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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

TEATRO: “Caravana” | João Luís Barreto Guimarães



TEATRO: “Caravana”,
de João Luís Barreto Guimarães
Encenação | João Pedro Vaz
Cenografia e Figurinos | Sara Vieira Marques
Desenho de luz | Manuel Abrantes
Interpretação | Joaquim Horta, Rita Calçada Bastos
Co-produção | Teatro Aberto, Teatro Nacional São João
75 Minutos | Maiores de 14 Anos
Teatro Nacional de São João
23 Set 2026 | qua | 19:00

(...)
ELA: O que faz por aqui quando está sozinho?
ELE: Hum... leio (Pausa.). Durmo. (Pausa para respirar fundo.) Respiro.
ELA: Não faz nada, portanto.
ELE: Quem foi que lhe disse que respirar não dá trabalho?
ELA: Produz alguma coisa para a sociedade enquanto respira?
ELE: (Sério.) Dióxido de carbono.
ELA: (Bate-lhe no braço.) Estúpido (Pausa.) É tão estúpido.
ELE: (Encosta-se para trás.) E reflicto.
ELA: Reflecte.
ELE: Parece-lhe pouco?
ELA: Depende do que faz com as suas reflexões.
ELE: Quando Newton levou com a maçã na cabeça, estava a reflectir. (Pausa.) Veja no que deu. (...)

Há um lugar onde “Caravana” começa e é importante que comece justamente aí: no limiar. Uma caravana estacionada à margem de um bosque, a norte da cidade, entre a casa e o abandono, entre a promessa de abrigo e a evidência de que nenhum abrigo é definitivo. João Luís Barreto Guimarães escreve a partir desse lugar intermédio, onde as coisas raramente são aquilo que parecem. As palavras aproximam, mas também desviam; o humor desarma, para de seguida deixar entrever a ferida; a intimidade oferece-se e recua no instante imediato. É uma escrita de aparente simplicidade, construída sobre diálogos breves, pausas, repetições, pequenas colisões do quotidiano e, no entanto, profundamente consciente do que prefere não dizer. Há qualquer coisa de cinematográfico nesses grandes planos de duas pessoas que dialogam e, por vezes, parecem falar de outra coisa; qualquer coisa de teatralmente cruel naquilo que uma frase banal pode esconder. O espectador é convidado a entrar nesse jogo sem conhecer as suas regras, a aceitar a máscara antes de perceber o rosto que ela oculta. O texto responde em inteligência e subtileza ao não transformar a dor em discurso, mas deixá-la infiltrar-se, lentamente, nas palavras, nos silêncios e nos gestos.

João Pedro Vaz percebeu que uma peça assim não pede uma encenação que ilumine, mas uma encenação que saiba escurecer. O palco é, por isso, um território de revelações adiadas, onde a luz e as sombras da noite nunca são aquilo que parecem ser. A caravana torna-se uma espécie de consciência exterior das personagens: imóvel por fora, em permanente deslocação por dentro. Tudo nela é provisório, dos encontros às identidades, das certezas até ao próprio tempo. De silêncio em silêncio, de lua em lua, as quatro noites desenham uma arquitectura secreta, quase musical, em que a narrativa parece avançar enquanto, subterraneamente, regressa ao ponto de partida. A circularidade não é um simples expediente formal, antes corresponde à própria lógica da dor, que raramente avança em linha recta. Regressa, repete-se, procura outras máscaras, outras vozes, outros corpos, até encontrar uma fresta por onde possa finalmente respirar. Há momentos em que aquilo que julgávamos não passar de um jogo começa a adquirir outro peso. O cómico deixa-se atravessar pelo trágico e a estranheza converte-se em reconhecimento. Sem pressas nem sublinhados, a encenação conduz-nos até esse lugar onde princípio e fim se confundem e onde a representação, paradoxalmente, pode ser a forma mais próxima da verdade.

Uma escrita assim, que confia tanto no silêncio, só poderia cumprir-se plenamente através de actores capazes de o escutar. Joaquim Horta e Rita Calçada Bastos fazem dessa escuta a matéria mais funda das suas interpretações. Ele constrói uma personagem de contenção e fissuras, deixando que o que não diz pese tanto como aquilo que é dito; ela multiplica presenças sem nunca as transformar em máscaras exteriores, encontrando para cada uma delas uma temperatura, um ritmo, uma humanidade próprias. Entre os dois há um jogo admirável de aproximações e fugas, de desejo e recuo, de ironia e vulnerabilidade. Rimo-nos porque os reconhecemos; emocionamo-nos porque, por detrás do reconhecimento, percebemos a ferida. “Caravana” é, assim, uma peça de uma excelência invulgar: na escrita, porque transforma o indizível em diálogo sem o tornar explícito; na encenação, porque converte o espaço e o silêncio em matéria dramática; na interpretação, porque dois actores de grande envergadura conseguem dar carne, contradição e humanidade a personagens que vivem precisamente no limite entre aquilo que são e o que fingem ser. João Luís Barreto Guimarães traz para o teatro a sensibilidade do poeta, mas descobre também o que o teatro ensina. Numa pausa que é verso, num corpo imóvel que é uma narrativa inteira, na necessidade de dizer o essencial, começando por fingir que está apenas a contar uma história.

