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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

TEATRO: “À Primeira Vista (Prima Facie)”



TEATRO: “À Primeira Vista (Prima Facie)”,
de Suzie Miller
Tradução | Ana Sampaio
Encenação | Tiago Guedes
Cenário | Catarina Amaro
Figurinos | Rita Alves
Interpretação | Margarida Vila-Nova
Produção | Força de Produção
90 Minutos | Maiores de 14 Anos
31º Encontro de Teatro do CiRAC
Cine-Teatro António Lamoso
15 Fev 2025 | sab | 21h30


A ideia subjacente a “Prima Facie” esteve na cabeça da dramaturga Suzie Miller desde os tempos na Faculdade de Direito, à espera do momento certo para ser escrita. O movimento #MeToo veio dar o empurrão decisivo e a peça pôde finalmente ser concretizada. Anos de prática como advogada de direitos humanos e defesa criminal reforçaram o questionamento feminista e as interrogações da autora do texto acerca do sistema jurídico. Embora acreditasse firmemente que “inocente até prova em contrário” é a base dos direitos humanos, Miller sentiu sempre que a sua aplicação em casos de agressão sexual servia mais para minar do que para defender qualquer ideia de justiça real. Denunciar o crime, suportar a morosidade da Justiça, comparecer a uma acusação, ser contra-interrogada e amesquinhada publicamente nos meios de comunicação social, exige uma coragem extraordinária. Ironicamente, é um processo que revela uma imensa fé na justiça do sistema. Mas será que o sistema jurídico merece esta fé? Ou será que silencia ainda mais as mulheres? Como é que a sociedade - e, por conseguinte, a lei - evoluíram para reformar esta área do Direito?

Quando “À Primeira Vista (Prima Facie)” foi encenado pela primeira vez em 2019 no Griffin Theatre, - uma companhia de teatro de autor baseada em Sidney -, houve uma noite especialmente dedicada a mulheres juristas. O público era composto por juízas, advogadas de defesa e acusação de vários níveis, solicitadoras e mulheres políticas dos parlamentos estaduais e federal da Austrália. Apenas e só mulheres. Na qualidade de criadora, Miller sentou-se no palco depois da peça e o que se seguiu foi uma longa e emocionante discussão que se desenrolou numa autêntica intersecção entre arte e mudança social. Ainda nessa semana, os membros da Comissão de Reforma Legislativa assistiram também a uma representação da peça. Escolas masculinas em grupos, acompanhados por professores e pais, tiveram igualmente oportunidade de ver apresentações da peça em sessões especiais. A compaixão e a curiosidade expressas no final foram um sinal de esperança para as gerações futuras.

No António Lamoso, em Santa Maria da Feira, não houve lugar a debate no final da peça, mas estou certo que espectador algum terá ficado indiferente àquilo a que teve oportunidade de assistir, obrigado a reflectir nas muitas questões que “À Primeira Vista (Prima Facie)” levanta. A peça faz passar, de forma admirável, a mensagem de que o sistema jurídico é moldado pela experiência masculina, os casos são decididos por gerações de juízes homens e as suas normas estabelecidas por gerações de políticos do sexo masculino, num contexto em que as mulheres foram em tempos classificadas como propriedade dos seus maridos, pais e irmãos. Por isso, a legislação sobre a agressão sexual está desajustada da experiência real vivida pelas mulheres. São sempre as vítimas, normalmente mulheres, que são “julgadas”, interrogadas e obrigadas a reviver a sua experiência humilhante, e depois postas em causa acerca dos motivos que as levaram a denunciar um crime hediondo contra a sua pessoa. No entanto, e significativamente, a investigação demonstrou que as pessoas simplesmente não acreditam nas mulheres que testemunham em casos de agressão sexual. Mesmo outras mulheres!

