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segunda-feira, 17 de novembro de 2025

TEATRO: "Um Inimigo do Povo" | Henrik Ibsen



TEATRO: “Um Inimigo do Povo”
Encenação, espaço cénico e desenho de som | Pedro Damião
Direcção de cena | Sandra Macedo
Cenários e adereços | Artur Leite e José Correia
Figurinos | Cecília Pinho
Interpretação | Miguel Duarte, António Ferreira, Andreia Lopes, Inês Costeira, Iara Duarte, Francisco Costeira e Francisco Alves
Produção | Contacto - Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar
Festovar - Festival de Teatro de Ovar
Auditório Manuel Ramos Costa
15 Nov 2025 | sab | 21:45


Depois de “Casa de Bonecas”, a Contacto volta a debruçar-se sobre a obra do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, levando à cena “Um Inimigo do Povo”, nesta que é a sua 84.ª produção. Espectáculo de encerramento de mais uma edição do Festovar, “Um Inimigo do Povo” mostra-nos o Dr. Thomas Stockmann, interpretado por Miguel Duarte, na figura de um médico que descobre que a água das Termas da cidade, seu verdadeiro ex-libris e fonte maior de rendimento, está contaminada e constitui uma ameaça à saúde pública. Este facto servirá de ponto de partida para a exposição das tensões entre ciência, política e comunicação social, mostrando como a discussão pública se tornou previsível num clima sociopolítico carregado de desinformação. A peça explora jornalistas enviesados, políticos arrogantes e um público habituado a ver factos tornarem-se subjectivos, ecoando temas que dominam a vida pública contemporânea. As interacções com a plateia, na segunda metade da peça, revelam um consenso quase automático sobre estes diagnósticos sociais e reforçam a sensação de que Stockmann não denuncia nada que o espectador já não saiba: a informação fragmentada pelas redes sociais, a política guiada pelo individualismo e um fluxo constante de informação que desgasta o bem-estar intelectual. Mesmo a pergunta retórica do protagonista - quando foi que os factos deixaram de ser factos? - surge mais como constatação de um cansaço colectivo do que como uma provocação verdadeiramente nova.

O conflito dramático intensifica-se quando Stockmann tenta publicar o relatório sobre a água contaminada e se vê confrontado por forças que deveriam estar do seu lado. O seu irmão Peter, o frio e calculista Presidente da Câmara, procura evitar o escândalo; os editores do jornal local, inicialmente aliados do médico, começam a hesitar quando percebem que a denúncia pode ameaçar equilíbrios políticos e económicos. Com ironia e precisão, a peça desmonta a relação simbiótica entre imprensa e poder político, revelando como ambos se condicionam mutuamente e se afastam do papel transformador que reivindicam. A encenação de Pedro Damião reforça visualmente essa tensão: as paredes pairam negras como ameaças latentes, as entradas e saídas de cena fazem-se por “bocas” que parecem tudo engolir, há música metaleira que irrompe a espaços como forma de alienação que mascara a crise subjacente. A peça ganha força com o monólogo incisivo de Stockmann, interpretado por Miguel Duarte com uma certa arrogância e muita determinação. A participação da plateia, conduzida pela dupla Francisco Costeira e Inês Costeira, transforma o teatro num fórum improvisado, ampliando as provocações do texto e expondo as fragilidades do debate público contemporâneo.

Apesar da energia e da criatividade formal, a peça deixa algumas questões apenas esboçadas. A dúvida sobre a autoridade de uma única pessoa e sobre o valor que se pode atribuir a uma opinião individual é levantada, mas não explorada com profundidade. Stockmann é desacreditado, mas a peça pouco discute os critérios que fazem uma voz singular ganhar ou perder poder num ecossistema saturado de opiniões. Paralelamente, à medida que cada personagem revela a sua própria corrupção moral, surge uma interrogação mais ampla: será que todo o interesse colectivo é, no fundo, individual? E será o altruísmo apenas uma forma disfarçada de egoísmo? Estas ideias emergem no íntimo do público, convocadas pelas suas convicções éticas e morais e menos pelo texto em si, o que pode fortalecer o objectivo dialógico do teatro, mas também expõe uma lacuna entre a ambição provocatória do espectáculo e a profundidade das respostas que oferece. Assim, embora esta versão de “Um Inimigo do Povo” seja audaz na forma e eficaz a gerar debate, acaba por oferecer menos confrontação directa do que promete, deixando ao espectador o trabalho de preencher as ambiguidades éticas e políticas apenas delineadas. Duas notas finais, a primeira para os actores que moderam a discussão na plateia e a quem se pede outra “qualidade” na argumentação. A segunda vai para as interpretações de Miguel Duarte e António Ferreira: Papéis fortes exigem interpretações fortes e a dupla principal não esteve à altura do que se lhe exigia. Como referiu Fernando Rodrigues, Director do Festovar, no discurso de encerramento, há muito para melhorar… e esse muito está praticamente todo aqui!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

