa agora numa parede lateral do Centro de Interpretação de Construção Naval. Bico curvo, olho vivo, parece espreitar a presa que, incauta, ignora a sua presença. É inevitável fazer a ponte entre esta Águia-sapeira e o Guarda-rios que, desde 2015, embeleza parte de uma parede do Pavilhão Multiusos de Estarreja e que, nesse ano, alcançou o 9º lugar entre os 100 melhores murais de Arte Urbana do mundo. O entusiasmo em torno da peça foi determinante para o lançamento, no ano seguinte, da primeira edição do ESTAU. O resto, é o que se sabe. A cidade possui hoje um espólio invejável de mais de quatro dezenas de obras de extraordinária qualidade e é, indiscutivelmente, um dos grandes museus de Arte Urbana a céu aberto em Portugal.

A visita prossegue e o ponto de paragem seguinte é um tanque industrial da empresa Bondalti, no Parque Químico de Estarreja. Intervencionada pelo brasileiro Thiago Mazza, a peça não se encontra ainda finalizada, mas não deixa de encantar pela cor e vida que dela se desprendem, rasgando o cinzentismo das complexas estruturas industriais , com as suas torres fumegantes a perder de vista. Embora não lhe tenha atribuído um título, Thiago diz-me que poderia muito bem ser “Colecta”, remetendo para o trabalho de recolha de plantas que povoam o vasto espaço da BioRia. Da dedaleira à madressilva, da soagem aos bons-dias ou ao lúpulo, são as flores, com as suas cores, que se destacam nesta peça, ao mesmo tempo chamando a nossa atenção para factores como a sustentabilidade e o equilíbrio num mundo a viver uma gravíssima crise ambiental. Profundamente naturalista é também a peça que Daniela Guerreiro projectou numa parede de Salreu, uma das freguesias a sul do Concelho. Ainda por finalizar e, ao que julgo saber, sem nome, o trabalho da artista mostra-nos umas mãos com as veias salientes, segurando um punhado de plantas, onde se destaca o arroz. Serão mãos de mulher, certamente idosa, os pés enfiados na terra húmida, o corpo vergado no árduo labor de uma vida a retirar dali o sustento. Um mural que é um gesto de amor à terra e àqueles que a trabalham.

Um pouco mais a sul, na vizinha freguesia de Canelas, é a marca do projecto “Ruído”, dos artistas Frederico Draw e Rodrigo Contra, que podemos apreciar. A peça está concluída e é uma homenagem a um dilecto filho da terra, Francisco Joaquim Bingre, aqui nascido em 09 de Junho de 1763. Poeta arcadiano, muito influenciado pelo pré-romantismo, Francisco Bingre compôs uma vasta obra distribuída, entre outros, por sonetos, odes, sátiras, madrigais e hinos. Dos colegas literários recebeu o cognome de "Cisne do Vouga" e viria a ser alvo de homenagem daquela que é hoje a mais antiga colectividade do Concelho de Estarreja, a Banda Bingre Canelense, que desde 1932 se designa desta forma. São estes os elementos constantes no mural, com particular destaque para a interpretação da figura de Francisco Bingre e para a forma como o resultado se integra na composição. Mas, também, para os cisnes, muito belos, que vieram acrescentar cor à reduzida paleta que caracteriza os “Ruído”. Com o calor a apertar entramos na cidade. Junto à Estação de Caminhos de Ferro espera-nos um mural que recria o casario da zona, os comboios que percorrem a via férrea, os campos de cultivo que se abrem do outro lado da linha e se estendem até à Ria, a fauna e a flora características. Sob a orientação da artista Pitanga, os alunos vencedores do projeto “Muros Com Vida – Eco-Escolas”, da Associação Bandeira Azul da Europa, desenvolveram um trabalho que é, todo ele, uma explosão de cor e alegria, ganhando um novo significado através deste olhar terno e sensível sobre um território impar, que fazemos questão de preservar e valorizar.

