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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O MELHOR DE 2025: TEATRO



10. Welcome to Europe
Texto, encenação, espaço cénico e vídeo | Ricardo Correia
Interpretação | Beatriz Antunes, Fábio Saraiva, Sofia Coelho e Ricardo Correia
Produção | Casa da Esquina – Associação Cultural
FESTOVAR 2025 - XXXII Festival de Teatro de Ovar
Centro de Arte de Ovar
25 Out 2025 | sab | 17:30

“ (…) Neste Museu feito de peças efémeras, no final não haverá “merchandising” ou“souvenirs” à venda - quando muito, os interessados podem adquirir o livro do espectáculo -, mas as interrogações persistem muito para lá dos 70 minutos de duração da peça. “Welcome to Europe” confronta-nos com uma Europa excludente, com a redução dos migrantes a meros números, ameaças latentes, corpos sem história cujas histórias têm no risco, na desumanização ou na perda denominadores comuns. Neles, porém, reconhecemos uma força vital que desafia a indiferença e expõe a fragilidade de um sistema que, enquanto proclama os direitos humanos, nega a humanidade a quem os reclama. Que Europa é esta que recebe e exclui, que promete e recusa, que soube construir-se no encontro com o outro e que agora o rejeita?”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/teatro-welcome-to-europe.html



9. Babel
Encenação, dramaturgia, cenografia e figurinos | Nuno Cardoso
Interpretação e co-criação | Carlos Rodrigues, Cristina Almeida, Edilson Wa Ka Chambe, Emílio Costa, Hermínia Teixeira, José Teixeira, Luísa Costa, Madalena Costa, Marlene Pacheco, Rodrigo Matos, Roldy Harrys
Produção | Teatro Nacional São João
Teatro Nacional Carlos Alberto
14 Jun 2025 | sab | 19:00

“ (…) A Babel que veio do teatro do mundo para o Teatro Carlos Alberto não é nenhum rebanho conduzido por pastor ou cão. Do tumulto dos dias, transportando vidas contraditórias, as personagens desaguam uma a uma num lugar de onde vão partir novamente. Medem-se, evitam-se e olham-se com sentimentos de superioridade ou desprezo. Pelo telefone de cada uma, este lugar desdobra-se numa teia de assuntos: cada qual tenta organizar o seu mundo e dar conta do estranhamento e da incomodidade que as outras lhe causam. Um padre difunde um velho discurso de Salazar sobre a autoridade e o povo submisso: “Está tudo bem assim e não poderia ser de outra forma”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/teatro-babel.html



8. A Médica
Encenação | Ricardo Neves-Neves
Interpretação | Adriano Luz, Custódia Gallego, Eduarda Arriaga, Igor Regalla, Inês Castel-Branco, José Leite, Luciana Balby, Maria José Paschoal, Pedro Laginha, Rita Cabaço, Sandra Faleiro e Vera Cruz
Produção | Teatro do Eléctrico
Teatro da Trindade Inatel - Sala Carmen Dolores
02 Fev 2025 | dom | 16:30

“ (…) “The Doctor”, no original, coloca-nos perante um conjunto de temas que estão na ordem do dia. Partindo dessa espécie de braço de ferro da medicina e da ciência com a religião, o texto possui um lado engenhoso que consiste em deixar as questões em aberto, em busca de respostas que cada um terá (ou não) dentro de si. Ciência, religião, sexualidade, identidade ou racismo, são como cartas atiradas para a mesa de todas as discussões, ora funcionando como um desafio às nossas convicções, ora mostrando a forma como lidamos com o preconceito e tendemos a falar daquilo que não sabemos”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-medica.html



7. Frágua de Amor
Encenação | António Augusto Barros
Interpretação | Ana Teresa Santos, Carlos Meireles, Igor Lebreaud, Maria Quintelas, Miguel Magalhães, Mónica Camaño, Nuno Meireles, Ricardo Kalash, Sérgio Ramos
Produção | A Escola da Noite, O Bando de Surunyo
Teatro Carlos Alberto
17 Jan 2025 | sex | 15:00

