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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O MELHOR DE 2025: TEATRO



10. Welcome to Europe
Texto, encenação, espaço cénico e vídeo | Ricardo Correia
Interpretação | Beatriz Antunes, Fábio Saraiva, Sofia Coelho e Ricardo Correia
Produção | Casa da Esquina – Associação Cultural
FESTOVAR 2025 - XXXII Festival de Teatro de Ovar
Centro de Arte de Ovar
25 Out 2025 | sab | 17:30

“ (…) Neste Museu feito de peças efémeras, no final não haverá “merchandising” ou“souvenirs” à venda - quando muito, os interessados podem adquirir o livro do espectáculo -, mas as interrogações persistem muito para lá dos 70 minutos de duração da peça. “Welcome to Europe” confronta-nos com uma Europa excludente, com a redução dos migrantes a meros números, ameaças latentes, corpos sem história cujas histórias têm no risco, na desumanização ou na perda denominadores comuns. Neles, porém, reconhecemos uma força vital que desafia a indiferença e expõe a fragilidade de um sistema que, enquanto proclama os direitos humanos, nega a humanidade a quem os reclama. Que Europa é esta que recebe e exclui, que promete e recusa, que soube construir-se no encontro com o outro e que agora o rejeita?”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/10/teatro-welcome-to-europe.html



9. Babel
Encenação, dramaturgia, cenografia e figurinos | Nuno Cardoso
Interpretação e co-criação | Carlos Rodrigues, Cristina Almeida, Edilson Wa Ka Chambe, Emílio Costa, Hermínia Teixeira, José Teixeira, Luísa Costa, Madalena Costa, Marlene Pacheco, Rodrigo Matos, Roldy Harrys
Produção | Teatro Nacional São João
Teatro Nacional Carlos Alberto
14 Jun 2025 | sab | 19:00

“ (…) A Babel que veio do teatro do mundo para o Teatro Carlos Alberto não é nenhum rebanho conduzido por pastor ou cão. Do tumulto dos dias, transportando vidas contraditórias, as personagens desaguam uma a uma num lugar de onde vão partir novamente. Medem-se, evitam-se e olham-se com sentimentos de superioridade ou desprezo. Pelo telefone de cada uma, este lugar desdobra-se numa teia de assuntos: cada qual tenta organizar o seu mundo e dar conta do estranhamento e da incomodidade que as outras lhe causam. Um padre difunde um velho discurso de Salazar sobre a autoridade e o povo submisso: “Está tudo bem assim e não poderia ser de outra forma”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/06/teatro-babel.html



8. A Médica
Encenação | Ricardo Neves-Neves
Interpretação | Adriano Luz, Custódia Gallego, Eduarda Arriaga, Igor Regalla, Inês Castel-Branco, José Leite, Luciana Balby, Maria José Paschoal, Pedro Laginha, Rita Cabaço, Sandra Faleiro e Vera Cruz
Produção | Teatro do Eléctrico
Teatro da Trindade Inatel - Sala Carmen Dolores
02 Fev 2025 | dom | 16:30

“ (…) “The Doctor”, no original, coloca-nos perante um conjunto de temas que estão na ordem do dia. Partindo dessa espécie de braço de ferro da medicina e da ciência com a religião, o texto possui um lado engenhoso que consiste em deixar as questões em aberto, em busca de respostas que cada um terá (ou não) dentro de si. Ciência, religião, sexualidade, identidade ou racismo, são como cartas atiradas para a mesa de todas as discussões, ora funcionando como um desafio às nossas convicções, ora mostrando a forma como lidamos com o preconceito e tendemos a falar daquilo que não sabemos”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-medica.html



7. Frágua de Amor
Encenação | António Augusto Barros
Interpretação | Ana Teresa Santos, Carlos Meireles, Igor Lebreaud, Maria Quintelas, Miguel Magalhães, Mónica Camaño, Nuno Meireles, Ricardo Kalash, Sérgio Ramos
Produção | A Escola da Noite, O Bando de Surunyo
Teatro Carlos Alberto
17 Jan 2025 | sex | 15:00

“ (…) Encantadora, a peça encenada por António Augusto Barros e que tem em Hugo Sanches o responsável pela parte musical permite-nos apreciar algo de verdadeiramente incomum e que podemos classificar como um musical vicentino. Posta em cena desta forma, com a componente lírica a assumir uma tão grande preponderância, a peça faz jus à ideia de um teatro a ampliar-se e a separar-se dos momos e chacotas, composto agora por monólogos, diálogos, música tocada, cantada e bailada, sagrada e profana, popular ou palaciana, como ensina Carolina Michaëlis de Vasconcelos. Aliás, muito deste modus faciendi está patente em indicações textuais do dramaturgo, que também foi músico e autor de canções”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/01/teatro-fragua-de-amor_01480197978.html



6. À Primeira Vista (Prima Facie)”
Encenação | Tiago Guedes
Interpretação | Margarida Vila-Nova
Produção | Força de Produção
31º Encontro de Teatro do CiRAC
Cine-Teatro António Lamoso
15 Fev 2025 | sab | 21h30

“ (…) A peça faz passar, de forma admirável, a mensagem de que o sistema jurídico é moldado pela experiência masculina, os casos são decididos por gerações de juízes homens e as suas normas estabelecidas por gerações de políticos do sexo masculino, num contexto em que as mulheres foram em tempos classificadas como propriedade dos seus maridos, pais e irmãos. Por isso, a legislação sobre a agressão sexual está desajustada da experiência real vivida pelas mulheres. São sempre as vítimas, normalmente mulheres, que são “julgadas”, interrogadas e obrigadas a reviver a sua experiência humilhante, e depois postas em causa acerca dos motivos que as levaram a denunciar um crime hediondo contra a sua pessoa. No entanto, e significativamente, a investigação demonstrou que as pessoas simplesmente não acreditam nas mulheres que testemunham em casos de agressão sexual. Mesmo outras mulheres!”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-primeira-vista-prima-facie.html



