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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

CONCERTO: "Casa Guilhermina" | Ana Moura



CONCERTO: “Casa Guilhermina”,
de Ana Moura
Com | Rui Poço (guitarra portuguesa), André Moreira (baixo eléctrico), Ricardo Danin (bateria)
Cineteatro António Lamoso, Santa Maria da Feira
29 Nov 2025 | sab | 21:30


Dona de uma voz única e de um apurado sentido da elegância e sofisticação, Ana Moura editou em 2022 o seu sétimo álbum de estúdio, “Casa Guilhermina”, trabalho que persiste em afirmar-se como o capítulo mais livre e luminoso da sua trajetória artística. Através dele, a artista reafirmou a sua capacidade de abrir diálogos com o soul e o semba, a pop e os ritmos urbanos, num gesto de identidade e pertença que ignora convenções e transcende fronteiras. Foi isso que provou à saciedade na noite do passado sábado, perante o público do António Lamoso, trazendo para um plano central a figura da avó Guilhermina e construindo, a partir dela, um território afectivo onde memória, modernidade e experimentação se abraçam de forma intensa e livre. Essa pluralidade sonora - tão íntima quanto expansiva - ganhou forma perante uma sala lotada de um público que, desde os primeiros acordes, se deixou conduzir através de um universo em que tradição e futuro se abraçam, catalisados pela sedução e magia do fado. Entre cadências africanas, fados reinventados e momentos de pura comunhão emocional, Ana Moura confirmou o poder transformador do seu projecto, cuja força está não apenas no refinamento musical, mas na autenticidade de quem canta a sua própria história.

Assistir a “Casa Guilhermina” foi como aceitar um convite à viagem, fazendo nosso o sonho das andorinhas que reclamam asas para inaugurar um desejo antigo de partir. Entre golpes malévolos de faca e promessas por cumprir, Ana Moura ergue o fado impregnado de “loucura” como quem reclama os valores da própria ancestralidade e, debruçada em janela escancarada, deixa entrar a tempestade e o rio dos seus olhos. Depois, os jacarandás fazem renascer ausências que se mantêm vivas e o corpo entrega-se à roda quente das “primázias”, onde Angola curva a cintura e a avó Guilhermina, sentada na sua cadeirinha, acende a memória. Calunga aprofunda essa raiz, liturgia de lamento e resistência, antes de a leveza malandra de uma “corridinha” devolver o sorriso ao quotidiano. Há ternura adolescente em “classe” e um balanço suspenso em “arraial triste”, a marcha e o mar unidos num mesmo fôlego. Entre mães que coroam cores, medos de ficar “sozinha lá fora”, trigais que pedem ceifa e colheitas que ruborizam, o concerto desemboca na devoção de Nossa Senhora das Dores, a quem a fadista oferece o peito e recebe, em troca, a divina sorte do fado, essa casa mestiça que junta, inteira e incandescente, a batida angolana e o fandango do Ribatejo, o corridinho do Algarve e o fado de Lisboa.

Mais de um ano separou a compra dos bilhetes da noite em que, finalmente, Ana Moura trouxe a Santa Maria da Feira o pulsar de “Casa Guilhermina”, e ainda assim nada me preparou verdadeiramente para a forma como o disco, tantas vezes escutado ao longo de milhares de quilómetros de estrada, se reinventou diante de mim, como se cada canção respirasse pela primeira vez. Rui Poço, André Moreira e Ricardo Danin, os músicos que acompanharam Ana Moura em palco, elevaram a fasquia com interpretações de rigor brilhante, tecendo uma base luminosa à voz da fadista que assim pôde ergue-la em toda a sua intensidade. As coreografias dos quatro bailarinos, embora visualmente elegantes, pouco acrescentaram à narrativa emocional que vinha, sobretudo, da artista, capaz de transformar cada tema num território íntimo de memória e revelação. E quando “Desfado” entrou, vindo de outra morada mas perfeitamente enquadrado numa casa que é como se fosse sua, cumpriu-se a ponte entre o passado e o presente, lembrando-nos essa ironia tão humana da “certeza de não estar certa de nada”. No final, as palmas - incessantes, ritmadas, absolutamente cúmplices - selaram uma noite em que “Casa Guilhermina” se afirmou não apenas como álbum, mas como lugar vivo, erguido por Ana Moura em cada gesto, em cada sílaba, em cada respiração.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

