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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

TEATRO: "John Gabriel Borkman" | Henrik Ibsen



TEATRO: “John Gabriel Borkman”
Texto | Henrik Ibsen
Encenação | Joaquim Horta
Desenho de Luz | Daniel Worm
Sonoplastia e desenho de som | Miguel Lucas Mendes
Figurinos | José António Tenente
Interpretação | Joaquim Horta, Joana Bárcia, Rita Durão, Gonçalo Almeida, Teresa Tavares, Marco Paiva, Mariana Cardoso, Marta Sales
Produção | Horta Produções Culturais
120 Minutos | Maiores de 12 Anos
Teatro São Luiz
08 Fev 2026 | dom | 17:30


“John Gabriel Borkman” apenas terá sido levado à cena uma única vez em Portugal, no Teatro Monumental, em 1956, com encenação de Costa Ferreira, e com João Villaret, Alma Flora, Paulo Renato e Fernanda Borsatti, entre outros, no elenco. Em boa hora regressa a palco, para mostrar um Ibsen em início de carreira a mostrar os podres duma sociedade como o fizera em “Casa de Bonecas” ou “Um Inimigo do Povo”, por exemplo. “John Gabriel Borkman” oferece um retrato implacável da arrogância masculina e da ilusão de excepcionalidade que sobrevive à queda. É entre o andar superior da casa, onde o antigo banqueiro condenado por fraude vive encerrado, prisioneiro de um passado que se recusa a reconhecer como fracasso, e o piso inferior onde a mulher e a cunhada disputam os restos de uma herança moral e afectiva que se desenrola o drama. A encenação de Joaquim Horta lê-o não como peça de época, mas como dispositivo de ressonância contemporânea, o delírio de grandeza, a recusa da responsabilidade e a instrumentalização dos outros a mostrarem-se dolorosamente reconhecíveis.

Com a casa transformada num organismo vivo, atravessado por presenças invisíveis, tensões latentes e vozes que ecoam para lá do espaço físico, é a sensação de aprisionamento mútuo que emerge. Nesse campo de forças brilham as duas irmãs gémeas, Joana Bárcia e Rita Durão, em interpretações de grande densidade e inteligência. Como Gunhild Borkman, Joana Bárcia constrói uma figura rígida, ferida e implacável, com uma obstinação fria na reposição da honra perdida. Cada gesto parece calculado, cada silêncio carregado de anos de humilhação interiorizada. Rita Durão, no papel de Ella Rentheim, oferece um contraponto subtil e comovente: uma presença marcada pela fragilidade física, mas atravessada por uma lucidez moral desarmante. A sua Ella não pede compaixão; exige reconhecimento. Entre as duas irmãs estabelece-se um duelo sem vencedoras, onde o amor, a culpa e o sacrifício se confundem. Joaquim Horta, no papel-título, encarna um Borkman dominado pela autocomiseração e pela convicção messiânica, evitando a caricatura e sublinhando antes o vazio humano por detrás da retórica grandiosa. O resultado é um triângulo interpretativo tenso, rigoroso e permanentemente em combustão.

A encenação revela especial acuidade na gestão dos espaços “dentro” e “fora” de cena, fazendo do fora-campo um elemento dramatúrgico essencial. A circulação das personagens, os olhares lançados para zonas invisíveis, a escuta do que não se vê, constroem uma dramaturgia da ausência que reforça o peso do passado e a impossibilidade de redenção. Esta opção revela-se particularmente eficaz num texto frequentemente acusado de excessiva gravidade ou melodrama: aqui, o humor negro e a ironia amarga emergem sem sublinhados, deixando que o ridículo das ambições de Borkman se revele por si mesmo. Sem procurar actualizações fáceis ou paralelismos explícitos, o espectáculo confia na actualidade estrutural de Ibsen e na capacidade do público para reconhecer, neste homem convencido de que está acima da lei, um tipo que atravessa séculos. O resultado é um “John Gabriel Borkman” vivo, tenso e perturbador, que confirma a peça como um terreno fértil para grandes intérpretes e para uma encenação que sabe ouvir o texto sem lhe pedir licença.