5. Chuva Pasmada
Adaptação, direcção artística e encenação | Leandro Ribeiro
Interpretação | Clara Oliveira, Mafalda Reis, Maria Inês Campos, Paulo Cruz e Rita Camões
Produção | Sol d’Alma – Associação de Teatro
Centro das Artes do Espectáculo Sever do Vouga
16 Nov 2025 | dom | 16:00

“ (…) “Chuva Pasmada” é um imenso, intenso milagre. A sensibilidade que Mia Couto coloca em cada palavra, a forma como, entre a voz e o silêncio, leva a que identidade e memória dancem em comunhão, é um convite à autodescoberta, um rasgar de atalhos para o mais fundo de cada um de nós. Motor secreto da peça e do romance, o amor é semente capaz de transformar dúvidas em certezas, a hesitação em voo, o receio em pertença. A materialização de todo este imaginário fabuloso constrói-se em comunhão de talentos: Onde apenas existiam telas, as luzes abrem rios; o vazio veste-se de emoção ao som de uma música inspirada; o invisível faz-se presente na riqueza dos sons; os figurinos acrescentam cor à própria respiração”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/11/teatro-chuva-pasmada-mia-couto.html



4. Quem Tem Medo de Virginia Woolf?
Encenação | Simão do Vale Africano
Interpretação | João Reis, Anabela Moreira, Daniel Silva, Joana Africano
Produção | Subcutâneo - Teatro Hialurónico
Teatro Nacional São João
16 Fev 2025 | dom | 16:00

“ (…) A peça, já o sabemos, é uma forma muito original - e abominável - de chamar ao palco a relação de um casal. Não há troca de palavras que resista ao crivo da humilhação moral e da tortura psicológica, a sua intensidade a aumentar à medida que o tempo passa e cresce o nível de álcool no sangue. Um quadro de crise profunda e que se arrasta há uma eternidade, dadas as insinuações e outras regras que parecem ainda existir neste jogo de massacre. Na sua insistência, na sua duração, na sua brutalidade, a peça torna palpável o quadro doentio em que as personagens se movem, mostrando de forma clara e tangível a loucura que as afecta”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-quem-tem-medo-de-virginia-woolf.html



3. 1984
Encenação | Pedro Carraca
Interpretação | Ana Castro, Carolina Salles, Gonçalo Carvalho, Inês Pereira, Paulo Pinto, Pedro Caeiro, Raquel Montenegro, Tiago Matias, Victor Gonçalves
Produção | Artistas Unidos
Ponto C - Cultura e Criatividade, Penafiel
08 Fev 2025 | sab | 17h00

“ (…) Verdadeiro teste à tolerância do público face à violência que dela se derrama, a peça coloca em perspectiva a obra-prima de George Orwell, transformando em passado longínquo o futuro que o autor desenhou em 1948 (o título será um anagrama da data), sobre factos ocorridos em 1984, ao situá-lo num vindouro ano para lá de 2050. Assim, para além da história de Winston Smith, que não sabemos se verdadeira ou não, aquilo a que assistimos é à história do próprio romance ao longo do tempo decorrido desde que foi escrito, e de como é que o livro contribuiu ou não para alterar a nossa visão de futuro”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/02/teatro-1984.html



2.  House
Dramaturgia e encenação | Amos Gitai
Interpretação | Bahira Ablassi, Dima Bawab, Irène Jacob, Alexey Kochetkov, Micha Lescot, Pini Mittelman, Kioomars Musayyebi, Menashe Noy, Minas Qarawany, Mark Bonney, Danielle O’Neill, Nathan Mercieca, Ghassan Ashkar
Produção | La Colline – Théâtre National
Teatros del Canal - Sala Roja Concha Velasco, Madrid
25 Abr 2025 | sex | 20:00

“ (…) Ao atrair-nos para a teia emaranhada de violência ontológica por trás do projeto sionista de anexar lares palestinos, Gitai rejeita qualquer enquadramento dialético. A violência de construir uma casa sobre as ruínas de outra, ou de viver dentro da casa de outra pessoa, faz parte da identidade israelita, ao mesmo tempo que procura apagar da história qualquer traço de presença palestiniana. A dominação transversal do colonialismo de povoamento, que busca estabelecer uma pátria permanente por meio do deslocamento, é visceralmente sentida através do refrão percussivo dos dois pedreiros martelando blocos de arenito ao longo das duas horas e meia de duração da peça, os ritmos sincopados formando como que um coro pulsante de violência que abafa qualquer perspectiva de paz ou tranquilidade”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/04/teatro-house.html



1. A Colónia
Direcção e dramaturgia | Marco Martins, a partir de uma reportagem de Joana Pereira Bastos
Interpretação | Manuela Canais Rocha, Conceição Lopes, Conceição Matos, Domingos Abrantes, Humberto Candeias, Olga Sequeira Santos, Rita Veloso, Valentina Marcelino, João Pedro Vaz, Sara Carinhas, Ana Vilaça
Produção | Arena Ensemble 
Teatro Nacional de S. João
26 Jan 2025 | dom | 16:00