Antes de visitarmos as duas últimas peças, uma palavra para Mário Afonso e o seu “Roteiro na cidade”. Distribuído por seis “estações”, o percurso está construído com base num conjunto de imagens do Arquivo Municipal que, depois de serem transformadas em cianotipias, foram impressas em azulejo. Um roteiro que remete para o espaço da memória, convocando o olhar entre o antes e o depois e abrindo portas à reflexão sobre as transformações às quais, tal como o espaço envolvente, vamos sendo sujeitos. Estarreja é indissociável do seu Carnaval e é esse o tema abordado por Mariana Duarte Santos num mural de grandes dimensões, bem no centro da cidade. Reproduzindo fielmente um conjunto de fotografias do Arquivo Municipal, a artista trabalha igualmente a memória, lembrando outros tempos e outros “carnavais”. A composição revela-se particularmente feliz e na parede, como se estivessem sobre uma mesa, as imagens pedem que as olhemos atentamente, que as sintamos, que falemos delas e com elas. Por fim, Pantónio e a ingrata tarefa de resumir este seu trabalho em duas ou três frases. É quase redundante dizer que o seu traço característico se mostra mais depurado que nunca, que é único o equilíbrio que resulta da interação da pintura com os elementos envolventes ou que a simbiose entre animais e plantas, entre orgânico e inorgânico, adquire nesta sua obra um significado de grandeza maior. O melhor é cada um de nós espreitar a peça, deixar-se sugar por ela, encher-se de vida e ser parte de um mundo onde reina a harmonia, a esperança e a felicidade. Vão por mim!

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Fábrica de Histórias"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Fábrica de Histórias”,
de Carlos Gomes
ESTAU - Estarreja Arte Urbana 2022
Fábrica da História - Arroz (Antigo Descasque)
11 Set > 18 Set 2022


Senta-te, como quando te sentas em frente a um espelho. Conta-me o que guardaste dentro de ti… “_____ Esta história que contamos _____ é a história de todos _____ e de cada um. _____ Começa em 1922 _____ Tinha 16 anos quando entrei para a fábrica. _____ Atravessa a Segunda Grande Guerra Mundial. _____ Esteve paralisada durante 10 anos. _____ É a história de todos _____ e de cada um. _____ É a história dos dias repetidos _____ Eu fui para lá em 1975 _____ É a história de todos os que viveram o seu fim. _____ À frente de ti, olho-te de novo e as lágrimas vêm-me aos olhos. _____ Vejo tudo abandonado. Tudo partido _____ O que pode sonhar um trabalhador quando a sua fábrica fecha? _____ Que gestos ainda duram para além da memória? _____ Esta é a minha fábrica. _____ Qual é a tua? _______________” (in, “Fábrica de Histórias”)

É no espaço da antiga Hidro-Eléctrica de Estarreja – Fábrica de Descasque de Arroz, no preciso lugar onde começa a erguer-se um núcleo museológico cuja missão primeira consiste na preservação das memórias da cultura do arroz neste concelho do Baixo Vouga Lagunar, que pode ser vista, ao longo da semana, a exposição de fotografia “Fábrica de Histórias”, da autoria de Carlos Gomes. Fotógrafo de cena, teve o “privilégio”, como o próprio refere na folha de sala que acompanha a exposição, de acompanhar o processo criativo homónimo, com texto e direcção de Ricardo Correia, numa produção da Casa da Esquina - Associação Cultural. O projecto foi apresentado à população estarrejense no terceiro fim de semana do passado mês de Junho, sob a forma de Visita Guiada aos espaços onde começa a nascer a Fábrica da História – Arroz. Os registos de Carlos Gomes, que podem ser agora apreciados nesta belíssima exposição, resultam numa “imersão no tempo”, documentando uma “viagem e experiência histórica a um passado recente” que importa preservar.

Entre a cor e o preto e branco, o trabalho de Carlos Gomes toca o visitante pela sensibilidade que se desprende do seu olhar nesta espécie de regresso ao passado, neste avivar de memórias na afirmação de marcas identitárias únicas e insubstituíveis. Não participei nas visitas guiadas, não senti de perto a emoção dos testemunhos que, na voz e nos gestos dos actores, ousaram lançar luz sobre o que repousava nas trevas do esquecimento. Mas adivinhei essa emoção nos admiráveis registos fotográficos que nos são agora oferecidos, cada imagem como “um momento de reparação desta ferida aberta que está a ser curada”. Apreciá-los, escutando em pano de fundo as palavras de antigos operários, elas no rotineiro labor de ensacar o arroz em saquinhos de serapilheira, eles com as funções mais pesadas da descarga dos vagões ao trabalho com a maquinaria. Entre todos, uma familiaridade enorme e uma cumplicidade cimentada no esforço de entreajuda, nas partidas que uns pregavam aos outros ou na partilha de momentos bons e menos bons. Uma exposição que é, sobretudo, um contributo para a compreensão do passado e a construção de um melhor futuro.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