domingo, 18 de janeiro de 2026

TEATRO: "Um Inimigo do Povo" | Marco Martins



TEATRO: “Um Inimigo do Povo”
Conceito, direcção e dramaturgia | Marco Martins
Investigação jornalística | Joana Pereira Bastos, Raquel Moleiro
Assistência de encenação e apoio à dramaturgia | Rita Quelhas
Cenografia | Isabel Cordovil, João Romão
Interpretação | Amin Nurul, Dil Bahadur Ale, Janit Fernandes, Kamal Chowdhury, Kamal Sardar, Niraj Khadka, Rajib Al Mamun, Sabera Parvin, Sharker Nasrin, Shoehl Rana, Rita Cabaço, Rodrigo Tomás
Produção | Arena Ensemble
120 Minutos | Maiores de 16 Anos
Rivoli - Teatro Municipal do Porto
16 Jan 2026 | sex | 19:30


“ (…) Os agentes da PSP também são suspeitos de terem algemado uma mulher na esquadra do Rato como num crucifixo. 'Já no interior da esquadra, algemaram a ofendida a um banco, de braços abertos, como se estivesse pendurada num crucifixo, e largaram todos os seus pertences no chão, que acabaram pisados e danificados pelos demais agentes que por ali passaram', lê-se na acusação, dando conta que a ‘vítima rezou em voz alta um Pai Nosso, por não acreditar no que estava a passar, na medida em que se encontrava numa esquadra rodeada de polícias’ (…)”.
Susete Henriques, in Diário de Notícias (publicado a 15 de Janeiro de 2026)

No preciso momento em que sai a público a notícia de que dois agentes da PSP estão acusados pelo Ministério Público dos crimes de tortura e violação de indivíduos, na sua maioria imigrantes, e depois do recente caso da rede com dez militares da GNR liderada por um português que controlaria cerca de 500 imigrantes a trabalhar em explorações agrícolas do distrito de Beja ou da aparatosa operação policial em larga escala no Martim Moniz, em Lisboa, a 19 de Dezembro de 2024, a peça de Marco Martins, mais do que necessária, revela-se verdadeiramente urgente. Tendo como ponto de partida o episódio da Rua do Benformoso - a imagem de cerca de sessenta corpos indefesos, privados de dignidade, encostados à parede, com as mãos sobre a cabeça, obrigados a manter uma posição fisicamente extenuante e, simultaneamente, a esconder os rostos durante cerca de duas horas -, o encenador propõe uma reflexão sobre a forma como os media e os partidos políticos de várias esferas manipulam a imagem destas pessoas sem jamais lhes dar verdadeiramente voz.

Ora, é precisamente isso que Marco Martins faz, lançando a discussão em torno da fabricação contemporânea do inimigo. Se o texto homónimo de Ibsen desmontava os mecanismos de uma maioria que se diz liberal para silenciar verdades incómodas, esta nova peça desloca o foco para um presente onde o conflito surge a partir de imagens, discursos políticos e operações policiais de grande escala. A fotografia da Rua do Benformoso, captada furtivamente por uma mulher imigrante, condensa esse gesto fundador: dezenas de homens encostados à parede, braços no ar, transformados num corpo coletivo suspeito. Criar um inimigo é uma tarefa sofisticada”, diz Lucrécia Martel: “Mais complexa do que ir à Lua”. Aqui, o inimigo nasce da divisão, da abstracção e da retirada de contexto. A imagem não fala, mas é trabalhada até à exaustão por uma gramática do ódio que dispensa factos e exclui vozes. O teatro surge, então, como contra-campo: um espaço de grau zero onde a imagem é devolvida à carne, ao tempo e à palavra, por uma vez a história a ser escrita também pelos vencidos.

A Rua do Benformoso não é um acaso geográfico, mas um palimpsesto de segregações sucessivas. Da comuna moura medieval ao gueto implícito da imigração contemporânea, o bairro foi sendo marcado pela ideia de confinamento do outro. Hoje, ali vivem e trabalham comunidades do Bangladesh, do Nepal, da Índia e do Paquistão, ocupando empregos essenciais e invisíveis, habitando casas sobrelotadas, esperando por um reagrupamento familiar adiado até à eternidade. A operação policial de 19 de dezembro de 2024 expôs essa ferida: uma acção desproporcionada, sem fundamentação clara, que tratou trabalhadores como suspeitos colectivos. A Provedoria da Justiça viria a confirmar a violação da dignidade e dos direitos fundamentais, mas o dano simbólico estava consumado. Aqueles corpos perfilados tornaram-se a prova visual de uma narrativa pré-existente: a de que os migrantes são a origem da insegurança, da degradação urbana, do medo difuso. O espectáculo parte dessa violência inaugural para a desmontar, recusando a lógica do número e devolvendo espessura humana a quem foi reduzido a uma ameaça e tornado num número.