“ (…) Reunindo em palco um elenco multifacetado, que juntou actores, não actores e aspirantes a actores, Marco Martins trabalhou a peça a partir de histórias e experiências pessoais, propondo uma ampla reflexão sobre história, memória e opressão. Algumas dessas histórias falam do desconhecimento do verdadeiro nome do pai ou da mãe, de apenas conhecerem irmãos pela palavra bebé, de não corrigirem deficiências de nascença por não estarem registados e serem considerados ilegais, de terem no cartão de visita da prisão o seu primeiro documento de identidade”. Tudo para ler em https://errosmeusmafortunaamorardente.blogspot.com/2025/01/teatro-colonia.html

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

TEATRO: "A Médica"



TEATRO: “A Médica”,
de Robert Icke
Tradução | Ana Sampaio
Encenação | Ricardo Neves-Neves
Cenografia | Fernando Ribeiro
Figurinos | Rafaela Mapril
Interpretação | Adriano Luz, Custódia Gallego, Eduarda Arriaga, Igor Regalla, Inês Castel-Branco, José Leite, Luciana Balby, Maria José Paschoal, Pedro Laginha, Rita Cabaço, Sandra Faleiro e Vera Cruz
Produção | Teatro do Eléctrico
Teatro da Trindade Inatel - Sala Carmen Dolores
02 Fev 2025 | dom | 16:30


Uma menina de 14 anos está a morrer numa cama de hospital. Um padre católico, amigo dos pais da criança, vê negada a sua pretensão de auxílio espiritual a uma vida prestes a deixar de o ser. A recusa intransigente parte de Piedade Lobbo, directora do Hospital, a Médica a que alude o título da peça. Justifica-se com a necessidade de garantir serenidade à doente num momento delicado, diz nada ter que prove ser essa a vontade dos pais, garante que, sendo a criança menor, é ao médico que cabe qualquer tomada de decisão. O padre insiste, não aceita a recusa, informa que vai gravar a conversa, a confusão instala-se. Há insultos e ameaças, talvez haja mesmo uma agressão física. Afinal, o que poderá estar na origem de uma tomada de posição tão pouco compreensiva por parte da médica? O facto de ser mulher, branca e judia, face a um homem, negro e católico, terá algo a ver com a decisão? A menina morre e o caso é tornado público. Piedade Lobbo será suspensa de funções, num processo ao qual não serão alheias as questões éticas e deontológicas da profissão médica, os valores morais da Igreja, as diferenças de género, a manipulação da opinião pública, a promiscuidade entre a política e os negócios, a desinformação digital, os julgamentos em praça pública.

O caso da criança entre a vida e a morte toma conta da peça desde os primeiros momentos. Os factos são apresentados na sua forma mais crua e o público vê-se obrigado a “entrar na peça”, a tomar partidos. A tão propalada humanização nos serviços de saúde parece não se coadunar com a decisão médica de negar a presença de um padre à cabeceira de uma doente, e isto até os menos familiarizados com as dinâmicas no seio das equipas médicas são capazes de adivinhar. Piedade Lobbo não terá contra si apenas alguns dos médicos do Conselho Geral ao qual preside, mas também uma boa parte do público. Mas não é só na cumplicidade imediata com cada um dos espectadores que a peça marca pontos. Também a qualidade das interpretações é posta em evidência, desde a chegada de um novo interno à equipa ao diálogo final da médica com o padre. No leque de actores, sobretudo Adriano Luz e Rita Cabaço nos seus papéis, complementando da melhor forma o desempenho excelente de Custódia Gallego. Será ela que, no papel de Piedade Lobbo, se irá metamorfosear ao olhar do público, abandonando a sua dureza, implacabilidade e orgulho à prova de bala, desmoronando-se face a tanta agressividade por parte de quem não a conhece, para mostrar o seu lado frágil e profundamente humano, dando nisso a mais bela prova da sua inocência.

Adaptação contemporânea de Robert Icke, da peça de 1912, “Professor Bernhardi”, de Arthur Schnitzler, “The Doctor”, no original, coloca-nos perante um conjunto de temas que estão na ordem do dia. Partindo dessa espécie de braço de ferro da medicina e da ciência com a religião, o texto possui um lado engenhoso que consiste em deixar as questões em aberto, em busca de respostas que cada um terá (ou não) dentro de si. Ciência, religião, sexualidade, identidade ou racismo, são como cartas atiradas para a mesa de todas as discussões, ora funcionando como um desafio às nossas convicções, ora mostrando a forma como lidamos com o preconceito e tendemos a falar daquilo que não sabemos. Ora, é precisamente aqui que a peça afirma a sua força, ao confrontar-nos com uma lutadora pelos direitos humanos e pela dignidade que se impõe a qualquer pessoa, e todavia uma mulher isolada, incapaz de fazer valer os seus argumentos e provar a sua inocência, vítima de uma sociedade onde a tão proclamada igualdade está longe de ser uma realidade. Num quadro de adulteração de princípios, rendidos cada vez mais ao imediatismo, ao consumismo e à globalização, é premente não esquecer que neles se fundam os valores da nossa vida em sociedade e que a sua rejeição é uma via directa para o caos. “A Médica” ajuda a que não nos esqueçamos disso.


sábado, 1 de abril de 2023

TEATRO: "United Colors Of"



