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terça-feira, 27 de maio de 2025

FESTIVAL: CIRC-UN-FLEX



FESTIVAL: CIRC-UN-FLEX
Festival de Circo Contemporâneo
Ovar, vários espaços
23 Mai > 25 Mai 2025


Nos últimos anos, as artes circenses têm sabido reinventar-se com base em abordagens pluridisciplinares, assegurando o surgimento e a afirmação de novas estéticas e mantendo esse desígnio maior de levar o circo a todos os públicos. A variedade da oferta e a sua qualidade intrínseca – e aqui importa relevar o trabalho do INAC – Instituto Nacional de Artes do Circo, sediado em Famalicão – têm feito com que o circo contemporâneo seja chamado, com frequência crescente, a integrar os mais variados programas culturais, quer através de espectáculos isolados, quer de forma conjugada com outras propostas, complementares entre si, sob a forma de um festival. Está neste caso o CIRC-UN-FLEX, evento promovido pelo Município de Ovar e que, no passado fim-de-semana, espalhou pela cidade a magia desta arte milenar no seu poder de contar histórias e explorar novos universos. Em cinco momentos distintos, entre espaços ao ar livre e o palco do Centro de Artes de Ovar, esta primeira edição deu a ver o trabalho de um conjunto de artistas que, das mais variadas formas, desafiaram os limites da arte circense, cruzando a acrobacia, o malabarismo ou a pantomina com o teatro, a dança ou a música.

Não falarei aqui dos espectáculos da dupla “Ferrer & Weidman” (Espanha) e de “Tatsuya” (Japão), grandes protagonistas da noite de estreia do Festival, uma vez que não tive oportunidade de os ver. Já na tarde de sábado, o Largo do Tribunal foi palco de “Les Poids des Nuages”, da companhia “Hors Surface” (França), uma peça que explora a relação entre duas personagens em busca da perfeição. Um enorme trampolim e uma escada erguida aos céus serviram de adereços a uma série de acrobacias de enorme efeito visual e valia técnica, graças ao trabalho coordenado do português Diogo Santos e do marroquino Mohamed Nahhas, dois extraordinários executantes da companhia fundada em 2010 por Damien Droin. Entre o sonho de Ícaro e o desafio das leis da gravidade, os “Hors Surface” foram merecedores do aplauso entusiástico do público neste seu esforço de pôr em cena a capacidade da pessoa em compreender o outro e saber aproximar-se dele, em relativizar entre o que é e o que parece (o “peso das nuvens” funciona como uma bela metáfora) e, através da união de esforços, entregar-se num abraço a um ideal maior.

“Furo Lento”, de Rui Paixão (Portugal), fechou o segundo dia do Festival com um espectáculo de grande efeito, convidando o espectador a olhar um mundo pós apocalíptico, habitado por entidades cibernéticas como que saídas de jogos de computador, dispostas a subjugar e a humilhar os humanos (leia-se “o público”) de forma autoritária e arrogante. Num cenário evocativo de “2001: Odisseia no Espaço”, Rui Paixão, Pedro Matias e Alan Sencades deram nota de uma extraordinária coordenação e destreza física, juntando à apurada linguagem corporal a componente de expressividade “clownesca” capaz de arrancar saborosas gargalhadas à plateia. “Lost in Translation”, uma criação de Anna Kristin McCarthy, com interpretação de Ireen Peegel, Jaakko Repola e Aleksey Smolov, fechou o Festival na tarde de domingo, lançando para cima da mesa uma série de questões que falam de compreensão, empatia, união. Com um conjunto de adereços simples e muito humor e criatividade, o colectivo da Estónia, Finlândia e Letónia explorou um mundo povoado de muros e fronteiras e no qual as palavras, como os gestos, se reduzem cada vez mais a meros estereótipos. “Alguma dúvida?”

terça-feira, 1 de novembro de 2022

TEATRO: "Kinski - Roi des Rats"



TEATRO: “Kinski - Roi das Rats”
Conceito, direcção artística e performance | Rui Paixão
Direcção plástica, apoio dramatúrgico, máscaras e adereços | Cristóvão Neto
Desenho e execução de figurino | Lola Sousa, Nuno Encarnação
Produção | Les Subs, Rui Paixão/HolyClowns
50 Minutos | Maiores de 3 anos
Cine-Teatro de Estarreja
29 Out 2022 | sab | 21:30 