CONCERTO: Roberta Sá & Daniel Jobim | Chega de Saudade



CONCERTO: Roberta Sá & Daniel Jobim | Chega de Saudade
EstarreJazz 2021
Cine-Teatro de Estarreja
04 Out 2021 | seg | 21:30


Olhando para trás no tempo, terei de recuar ao dia 24 de Fevereiro de 2020 para me lembrar de um concerto com lotação esgotada ao qual tenha assistido. Na altura, Eliades Ochoa convidava a “bailar un son” e o Tivoli BBVA revivia as grandes noites de festa, o público expectante no contacto com a grande música cubana na voz de um dos seus maiores intérpretes, o calor dos aplausos, no final os comentários que começavam no foyer do teatro e se prolongavam para o exterior numa corrente de entusiasmo e admiração. Foi preciso esperar 588 dias para voltar a sentir o mesmo. Demasiado tempo, demasiadas emoções reprimidas, demasiada cultura em pausa… Em tempo de olhar para a frente, “Chega de Saudade” seria sempre, ainda que apenas por essa nota de esperança no regresso à normalidade, um marco incontornável. Mas a grande música brasileira espalhou-se pela sala e inundou-nos de ritmo e de cor, tornando ainda mais alegre o momento. Daniel Jobim no piano e na voz, Paulo Jobim na viola, Paulinho Braga na bateria, Jacques Morelembaum no violoncelo e Roberta Sá na voz foram de uma entrega e de uma verdade ímpares, oferecendo a melhor música de António Carlos Jobim e prestando-lhe um sentido tributo.

Após um medley introdutório, “Samba De Uma Nota Só” foi o definitivo arranque de uma noite inesquecível. Alegre, vibrante, “Samba do Soho” surgiu na voz de Paulo Jobim, filho de António Carlos. Se lhe acrescentarmos a voz de Daniel Jobim, filho de Paulo e neto de Tom, percebemos o quão intimista o momento se figurou, as três gerações unidas, o mesmo ADN musical a revelar-se em todos os vincos, a figura tutelar de um dos grandes fundadores da Bossa Nova sempre presente. O show prosseguiu com “Bonita” a anteceder a chegada da muito bonita Roberta Sá ao palco. Entrou-se, então, em velocidade de cruzeiro, o extraordinário som da música popular brasileira e os seus poemas de amor tão bem expressos em temas incontormáveis como “Desafinado”, “Água de Beber”, “Só Tinha de Ser Com Você”, “Você Vai Ver”, “Sabiá”, “Caminhos Cruzados” e “Modinha” - “Não seja a vida sempre assim / Como um luar desesperado / A derramar melancolia em mim / Poesia em mim / Vai, triste canção, sai do meu peito / E semeia a emoção / Que chora dentro do meu coração”.

A segunda metade do concerto subiu ainda mais o tom, reforçando a certeza da universalidade da música de António Carlos Jobim. Também as figuras de Vinicius de Moraes e João Gilberto, tal como de Chico Buarque de Hollanda, fizeram sentir-se com enorme força. Daniel Jobim foi tocante na interpretação a solo de “Luiza” e Jacques Morelembau esteve incrível numa versão instrumental de “Retrato em Branco e Preto”, os dois momentos mais intimistas da noite. Num crescendo, à medida que o final se aproximava, o público foi soltando a garganta e mostrou o quão especial é o lugar que a música de Tom Jobim ocupa nos seus corações. “Wave”, “Corcovado”, “Insensatez”, “Só Danço Samba”, “Garota de Ipanema” e “Chega de Saudade” foram cantados com emoção, como se de um fado de Amália se tratasse. Daí os gritos e as palmas, os risos e, certamente, algumas lágrimas também (na sala, o coração dos muitos brasileiros que fizeram questão de marcar presença no concerto ter-se-á apertado não poucas vezes). O muito reclamado e saudado “encore” foi preenchido com “Águas de Março”. “É pau, é pedra, é o fim do caminho”. Um momento para recordar também Elis Regina. Mas chega de saudade!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

CINEMA: "Pé de Feijão"