TEATRO: “United Colors Of”
Ideia original | Daniela Amaral Cardoso, João Amorim, João Garcia Neto
Encenação | Ricardo Neves-Neves, Joana Magalhães, João Amorim, Daniela Amaral Cardoso
Dramaturgia original | Guilherme Gomes, Raquel S., João Amorim
Realização | João Garcia Neto
Cenografia e figurinos | Bárbara Rosário
Interpretação | Daniela Amaral Cardoso, João Amorim
Produção | Companhia Bandevelugo
80 Minutos | Maiores de 14
Museu Escolar Oliveira Lopes
01 Abr 2023 | sab | 16:00


Com os olhos da imaginação abrimos o espaço em volta e transformamos a pequena sala da Cantina do Museu Escolar Oliveira Lopes (MEOL) numa vasta galeria do Hermitage ou do Rijksmuseum. Com todo o cuidado, dois funcionários contemplam um quadro que se preparam para devolver às paredes. Não coincidem nas apreciações que fazem, esgrimem perspectivas, acentuam pormenores. “- Se tivéssemos o título da obra, ajudava”, diz um, ao que o outro contrapõe: “Não, os títulos só estragam, abstraem.” Rodam o quadro e a lógica inverte-se. Começa aqui uma viagem pela arte naquilo que tem de inquietação, de sublimação, de transgressão. Questiona-se o seu papel formativo, o significado que confere à vida, o confronto entre o real e o virtual, a relação entre passado e futuro. Seguindo o esquema de uma visita guiada, “United Colors Of” convida o espectador a “seguir o amarelo, a atravessar salas e corredores, propondo-lhe uma reflexão sobre a sua própria concepção da arte como um todo e, em particular, sobre o objecto artístico. O exercício representa uma mão cheia de desafios. O resultado - acreditem! - é avassalador.

A peça, como disse, tem como ponto de partida uma performance. Chama-se “Abstração de Herbert MacCartney” e faz da arte um imenso mar por onde voga a imaginação de cada um. Nem Tróia, nem Ítaca. O importante é a viagem, o que dela recolhemos, o que com ela aprendemos. Para muitos dos espectadores com quem vi a peça, alunos de uma turma do secundário da Monsenhor Miguel de Oliveira, ali ao lado, a “viagem” mal começou. Se tiverem sabido aproveitar a riqueza da performance e o significado da sua mensagem, guardarão para sempre uma frase impactantes: “Só saberemos, se tivermos vivido para o saber”. Novo quadro, nova performance. Vivendo apenas de sons do quotidiano, “Duas pessoas falam num café” convoca o universo das relações interpessoais, a imponderabilidade de um simples encontro, a vulnerabilidade das ligações, a forma como se fortalecem ou se quebram. Mas deixemos por momentos o espaço do MEOL. Chamaríamos arte a uma conversa banal, que escutamos inadvertidamente enquanto tomamos um café no Tílias? Ser ou não ser, eis a questão.

Subimos as escadas de serviço até ao primeiro andar. Subimos na escala do tempo ao encontro do futuro. Adensa-se a máscara que há em cada um de nós. Camadas sobre camadas sobre camadas são fruto da alienação que aceitamos sem reservas, dessa transformação que nos “eleva” à condição de avatares. Densamente “retocados”, abraçamos o Metaverso, esse lugar onde o nosso gato não morre, onde conseguimos criar relações mais profundas, onde (também) é possível fazer sexo. “É mesmo incrível!!!”. A indiferença toma conta de nós a ponto de deixarmos de ver o quão reaccionária pode ser uma frase do género: “Ainda ficamos é racistas com tanta manifestação antirracista”… (Rui Rio). “Viagem no Tempo Mental” fecha a viagem. O “ainda me lembro (de cozinhar uma sopa, de apanhar amoras, de Portugal ganhar o Europeu…)” de um dos actores, diz-nos que o espaço temporal desta viagem é curto, que este futuro onde o avanço da tecnologia levará ao desconhecimento das coisas mais básicas é já aqui. Por agora, o futuro está parado!

“O futuro está parado!”. A frase é como um murro no estômago e é com ela que o pano desce sobre “United Colors Of”. Um turbilhão de emoções toma conta de mim. Na minha cabeça baila o contraste entre a exaltação de Putin e dos seus acólitos e o clima de terror que se espalha por toda a Ucrânia enquanto, em fundo, se escuta o hino nacional de Portugal (depois disto, haverá quem consiga entoar “contra os canhões…”?). Ainda estou a ver o lápis azul da censura que me acena sob a forma de um desentupidor quando chego a casa e me sento para escrever. Mas escrever o quê? Pesquiso “Bandevelugo” e percebo que foi um deus pré-romano e é, também, uma estrutura teatral com sede em Oliveira de Azeméis. Um colectivo fundado em 2021 - “um tempo estranho que nos inibiu de agir” -, que arregaçou as mangas e deu asas à criatividade e à imaginação. “Quase clandestinos”, foram em busca “das matrizes pedagógicas que sedimentaram uma das mais eficazes e duradouras ditaduras da Europa.” Fizeram-no com arte e com génio, oferecendo-nos uma peça plena de actualidade e profundamente perturbadora. Bandevelugo é “United Colors Of” e “United Colors Of” somos nós. A desconfiança é a cola que nos une.

domingo, 26 de fevereiro de 2023

TEATRO: "Noite de Reis"



TEATRO: “Noite de Reis”,
de William Shakespeare
Dramaturgia e encenação | Ricardo Neves-Neves
Cenografia | Ana Paula Rocha
Figurinos | Rafaela Mapril
Interpretação | Adriano Luz, António Ignês, Cristóvão Campos, Dennis Correia, Filipe Vargas, João Tempera, José Leite, Luís Aleluia, Manuel Marques, Marco Delgado, Rafael Gomes, Renato Godinho, Ruben Madureira
Produção | Teatro do Eléctrico
120 Minutos | Maiores de 14 anos
Teatro da Trindade - Fundação Inatel
19 Fev 2023 | dom | 16:30