Essa devolução faz-se, antes de mais, pelos nomes: Amin, Dil, Janit, Kamal, Niraj, Rajib, Sabera, Sharker, Shohel. Dizer nomes é um gesto político. Cada um traz consigo uma infância reconhecível, feita de sons, cheiros e rituais que nos são estranhamente familiares: a voz da mãe, a chuva no telhado, o mercado, a música, a oração. Essas memórias comuns desmontam a ficção da alteridade radical. Mas o percurso de vida que se segue é marcado pela violência estrutural, pela pobreza, pela morte e pela perda. A travessia, a que chamam “O Jogo”, é uma metáfora cruel: um jogo de vida ou morte onde se aposta tudo num futuro possível chamado Europa. Desertos, mares, fronteiras e máfias compõem esse caminho. No palco, os corpos sabem disso antes das palavras: abrigam-se instintivamente, movem-se como quem está dentro de água, falam sozinhos para não desaparecer. A saudade, mais do que o medo, atravessa-os. De uma réstia de confiança no outro emerge, numa confissão, uma palavra que fere mais do que mil facas: Medo.

Ao colocar estes migrantes no centro da cena, Marco Martins inverte a acusação inscrita no título. O inimigo do povo não são eles, mas a maioria que precisa de os transformar numa ferida para fugir aos seus problemas e não se ver na obrigação de encarar as suas próprias contradições. Em Portugal, os factos desmentem o discurso populista: os imigrantes contribuem mais do que recebem, sustentam setores-chave da economia e tornam possível o modo de vida que a maioria defende. Ainda assim, são alvo de slogans, insultos e operações exemplares. O espetáculo não moraliza nem absolve: Expõe. Olhos nos olhos, obriga-nos a reconhecer a massa humana que, na sua diversidade, preferimos não ver. Como em Ibsen, não há heróis puros. Há indivíduos frágeis, contraditórios, solitários. Mas há também uma certeza incómoda: enquanto continuarmos a confundir imagem com verdade e maioria com razão, iremos continuamente entregarmo-nos à construção de mais e mais inimigos para justificar a violência. O teatro, aqui, não oferece soluções, mas devolve-nos a responsabilidade de olhar. E de agir!


segunda-feira, 17 de novembro de 2025

TEATRO: "Um Inimigo do Povo" | Henrik Ibsen



TEATRO: “Um Inimigo do Povo”
Encenação, espaço cénico e desenho de som | Pedro Damião
Direcção de cena | Sandra Macedo
Cenários e adereços | Artur Leite e José Correia
Figurinos | Cecília Pinho
Interpretação | Miguel Duarte, António Ferreira, Andreia Lopes, Inês Costeira, Iara Duarte, Francisco Costeira e Francisco Alves
Produção | Contacto - Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar
Festovar - Festival de Teatro de Ovar
Auditório Manuel Ramos Costa
15 Nov 2025 | sab | 21:45


Depois de “Casa de Bonecas”, a Contacto volta a debruçar-se sobre a obra do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, levando à cena “Um Inimigo do Povo”, nesta que é a sua 84.ª produção. Espectáculo de encerramento de mais uma edição do Festovar, “Um Inimigo do Povo” mostra-nos o Dr. Thomas Stockmann, interpretado por Miguel Duarte, na figura de um médico que descobre que a água das Termas da cidade, seu verdadeiro ex-libris e fonte maior de rendimento, está contaminada e constitui uma ameaça à saúde pública. Este facto servirá de ponto de partida para a exposição das tensões entre ciência, política e comunicação social, mostrando como a discussão pública se tornou previsível num clima sociopolítico carregado de desinformação. A peça explora jornalistas enviesados, políticos arrogantes e um público habituado a ver factos tornarem-se subjectivos, ecoando temas que dominam a vida pública contemporânea. As interacções com a plateia, na segunda metade da peça, revelam um consenso quase automático sobre estes diagnósticos sociais e reforçam a sensação de que Stockmann não denuncia nada que o espectador já não saiba: a informação fragmentada pelas redes sociais, a política guiada pelo individualismo e um fluxo constante de informação que desgasta o bem-estar intelectual. Mesmo a pergunta retórica do protagonista - quando foi que os factos deixaram de ser factos? - surge mais como constatação de um cansaço colectivo do que como uma provocação verdadeiramente nova.