TEATRO: "Casa de Bonecas"



TEATRO: “Casa de Bonecas”,
Texto | Henrik Ibsen
Adaptação, encenação, espaço cénico, desenho de luz e de som | Pedro Damião
Direcção de cena | Miguel Duarte e Artur Leite
Guarda-roupa | Isilda Margarida e Daniela Fula
Interpretação | Iara Duarte, Luís Ribeiro, Inês Costeira, João Martins, Andreia Lopes, António Ferreira
Produção | Contacto - Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar
Casa da Contacto - Auditório Manuel Ramos Costa
11 Jan 2025 | sab | 21:45


“Casa de Bonecas”, do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, desenvolve a sua acção na conservadora Noruega de finais do século XIX. No cerne da trama está o casal Nora e Torvald Helmer e um empréstimo que a mulher terá contraído de forma ilegal para custear as despesas com a recuperação do marido quando este se encontrava gravemente doente. Alguns anos mais tarde, com Torvald restabelecido e a celebrar a sua promoção a director do Banco onde trabalha, Nora é assediada por Krogstad, o homem que lhe emprestou o dinheiro, também ele funcionário do banco e que acaba de ser despedido por Torvald. Cedendo à chantagem, Nora irá desenvolver os maiores esforços junto do marido no sentido de reverter a situação de Krogstad, mas sem sucesso. Torvald acabará por descobrir o crime de Nora, voltando-se contra a esposa e responsabilizando-a pela sua iminente perda de honra. Mas assim que percebe que Krogstad não pretende seguir em frente com as suas ameaças, antes deixar a situação cair no esquecimento sem consequências para nenhuma das partes, procura agir como se nada tivesse acontecido. Tarde de mais, visto que o seu comportamento elucida Nora em relação à vida que tem vivido e ao seu papel como mãe e esposa, mas sobretudo enquanto pessoa.

Encenada pela primeira vez em 1879, “Casa de Bonecas” dividiu opiniões, extremou posições e causou um rebuliço tão grande que a polémica estendeu-se além fronteiras, sendo considerada pelos críticos como “um esgoto a céu aberto” e proibida durante décadas em vários países por “atentado à moral”. Foram muitos aqueles que a saudaram pela inovação e pertinência, mas muitos mais os que a acharam perturbadora da moral e dos bons costumes, ciosos das convenções que ditavam o papel da mulher no seio da família. Numa altura em que os movimentos de emancipação feminina buscavam afirmar-se na Europa e no Novo Mundo, a peça foi considerada como dotada de um pendor revolucionário e teve repercussões relevantes nesse âmbito. Quem não a apreciou de todo foi a sociedade conservadora da época, que não se cansou de exprimir a sua revolta contra a personagem Nora, sobretudo devido ao final da peça. Esse final, aliás, foi tão controverso que Ibsen se viu na obrigação de ter de escrever um final alternativo, sob pena de alguém o vir a fazer por ele. Actualmente, “Casa de Bonecas” é uma das peças mais representadas em todo o mundo e não há encenador que não adopte o texto original, aquele que inaugura o teatro moderno e que faz de Ibsen o pioneiro da prosa dramática e realista.