Chama-se Kinski e é actor. Um actor problemático, acrescente-se. Caído no desemprego, sem as rotinas habituais a que estava obrigado graças às exigências da profissão, deixa-se vencer pela inércia, deprime e acaba por engordar de forma desmesurada. Entretanto, para sobreviver, abraça a carreira de vendedor de dentes de vampiro, mas a atitude deselegante e agressiva face aos seus potenciais clientes afasta-os irremediavelmente, deixando Kinski ainda mais desesperado e revoltado. Levado numa espiral de alienação e insanidade, acabará por se transformar num rato, espalhando o caos à sua volta e contaminando aqueles que com ele se cruzam. Este parece ser um bom resumo do espectáculo que Rui Paixão trouxe ao palco do Cine-Teatro de Estarreja, na noite do passado sábado. Será, pelo menos, uma leitura possível, quiçá a mais imediata. Mas são muitas as leituras que a peça oferece, a começar pelo actor problemático que é Kinski, remetendo de forma directa para Klaus Kinski, um génio terrível num actor magnífico, capaz de levar ao desespero qualquer realizador (que o diga Werner Herzog, que terminou uma cena de “Aguirre, o Aventureiro” com uma arma apontada à cabeça de Kinski, ameaçando matá-lo e matar-se em seguida).

Afinal, de que nos fala “Kinski - Roi das Rats”? Que mensagem ou mensagens pretendem Rui Paixão e Cristóvão Neto (que assina o apoio à dramaturgia) fazer passar com este trabalho? A questão não é de resposta fácil, desde logo tendo em conta que a própria peça se assume como um “work in progress”, a versão apresentada em Estarreja sendo diferente da versão inicial, estreada no festival “Imaginarius”, de Santa Maria da Feira, nos passados dias 27 e 28 de Maio. A animada conversa entre Rui Paixão e o público, no final do espectáculo, foi determinante para se perceber que há ideias muito claras que marcam uma boa parte da peça, assumindo Rui Paixão o risco de deixar o restante por conta do improviso. É bem patente a ideia do actor enquanto ser “particular”, caprichoso e volúvel, mas igualmente vulnerável e exposto, sobretudo numa época em que a precariedade tomou conta da cultura e seus agentes. O papel de Nosferatu, que Klaus Kinski representa no filme homónimo de Herzog, deixa uma pista para as figuras do vampiro e do rato. E depois há Roger Ballen, fotógrafo do submundo, cuja estética muito própria relaciona a arte com a imundície, o esgoto e os ratos.

Depois da transformação de Kinski em rato, é pedido ao espectador que se levante da cadeira e embarque numa viagem. À medida que os espaços se vão abrindo, aumenta a cumplicidade entre o rato e o público. Entender a peça passa por uma identificação com ela, algo que Kinski deixa bem vincado na mensagem inscrita no espelho, servindo-se das palavras de Ballen: “My house has no address. It is impossible to find unless you are a rat. It is in the underworld, a place of my rat mind, my human mind, your mind.” O espectáculo chega ao fim quando Kinski parte e deixa o espectador entregue a si próprio. É então que percebemos que existe em nós o poder de, ainda que noutro plano ou dimensão, continuar a alimentar os nossos sonhos e a fazer aquilo que mais gostamos. Esta será, porventura, a grande mensagem de uma peça que tem em Rui Paixão um actor de excelência. À enorme exigência física do papel de Kinski, responde o actor com uma entrega inexcedível, prendendo o espectador durante uma hora de teatro físico e psicológico de grande nível. Um forte aplauso, igualmente, para o trabalho de luz e para a concepção do figurino, de Lola Sousa e Nuno Encarnação, mais valias extraordinárias num grande trabalho de palco. Bravo!