CINEMA: “Pé de Feijão”
Edição e realização | António Pinto, Paulo D Alva
Argumento e guião | Leandro Ribeiro, Paulo D Alva
Imagem e som | António Pinto e Paulo D Alva
Edição de fotografia | António Pinto
Cenografia | João Barros, Leandro Ribeiro, Mónica Amaral
Coreografia e figurinos | Gabriela Frutuosa
Música | Rodrigo Leão, Júlio Pereira, Tó Trips
Coordenação do projecto | Mónica Amaral
Interpretação | André Sobral, Simão Ribeiro, Firmino Matos, Beatriz Pinto, Laura Barros, Maria Adelaide, Zelinda Moutela, Joaquim Duarte, Leandro Ribeiro, David Ricardo Leão (tamborileiro) Clara Oliveira (voz off), crianças do projecto Di-Ver(s)ão
Produção | Cerciesta – Cooperativa para a Educação e Reabilitação do Cidadão Inadaptado de Estarreja, C.R.L.
DiferenciArte – VIII Festival de Artes
Cine-Teatro de Estarreja 
16 Dez 2020 | qua | 19:00


“Ser luz não é sobre brilhar mas sim sobre iluminar caminhos.”

Obrigada a reinventar-se em plena crise pandémica, foi na sétima arte que a Cerciesta – Cooperativa para a Educação e Reabilitação do Cidadão Inadaptado de Estarreja, C.R.L. concentrou interesses e vontades no sentido de dar vida à VIII edição do DiferenciArte. E foi no grande ecrã do Cine-Teatro de Estarreja que o resultado deste projecto inclusivo se deu a ver, ao jeito de “prenda de Natal”, resultando num momento de enorme significado e emoção que elevou a expoentes de grandeza superior o primado do “todos diferentes todos iguais”. Mas seria profundamente injusto reduzir “Pé de Feijão” a um mero filme. Aliás, importa sublinhar que “Pé de Feijão” é, sobretudo, entrega, dádiva, brilho, afecto, ternura, partilha, bondade, concórdia, amizade, paz. E é, circunstancialmente, também um filme.

Fruto de um grande envolvimento por parte da comunidade de utentes da Cerciesta, do dinamismo de artistas e técnicos criativos e competentes e de um conjunto de inestimáveis apoios, tanto a nível logístico como ao nível de preciosos adereços, “Pé de Feijão” convida o público a viver a história de David, filho de um simples moleiro, cujo sonho é vir a ser bailarino. Uma espécie de fábula dos nossos tempos, assente num delicado argumento de Leandro Ribeiro e Paulo D Alva, na qual os “pozinhos de perlimpimpim” mais não são do que a farinha que se espalha no ar e há todo um mundo de sonhos que giram tal qual as velas de um moinho. Virando as costas ao ofício de moleiro, David vai agarrar o destino com mãos ambas e, contando sempre com o apoio do pai, acabará por se afirmar como a estrela entre as estrelas nos grandes palcos do mundo.

Metáfora de uma vida que cresce ao correr do sonho, “Pé de Feijão” é sobretudo uma enorme lição de querer. Querer, desde logo, pela reiterada desconstrução de conceitos como “normalidade” ou “padrão”, provando ser a arte um veículo para esbater diferenças e quebrar barreiras. Querer, também, pelo esforço de recriação de uma ruralidade que importa viva e próxima das terras e das gentes. Mas querer, acima de tudo, como sinónimo de resistência e teimosia, numa altura em que seria fácil baixar os braços. É emocionante perceber esta entrega e empenho no ecrã, desde a coordenação do projecto, a cargo de Mónica Amaral, até à cerca de meia centena de não actores que se afirmam nos seus desempenhos e à inclusão das crianças do programa Di-Ver(s)ão, verdadeiros artistas na arte de jogar à bola. Com “Pé de Feijão”, a Cerciesta e todos quantos a ela se associaram marcam um “golaço” nas balizas do preconceito, da demissão e do pessimismo, mostrando que a vida não pára e que o sonho é a última coisa a morrer.