[Foto: © José Caldeira, Teatro Nacional de São João | https://www.tnsj.pt/pt/espetaculos/7251/caravana/]

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

TEATRO: "John Gabriel Borkman" | Henrik Ibsen



TEATRO: “John Gabriel Borkman”
Texto | Henrik Ibsen
Encenação | Joaquim Horta
Desenho de Luz | Daniel Worm
Sonoplastia e desenho de som | Miguel Lucas Mendes
Figurinos | José António Tenente
Interpretação | Joaquim Horta, Joana Bárcia, Rita Durão, Gonçalo Almeida, Teresa Tavares, Marco Paiva, Mariana Cardoso, Marta Sales
Produção | Horta Produções Culturais
120 Minutos | Maiores de 12 Anos
Teatro São Luiz
08 Fev 2026 | dom | 17:30


“John Gabriel Borkman” apenas terá sido levado à cena uma única vez em Portugal, no Teatro Monumental, em 1956, com encenação de Costa Ferreira, e com João Villaret, Alma Flora, Paulo Renato e Fernanda Borsatti, entre outros, no elenco. Em boa hora regressa a palco, para mostrar um Ibsen em início de carreira a mostrar os podres duma sociedade como o fizera em “Casa de Bonecas” ou “Um Inimigo do Povo”, por exemplo. “John Gabriel Borkman” oferece um retrato implacável da arrogância masculina e da ilusão de excepcionalidade que sobrevive à queda. É entre o andar superior da casa, onde o antigo banqueiro condenado por fraude vive encerrado, prisioneiro de um passado que se recusa a reconhecer como fracasso, e o piso inferior onde a mulher e a cunhada disputam os restos de uma herança moral e afectiva que se desenrola o drama. A encenação de Joaquim Horta lê-o não como peça de época, mas como dispositivo de ressonância contemporânea, o delírio de grandeza, a recusa da responsabilidade e a instrumentalização dos outros a mostrarem-se dolorosamente reconhecíveis.

Com a casa transformada num organismo vivo, atravessado por presenças invisíveis, tensões latentes e vozes que ecoam para lá do espaço físico, é a sensação de aprisionamento mútuo que emerge. Nesse campo de forças brilham as duas irmãs gémeas, Joana Bárcia e Rita Durão, em interpretações de grande densidade e inteligência. Como Gunhild Borkman, Joana Bárcia constrói uma figura rígida, ferida e implacável, com uma obstinação fria na reposição da honra perdida. Cada gesto parece calculado, cada silêncio carregado de anos de humilhação interiorizada. Rita Durão, no papel de Ella Rentheim, oferece um contraponto subtil e comovente: uma presença marcada pela fragilidade física, mas atravessada por uma lucidez moral desarmante. A sua Ella não pede compaixão; exige reconhecimento. Entre as duas irmãs estabelece-se um duelo sem vencedoras, onde o amor, a culpa e o sacrifício se confundem. Joaquim Horta, no papel-título, encarna um Borkman dominado pela autocomiseração e pela convicção messiânica, evitando a caricatura e sublinhando antes o vazio humano por detrás da retórica grandiosa. O resultado é um triângulo interpretativo tenso, rigoroso e permanentemente em combustão.

A encenação revela especial acuidade na gestão dos espaços “dentro” e “fora” de cena, fazendo do fora-campo um elemento dramatúrgico essencial. A circulação das personagens, os olhares lançados para zonas invisíveis, a escuta do que não se vê, constroem uma dramaturgia da ausência que reforça o peso do passado e a impossibilidade de redenção. Esta opção revela-se particularmente eficaz num texto frequentemente acusado de excessiva gravidade ou melodrama: aqui, o humor negro e a ironia amarga emergem sem sublinhados, deixando que o ridículo das ambições de Borkman se revele por si mesmo. Sem procurar actualizações fáceis ou paralelismos explícitos, o espectáculo confia na actualidade estrutural de Ibsen e na capacidade do público para reconhecer, neste homem convencido de que está acima da lei, um tipo que atravessa séculos. O resultado é um “John Gabriel Borkman” vivo, tenso e perturbador, que confirma a peça como um terreno fértil para grandes intérpretes e para uma encenação que sabe ouvir o texto sem lhe pedir licença.