[Foto: João Versos Roldão]

sábado, 31 de julho de 2021

TEATRO: "Hamster Clown"



TEATRO: “Hamster Clown”
Encenação | Ricardo Neves-Neves
Cenografia | José Manuel Castanheira
Caracterização e adereços | Cristovão Neto
Figurinos | Rafaela Mapril 
Interpretação | Rui Paixão
Produção | Nuno Pratas
55 Minutos | Maiores de 14 anos
Centro de Arte de Ovar
30 Jul 2021 | sex | 21:00


Quando um hamster escapa da roda e se deixa maravilhar pelo jardim das delícias, tudo pode acontecer. Acostumado a um girar constante sem sair do sítio, desconhece a noção de espaço e de tempo e, por conseguinte, a importância de achar o caminho mais curto entre dois pontos. Ao encontro da novidade, sem referentes seguros, rapidamente percebe o acréscimo de energia exigida e o quão facilmente atinge a exaustão. A curiosidade tem os seus riscos, o perigo espreita a cada esquina e os medos não tardarão a inquietá-lo. Bem vistas as coisas, o mundo real não parece feito para hámsteres. O jardim das delícias revela-se, afinal, o inferno na terra, pronto a transformar-se num pântano e a engolir os mais idealistas ou os menos precavidos. Talvez regressar à roda e aceitar a monotonia dos dias, esse túnel infindável cuja luz ao fundo não se adivinha sequer, seja a melhor solução.

Depois de “Alice no País das Maravilhas” e “Banda Sonora”, duas peças verdadeiramente marcantes no muito que levo de ver teatro, regresso a Ricardo Neves-Neves e ao seu mundo de fantasia e imaginação. Em “Hamster Clown”, o encenador volta a sua atenção para assuntos que marcam a actualidade - as pragas, a poluição, o aquecimento global, a publicidade agressiva, o consumismo -, mostrando o quanto condicionam a nossa vida e fazem de nós presas fáceis das ratoeiras deste mundo. Regidos por impulsos primários, incapazes de ceder à tentação, somos tomados pela ganância, pela vaidade e pela luxúria, pecados capitais elevados à categoria de valores que se idolatram e cultivam. A medo lidamos com o outro, os traços dessas relações enterrados no mais fundo dos lodaçais, fazendo de cada acção o crime perfeito. BD’s, animes, cosplays, filmes de fantástico e de terror série Z, serão referenciais neste palco de engenho e arte feito, mas é o homem e a sua essência o cerne da peça. E tudo isto com o ar descontraído de quem só veio ver a bola.

Entre o teatro físico, a dança e a performance mais clownesca, Rui Paixão tem uma prestação irrepreensível nesse labor de dar corpo a um hamster ternurento e repulsivo à vez. Na pose, no gesto, na mímica, na forma como se movimenta, nos ruídos que produz, o actor enche o palco com a sua presença, obrigando o espectador a manter-se agarrado à personagem do primeiro ao último instante. O inquietante começo que logo se verte num divertido processo de transformação, a figura humana a ceder o lugar ao hamster, é um grande momento de teatro, tal como o são todos os momentos que se lhe seguem. De uma entrega e rigor absolutos, Rui Paixão sabe ser comedido nos seus excessos, objectivo nas suas atitudes, convincente na sua expressividade. Nesta extraordinária peça, é inevitável que o espectador acabe por reconhecer em si um pouco deste hamster clown. Talvez por isso, por muito divertida que ela seja, por muito inesperados que sejam os seus gags, capazes de deixarem boquiaberto o espectador mais empedernido, o riso tenderá para o amarelo no momento de abandonar a sala.

[Foto: Bruno Filipe Pires | https://barlavento.sapo.pt/]

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Vemos, ouvimos e lemos... #7



1. Contra “queixas, lamúrias e mal-dizeres” nasce a Minimalista, editora livreira independente que surge da comunhão de esforços de doze escritores e três pessoas das artes plásticas e gráficas. Mapeando o seu território entre dois continentes separados pelo Atlântico, a Minimalista publica cada livro “como se fosse o mais especial do mundo” e entrega-se a ele “de corpo e alma”. Mas apesar de todo o idealismo em torno do projecto, os seus responsáveos não deixam de ser pragmáticos: “Chegaremos até onde os leitores permitirem, comprando os nossos livros”, afirmam. Lançado esta semana, “Aviões de papel”, de Paulo Kellerman, é o primeiro de um conjunto de treze títulos agendados até ao final de 2022. Já em Setembro sairá o primeiro romance de Sandrine Cordeiro e em novembro será publicada uma antologia com contos originais dos doze minimalistas. Para mais informações, visite a Editora em https://www.facebook.com/minimalista.editora/.