[Foto: Cerciesta Estarreja | https://www.facebook.com/cerciesta]

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

FESTIVAL: ESTAU - Estarreja Arte Urbana 2020


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FESTIVAL: ESTAU – Estarreja Arte Urbana 2020
Vários locais
12 Set > 20 Set 2020


Após um ano de interregno, o ESTAU está de volta para a sua quarta edição. Ao longo de nove dias, o museu de arte urbana a céu aberto que é a cidade de Estarreja vê-se enriquecido com cinco novas peças que voltam a unir a identidade cultural do território, o seu património cultural e ambiental, as histórias que marcam a história deste singular território e, neste ano tão atípico, as pessoas que a fazem. É sobre elas, e em particular sobre este período que vivemos, que as obras de Gonçalo Mar e Daniel Padure nos falam, o primeiro homenageando os profissionais de saúde e o segundo reflectindo sobre os estados de alma durante a quarentena. Mais orgânicos, os trabalhos de Mariana Rio, Los Pepes Studio e Pedro Podre vão ao encontro das questões ambientais, reflectindo sobre este magnífico espaço de luz e cor que é o Baixo Vouga Lagunar, e sobre a coabitação entre o homem e a natureza. Refira-se que a curadoria destes trabalhos pertence a Lara Seixo Rodrigues, figura maior do universo da arte urbana e a quem se deve muito da projecção que certames como o ESTAU têm vindo a adquirir num contexto nacional e internacional.

Na parede virada a Este do Centro de Saúde de Estarreja, não longe dos trabalhos legados em edições anteriores por Akacorleone, Mohamed L’Ghacham e Add Fuel, Gonçalo Mar presta um tributo sentido aos profissionais de saúde, oferecendo-lhes o melhor da sua arte. Num trabalho de grande escala e de inegável beleza, o visitante deparar-se-á com uma figura identificável pela bata e pelo estetoscópio, em cujo rosto afloram um conjunto de elementos surrealistas onde predominam as plantas e que são a actual imagem de marca do artista. Juntando num mesmo quadro os “guerreiros da linha da frente” e a natureza, Gonçalo Mar lança um apelo à consciencialização colectiva para o impacto que os nossos gestos têm sobre o ambiente e lembra de que forma as dinâmicas criadas nos podem afectar tão contundentemente. À entrada da Rua da Agra, em Salreu, na rotunda de acesso a Estarreja vindo de Sul, o romeno Daniel Padure dá-nos a ver os efeitos do confinamento sobre as pessoas. Com um estilo de linhas simples e limpo, o artista aproveita as três faces do imóvel onde implantou o seu trabalho, desenvolvendo nove quadros que interagem entre si e que vão do silêncio da leitura, da alegria de uma música ou da energia do exercício físico ao mais profundo dos desânimos. É como um “manual para pessoas em quarentena”, mas cuja cor e vida transmitem optimismo e nos ajudam a encarar o futuro com a esperança de que vai ficar tudo bem.

Rumando mais a Sul, à localidade de Fermelã, vemos como Pedro Podre tira o melhor partido do Posto de transformação da EDP localizado na Avenida da Igreja para desenvolver a sua própria fábula em torno das cegonhas, essas aves elegantes que desde tempos imemoriais alimentam o nosso imaginário e que aqui enchem os ares com as sua beleza e elegância. É igualmente um trabalho de grande escala, com cores muito vivas e onde a interacção do homem com a natureza se revela de forma muito evidente. Na Rua Desembargador Correia Teles, bem no centro da cidade, como que dialogando com o enorme mural que Millo nos legou em 2018, Mariana Rio dá-nos a sua visão do meio envolvente a Estarreja. Num trabalho de enorme minúcia, particularmente influenciado pela sua base como ilustradora, a artista oferece-nos uma multiplicidade de elementos onde o mundo real, feito de campos de cultivo do arroz, duma vegetação luxuriante e dos esteiros da ria, se mistura e confunde com o imaginário pessoal, resultando numa peça de enorme significado e alcance. Finalmente, na freguesia de Veiros, junto ao polidesportivo local, os portugueses Margarida Prata e Francisco Leal, que formam a dupla Los Pepes Studio, apropriam-se das doze lâminas que se encontram no exterior do imóvel para desenvolver um trabalho com uma matriz marcadamente aritmética, feito de formas abstractas e oferecendo ao visitante a liberdade para fazer a sua própria interpretação. No caso concreto, as formas giram quase exclusivamente em torno de circunferências e linhas muito simples, cujos padrões sugerem o sol, os pássaros, as árvores, as ondas do mar. De novo o homem e a natureza na sua relação mais pura e simples.