O tempo passou, vivemos hoje numa outra sociedade e ganhámos muita coisa. As mulheres – neste caso em particular – deixaram de ser senhoras de alguém para se afirmarem como seres humanos plenos de direitos e de deveres como qualquer pessoa. Mas será bem assim? As notícias nos jornais e os relatórios que constantemente são divulgados estão aí para o desmentir, mostrando um aumento contínuo de casos de violência de género e o consequente crescimento da nossa inquietação, dor e revolta. O número de mulheres assassinadas pelos maridos e companheiros, o número de mulheres assediadas, abusadas e violadas, o número, sobretudo, de jovens mulheres que se submetem a uma violência constante, física ou psicológica, por parte de jovens namorados não pára de aumentar. Esta é uma realidade que não podemos ignorar e para a qual, de certa maneira, esta versão do texto procura alertar, não numa adaptação da realidade do séc. XIX para o séc. XXI, mas numa estrutura linguística que oscila entre alguns maneirismos novecentistas e uma coloquialidade tão própria do nosso tempo. Acima de tudo, o que Ibsen parece pedir é que percebamos que esta não é “a casa de bonecas” ou “a casa da boneca”, antes “uma casa de bonecas”. Uma de muitas.

Em boa hora Pedro Damião e a Contacto pegaram em “Casa de Bonecas”, estreando com ela a 82ª produção de uma longa e bonita história de mais de quatro décadas de amor ao teatro. Fê-lo numa hora particularmente dolorosa, com o desaparecimento precoce de Manuel Ramos Costa, associado fundador número 1 da Contacto e um homem que à instituição devotou toda a sua vida, ajudando a elevar a Companhia a um lugar cimeiro no Teatro em Portugal. Em condições muito difíceis para actores e público - o ruído que se projectou do exterior perturbou significativamente o normal desenrolar da peça -, foi emocionante ver como os vários papéis foram defendidos, particularmente o de Nora, assumido pela jovem actriz Iara Duarte, brilhante na réplica final, quando solta um inaugural grito feminista, abandonando a casa, o marido e os filhos. O desenho de luz que retém Nora na sombra ou o lugar que ocupa no centro da sala e que a mantém de costas para o público, falam do quanto a sociedade procurava “esconder” o papel da mulher. Ao mesmo tempo, o colorido e geométrico vestido, inspirado na pintura de Mondrian, vem falar-nos de modernidade e de emancipação. Um belíssimo momento, numa casa que insiste em dar a ver teatro, que teima em acarinhá-lo, promovê-lo e levá-lo ao encontro dos mais variados públicos.

domingo, 11 de março de 2018

TEATRO: "O Santo e a Porca"



TEATRO: “O Santo e a Porca”,
de Ariano Suassuna
Versão e Encenação | Alfredo Correia
Interpretação | José Maria Silva, Olívia Martins, David Ferreira, Ana Carvalho, Fernando Gomes, Lourdes Costa e Cesário Costa
Produção | Companhia Teatral de Ramalde – Associação 26 de Janeiro
Casa da Contacto, Ovar | 10 Mar 2018 | sáb | 21:45


O centro da história é Eurico, avarento, devoto de Santo António, assombrado pela ideia de que todos querem roubá-lo. Por isso, guarda em sua casa uma porca de madeira onde esconde o dinheiro anos e anos. Tantos anos que o dinheiro acaba por perder o valor. Ao redor de Eurico estão a filha, Margarida, a irmã solteirona Benedita, Vicente, fazendeiro rico e viúvo, Diogo, filho do fazendeiro, disfarçado de corcunda, e dois criados – Pinhão, criado de Vicente e noivo de Carolina. Esta, criada de Eurico, é a personagem que desenvolve toda a intriga. Entre confusões, encontros e desencontros, formam-se três casais apaixonados e sobra um velho sovina, com a sua porca e o seu santo.

Imitação Nordestina de Plauto, “O Santo e a Porca” é uma peça escrita pelo brasileiro Ariano Vilar Suassuna (1927 – 2014), levada à cena pela primeira vez no Rio de Janeiro, pelo Teatro Cacilda Becker, em 1958. Trata-se duma comédia de costumes contada por alguém que manteve um contacto profundo e amoroso com a vida. Um realista, como o próprio Suassuna se considerava, mas não à maneira naturalista — que falseia a vida — mas à maneira da maravilhosa literatura popular brasileira, que transfigura a vida com a imaginação para lhe ser fiel. Com “O Santo e a Porca”, o que Suassuna procurou atingir foi, se não a verdade do mundo, pelo menos a verdade do seu mundo, do mundo que lhe foi dado. Um mundo de sol e de poeira, como o que conheceu na sua infância, com actores ambulantes ou bonecos de mamulengo, representando gente comum e às vezes representando atores – com cangaceiros, santos, poderosos, assassinos, ladrões, palhaços, prostitutas, juízes, avarentos, luxuriosos, medíocres, homens e mulheres de bem – e no qual eram presença constante os seres da vida mais humilde, as pastagens, o gado, as pedras, o sol e o céu.

