Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Rita Cabaço. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rita Cabaço. Mostrar todas as mensagens

domingo, 18 de janeiro de 2026

TEATRO: "Um Inimigo do Povo" | Marco Martins



TEATRO: “Um Inimigo do Povo”
Conceito, direcção e dramaturgia | Marco Martins
Investigação jornalística | Joana Pereira Bastos, Raquel Moleiro
Assistência de encenação e apoio à dramaturgia | Rita Quelhas
Cenografia | Isabel Cordovil, João Romão
Interpretação | Amin Nurul, Dil Bahadur Ale, Janit Fernandes, Kamal Chowdhury, Kamal Sardar, Niraj Khadka, Rajib Al Mamun, Sabera Parvin, Sharker Nasrin, Shoehl Rana, Rita Cabaço, Rodrigo Tomás
Produção | Arena Ensemble
120 Minutos | Maiores de 16 Anos
Rivoli - Teatro Municipal do Porto
16 Jan 2026 | sex | 19:30


“ (…) Os agentes da PSP também são suspeitos de terem algemado uma mulher na esquadra do Rato como num crucifixo. 'Já no interior da esquadra, algemaram a ofendida a um banco, de braços abertos, como se estivesse pendurada num crucifixo, e largaram todos os seus pertences no chão, que acabaram pisados e danificados pelos demais agentes que por ali passaram', lê-se na acusação, dando conta que a ‘vítima rezou em voz alta um Pai Nosso, por não acreditar no que estava a passar, na medida em que se encontrava numa esquadra rodeada de polícias’ (…)”.
Susete Henriques, in Diário de Notícias (publicado a 15 de Janeiro de 2026)

No preciso momento em que sai a público a notícia de que dois agentes da PSP estão acusados pelo Ministério Público dos crimes de tortura e violação de indivíduos, na sua maioria imigrantes, e depois do recente caso da rede com dez militares da GNR liderada por um português que controlaria cerca de 500 imigrantes a trabalhar em explorações agrícolas do distrito de Beja ou da aparatosa operação policial em larga escala no Martim Moniz, em Lisboa, a 19 de Dezembro de 2024, a peça de Marco Martins, mais do que necessária, revela-se verdadeiramente urgente. Tendo como ponto de partida o episódio da Rua do Benformoso - a imagem de cerca de sessenta corpos indefesos, privados de dignidade, encostados à parede, com as mãos sobre a cabeça, obrigados a manter uma posição fisicamente extenuante e, simultaneamente, a esconder os rostos durante cerca de duas horas -, o encenador propõe uma reflexão sobre a forma como os media e os partidos políticos de várias esferas manipulam a imagem destas pessoas sem jamais lhes dar verdadeiramente voz.

Ora, é precisamente isso que Marco Martins faz, lançando a discussão em torno da fabricação contemporânea do inimigo. Se o texto homónimo de Ibsen desmontava os mecanismos de uma maioria que se diz liberal para silenciar verdades incómodas, esta nova peça desloca o foco para um presente onde o conflito surge a partir de imagens, discursos políticos e operações policiais de grande escala. A fotografia da Rua do Benformoso, captada furtivamente por uma mulher imigrante, condensa esse gesto fundador: dezenas de homens encostados à parede, braços no ar, transformados num corpo coletivo suspeito. Criar um inimigo é uma tarefa sofisticada”, diz Lucrécia Martel: “Mais complexa do que ir à Lua”. Aqui, o inimigo nasce da divisão, da abstracção e da retirada de contexto. A imagem não fala, mas é trabalhada até à exaustão por uma gramática do ódio que dispensa factos e exclui vozes. O teatro surge, então, como contra-campo: um espaço de grau zero onde a imagem é devolvida à carne, ao tempo e à palavra, por uma vez a história a ser escrita também pelos vencidos.