O ESTAU prossegue até ao próximo domingo e o programa do fim de semana é rico e variado. No sábado, pelas 11h00, está prevista uma visita guiada ao roteiro de arte urbana para crianças dos 6 aos 12 anos, enquanto às 18h00, a visita terá a particularidade de ser acompanhada com linguagem gestual, tal como sucederá no dia seguinte, pelas 17h00. No domingo, pelas 10h00, a visita guiada é dirigida ao roteiro de arte urbana nas freguesias e, por certo, levará os participantes ao encontro de Tiago Galo (Pardilhó), Samina e Ana Maria (Salreu), The Empty Belly (Avanca), para além dos já citados Pedro Podre (Fermelã) e Los Pepes Studio (Veiros). Mas há mais, do percurso sonoro pelas ruas da cidade a um workshop de arte urbana ministrado por Gonçalo Mar, da animação de rua pelas bandas Visconde de Salreu e Bingre Canelense aos contos para a infância, da conversa sobre “Arte e Espaço Público” à apresentação da App Smart City “Sentir Estarreja”, do cinema com o documentário “Vertical Conquests”, de Rosa Chiara Scaglione aos concerto de Júlio Resende ou de Ana Mariano, é todo um mundo de propostas aliciantes que se oferece aos visitantes nesta festa da Arte Urbana. A programação completa pode ser encontrada AQUI.

domingo, 24 de novembro de 2019

TEATRO: "Ermelinda do Rio"



TEATRO: “Ermelinda do Rio”.
de João Monge
Encenação | Maria João Luís
Interpretação | Maria João Luís
Cenografia | José Carretas
Música | José Peixoto
Interpretação Musical | Miguel Leiria Pereira, Sofia Pires, Sofia Queiroz Orê-Ibir
Produção | Teatro da Terra
55 minutos | Maiores de 12 anos
Cine-Teatro de Estarreja
23 Nov 2019 | sab | 21:30


“Rebentaram as águas da terra, que está grávida de morte e lama”

1967 foi um ano seco e o Outono também começou sem chuva. Só no início de Novembro é que do céu desceu alguma água. Naquela noite, porém, a chuva caiu como nunca se vira e o dia 26 de Novembro acordou sob o signo da destruição e da morte. Os meteorologistas falam em “fenómeno anormal, excepcional mesmo à escala centenária, de grande concentração de chuva”, adiantando que a probabilidade de um evento destes acontecer é de uma vez em cada cem anos. Loures, Odivelas, Alverca, Alhandra, Arruda dos Vinhos, Castanheira do Ribatejo, Vila Franca de Xira, Carregado ou Alenquer foram localidades onde a chuva chegou a atingir os 170 litros por metro quadrado. Em apenas cinco horas, registou-se um quinto da precipitação verificada no ano inteiro. Só na aldeia de Quintas, duzentas pessoas (mais de um terço da população) foram engolidas pela lama. Foi a maior catástrofe natural que se abateu sobre a Grande Lisboa desde o terramoto de 1755.

Sob o signo da tragédia, escreveu João Monge “Ermelinda do Rio”, peça que o Teatro da Terra estreou no passado mês de Junho e que, nos caminhos da itinerância, passou na noite de ontem por Estarreja. Apresentado como “nocturno para voz e concertina”, com encenação e interpretação de Maria João Luís, “Ermelinda do Rio” é um “poema narrativo” que põe em diálogo uma mulher, sobrevivente da catástrofe, com a mãe, que teve o lodo do Tejo como a sua última casa. Entre ambas, a filha desta mulher que está longe, que decidiu partir com a promessa de enviar à mãe um postal por cada terra onde passasse e se visse a sorrir, tão feliz, tão sonhadora, tão parva!...”

Mais de 50 anos volvidos sobre “a noite do fim do mundo”, revive-se o drama em palco. O drama dos que partiram e dos que, milagrosamente, sobreviveram. O Ti Manel Charroco foi um dos que partiram. “(...) Era doido, as forças não o deixaram largar a casa. Encheu a concertina de ar e disse: 'Esta sempre me salvou, é o meu maior pulmão.' Entregou-se ao Tejo como quem se entrega a Deus e lá foi, com um sudário de lama, até onde o Tejo tem o destino. Ainda hoje, tantos anos depois, há quem oiça uma concertina a tocar nos areais do Bugio.” Os que ficaram guardam na memória o espanto e a dor: “Nunca mais comi peixe do rio. Já nem me lembra ao que sabe, mas sabe àquilo que não me quero lembrar.”