“ (…) Encantadora, a peça encenada por António Augusto Barros e que tem em Hugo Sanches o responsável pela parte musical permite-nos apreciar algo de verdadeiramente incomum e que podemos classificar como um musical vicentino. Posta em cena desta forma, com a componente lírica a assumir uma tão grande preponderância, a peça faz jus à ideia de um teatro a ampliar-se e a separar-se dos momos e chacotas, composto agora por monólogos, diálogos, música tocada, cantada e bailada, sagrada e profana, popular ou palaciana, como ensina Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Aliás, muito deste modus faciendi está patente em indicações textuais do dramaturgo, que também foi músico e autor de canções”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/01/teatro-fragua-de-amor_01480197978.html



6. À Primeira Vista (Prima Facie)”
Encenação | Tiago Guedes
Interpretação | Margarida Vila-Nova
Produção | Força de Produção
31º Encontro de Teatro do CiRAC
Cine-Teatro António Lamoso
15 Fev 2025 | sab | 21h30

“ (…) A peça faz passar, de forma admirável, a mensagem de que o sistema jurídico é moldado pela experiência masculina, os casos são decididos por gerações de juízes homens e as suas normas estabelecidas por gerações de políticos do sexo masculino, num contexto em que as mulheres foram em tempos classificadas como propriedade dos seus maridos, pais e irmãos. Por isso, a legislação sobre a agressão sexual está desajustada da experiência real vivida pelas mulheres. São sempre as vítimas, normalmente mulheres, que são “julgadas”, interrogadas e obrigadas a reviver a sua experiência humilhante, e depois postas em causa acerca dos motivos que as levaram a denunciar um crime hediondo contra a sua pessoa. No entanto, e significativamente, a investigação demonstrou que as pessoas simplesmente não acreditam nas mulheres que testemunham em casos de agressão sexual. Mesmo outras mulheres!”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-primeira-vista-prima-facie.html



5. Chuva Pasmada
Adaptação, direcção artística e encenação | Leandro Ribeiro
Interpretação | Clara Oliveira, Mafalda Reis, Maria Inês Campos, Paulo Cruz e Rita Camões
Produção | Sol d’Alma – Associação de Teatro
Centro das Artes do Espectáculo Sever do Vouga
16 Nov 2025 | dom | 16:00

“ (…) “Chuva Pasmada” é um imenso, intenso milagre. A sensibilidade que Mia Couto coloca em cada palavra, a forma como, entre a voz e o silêncio, leva a que identidade e memória dancem em comunhão, é um convite à autodescoberta, um rasgar de atalhos para o mais fundo de cada um de nós. Motor secreto da peça e do romance, o amor é semente capaz de transformar dúvidas em certezas, a hesitação em voo, o receio em pertença. A materialização de todo este imaginário fabuloso constrói-se em comunhão de talentos: Onde apenas existiam telas, as luzes abrem rios; o vazio veste-se de emoção ao som de uma música inspirada; o invisível faz-se presente na riqueza dos sons; os figurinos acrescentam cor à própria respiração”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/11/teatro-chuva-pasmada-mia-couto.html



4. Quem Tem Medo de Virginia Woolf?
Encenação | Simão do Vale Africano
Interpretação | João Reis, Anabela Moreira, Daniel Silva, Joana Africano
Produção | Subcutâneo - Teatro Hialurónico
Teatro Nacional São João
16 Fev 2025 | dom | 16:00

“ (…) A peça, já o sabemos, é uma forma muito original - e abominável - de chamar ao palco a relação de um casal. Não há troca de palavras que resista ao crivo da humilhação moral e da tortura psicológica, a sua intensidade a aumentar à medida que o tempo passa e cresce o nível de álcool no sangue. Um quadro de crise profunda e que se arrasta há uma eternidade, dadas as insinuações e outras regras que parecem ainda existir neste jogo de massacre. Na sua insistência, na sua duração, na sua brutalidade, a peça torna palpável o quadro doentio em que as personagens se movem, mostrando de forma clara e tangível a loucura que as afecta”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-quem-tem-medo-de-virginia-woolf.html