TEATRO: “À Primeira Vista (Prima Facie)”



TEATRO: “À Primeira Vista (Prima Facie)”,
de Suzie Miller
Tradução | Ana Sampaio
Encenação | Tiago Guedes
Cenário | Catarina Amaro
Figurinos | Rita Alves
Interpretação | Margarida Vila-Nova
Produção | Força de Produção
90 Minutos | Maiores de 14 Anos
31º Encontro de Teatro do CiRAC
Cine-Teatro António Lamoso
15 Fev 2025 | sab | 21h30


A ideia subjacente a “Prima Facie” esteve na cabeça da dramaturga Suzie Miller desde os tempos na Faculdade de Direito, à espera do momento certo para ser escrita. O movimento #MeToo veio dar o empurrão decisivo e a peça pôde finalmente ser concretizada. Anos de prática como advogada de direitos humanos e defesa criminal reforçaram o questionamento feminista e as interrogações da autora do texto acerca do sistema jurídico. Embora acreditasse firmemente que “inocente até prova em contrário” é a base dos direitos humanos, Miller sentiu sempre que a sua aplicação em casos de agressão sexual servia mais para minar do que para defender qualquer ideia de justiça real. Denunciar o crime, suportar a morosidade da Justiça, comparecer a uma acusação, ser contra-interrogada e amesquinhada publicamente nos meios de comunicação social, exige uma coragem extraordinária. Ironicamente, é um processo que revela uma imensa fé na justiça do sistema. Mas será que o sistema jurídico merece esta fé? Ou será que silencia ainda mais as mulheres? Como é que a sociedade - e, por conseguinte, a lei - evoluíram para reformar esta área do Direito?

Quando “À Primeira Vista (Prima Facie)” foi encenado pela primeira vez em 2019 no Griffin Theatre, - uma companhia de teatro de autor baseada em Sidney -, houve uma noite especialmente dedicada a mulheres juristas. O público era composto por juízas, advogadas de defesa e acusação de vários níveis, solicitadoras e mulheres políticas dos parlamentos estaduais e federal da Austrália. Apenas e só mulheres. Na qualidade de criadora, Miller sentou-se no palco depois da peça e o que se seguiu foi uma longa e emocionante discussão que se desenrolou numa autêntica intersecção entre arte e mudança social. Ainda nessa semana, os membros da Comissão de Reforma Legislativa assistiram também a uma representação da peça. Escolas masculinas em grupos, acompanhados por professores e pais, tiveram igualmente oportunidade de ver apresentações da peça em sessões especiais. A compaixão e a curiosidade expressas no final foram um sinal de esperança para as gerações futuras.

No António Lamoso, em Santa Maria da Feira, não houve lugar a debate no final da peça, mas estou certo que espectador algum terá ficado indiferente àquilo a que teve oportunidade de assistir, obrigado a reflectir nas muitas questões que “À Primeira Vista (Prima Facie)” levanta. A peça faz passar, de forma admirável, a mensagem de que o sistema jurídico é moldado pela experiência masculina, os casos são decididos por gerações de juízes homens e as suas normas estabelecidas por gerações de políticos do sexo masculino, num contexto em que as mulheres foram em tempos classificadas como propriedade dos seus maridos, pais e irmãos. Por isso, a legislação sobre a agressão sexual está desajustada da experiência real vivida pelas mulheres. São sempre as vítimas, normalmente mulheres, que são “julgadas”, interrogadas e obrigadas a reviver a sua experiência humilhante, e depois postas em causa acerca dos motivos que as levaram a denunciar um crime hediondo contra a sua pessoa. No entanto, e significativamente, a investigação demonstrou que as pessoas simplesmente não acreditam nas mulheres que testemunham em casos de agressão sexual. Mesmo outras mulheres!