“Noite de Reis” é uma comédia romântica escrita por William Shakespeare, supõe-se que em 1601. O enredo centra-se em Violeta e Sebastião, dois irmãos gémeos, separados por um terrível naufrágio e salvos milagrosamente, dando à costa da Ilíria crendo que o outro está morto. A comédia de enganos começa precisamente aqui e prolonga-se quando Violeta, disfarçada de homem, muda o seu nome para Cesário e entra ao serviço de Orsino. O trabalho de Violeta consiste em mandar mensagens de amor de Orsino para a sua amada Olívia, mas o inesperado acontece: Olívia apaixona-se por Cesário achando que ela é um homem e Violeta apaixona-se por Orsino, mas não pode revelar o seu amor por ele sem, com isso, desmascarar-se. Num segundo plano, também Malvolio, o pomposo mordomo de Olívia, crê que a sua senhora está apaixonada por ele, enquanto o nobre André procura fazer a corte a Olívia, apoiando-se no tio desta, o impagável Dom Telmo. Nos bastidores, Maria, a criada, vai puxando os cordelinhos.

Shakespeare no seu melhor, sim, mas também Ricardo Neves-Neves no seu melhor. Perseguindo a ideia de um teatro mais próximo do público, sem abastardamentos nem concessões ao facilitismo, o encenador apodera-se desta deliciosa comédia para trazer Shakespeare ao nosso encontro e dar a ver a qualidade da sua dramaturgia. E é isto que é extraordinário: A forma como um texto com quatro séculos de existência pode revelar-se tão actual, forças e fraquezas de ontem as mesmas de hoje e sempre, a mesma carne e o mesmo coração. Apenas as motas em vez do cavalo (ou do burro), o asfalto em vez das estradas esburacadas, o pulmicort em vez da sufeca. Ao longo de duas horas, o palco é fonte de todas as emoções graças a uma trama extraordinariamente bem urdida, plena de energia e boa disposição. Para tal é determinante uma encenação que respeita integralmente o texto, acrescentando-lhe apontamentos de modernidade que o aproximam do público. Entre saborosas gargalhadas e momentos da mais profunda contenção, o tempo passa sem se dar por ele e o teatro mostra-se como arte maior que é.

Há em “Noite de Reis”, porém, outros aspectos que são igualmente determinantes para o sucesso da peça. Comecemos pelos figurinos, deliciosas criações de Rafaela Mapril, de uma extraordinária exuberância e colorido, fonte incontornável de admiração e fascínio. Há depois a música, interpretada ao vivo como convém numa peça de Shakespeare, na qual a flauta e o alaúde abrem espaço aos instrumentos actuais e onde a aposta incide na pop, na disco ou no hip hop, em vez da música palaciana de seiscentos. Há, enfim, a interpretação, a cargo de um vasto elenco constituído exclusivamente por actores do género masculino, transbordantes de energia e vivacidade, notáveis na forma como se entregam às suas personagens e as revestem de saborosos trejeitos. Respondendo à exigência, ritmo e intensidade dos diálogos, os actores evoluem no palco sem falhas, sendo impossível estabelecer uma distinção entre eles, de tal forma são todos excelentes. Na sequência dos extraordinários “Alice no País das Maravilhas” e “Banda Sonora”, “Noite de Reis” é uma peça que reforça a minha admiração por Ricardo Neves-Neves e que marca, desde já, a temporada teatral de 2023.


terça-feira, 5 de abril de 2022

TEATRO: "A Noite da Dona Luciana"



TEATRO: “A Noite da Dona Luciana”,
de Copi
Tradução | Isabel Alves
Encenação | Ricardo Neves-Neves
Figurinos | José António Tenente
Designer | Pedro Frois Meneses
Interpretação | Custódia Gallego, José Leite, Patrícia Andrade/ Márcia Cardoso, Rafael Gomes, Rita Cruz, Vítor Oliveira
Produção | Teatro do Eléctrico
60 Minutos | Maiores de 16 anos
Centro de Arte de Ovar
01 Abr 2022 | sex | 21:30


É sempre uma alegria imensa ver uma sala cheia, mais a mais tratando-se de uma peça de teatro. Dizem-me, à boca pequena, que a razão de ser de tamanha invasão de gente dá pelo nome de Custódia Gallego, figura muito querida do pequeno ecrã, grande chamariz de público amante de telenovelas. Contesto (pelo menos o meu lado idealista contesta), digo que estamos todos ali pelo Ricardo Neves-Neves – esse mesmo, o de “Alice no País das Maravilhas”, “A Menina do Mar”, “Hamster Clown” ou do genial “Banda Sonora” –, pelo Copi, pelo Teatro. Mas isto sou eu a dizê-lo, que não vejo televisão e tão pouco ouvira falar da actriz em dias de minha vida. E se querem saber, na minha modesta opinião, quem foi lá apenas e só pela Custódia Gallego deve ter vindo enfiadito(a). Mas antes de passar um pano sobre este aparte, ainda acrescentarei que não perderam tudo. É que a peça foi boa. A peça É boa!