O conflito dramático intensifica-se quando Stockmann tenta publicar o relatório sobre a água contaminada e se vê confrontado por forças que deveriam estar do seu lado. O seu irmão Peter, o frio e calculista Presidente da Câmara, procura evitar o escândalo; os editores do jornal local, inicialmente aliados do médico, começam a hesitar quando percebem que a denúncia pode ameaçar equilíbrios políticos e económicos. Com ironia e precisão, a peça desmonta a relação simbiótica entre imprensa e poder político, revelando como ambos se condicionam mutuamente e se afastam do papel transformador que reivindicam. A encenação de Pedro Damião reforça visualmente essa tensão: as paredes pairam negras como ameaças latentes, as entradas e saídas de cena fazem-se por “bocas” que parecem tudo engolir, há música metaleira que irrompe a espaços como forma de alienação que mascara a crise subjacente. A peça ganha força com o monólogo incisivo de Stockmann, interpretado por Miguel Duarte com uma certa arrogância e muita determinação. A participação da plateia, conduzida pela dupla Francisco Costeira e Inês Costeira, transforma o teatro num fórum improvisado, ampliando as provocações do texto e expondo as fragilidades do debate público contemporâneo.

Apesar da energia e da criatividade formal, a peça deixa algumas questões apenas esboçadas. A dúvida sobre a autoridade de uma única pessoa e sobre o valor que se pode atribuir a uma opinião individual é levantada, mas não explorada com profundidade. Stockmann é desacreditado, mas a peça pouco discute os critérios que fazem uma voz singular ganhar ou perder poder num ecossistema saturado de opiniões. Paralelamente, à medida que cada personagem revela a sua própria corrupção moral, surge uma interrogação mais ampla: será que todo o interesse colectivo é, no fundo, individual? E será o altruísmo apenas uma forma disfarçada de egoísmo? Estas ideias emergem no íntimo do público, convocadas pelas suas convicções éticas e morais e menos pelo texto em si, o que pode fortalecer o objectivo dialógico do teatro, mas também expõe uma lacuna entre a ambição provocatória do espectáculo e a profundidade das respostas que oferece. Assim, embora esta versão de “Um Inimigo do Povo” seja audaz na forma e eficaz a gerar debate, acaba por oferecer menos confrontação directa do que promete, deixando ao espectador o trabalho de preencher as ambiguidades éticas e políticas apenas delineadas. Duas notas finais, a primeira para os actores que moderam a discussão na plateia e a quem se pede outra “qualidade” na argumentação. A segunda vai para as interpretações de Miguel Duarte e António Ferreira: Papéis fortes exigem interpretações fortes e a dupla principal não esteve à altura do que se lhe exigia. Como referiu Fernando Rodrigues, Director do Festovar, no discurso de encerramento, há muito para melhorar… e esse muito está praticamente todo aqui!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

TEATRO: "Casa de Bonecas"



TEATRO: “Casa de Bonecas”,
Texto | Henrik Ibsen
Adaptação, encenação, espaço cénico, desenho de luz e de som | Pedro Damião
Direcção de cena | Miguel Duarte e Artur Leite
Guarda-roupa | Isilda Margarida e Daniela Fula
Interpretação | Iara Duarte, Luís Ribeiro, Inês Costeira, João Martins, Andreia Lopes, António Ferreira
Produção | Contacto - Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar
Casa da Contacto - Auditório Manuel Ramos Costa
11 Jan 2025 | sab | 21:45


“Casa de Bonecas”, do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, desenvolve a sua acção na conservadora Noruega de finais do século XIX. No cerne da trama está o casal Nora e Torvald Helmer e um empréstimo que a mulher terá contraído de forma ilegal para custear as despesas com a recuperação do marido quando este se encontrava gravemente doente. Alguns anos mais tarde, com Torvald restabelecido e a celebrar a sua promoção a director do Banco onde trabalha, Nora é assediada por Krogstad, o homem que lhe emprestou o dinheiro, também ele funcionário do banco e que acaba de ser despedido por Torvald. Cedendo à chantagem, Nora irá desenvolver os maiores esforços junto do marido no sentido de reverter a situação de Krogstad, mas sem sucesso. Torvald acabará por descobrir o crime de Nora, voltando-se contra a esposa e responsabilizando-a pela sua iminente perda de honra. Mas assim que percebe que Krogstad não pretende seguir em frente com as suas ameaças, antes deixar a situação cair no esquecimento sem consequências para nenhuma das partes, procura agir como se nada tivesse acontecido. Tarde de mais, visto que o seu comportamento elucida Nora em relação à vida que tem vivido e ao seu papel como mãe e esposa, mas sobretudo enquanto pessoa.