3. 1984
Encenação | Pedro Carraca
Interpretação | Ana Castro, Carolina Salles, Gonçalo Carvalho, Inês Pereira, Paulo Pinto, Pedro Caeiro, Raquel Montenegro, Tiago Matias, Victor Gonçalves
Produção | Artistas Unidos
Ponto C - Cultura e Criatividade, Penafiel
08 Fev 2025 | sab | 17h00

“ (…) Verdadeiro teste à tolerância do público face à violência que dela se derrama, a peça coloca em perspectiva a obra-prima de George Orwell, transformando em passado longínquo o futuro que o autor desenhou em 1948 (o título será um anagrama da data), sobre factos ocorridos em 1984, ao situá-lo num vindouro ano para lá de 2050. Assim, para além da história de Winston Smith, que não sabemos se verdadeira ou não, aquilo a que assistimos é à história do próprio romance ao longo do tempo decorrido desde que foi escrito, e de como é que o livro contribuiu ou não para alterar a nossa visão de futuro”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-1984.html



2.  House
Dramaturgia e encenação | Amos Gitai
Interpretação | Bahira Ablassi, Dima Bawab, Irène Jacob, Alexey Kochetkov, Micha Lescot, Pini Mittelman, Kioomars Musayyebi, Menashe Noy, Minas Qarawany, Mark Bonney, Danielle O’Neill, Nathan Mercieca, Ghassan Ashkar
Produção | La Colline – Théâtre National
Teatros del Canal - Sala Roja Concha Velasco, Madrid
25 Abr 2025 | sex | 20:00

“ (…) Ao atrair-nos para a teia emaranhada de violência ontológica por trás do projeto sionista de anexar lares palestinos, Gitai rejeita qualquer enquadramento dialético. A violência de construir uma casa sobre as ruínas de outra, ou de viver dentro da casa de outra pessoa, faz parte da identidade israelita, ao mesmo tempo que procura apagar da história qualquer traço de presença palestiniana. A dominação transversal do colonialismo de povoamento, que busca estabelecer uma pátria permanente por meio do deslocamento, é visceralmente sentida através do refrão percussivo dos dois pedreiros martelando blocos de arenito ao longo das duas horas e meia de duração da peça, os ritmos sincopados formando como que um coro pulsante de violência que abafa qualquer perspectiva de paz ou tranquilidade”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/04/teatro-house.html



1. A Colónia
Direcção e dramaturgia | Marco Martins, a partir de uma reportagem de Joana Pereira Bastos
Interpretação | Manuela Canais Rocha, Conceição Lopes, Conceição Matos, Domingos Abrantes, Humberto Candeias, Olga Sequeira Santos, Rita Veloso, Valentina Marcelino, João Pedro Vaz, Sara Carinhas, Ana Vilaça
Produção | Arena Ensemble 
Teatro Nacional de S. João
26 Jan 2025 | dom | 16:00

“ (…) Reunindo em palco um elenco multifacetado, que juntou actores, não actores e aspirantes a actores, Marco Martins trabalhou a peça a partir de histórias e experiências pessoais, propondo uma ampla reflexão sobre história, memória e opressão. Algumas dessas histórias falam do desconhecimento do verdadeiro nome do pai ou da mãe, de apenas conhecerem irmãos pela palavra bebé, de não corrigirem deficiências de nascença por não estarem registados e serem considerados ilegais, de terem no cartão de visita da prisão o seu primeiro documento de identidade”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/01/teatro-colonia.html

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

TEATRO: "Welcome to Europe"



TEATRO: “Welcome to Europe”
Texto, encenação, espaço cénico e vídeo | Ricardo Correia 
Apoio ao movimento e figurinos | Rita Grade
Direção técnica e desenho de luz | Diogo Marques
Fotografia | Carlos Gomes 
Design | Joana Corker
Cabeleireiro | Ilídio Design by Carlos Gago
Interpretação | Beatriz Antunes, Fábio Saraiva, Sofia Coelho e Ricardo Correia
Produção | Casa da Esquina – Associação Cultural
70 Minutos | Maiores de 16 Anos
FESTOVAR 2025 - XXXII Festival de Teatro de Ovar
Centro de Artes de Ovar
25 Out 2025 | sab | 17:30