A peça narra a história de Teresa Correia, uma talentosa advogada que vai acumulando sucessos nos casos que defende. Todavia, a sua cuidadosa tentativa de lidar com as partes discricionárias deste mundo começa a parecer perigosa, apanhando-a entre a própria vida e as suas convicções. Subitamente empurrada para uma situação em que é ela que tem de testar o sistema, Teresa descobre que as paredes desta estrutura aparentemente inatacável e em que confiava começam a desmoronar-se e que não há nada seguro a que se agarrar. Ver a lei como ela é, uma construção humana imperfeita, em constante evolução com as mudanças sociais, liberta-a para encontrar a sua voz e convocar-nos a todos a agir. Margarida Vila-Nova encarna a personagem de Teresa, num monólogo vibrante, intenso, avassalador. Preso às suas palavras, aos seus gestos, à forma como se desdobra em várias outras personagens, o espectador vê-se esmagado pelo peso da verdade que sobre si se derrama, cobrindo de culpa e de vergonha a sociedade da qual fazemos parte. O ritmo que a actriz imprime à peça, acrescenta-lhe uma fisicalidade inesperada que vem reforçar a sua dureza psicológica, mergulhando o espectador num caldeirão de emoções difíceis de conter. Uma peça absolutamente essencial, com uma interpretação consistente e convincente, vertiginosa, arrebatadora. Bravo!

[Foto: © Filipe Ferreira | Força de Produção]

terça-feira, 29 de maio de 2018

CERTAME: Imaginarius | Festival Internacional de Teatro de Rua



CERTAME: Imaginarius | Festival Internacional de Teatro de Rua
Santa Maria da Feira, vários locais
24 a 26 Mai 2018


Com odisseias, viagens, questionamentos, inquietações e dúvidas em mente, o  Imaginarius chegou à sua 18ª edição. Ao longo de três dias, Santa Maria da Feira transformou-se no palco mundial do teatro de rua, com 37 companhias / projectos artísticos, mais de 300 artistas de 17 países, 195 apresentações / intervenções artísticas e 170 horas e conteúdos de programação a encherem a cidade de vida e animação e a atraírem milhares de pessoas às suas ruas e praças.  Com palcos espalhados por toda a cidade, foi no Rossio que pulsou com mais força o coração do Festival, aí estando sedeados os projectos dinamizados pela Salto International  Circus School, com as exibições de técnicas e as oficinas de novo circo a cativarem sobretudo os mais novos e a induzir neles a vontade de fruir e de descobrir outras formas de ver e sentir o fantástico universo do circo. A Arte.Descoberta, com as suas propostas “Ilustrar com linhas e Agulhas” e “Desenhar no Imaginário”, foi igualmente um catalisador de vontades e interesses de miúdos e graúdos. Ainda no Rossio, foi possível acompanhar o resultado do projecto que Daniel Seabra e Noé Quintela desenvolveram com os alunos de Animação Sociocultural da Escola Secundária Coelho e Castro e intitulado “Fractions of a Whole”, um espectáculo que soube combinar da melhor forma o teatro, o circo e a dança, proporcionando a criação de quadros de grande beleza estética.

Detalhando algumas propostas do Festival, V.O.G.O.T. , do Duo Masawa [Argentina / Itália], trouxe-nos um espectáculo de circo e dança bem arquitectado, um cheirinho de “pecado original” na sua proposta dramatúrgica, embora esbarrando numa coreografia pobre, demasiado lenta e repetitiva, fazendo com que os 20 minutos parecessem uma eternidade. Já a Compagnie du Paon [Turquia / Suiça] ofereceu ao público a peça “Hayali” (“imaginário”, em turco), um belíssimo espectáculo de fusão entre a dança e o teatro, apoiado em adereços muito simples – quatro caixas de madeira – para evidenciar a complexidade das relações humanas e o seu mais do que instável equilíbrio. Também na área da Dança, os espanhóis da Cia. Si Tu T’Imagines mostraram “Sommes Nous?”, uma apresentação enérgica, ritmada e divertida dos estados da alma, numa revisitação do amor ou do desprezo, da esperança ou da fantasia, do sonho ou da posse.

Num espectáculo com o mesmo nome, o Cirk Biz’Art [França] proporcionou alguns dos mais divertidos momentos desta edição do Imaginarius, propondo uma performance que fundiu teatro e circo e viveu, em grande medida, da interacção com o público. Inesquecíveis as sequências do combate de boxe, do número de sapateado ou da levitação, não menos inesquecíveis o confisco dos telemóveis ou a paixão tórrida entre a actriz e um espectador. Com “Tartf Lkhobz”, levada a cabo pela Accroche Toi Company [Marrocos], as causas sociais e políticas fizeram questão de marcar presença no Festival, a acção a desenrolar-se num estaleiro de obras, os actores a fazerem um aproveitamento notável do espaço, dos materiais e das suas próprias qualidades físicas e técnicas para oferecerem momentos de teatro, dança, parkour e circo ricos de significado, belos e intensos na sua concepção cénica e dramatúrgica. De causas nos falou também o espectáculo “1986”, do colectivo Skandalisi Dance [Rússia]. 1986 é o ano do desastre nuclear de Chernobyl e este espectáculo intenso e belo reflecte as preocupações ambientais do grupo, convocando a reflexão sobre os efeitos da intervenção do homem na natureza e os desafios que se colocam à sobrevivência da espécie.