2. Rui Paixão vai usar o seu Instagram como uma galeria para exibir uma exposição de fotografia.  Intitulada “O vazio tem como abertura o desconhecido”, a mostra é o primeiro trabalho que o artista oferece ao público depois do seu regresso do Cirque du Soleil e da crise pandémica motivada pelo novo coronavírus. Inspirado na poesia de Edmond Jabès (1912-1991), poeta e escritor franco-egípcio, e em colaboração com os fotógrafos Carlos Gomes e Nélson Gomes, o artista pretende, desta forma, reflectir sobre o vazio, o desconhecido, a ausência e o isolamento. Palavras que espelham bem os tempos atuais e que na fotografia ganham forma de poema visual, expondo uma nova sociedade asfixiante e com poucas alternativas para o futuro. As fotografias vão ser postadas ao longo do mês de agosto, ao ritmo de uma fotografia por dia. Pode acompanhar a exposição fotográfica de Rui Paixão em: https://www.instagram.com/_ruipaixao_/?hl=pt.

3.  “As close as far away can be” é o mote da 16ª edição do FEST – Novos Realizadores, Novo Cinema, que arranca amanhã em Espinho e se estende este ano às cidades do Porto e de Lisboa. No total são mais de 230 filmes que, até 09 de Agosto, poderão ser vistos no Auditório da Junta de Freguesia de Espinho e num cinema drive-in instalado no Parque de Estacionamento da Nave Desportiva daquela cidade. As extensões simultâneas às duas maiores cidades do país farão circular as longas em competição pelo Cinema Trindade e Cinema Ideal e as curtas pela Casa Comum da Reitoria da Universidade do Porto. Entre os trunfos da edição 2020 do Festival estão, como não podia deixar de ser, a selecção de longas em competição, mas também o foco no cinema Letão e as agora reveladas sessões “Fast Forward” onde o evento continua a olhar os mais recentes trabalhos de cineastas que passaram pelas suas edições passadas. Programa completo e demais informação em https://site.fest.pt/pt.

domingo, 27 de maio de 2018

TEATRO FÍSICO | DANÇA | MÚSICA: "Hanno"



TEATRO FÍSICO | DANÇA | MÚSICA: “Hanno”
Criação e Dramaturgia | Rina Marques e Rui Paixão
Interpretação | Rina Marques e Rui Paixão
Criação Musical e Música ao Vivo | Cecília Costa
Uma Criação Imaginarius 2018
Santa Maria da Feira
25 Mai 2018 | sex | 19:10


É um final de tarde ameno e ruidoso em Santa Maria da Feira mas, no Rossio, os ambientes são os da noite mais negra, um silêncio de cortar à faca, o nevoeiro a envolver a terra num abraço frio e húmido. Ao desterro dum lugar sem nome chega um carro. No seu interior, um casal discute. Não se ouve o que dizem, qual o motivo da zanga, mas braços e corpos agitam-se, convulsos, descarregando no outro toda a raiva do mundo. A briga adensa-se, o nevoeiro também. De súbito um som seco estala. Depois outro, e outro, e outro...

Aliando dança, teatro físico e música (vibrante percussão acústica e electrónica, desenhada e interpretada ao vivo por Cecília Costa), “Hanno” é uma história intemporal de amor e ódio. As emoções mais primárias são trazidas para primeiro plano de forma crua e intensa, ora abrindo-se em gestos de ternura, ora alimentando a violência e o confronto que acabará por reduzir as personagens à sua condição animal, literalmente. A configuração do “palco”, com tanto de comprido como de estreito, força a aproximação física entre público e actores, propiciando um clima de tensão a raiar o insustentável, o drama a desenrolar-se à distância de um braço. Em estado de inquietação e angústia crescentes, o espectador é obrigado a tomar partido, mergulhado também ele no pesadelo desta relação.

Exímios na forma como vestem a pele das suas personagens em palco, Rina Marques e Rui Paixão ofereceram ao vasto público presente no Rossio da Feira um espectáculo poderoso e particularmente apelativo do ponto de vista visual. A forte componente de dança contemporânea é evidenciada de forma sublime por Rina Marques, toda ela gestualidade versátil, graciosidade e harmonia, o contraponto perfeito à exuberância física do teatro de Rui Paixão, à sua mobilidade, polivalência e, sobretudo, expressividade. Um e outro encarnam uma relação tempestuosa, num ambiente tornado opressivo por uma inteligente e rigorosa concepção dramatúrgica, a remeter para os grandes clássicos do teatro, de “O Som e a Fúria” a “Há Lodo no Cais”, de William Faulkner a Tennessee Williams. O melhor espectáculo desta edição do Imaginarius 2018.