Transformado no novíssimo Museu Welcome to Europe” o Centro de Artes de Ovar abre alguns dos seus espaços aos visitantes (leia-se “espectadores”), ávidos de mergulhar numa Europa em estado avançado de decomposição. Enquanto se aguarda pelo início da peça, escutam-se as entrevistas a quatro mulheres que deixaram os seus países para trás e encontraram em Ovar um porto de abrigo seguro e tranquilo. São histórias de vida sofridas, mas que têm na integração plena e na gratidão pelas oportunidades oferecidas um contraponto luminoso. Mas passar-se-á o mesmo com todos os migrantes? Os refugiados entregues às autoridades por um caçador de troféus, em missões conduzidas com zelo, poderão dizer o mesmo?  Esse mesmo caçador de troféus que se vangloria das suas façanhas e nos conta os pormenores da caçada, antes de ser convidado a assumir o papel do outro, o medo nos olhos e um charco de urina aos pés, agora o seu próprio medo, a sua própria urina. Sim, trocar de lugar com o outro, calçar os sapatos do outro, assume-se como ponto de partida de um espectáculo que encerra dilemas, dúvidas, inquietações e muitas interrogações. Qual o papel da Arte enquanto a Europa e o Mundo ardem? Como é que se narra a dor, a nossa e a dos outros? Como é que se lida com a ascensão dos novos fascismos? Como é que se segue em frente sem cometer os mesmos erros do passado? Tantas perguntas para uma ficção teatral. Está inaugurado o Museu Welcome to Europe. Sejam bem-vindos.

Desenhado como se de uma visita guiada se tratasse, o espectáculo permite, através de diferentes performances em lugares improváveis, questionar a construção da identidade individual e colectiva numa Europa em processo de desagregação. Nela, o público é desafiado a atravessar salas de memória, identidade e política, questionando o que significa, hoje, ser europeu. É isso que acontece na primeira sala, um jogo entre o sim e o não, com a Europa em pano de fundo. Neste apurar “de que lado está” o espectador, percebe-se quão poucos são aqueles que se mostram satisfeitos com a situação económica do país ou que acham que os jovens de hoje terão uma vida melhor do que a geração anterior. Em contrapartida, a grande maioria já se sentiu insegura ou discriminada no nosso país ou já pensou em emigrar. Cinco anos após a morte de Aylam Kurdi, “Coro dos Defuntos”, a segunda sala deste Museu, recorda o drama daqueles que, numa tentativa desesperada de chegar à Europa, perecem no Mediterrâneo. Já no subpalco do Centro de Artes de Ovar, o espectador é convidado a assistir à conferência “27 europeus que me dão instintos assassinos” e a reflectir sobre a memória e a identidade europeia. Através dela, Ricardo Correia mostra as tensões latentes com o projecto europeu, o sítio da raiva e dos discursos de ódio como uma expressão para ampliar os desejos individuais. Do responsável pela introdução da flauta de bisel na escola à austeridade da troika, do inventor do programa Erasmus a William Shakespeare, eis uma visão cínica de figuras inenarráveis, no que pode ser visto como uma autópsia à União Europeia e uma forma de utilizar o ódio como catarse nesta tragédia que estamos a viver.

A visita guiada termina na caixa de palco, última sala deste Museu. Mais do que em qualquer outro espaço, é aí que se revelam, de forma nítida, as contradições do mundo globalizado, graças a uma peça de teatro “convencional”. O cenário é sombrio e nele se cruzam um europeu que, partindo da Grécia, atravessa o Mar Egeu num cruzeiro para celebrar a lua de mel com a sua mulher, e uma refugiada que parte da Turquia e atravessa o mesmo Mar Egeu num bote, em sentido contrário, na tentativa de escapar à guerra com o seu recém-marido. Muito breve, a peça é preciosa no que encerra de mensagem - um daqueles murros no estômago cuja dor não se apaga -, mas também pela forma como o texto está construído, fundindo as personagens num convite a “visitar” o absurdo da nossa existência - portentosos os desempenhos de Fábio Saraiva e Sofia Coelho. Neste Museu feito de peças efémeras, no final não haverá “merchandising” ou“souvenirs” à venda - quando muito, os interessados podem adquirir o livro do espectáculo -, mas as interrogações persistem muito para lá dos 70 minutos de duração da peça. “Welcome to Europe” confronta-nos com uma Europa excludente, com a redução dos migrantes a meros números, ameaças latentes, corpos sem história cujas histórias têm no risco, na desumanização ou na perda denominadores comuns. Neles, porém, reconhecemos uma força vital que desafia a indiferença e expõe a fragilidade de um sistema que, enquanto proclama os direitos humanos, nega a humanidade a quem os reclama. Que Europa é esta que recebe e exclui, que promete e recusa, que soube construir-se no encontro com o outro e que agora o rejeita?