Pese embora a honestidade das propostas, outros espectáculos houve que se revelaram menos interessantes ou apelativos, quer pelos assuntos abordados, quer pelas opções dramatúrgicas e cénicas, sendo o concerto dos holandeses Blaas of Glory, na tarde de sábado, um exemplo flagrante de desadequação dum espaço a um espectáculo, deitando por terra fundadas expectativas do público num momento bem passado. “Houston, We Have a Problem”, do português Telmo Ferreira, será outro espectáculo menos conseguido, com uma proposta de teatro físico recheada de clichés banais, pouco imaginativo e com um par de actores inseguros. O mesmo se poderá dizer dos espectáculos “Moon” e “Gigante”, respectivamente dos 2Faced Dance Company [Reino Unido] e La Pequeña Victoria Cen [Espanha]. Uma última nota para dar conta do espectáculo “Hanno”, dos portugueses Rina Marques & Rui Paixão, o grande momento do Festival e, entretanto, já abordado em mensagem anterior [AQUI].

domingo, 27 de maio de 2018

TEATRO FÍSICO | DANÇA | MÚSICA: "Hanno"



TEATRO FÍSICO | DANÇA | MÚSICA: “Hanno”
Criação e Dramaturgia | Rina Marques e Rui Paixão
Interpretação | Rina Marques e Rui Paixão
Criação Musical e Música ao Vivo | Cecília Costa
Uma Criação Imaginarius 2018
Santa Maria da Feira
25 Mai 2018 | sex | 19:10


É um final de tarde ameno e ruidoso em Santa Maria da Feira mas, no Rossio, os ambientes são os da noite mais negra, um silêncio de cortar à faca, o nevoeiro a envolver a terra num abraço frio e húmido. Ao desterro dum lugar sem nome chega um carro. No seu interior, um casal discute. Não se ouve o que dizem, qual o motivo da zanga, mas braços e corpos agitam-se, convulsos, descarregando no outro toda a raiva do mundo. A briga adensa-se, o nevoeiro também. De súbito um som seco estala. Depois outro, e outro, e outro...

Aliando dança, teatro físico e música (vibrante percussão acústica e electrónica, desenhada e interpretada ao vivo por Cecília Costa), “Hanno” é uma história intemporal de amor e ódio. As emoções mais primárias são trazidas para primeiro plano de forma crua e intensa, ora abrindo-se em gestos de ternura, ora alimentando a violência e o confronto que acabará por reduzir as personagens à sua condição animal, literalmente. A configuração do “palco”, com tanto de comprido como de estreito, força a aproximação física entre público e actores, propiciando um clima de tensão a raiar o insustentável, o drama a desenrolar-se à distância de um braço. Em estado de inquietação e angústia crescentes, o espectador é obrigado a tomar partido, mergulhado também ele no pesadelo desta relação.

Exímios na forma como vestem a pele das suas personagens em palco, Rina Marques e Rui Paixão ofereceram ao vasto público presente no Rossio da Feira um espectáculo poderoso e particularmente apelativo do ponto de vista visual. A forte componente de dança contemporânea é evidenciada de forma sublime por Rina Marques, toda ela gestualidade versátil, graciosidade e harmonia, o contraponto perfeito à exuberância física do teatro de Rui Paixão, à sua mobilidade, polivalência e, sobretudo, expressividade. Um e outro encarnam uma relação tempestuosa, num ambiente tornado opressivo por uma inteligente e rigorosa concepção dramatúrgica, a remeter para os grandes clássicos do teatro, de “O Som e a Fúria” a “Há Lodo no Cais”, de William Faulkner a Tennessee Williams. O melhor espectáculo desta edição do Imaginarius 2018.