A Rua do Benformoso não é um acaso geográfico, mas um palimpsesto de segregações sucessivas. Da comuna moura medieval ao gueto implícito da imigração contemporânea, o bairro foi sendo marcado pela ideia de confinamento do outro. Hoje, ali vivem e trabalham comunidades do Bangladesh, do Nepal, da Índia e do Paquistão, ocupando empregos essenciais e invisíveis, habitando casas sobrelotadas, esperando por um reagrupamento familiar adiado até à eternidade. A operação policial de 19 de dezembro de 2024 expôs essa ferida: uma acção desproporcionada, sem fundamentação clara, que tratou trabalhadores como suspeitos colectivos. A Provedoria da Justiça viria a confirmar a violação da dignidade e dos direitos fundamentais, mas o dano simbólico estava consumado. Aqueles corpos perfilados tornaram-se a prova visual de uma narrativa pré-existente: a de que os migrantes são a origem da insegurança, da degradação urbana, do medo difuso. O espectáculo parte dessa violência inaugural para a desmontar, recusando a lógica do número e devolvendo espessura humana a quem foi reduzido a uma ameaça e tornado num número.

Essa devolução faz-se, antes de mais, pelos nomes: Amin, Dil, Janit, Kamal, Niraj, Rajib, Sabera, Sharker, Shohel. Dizer nomes é um gesto político. Cada um traz consigo uma infância reconhecível, feita de sons, cheiros e rituais que nos são estranhamente familiares: a voz da mãe, a chuva no telhado, o mercado, a música, a oração. Essas memórias comuns desmontam a ficção da alteridade radical. Mas o percurso de vida que se segue é marcado pela violência estrutural, pela pobreza, pela morte e pela perda. A travessia, a que chamam “O Jogo”, é uma metáfora cruel: um jogo de vida ou morte onde se aposta tudo num futuro possível chamado Europa. Desertos, mares, fronteiras e máfias compõem esse caminho. No palco, os corpos sabem disso antes das palavras: abrigam-se instintivamente, movem-se como quem está dentro de água, falam sozinhos para não desaparecer. A saudade, mais do que o medo, atravessa-os. De uma réstia de confiança no outro emerge, numa confissão, uma palavra que fere mais do que mil facas: Medo.

Ao colocar estes migrantes no centro da cena, Marco Martins inverte a acusação inscrita no título. O inimigo do povo não são eles, mas a maioria que precisa de os transformar numa ferida para fugir aos seus problemas e não se ver na obrigação de encarar as suas próprias contradições. Em Portugal, os factos desmentem o discurso populista: os imigrantes contribuem mais do que recebem, sustentam setores-chave da economia e tornam possível o modo de vida que a maioria defende. Ainda assim, são alvo de slogans, insultos e operações exemplares. O espetáculo não moraliza nem absolve: Expõe. Olhos nos olhos, obriga-nos a reconhecer a massa humana que, na sua diversidade, preferimos não ver. Como em Ibsen, não há heróis puros. Há indivíduos frágeis, contraditórios, solitários. Mas há também uma certeza incómoda: enquanto continuarmos a confundir imagem com verdade e maioria com razão, iremos continuamente entregarmo-nos à construção de mais e mais inimigos para justificar a violência. O teatro, aqui, não oferece soluções, mas devolve-nos a responsabilidade de olhar. E de agir!


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

TEATRO: "A Médica"



TEATRO: “A Médica”,
de Robert Icke
Tradução | Ana Sampaio
Encenação | Ricardo Neves-Neves
Cenografia | Fernando Ribeiro
Figurinos | Rafaela Mapril
Interpretação | Adriano Luz, Custódia Gallego, Eduarda Arriaga, Igor Regalla, Inês Castel-Branco, José Leite, Luciana Balby, Maria José Paschoal, Pedro Laginha, Rita Cabaço, Sandra Faleiro e Vera Cruz
Produção | Teatro do Eléctrico
Teatro da Trindade Inatel - Sala Carmen Dolores
02 Fev 2025 | dom | 16:30