Os bastidores de um teatro são o palco da acção. Ensaia-se pela noite dentro. O texto tem lacunas, o dramaturgo está ainda a escrevê-lo e não faz ideia de como irá acabar, o que deixa a actriz principal à beira de um ataque de nervos. Estridente, a campainha de um telefone soa. Alguém está a ligar “de uma cabine na Praia dos Marretas”. Passa das três da manhã e escuta-se um aspirador a trabalhar algures. A dúvida instala-se e, com ela, o medo. Há uma mulher (ou será um homem?) deformada que surge por detrás das cortinas. No camarim descobre-se um cadáver. Quem será o assassino? Marcada pela violência, pela transgressão, com um acentuado pendor político, uma crítica desenfreada a uma sociedade hipócrita e cobarde e um humor corrosivo, “A Noite da Dona Luciana” é um produto arquetípico daquela que é a escrita de Copi, povoada por personagens mutantes, que vivem a (homo)sexualidade num constante envolvimento em processos de travestismos, sadomasoquismos, uso de drogas e mortes. Está tudo ali.

O teatro de Copi cai que nem uma luva a Ricardo Neves-Neves e ao seu gosto pela acção contínua, pelo ritmo vertiginoso, pelo histrionismo das personagens e pelas constantes e surpreendentes reviravoltas na história. Ao espectador pede-se apenas que acompanhe o enredo, viva os acontecimentos de fora e que se divirta. Que não perca o seu tempo a descobrir o que é o quê nesta “peça dentro da peça”. Sonho ou vigília, realidade ou ficção, vida ou morte, são simples artifícios de mais uma transgressão (ou transformação) da história. Pode até tratar-se de um suicídio e ser o próprio teatro a cometê-lo, mas até isso (sobretudo isso) é teatro. Num registo que deixa uma piscadela de olho ao Teatro de Revista, “A Noite da Dona Luciana” vive, como já se disse, de um excelente texto e, naturalmente, de belíssimas interpretações, com destaque para Rita Cruz. Um último apontamento para o facto de ter sido esta uma representação com audiodescrição, contando-se entre o público alguns espectadores invisuais. É a cultura tornada mais acessível, o que é também merecedor de um forte aplauso.


sábado, 31 de julho de 2021

TEATRO: "Hamster Clown"



TEATRO: “Hamster Clown”
Encenação | Ricardo Neves-Neves
Cenografia | José Manuel Castanheira
Caracterização e adereços | Cristovão Neto
Figurinos | Rafaela Mapril 
Interpretação | Rui Paixão
Produção | Nuno Pratas
55 Minutos | Maiores de 14 anos
Centro de Arte de Ovar
30 Jul 2021 | sex | 21:00


Quando um hamster escapa da roda e se deixa maravilhar pelo jardim das delícias, tudo pode acontecer. Acostumado a um girar constante sem sair do sítio, desconhece a noção de espaço e de tempo e, por conseguinte, a importância de achar o caminho mais curto entre dois pontos. Ao encontro da novidade, sem referentes seguros, rapidamente percebe o acréscimo de energia exigida e o quão facilmente atinge a exaustão. A curiosidade tem os seus riscos, o perigo espreita a cada esquina e os medos não tardarão a inquietá-lo. Bem vistas as coisas, o mundo real não parece feito para hámsteres. O jardim das delícias revela-se, afinal, o inferno na terra, pronto a transformar-se num pântano e a engolir os mais idealistas ou os menos precavidos. Talvez regressar à roda e aceitar a monotonia dos dias, esse túnel infindável cuja luz ao fundo não se adivinha sequer, seja a melhor solução.

Depois de “Alice no País das Maravilhas” e “Banda Sonora”, duas peças verdadeiramente marcantes no muito que levo de ver teatro, regresso a Ricardo Neves-Neves e ao seu mundo de fantasia e imaginação. Em “Hamster Clown”, o encenador volta a sua atenção para assuntos que marcam a actualidade - as pragas, a poluição, o aquecimento global, a publicidade agressiva, o consumismo -, mostrando o quanto condicionam a nossa vida e fazem de nós presas fáceis das ratoeiras deste mundo. Regidos por impulsos primários, incapazes de ceder à tentação, somos tomados pela ganância, pela vaidade e pela luxúria, pecados capitais elevados à categoria de valores que se idolatram e cultivam. A medo lidamos com o outro, os traços dessas relações enterrados no mais fundo dos lodaçais, fazendo de cada acção o crime perfeito. BD’s, animes, cosplays, filmes de fantástico e de terror série Z, serão referenciais neste palco de engenho e arte feito, mas é o homem e a sua essência o cerne da peça. E tudo isto com o ar descontraído de quem só veio ver a bola.

Entre o teatro físico, a dança e a performance mais clownesca, Rui Paixão tem uma prestação irrepreensível nesse labor de dar corpo a um hamster ternurento e repulsivo à vez. Na pose, no gesto, na mímica, na forma como se movimenta, nos ruídos que produz, o actor enche o palco com a sua presença, obrigando o espectador a manter-se agarrado à personagem do primeiro ao último instante. O inquietante começo que logo se verte num divertido processo de transformação, a figura humana a ceder o lugar ao hamster, é um grande momento de teatro, tal como o são todos os momentos que se lhe seguem. De uma entrega e rigor absolutos, Rui Paixão sabe ser comedido nos seus excessos, objectivo nas suas atitudes, convincente na sua expressividade. Nesta extraordinária peça, é inevitável que o espectador acabe por reconhecer em si um pouco deste hamster clown. Talvez por isso, por muito divertida que ela seja, por muito inesperados que sejam os seus gags, capazes de deixarem boquiaberto o espectador mais empedernido, o riso tenderá para o amarelo no momento de abandonar a sala.