Dar a ver uma peça tão rica de simbolismo, significado e alcance é, desde logo, mérito desta Companhia Teatral de Ramalde – Associação 26 de Janeiro que, sob a batuta de Alfredo Correia, soube ilustrar, com enorme empenho e amor ao teatro, esta hilariante comédia de costumes. Secundada por um bom naipe de actores, Olívia Martins mostrou-se irrepreensível no papel de Carolina, enriquecendo-o com os modos e o sotaque marcadamente tripeiros e arrancando saborosas palmas e gargalhadas ao público que, numa noite tempestuosa, esgotou por completo a Casa da Contacto. Finalmente, mérito também da Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar que, desde 2002, insiste em “Dar Teatro”, mantendo o contacto do público com o teatro fora dos meses em que ocorrem as suas grandes iniciativas teatrais. Obrigado a todos e parabéns ao Teatro!

domingo, 26 de novembro de 2017

TEATRO: "A Salvação de Lutero"



TEATRO: “A Salvação de Lutero”,
de Teresa Leite
Encenação | Manuel Ramos Costa
Interpretação | Andreia Lopes, António Ferreira, Dorinda Resende, Inês Oliveira, João Barge, José Ferreira, Juliana Almeida, Laura Poças, Luis Ribeiro, Manuel Ricardo, Margarida Martins, Teresa Leite e Tiago Amaral
Produção | Contacto – Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar
Casa da Contacto | 25 Nov 2017 | sab | 21:45


Colocando um ponto final na 24ª edição do Festovar – Festival de Teatro de Ovar, a Companhia de Teatro Água Corrente de Ovar estreou a sua 66ª produção, “A Salvação de Lutero”, um texto de Teresa Leite com encenação de Manuel Ramos Costa. Casa cheia na Casa da Contacto em mais um momento alto da Companhia, para uma peça com um cunho muito forte, quer na forma como retrata, dum ponto de vista histórico, a vida e obra do reformista Martinho Lutero, quer no que suscita de tomada de consciência e dúvida interior no tocante a algumas questões candentes da prática católica.

Tirando partido dum cenário simples mas altamente versátil, a peça distribui-se ao longo de vinte e nove quadros que atravessam o percurso de vida de Martinho Lutero, desde a recusa em aceitar o mercado de indulgências em nome do Papa Leão X, até ao momento da sua morte, na sequência duma visão onde a fé é posta à prova de forma particularmente dura. A peça é atravessada por momentos de grande intensidade dramática, como a protecção dada pelo Príncipe Frederico da Saxónia e que permitiu a Lutero a tradução da Bíblia para Alemão, a revolta dos camponeses que se saldou em mais de 100.000 mortos no curto espaço de três anos e ainda o casamento com Catarina De Bora, de quem teve seis filhos.

Quando se celebram 500 anos da afixação, no portal da capela de Wittemberg, das 95 teses de Lutero acerca do poder e eficácia das indulgências, saúda-se a iniciativa da Contacto em recordar os factos e relançar o debate em torno de questões doutrinárias fracturantes no seio da Igreja ainda nos dias de hoje. Sóbria e rigorosa na forma como desenvolve a trama narrativa, “A Salvação de Lutero” junta, harmoniosamente, a palavra ao canto e à dança, tomando conta do público do primeiro ao último instante. Para tal, é decisiva a forma como os actores, no seu conjunto, assumem os respectivos papéis, transmitindo à peça uma enorme coerência e verdade. Destes, é justo destacar José Ferreira, no papel de Lutero, irrepreensível na entrega à personagem, incisivo na palavra, convicto na fé. Uma peça de grande atualidade e que marca, da melhor forma, os 34 anos duma Companhia cada vez mais empenhada em dar a ver teatro. E teatro do bom!