O Portugal de Salazar não quis que a tragédia falasse da sua real dimensão. “Não quiseram que se soubesse. Nós sabíamos de nós, o problema era sabermos dos outros. E os outros saberem de nós. E todos sabermos que somos imensos. Mortos. Todos pobres. Todos mortos. Mortos com a morte dos pobres. A morte dos pobres!... (…) Por isso proibiram a contagem: 'A partir de agora não morre mais ninguém', mandaram dizer de Lisboa. Eu não sei se entraste nas contas, mãe, mas é a ti que eu conto.” Ao traço azul da censura escaparam as observações do Diário do Funchal: “Nós não diríamos que foram as cheias, que foram as chuvas. Talvez seja mais justo afirmar que foi a miséria – a miséria que a nossa sociedade não neutralizou – que provocou a maioria dos mortos. Até na morte é triste ser-se miserável. Sobretudo quando se morre por o ser”.

Testemunho dorido, embalado no som dos contrabaixos que, em palco, tocados ao vivo, marcam a respiração de um drama interior longe de estar resolvido, “Ermelinda do Rio” é um canto punjente à verdade e ao amor. É um momento único de partilha, a dor da perda sempre presente, irmanado naqueles que morreram de pranto, “uma cheia por dentro”. Comovente pela forma como encarna a personagem, a vive e faz viver, Maria João Luís tem aqui o desempenho de uma vida. “Olha o que ali vem mãe. Parece um barquinho. Sim, é um barco, é um ponto de luz na nossa direcção. É um barco a remos, sem ninguém a bordo. Ai!... É o barco do pai. É o 'Ermelinda do Rio' e vem na nossa direcção. Os remos movem-se ao ritmo de uma concertina. Parece que me quer. Olha o que está no banquinho de meia-nau, mãe? O vestido! O vestido mais feio e mais bonito do mundo. (…) O barco está à minha espera. Era assim que o pai segurava nos remos. Mãe, estou a fazer bem? Mãe, eu volto... Mas não sei se consigo... Mãe, há palavras que são conchas... São tão lindos os teus olhos...”

[Foto: Vitorino Coragem | teatrodaterra.wordpress.com]

domingo, 14 de outubro de 2018

CONCERTO: Marta Hugon



CONCERTO: Marta Hugon
Estarrejazz 2018
Cine-Teatro de Estarreja
12 Out 2018 | sex | 21:30


Depois de aqui ter estado, em 2014, a celebrar o Dia Mundial do Jazz, Marta Hugon regressou a Estarreja na noite da passada sexta feira para um concerto inserido no Estarrejazz 2018. A acompanhá-la em palco estiveram Ana Cláudia Serrão no violoncelo, João Hasselberg no contrabaixo, Pedro Branco na guitarra e Joel Silva na bateria, o suporte perfeito para uma voz quente e harmoniosa, desta vez a cantar exclusivamente em português. Terá sido esta a grande novidade do concerto, ao longo do qual foi possível apreciar a apaixonante combinação entre a poesia e a música e antever o novo trabalho da cantora, previsto para 2019.

Com arranjos de Luis Figueiredo, as canções interpretadas por Marta Hugon levaram o público numa viagem por geografias dispersas à volta do mundo, mas também numa viagem ao interior de cada um, carregada de palavras meigas, de sonho e magia. Por ritmos quentes e adocicados, “Praia” levou-nos a Cabo Verde; “Sicília” foi um passeio pelo eterno jardim do Mediterrâneo, a guitarra de Pedro Branco a impor-se e a mimetizar um bandolim nos acordes finais; “Fugaz”, o tema que abriu o concerto, foi também ele uma viagem ao som dos ritmos latinos, o Caribe aqui tão perto; e houve ainda Angola, no tema “Nascer Outra Vez”, um poema lindíssimo de José Eduardo Águalusa para a música de Luís Figueiredo.

Mas este foi também um concerto de palavras, a condição da língua portuguesa em plano de evidência, Marta Hugon a provar que o Jazz cantado em português tem mais encanto. Joana Espadinha, Francisca Cortesão, Afonso Cabral, Nádia Schilling, Filipe Melo ou a própria Marta Hugon para isso muito contribuíram, as suas letras e músicas a abrirem-se de forma intensa e sensível em temas como “Pressa”, “Lado Lunar”, “Longe”, “A Voz” ou “Beija-Flor”, este último do álbum “Bittersweet” (2016) e “reciclado” para português. Já no “encore”, uma cedência à língua inglesa para a interpretação de um dos seus maiores êxitos, o dolente “Swim Slow”, do álbum “A Different Time” (2011) , a encerrar uma noite de emoções à flor da pele. Agora só podemos pedir que o disco saia depressa enquanto vamos sonhando com o prazer do reencontro.