Uma menina de 14 anos está a morrer numa cama de hospital. Um padre católico, amigo dos pais da criança, vê negada a sua pretensão de auxílio espiritual a uma vida prestes a deixar de o ser. A recusa intransigente parte de Piedade Lobbo, directora do Hospital, a Médica a que alude o título da peça. Justifica-se com a necessidade de garantir serenidade à doente num momento delicado, diz nada ter que prove ser essa a vontade dos pais, garante que, sendo a criança menor, é ao médico que cabe qualquer tomada de decisão. O padre insiste, não aceita a recusa, informa que vai gravar a conversa, a confusão instala-se. Há insultos e ameaças, talvez haja mesmo uma agressão física. Afinal, o que poderá estar na origem de uma tomada de posição tão pouco compreensiva por parte da médica? O facto de ser mulher, branca e judia, face a um homem, negro e católico, terá algo a ver com a decisão? A menina morre e o caso é tornado público. Piedade Lobbo será suspensa de funções, num processo ao qual não serão alheias as questões éticas e deontológicas da profissão médica, os valores morais da Igreja, as diferenças de género, a manipulação da opinião pública, a promiscuidade entre a política e os negócios, a desinformação digital, os julgamentos em praça pública.

O caso da criança entre a vida e a morte toma conta da peça desde os primeiros momentos. Os factos são apresentados na sua forma mais crua e o público vê-se obrigado a “entrar na peça”, a tomar partidos. A tão propalada humanização nos serviços de saúde parece não se coadunar com a decisão médica de negar a presença de um padre à cabeceira de uma doente, e isto até os menos familiarizados com as dinâmicas no seio das equipas médicas são capazes de adivinhar. Piedade Lobbo não terá contra si apenas alguns dos médicos do Conselho Geral ao qual preside, mas também uma boa parte do público. Mas não é só na cumplicidade imediata com cada um dos espectadores que a peça marca pontos. Também a qualidade das interpretações é posta em evidência, desde a chegada de um novo interno à equipa ao diálogo final da médica com o padre. No leque de actores, sobretudo Adriano Luz e Rita Cabaço nos seus papéis, complementando da melhor forma o desempenho excelente de Custódia Gallego. Será ela que, no papel de Piedade Lobbo, se irá metamorfosear ao olhar do público, abandonando a sua dureza, implacabilidade e orgulho à prova de bala, desmoronando-se face a tanta agressividade por parte de quem não a conhece, para mostrar o seu lado frágil e profundamente humano, dando nisso a mais bela prova da sua inocência.

Adaptação contemporânea de Robert Icke, da peça de 1912, “Professor Bernhardi”, de Arthur Schnitzler, “The Doctor”, no original, coloca-nos perante um conjunto de temas que estão na ordem do dia. Partindo dessa espécie de braço de ferro da medicina e da ciência com a religião, o texto possui um lado engenhoso que consiste em deixar as questões em aberto, em busca de respostas que cada um terá (ou não) dentro de si. Ciência, religião, sexualidade, identidade ou racismo, são como cartas atiradas para a mesa de todas as discussões, ora funcionando como um desafio às nossas convicções, ora mostrando a forma como lidamos com o preconceito e tendemos a falar daquilo que não sabemos. Ora, é precisamente aqui que a peça afirma a sua força, ao confrontar-nos com uma lutadora pelos direitos humanos e pela dignidade que se impõe a qualquer pessoa, e todavia uma mulher isolada, incapaz de fazer valer os seus argumentos e provar a sua inocência, vítima de uma sociedade onde a tão proclamada igualdade está longe de ser uma realidade. Num quadro de adulteração de princípios, rendidos cada vez mais ao imediatismo, ao consumismo e à globalização, é premente não esquecer que neles se fundam os valores da nossa vida em sociedade e que a sua rejeição é uma via directa para o caos. “A Médica” ajuda a que não nos esqueçamos disso.