[Foto: Ovar / Cultura | https://www.facebook.com/ovarcultura]

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

EFEMÉRIDE: “1 ano a descascar histórias”



EFEMÉRIDE: “1 ano a descascar histórias”
Museu Fábrica da História - Arroz e Casa Municipal da Cultura de Estarreja
13 e 14 Set 2025


Com uma longa e rica tradição agrícola, a região do Baixo Vouga Lagunar é uma das poucas no país onde a cultura do arroz subsiste. Centro nevrálgico de uma actividade que contribuiu para moldar não apenas a paisagem e a biodiversidade, mas também a identidade cultural da região, Estarreja é, hoje e sempre, uma referência da orizicultura portuguesa, tanto pela persistência de um pequeno núcleo de produtores que teimam em manter vivo o cultivo do arroz, como pela consciência da importância de saber conservar as memórias de um passado significativo. A caminho dos cinco mil visitantes e com um apaixonante Trabalho de Museografia reconhecido pela Associação Portuguesa de Museologia, no passado mês de Junho, com uma Menção Honrosa, o Museu Fábrica da História - Arroz cumpriu, no passado fim de semana, a sua primeira volta ao sol. Porque a efeméride assim o justificava, os seus responsáveis fizeram questão de assinalar a data com um programa rico e variado, graças ao qual foi possível recuar no tempo, voltar a escutar as sons próprios da fábrica, as conversas dos trabalhadores, as manobras dos vagões de carga na vizinha estação de caminho de ferro, a sirene que, quatro vezes ao dia, assinalava o início e o fim de mais uma jornada.

O programa comemorativo teve início na Casa Municipal da Cultura de Estarreja com a inauguração de uma parte da exposição de fotografia de Camilo Rego, “do teu arrozal.”. São imagens que exprimem um olhar atento à relação íntima entre o ser humano e a natureza, que nos levam a compreender - numa paisagem dominada pelo azul da água, o verde das hastes de arroz que dela parecem brotar e o âmbar das espigas maduras - uma história de esforço e comunhão, cuidado e resiliência, elevando o quotidiano rural à dignidade da arte visual. Nas breves, mas muito belas palavras dirigidas ao presentes, Camilo Rego disse, e cito de cor, que podemos podar uma planta, despi-la de folhas, que ela regenar-se-á. Só não podemos cortar-lhe a raíz. É um pouco nesse sentido que o trabalho do fotógrafo é dirigido, contribuindo para preservar a memória de uma prática que importa alavancar - pela biodiversidade única e por toda uma rica herança cultural que lhe estão associadas. Por isso, “do teu arrozal.” é trabalho. Mas é também identidade e território, sementeira e colheita, grão e laço. “O elo entre o passado e o presente, entre o bago e as gentes da terra.