[Foto: Bruno Filipe Pires | https://barlavento.sapo.pt/]

sábado, 9 de novembro de 2019

TEATRO: "A Menina do Mar"



TEATRO: “A Menina do Mar”
Texto | Sophia de Mello Breyner Andresen
Encenação | Ricardo Neves-Neves
Cenografia | Henrique Ralheta
Música | Edward Luiz Ayres d’Abreu
Figurinos | Rafaela Mapril
Interpretação | Ana Valentim, Catarina Rôlo Salgueiro, Nuno Nolasco, Rafael Gomes, Teresa Coutinho
Músicos | Bethany Carmo, Miguel Costa, Miguel Polido, Ricardo Santos, Fernando Brites, Daniel Bolito, Francisca Fins, Catarina Távora, Miguel Menezes
Direcção Musical | Martim Sousa Tavares
Produção | MPMP e Teatro do Eléctrico
Duração 60 minutos | Maiores de 6 anos
Centro de Artes de Ovar
11 Out 2019 | sex | 22:00


“ – Mas o que é a saudade? – perguntou a Menina do Mar.
– A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.”

Quando se comemora um século sobre a data de nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen, um dos seus títulos mais amados e lidos transforma-se em conto musical pela mão do neto da poeta, Martim Sousa Tavares. Com a voz, o corpo e o gesto de cinco actores, dez instrumentistas e um maestro, o espectador é convidado a percorrer o universo marítimo e fantástico de uma menina que vive no mar – mas muito curiosa pela vida em terra – e de um menino que vive em terra – mas muito curioso pela vida no mar. Desde a inquietação e desconfiança das primeiras descobertas até à festa derradeira em que todos dançam alegremente, persiste a pergunta fundamental: será possível vivermos todos nós em harmonia com o oceano, a natureza, a vida que nos rodeia?

Estreada no início do passado mês de Maio, no Teatro Luís de Camões, a peça entra agora em itinerância, tendo “aportado” ao Centro de Artes de Ovar para uma representação única. Levado nas asas do sonho, o público presente viveu um momento de teatro repleto de surpresa e encantamento, quer pela poesia que se derrama do texto, quer pelo talento de Ricardo Neves-Neves à frente da encenação, quer ainda pelo privilégio de ter uma orquestra em palco, com a enorme riqueza de apontamentos que daí advém. Sob o olhar grave e atento do contrabaixista, o muito respeitável Rei do Mar e entre um simpático peixe clarinetista, um desconfiado caranguejo saxofonista, um misterioso e algo desajeitado polvo fagotista e muitas outras personagens desconcertantes, a peça permite desvendar uma história de amizade entre um rapaz e a Menina do Mar, apostados em partilhar aquilo que os distingue e torna únicos: a menina fica a saber o que é o amor, a saudade e a alegria; o rapaz aceita viver com ela no fundo do mar.

Unindo a terra e a água numa mesma pátria de alegria e fluidez, “A Menina do Mar” é o segundo livro de Sophia de Mello Breyner Andresen, publicado em 1947, após o volume “Poesia”. Aqui, como de resto em muita da sua obra, a poeta busca a perfeição, a pureza e a harmonia, utilizando alguns lugares recorrentes como o mar, a praia, a casa e o jardim. Visitando a infância, onde aprendeu a ouvir as vozes das coisas, o mar é aqui uma fonte de purificação e um lugar onde tudo adquire sentido. Pode ser esta uma história para crianças mas a mensagem serve principalmente para as pessoas mais crescidas capazes de entender que não devem desistir dos seus sonhos à primeira dificuldade. Que o Teatro do Eléctrico tenha querido associar-se ao momento tão especial do centenário do nascimento de Sophia e tenha sabido, com esta peça, respeitar o sentido da obra, valorizando-a com o gesto e enriquecendo-a com a música, é algo que muito se louva.

[Foto: mundoportugues.pt/]

terça-feira, 9 de abril de 2019

TEATRO: "Banda Sonora"




TEATRO: “Banda Sonora”
Texto e encenação |Ricardo Neves-Neves
Composição e orquestração | Filipe Raposo
Interpretação | Ana Valentim, Joana Campelo, Márcia Cardoso, Rita Cruz, Sílvia Figueiredo, Tânia Alves com Orquestra Académica Metropolitana
Maestro | Cesário Costa
Cenografia | Henrique Ralheta
Figurinos | Rafaela Mapril
Caracterização | Cidália Espadinha
Coreografia e movimento | Sónia Baptista
Coprodução | São Luiz Teatro Municipal, Cine-Teatro Louletano e Teatro do Eléctrico
Rivoli - Teatro Municipal do Porto
06 Abr 2019 | sab | 19:00


Inteligente, divertido, inspirador. Todos os adjectivos são insuficientes para classificar o extraordinário momento de teatro que é “Banda Sonora”, um musical cuja concepção teve o seu ponto de partida nos acordes saídos da mente inspirada de Filipe Raposo, aos quais Ricardo Neves-Neves acrescentou uma ideia de texto e de encenação, num processo criativo verdadeiramente invulgar. Depois foi “só” trabalhar um cenário engenhoso, uma fenomenal caracterização e figurinos, a justeza e harmonia da coreografia e do movimento, ainda a música tocada ao vivo por uma orquestra jovem e competente e, naturalmente, a interpretação notável das actrizes em palco, o todo arquitectado num ambiente deliciosamente fantástico e irreal, a fazer lembrar o universo delirante de Tim Burton ou de algumas das mais belas histórias da Disney.