domingo, 23 de setembro de 2018

CERTAME: Festival de Arte Urbana ESTAU | Estarreja


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CERTAME: Festival de Arte Urbana ESTAU | Estarreja
Estarreja
21 Set 2018 | sex | 16:30


Cumprida que está a terceira edição do Festival de Arte Urbana ESTAU | Estarreja, o que ocorre dizer, no imediato, é que a cidade, depois duma semana de actividade intensa, está ainda mais viva e mais bela, as pessoas mais próximas entre si e da sua própria identidade cultural e a arte mais presente, afirmando-se no seu desígnio fundamental de transmitir e exprimir ideias e emoções. Foi esta a realidade constatada na tarde da passada sexta feira, no âmbito duma Visita Guiada orientada pela curadora do Festival, Lara Seixo Rodrigues, e que levou os participantes ao encontro da história do certame e das peças que testemunham três anos de muita paixão... e uma boa dose de loucura.

Partindo da peça icónica de Bordalo II para o Observa Ria 2015, os participantes nesta visita foram convidados a recordar Kruella d'Enfer, Bosoletti, Fintan McGee, Isaac Cordal, os Half Studio, Nespoon, os Bicicleta Sem Freio ou o resultado do projecto Lata 65, marcos fundamentais das duas anteriores edições e que, de forma clara, vêm contribuindo fortemente para mudar a face da cidade. Em plena Praça Francisco Barbosa, pendendo de uma das varandas da Câmara Municipal, foi possível apreciar a primeira peça da presente edição, “Estau És Tu”, resultado da acção orientada por Aheneah e que se pode resumir como uma manta de retalhos onde cabem os testemunhos das pessoas anónimas que por aqui foram passando e deixando as suas impressões sobre o Festival. Ainda na Praça e em artérias adjacentes, as montras do comércio local enchem-se de ditados e expressões populares próprias desta região, num trabalho apurado de branding design com a assinatura do Xesta Studio.

Passando às peças mais impactantes, Marina Capdevilla oferece-nos um olhar irónico sobre a forma como o homem continua a destruir a natureza mas parece comprazer-se nisso. Trata-se dum mural de grandes dimensões, com um colorido muito forte e a particularidade de apresentar aquilo que parece um donut no lugar duma bóia, certamente influência do aroma que se desprende da Pastelaria Bolivar, ali tão perto. Regg Salgado inspirou-se em duas fotografias do vasto espólio de Egas Moniz e trabalhou também num mural de grandes dimensões que dividiu em duas partes, a inferior retratando os sobrinhos-netos do Prémio Nobel da Medicina na Quinta do Marinheiro e a superior testemunhando uma festa dada pelo cientista na altura da sua distinção. Pela extraordinária dimensão, a peça de Millo, um italiano de Mesagne é das mais impactantes, mas também pela mensagem implícita, a de que compete ao homem actuar sobre o cinzentismo das nossas cidades e enchê-las de cor. TheCaver tem para nos oferecer um mural bastante estilizado, onde o cultivo do arroz e toda uma indústria constituem o tema fulcral. Finalmente, Add Fuel volta a reinterpretar a linguagem do tradicional azulejo português, oferecendo-nos uma peça lindíssima de cor e harmonia.

Mas porque este não é apenas um “festival de murais”, a cultura, o território, o património, a gastronomia e as mais variadas expressões artísticas marcaram presença no ESTAU 2018. Das instalações e residências artísticas, aos workshops, conversas, cinema, música, dança, performance, circo contemporâneo, o mostruário – espécie de feira temática que reúne artistas, editoras, escritores, cineastas, cantores, instagramers e adeptos do erro – e ainda uma exposição de fotografia, de Miguel Oliveira, que estará patente até ao dia 30 de Setembro e merece toda a atenção, de tudo um pouco foi possível ver, ouvir e sentir nesta terceira edição do ESTAU. Tudo motivos de sobra para olharmos para Estarreja e para o ESTAU como um Festival que é um espectáculo. Uma palavra, em particular, para Lara Seixo Rodrigues, uma sonhadora e uma lutadora, que tem depositado na cidade muito dos seus sonhos, dedicação e energia e a quem a cidade deve estar eternamente reconhecida. E agora é tempo de voltar a Estarreja - sempre! - e de saborear, de forma integrada, o conjunto de três dezenas de peças que fazem da cidade um museu a céu aberto. Boas visitas!