Encenada pela primeira vez em 1879, “Casa de Bonecas” dividiu opiniões, extremou posições e causou um rebuliço tão grande que a polémica estendeu-se além fronteiras, sendo considerada pelos críticos como “um esgoto a céu aberto” e proibida durante décadas em vários países por “atentado à moral”. Foram muitos aqueles que a saudaram pela inovação e pertinência, mas muitos mais os que a acharam perturbadora da moral e dos bons costumes, ciosos das convenções que ditavam o papel da mulher no seio da família. Numa altura em que os movimentos de emancipação feminina buscavam afirmar-se na Europa e no Novo Mundo, a peça foi considerada como dotada de um pendor revolucionário e teve repercussões relevantes nesse âmbito. Quem não a apreciou de todo foi a sociedade conservadora da época, que não se cansou de exprimir a sua revolta contra a personagem Nora, sobretudo devido ao final da peça. Esse final, aliás, foi tão controverso que Ibsen se viu na obrigação de ter de escrever um final alternativo, sob pena de alguém o vir a fazer por ele. Actualmente, “Casa de Bonecas” é uma das peças mais representadas em todo o mundo e não há encenador que não adopte o texto original, aquele que inaugura o teatro moderno e que faz de Ibsen o pioneiro da prosa dramática e realista.

O tempo passou, vivemos hoje numa outra sociedade e ganhámos muita coisa. As mulheres – neste caso em particular – deixaram de ser senhoras de alguém para se afirmarem como seres humanos plenos de direitos e de deveres como qualquer pessoa. Mas será bem assim? As notícias nos jornais e os relatórios que constantemente são divulgados estão aí para o desmentir, mostrando um aumento contínuo de casos de violência de género e o consequente crescimento da nossa inquietação, dor e revolta. O número de mulheres assassinadas pelos maridos e companheiros, o número de mulheres assediadas, abusadas e violadas, o número, sobretudo, de jovens mulheres que se submetem a uma violência constante, física ou psicológica, por parte de jovens namorados não pára de aumentar. Esta é uma realidade que não podemos ignorar e para a qual, de certa maneira, esta versão do texto procura alertar, não numa adaptação da realidade do séc. XIX para o séc. XXI, mas numa estrutura linguística que oscila entre alguns maneirismos novecentistas e uma coloquialidade tão própria do nosso tempo. Acima de tudo, o que Ibsen parece pedir é que percebamos que esta não é “a casa de bonecas” ou “a casa da boneca”, antes “uma casa de bonecas”. Uma de muitas.

Em boa hora Pedro Damião e a Contacto pegaram em “Casa de Bonecas”, estreando com ela a 82ª produção de uma longa e bonita história de mais de quatro décadas de amor ao teatro. Fê-lo numa hora particularmente dolorosa, com o desaparecimento precoce de Manuel Ramos Costa, associado fundador número 1 da Contacto e um homem que à instituição devotou toda a sua vida, ajudando a elevar a Companhia a um lugar cimeiro no Teatro em Portugal. Em condições muito difíceis para actores e público - o ruído que se projectou do exterior perturbou significativamente o normal desenrolar da peça -, foi emocionante ver como os vários papéis foram defendidos, particularmente o de Nora, assumido pela jovem actriz Iara Duarte, brilhante na réplica final, quando solta um inaugural grito feminista, abandonando a casa, o marido e os filhos. O desenho de luz que retém Nora na sombra ou o lugar que ocupa no centro da sala e que a mantém de costas para o público, falam do quanto a sociedade procurava “esconder” o papel da mulher. Ao mesmo tempo, o colorido e geométrico vestido, inspirado na pintura de Mondrian, vem falar-nos de modernidade e de emancipação. Um belíssimo momento, numa casa que insiste em dar a ver teatro, que teima em acarinhá-lo, promovê-lo e levá-lo ao encontro dos mais variados públicos.