“Banda Sonora” conta a história de três meninas, de 8, 12 e 16 anos, que se vêem sozinhas na floresta, mais ou menos entregues à sua sorte. O passado de todas elas coincide em vários aspectos, desde a perda dos progenitores em contextos absolutamente dramáticos, ao processo natural de crescimento, feito de traquinice, muita curiosidade em perceber o mundo que as rodeia e algumas experiências que tendem a não correr lá muito bem. São três meninas que foram ensinadas a distinguir o que está certo do que está errado, mas que parecem não perceber muito bem que fumar ou namorar não é exactamente o mesmo que espetar uma faca na barriga de alguém. E assim, qual Adão e Eva depois de provarem o fruto proibido, sofrem o castigo de se verem apartadas do “paraíso”, obrigadas a viver o resto da sua existência num mundo subterrâneo onde, apesar de tudo, é ainda possível ver desabrochar uma flor.


Estreada no Teatro S. Luiz em Março de 2018, “Banda Sonora” precede no tempo “Alice no País das Maravilhas”, outro trabalho de encenação notável de Ricardo Neves-Neves, aqui em parceria com Maria João Luís. Ambas as peças prendem pela sua musicalidade e ritmo, o ambiente misterioso e sombrio da floresta a impor-se, tal como a figura do espelho – em “Alice no País das Maravilhas”, recorde-se, ele é elemento fulcral da cenografia, enquanto em “Banda Sonora” ele está presente na “duplicação” das três meninas (são, na verdade, seis actrizes em palco), cada uma espelho da outra. Há ainda o imaginário do cinema, com Burton e Disney à cabeça quando pensamos na envolvência e ambientes da peça, mas também essa notável partitura de Filipe Raposo, a remeter para o Danny Elfman de “Eduardo Mãos de Tesoura”, “O Estranho Mundo de Jack” ou “A Noiva Cadáver”. Genial!

[Foto: Ricardo Neves-Neves / facebook.com/ricardo.neves.neves]

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

TEATRO: "Alice no País das Maravilhas"



TEATRO: “Alice no País das Maravilhas”
Encenação | Maria João Luís, Ricardo Neves-Neves
Adaptação | Ricardo Neves-Neves, a partir de Lewis Carroll
Cenografia | Ângela Rocha
Interpretação | Ana Amaral, Beatriz Frazão, Beatriz Maia, Helena Caldeira, Inês Dias, Joana Campelo, José Leite, Leonor Wellenkamp Carretas, Márcia Cardoso, Maria João Luís, Patrícia Andrade, Pedro Lacerda, Rafael Gomes, Sílvia Figueiredo
Produção | Teatro da Terra, Teatro do Eléctrico
Duração aproximada | 90 minutos, M/12
Teatro Nacional de S. João
06 Fev 2019 | qua | 19:00


“Alice no País das Maravilhas” é a obra mais conhecida de Charles Lutwidge Dodgson, publicada em 1865 sob o pseudónimo de Lewis Carroll. Navegando nas águas do nonsense e do absurdo, o livro acompanha as aventuras de uma menina chamada Alice que, atraída pela curiosidade para uma toca de coelho, cai e é transportada para um lugar fantástico, povoado por criaturas particulares e onde impera uma lógica absurda e paralela à do nosso quotidiano. Mas isto já todos nós sabemos (ou, pelo menos, quase todos). Graças à riqueza descritiva de Lewis Carroll, com os olhos da imaginação já demos por nós a cair em câmara lenta, vezes sem conta, naquele buraco que parece não mais ter fim, a dar de caras com coelhos brancos sempre apressados, a escutar os conselhos de lagartas dengosas, a tomarmos um chá de loucos, a passearmos no meio de baralhos de cartas ou a ouvirmos um “cortem-lhe a cabeça” por tudo e por nada. Havia, pois, uma dúvida legítima a pairar na mente do espectador à entrada na sala: Será que isto vai funcionar em palco?

Foi este tremendo risco de desafiar uma história intemporal no reino da fantasia, tão presente nas mentes de tantos desde que são gente, que Maria João Luís e Ricardo Neves-Neves aceitaram correr. Pegaram na palavra (falada e cantada) e fizeram dela, como convém, a base da peça. Trabalharam com enorme cuidado e bom gosto a componente visual, privilegiando o cenário – genial o artifício cénico de ir transformando o estrado num espelho, dando ao espectador a possibilidade de apreciar a peça em planos distintos –, isto sem esquecer as luzes e o som, as imagens em vídeo e os deliciosos figurinos. Reuniram um extraordinário naipe de actores, acrescentando-lhes nove músicos em palco, a fazerem pulsar a peça de energia e vibração. E misturaram o todo com doses generosas de criatividade, imaginação e muita diversão. Brincaram, brincaram, brincaram... e abriram a brincadeira a um público que não se fez rogado!

Independentemente das mensagens subliminares que a peça possa conter – percebemos que o original constitui um retrato crítico da Inglaterra Vitoriana, numa época em que começavam a aparecer mulheres fortíssimas, com pensamento, com atitude -, esta “Alice no País das Maravilhas” é, acima de tudo, um divertimento extraordinário para miúdos e graúdos. É impossível ficar indiferente ao tom fantasioso da peça e não mergulhar no seu universo, tão ricos os detalhes, tão intrinsecamente ritmada a acção. A partir daqui, é fácil entrar no jogo, estar em palco ao lado de Alice, mandar um chuto no rabo do Coelho Branco, gozar com a gaguez do Dodô e, de nariz empinado, mandar bugiar a Rainha de Copas. Tão fácil como sermos minúsculos ou gigantes como reflexo das nossas acções.