A peça narra a história de Teresa Correia, uma talentosa advogada que vai acumulando sucessos nos casos que defende. Todavia, a sua cuidadosa tentativa de lidar com as partes discricionárias deste mundo começa a parecer perigosa, apanhando-a entre a própria vida e as suas convicções. Subitamente empurrada para uma situação em que é ela que tem de testar o sistema, Teresa descobre que as paredes desta estrutura aparentemente inatacável e em que confiava começam a desmoronar-se e que não há nada seguro a que se agarrar. Ver a lei como ela é, uma construção humana imperfeita, em constante evolução com as mudanças sociais, liberta-a para encontrar a sua voz e convocar-nos a todos a agir. Margarida Vila-Nova encarna a personagem de Teresa, num monólogo vibrante, intenso, avassalador. Preso às suas palavras, aos seus gestos, à forma como se desdobra em várias outras personagens, o espectador vê-se esmagado pelo peso da verdade que sobre si se derrama, cobrindo de culpa e de vergonha a sociedade da qual fazemos parte. O ritmo que a actriz imprime à peça, acrescenta-lhe uma fisicalidade inesperada que vem reforçar a sua dureza psicológica, mergulhando o espectador num caldeirão de emoções difíceis de conter. Uma peça absolutamente essencial, com uma interpretação consistente e convincente, vertiginosa, arrebatadora. Bravo!

[Foto: © Filipe Ferreira | Força de Produção]

sexta-feira, 31 de março de 2023

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #70



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #70
Escola de Artes e Ofícios
135 Minutos | Maiores de 14 anos
30 Mar 2023 | qui | 21:30


A noite de ontem foi de emoções na Escola de Artes e Ofícios. A 70ª sessão do Shortcutz Ovar trazia com ela a certeza de “Ice Merchants”, de João Gonzalez - a curta-metragem de animação que fez história ao tornar-se no primeiro filme português a concorrer directamente aos Óscares da Academia de Hollywood -, e esse terá sido o “gatilho” para que até os menos familiarizados com estas andanças corressem em busca de um ingresso. A sala encheu “que nem o Estádio da Luz em dia de jogo do Benfica”, de tal forma que, em matéria de sessões regulares do certame ovarense, esta terá batido todos os recordes de presença de público, transformando-se numa significativa jornada de celebração do cinema português. Mas o programador quis ir mais além, acrescentando à sessão dois filmes igualmente impactantes. Complemento perfeito a “Ice Merchants”, “Pê” de Margarida Vila-Nova e “Boca Cava Terra” de Luís Campos, protagonizaram momentos de grande intensidade e qualidade, chamando a si igual fatia de atenção, carinho e aplauso do público.

A paternidade e as questões a ela ligadas poderão ser entendidas como denominadores comuns das três obras apresentadas. A forma como as histórias convergem num ponto de transição entre um passado do qual já nada podemos esperar e um futuro que se abre em caminhos de mudança (e de esperança), oferece uma fortíssima unidade narrativa aos três filmes, tornando-os partes de um todo, simultaneamente sujeitos e complementos de um filme maior ao qual poderíamos chamar “Vida”. A quase ausência de diálogos compensada pela delicadeza de um gesto ou pela expressividade de um olhar, o papel da mãe “que-não-está-mas-está” e o seu legado na relação pai / filho(a) ou as memórias afectivas que um simples objecto pode despoletar, juntam-se ao cuidado, sensibilidade e subtileza na arte de contar uma história, dificultando a tarefa de dissociar ou distinguir um filme dos outros. Prova disto é a hesitação e a inquietação que me acometeram na hora de atribuir uma nota aos filmes da sessão.

A carga emocional que se desprende do olhar da pequena Alice Patrocínio é o grande trunfo de “Boca Cava Terra”, filme de Luís Campos que abriu a sessão. Como frisou uma espectadora, a menina “sem dizer nada, diz tudo”, cavando com o olhar as diferenças nas relações de género, nas ligações afectivas, no corte entre passado e futuro. “Pê”, filme de estreia de Margarida Vila-Nova enquanto realizadora, vive também de um desempenho enorme, no caso de Adriano Luz no papel de um homem que enfrenta um cancro e vê o fim aproximar-se. Com uma tremenda carga autobiográfica, o filme baseia-se numa carta de catorze páginas deixada em jeito de despedida e representa uma emotiva homenagem de uma filha ao seu pai. “Ice Merchants” fechou a sessão da melhor forma, mostrando o porquê de ser um dos cinco eleitos da Academia para disputar o prémio de Melhor Curta-Metragem de Animação. A uma história muito simples - a de um homem e do seu filho que, “da sua casa fria e vertiginosa presa no alto de um precipício”, saltam todos os dias de pára-quedas para irem à aldeia vender gelo -, junta-se a beleza da animação, tornando o filme numa fábula que nos vem dizer que há coisas que julgávamos perdidas mas que, no momento certo, se tornam presentes para nos amparar. Um filme - e uma sessão - de se lhe tirar o chapéu.