Já no Museu, teve lugar a inauguração do Percurso Sonoro e Emotivo, um convite ao público a que percorra o espaço e viva uma visita sensorial e emotiva. O texto é de Ricardo Correia, a banda sonora e gravação estúdio de Luís Pedro Madeira e as vozes pertencem a um conjunto de pessoas da comunidade estarrejense, algumas delas antigos trabalhadores da “Hidro-Eléctrica”. Basta um telemóvel e uns auscultadores, e abrem-se aos sentidos os sons e silêncios do trabalho, da pausa e da animação, os nomes dos equipamentos usados no processo de descasque, a história do fundador Carlos Marques Rodrigues, os testemunhos daqueles que à fábrica dedicaram parte das suas vidas, deles transparecendo o sentimento de pertença e o envolvimento com um património que urge preservar. “Mondando Contos”, com Luís Correia Carmelo e Estefânia Surreira, fechou o dia da melhor forma. Ao longo de pouco mais de uma hora, o duo trouxe-nos, de forma terna e sensível, o seu olhar apaixonado sobre as particularidades da natureza humana. Uma “monda de palavras” ditas, revivendo a tradição de partilhar histórias ao serão e lembrando a riqueza de permanecer num lugar-comum feito de simplicidade e muito amor.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Fábrica de Histórias"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Fábrica de Histórias”,
de Carlos Gomes
ESTAU - Estarreja Arte Urbana 2022
Fábrica da História - Arroz (Antigo Descasque)
11 Set > 18 Set 2022


Senta-te, como quando te sentas em frente a um espelho. Conta-me o que guardaste dentro de ti… “_____ Esta história que contamos _____ é a história de todos _____ e de cada um. _____ Começa em 1922 _____ Tinha 16 anos quando entrei para a fábrica. _____ Atravessa a Segunda Grande Guerra Mundial. _____ Esteve paralisada durante 10 anos. _____ É a história de todos _____ e de cada um. _____ É a história dos dias repetidos _____ Eu fui para lá em 1975 _____ É a história de todos os que viveram o seu fim. _____ À frente de ti, olho-te de novo e as lágrimas vêm-me aos olhos. _____ Vejo tudo abandonado. Tudo partido _____ O que pode sonhar um trabalhador quando a sua fábrica fecha? _____ Que gestos ainda duram para além da memória? _____ Esta é a minha fábrica. _____ Qual é a tua? _______________” (in, “Fábrica de Histórias”)

É no espaço da antiga Hidro-Eléctrica de Estarreja – Fábrica de Descasque de Arroz, no preciso lugar onde começa a erguer-se um núcleo museológico cuja missão primeira consiste na preservação das memórias da cultura do arroz neste concelho do Baixo Vouga Lagunar, que pode ser vista, ao longo da semana, a exposição de fotografia “Fábrica de Histórias”, da autoria de Carlos Gomes. Fotógrafo de cena, teve o “privilégio”, como o próprio refere na folha de sala que acompanha a exposição, de acompanhar o processo criativo homónimo, com texto e direcção de Ricardo Correia, numa produção da Casa da Esquina - Associação Cultural. O projecto foi apresentado à população estarrejense no terceiro fim de semana do passado mês de Junho, sob a forma de Visita Guiada aos espaços onde começa a nascer a Fábrica da História – Arroz. Os registos de Carlos Gomes, que podem ser agora apreciados nesta belíssima exposição, resultam numa “imersão no tempo”, documentando uma “viagem e experiência histórica a um passado recente” que importa preservar.

Entre a cor e o preto e branco, o trabalho de Carlos Gomes toca o visitante pela sensibilidade que se desprende do seu olhar nesta espécie de regresso ao passado, neste avivar de memórias na afirmação de marcas identitárias únicas e insubstituíveis. Não participei nas visitas guiadas, não senti de perto a emoção dos testemunhos que, na voz e nos gestos dos actores, ousaram lançar luz sobre o que repousava nas trevas do esquecimento. Mas adivinhei essa emoção nos admiráveis registos fotográficos que nos são agora oferecidos, cada imagem como “um momento de reparação desta ferida aberta que está a ser curada”. Apreciá-los, escutando em pano de fundo as palavras de antigos operários, elas no rotineiro labor de ensacar o arroz em saquinhos de serapilheira, eles com as funções mais pesadas da descarga dos vagões ao trabalho com a maquinaria. Entre todos, uma familiaridade enorme e uma cumplicidade cimentada no esforço de entreajuda, nas partidas que uns pregavam aos outros ou na partilha de momentos bons e menos bons. Uma exposição que é, sobretudo, um contributo para a compreensão do passado e a construção de um melhor futuro.