TEATRO: “Um Inimigo do Povo”
Conceito, direcção e dramaturgia | Marco Martins
Investigação jornalística | Joana Pereira Bastos, Raquel Moleiro
Assistência de encenação e apoio à dramaturgia | Rita Quelhas
Cenografia | Isabel Cordovil, João Romão
Interpretação | Amin Nurul, Dil Bahadur Ale, Janit Fernandes, Kamal Chowdhury, Kamal Sardar, Niraj Khadka, Rajib Al Mamun, Sabera Parvin, Sharker Nasrin, Shoehl Rana, Rita Cabaço, Rodrigo Tomás
Produção | Arena Ensemble
120 Minutos | Maiores de 16 Anos
Rivoli - Teatro Municipal do Porto
16 Jan 2026 | sex | 19:30
“ (…) Os agentes da PSP também são suspeitos de terem algemado uma mulher na esquadra do Rato como num crucifixo. 'Já no interior da esquadra, algemaram a ofendida a um banco, de braços abertos, como se estivesse pendurada num crucifixo, e largaram todos os seus pertences no chão, que acabaram pisados e danificados pelos demais agentes que por ali passaram', lê-se na acusação, dando conta que a ‘vítima rezou em voz alta um Pai Nosso, por não acreditar no que estava a passar, na medida em que se encontrava numa esquadra rodeada de polícias’ (…)”.
Susete Henriques, in Diário de Notícias (publicado a 15 de Janeiro de 2026)
No preciso momento em que sai a público a notícia de que dois agentes da PSP estão acusados pelo Ministério Público dos crimes de tortura e violação de indivíduos, na sua maioria imigrantes, e depois do recente caso da rede com dez militares da GNR liderada por um português que controlaria cerca de 500 imigrantes a trabalhar em explorações agrícolas do distrito de Beja ou da aparatosa operação policial em larga escala no Martim Moniz, em Lisboa, a 19 de Dezembro de 2024, a peça de Marco Martins, mais do que necessária, revela-se verdadeiramente urgente. Tendo como ponto de partida o episódio da Rua do Benformoso - a imagem de cerca de sessenta corpos indefesos, privados de dignidade, encostados à parede, com as mãos sobre a cabeça, obrigados a manter uma posição fisicamente extenuante e, simultaneamente, a esconder os rostos durante cerca de duas horas -, o encenador propõe uma reflexão sobre a forma como os media e os partidos políticos de várias esferas manipulam a imagem destas pessoas sem jamais lhes dar verdadeiramente voz.
Ora, é precisamente isso que Marco Martins faz, lançando a discussão em torno da fabricação contemporânea do inimigo. Se o texto homónimo de Ibsen desmontava os mecanismos de uma maioria que se diz liberal para silenciar verdades incómodas, esta nova peça desloca o foco para um presente onde o conflito surge a partir de imagens, discursos políticos e operações policiais de grande escala. A fotografia da Rua do Benformoso, captada furtivamente por uma mulher imigrante, condensa esse gesto fundador: dezenas de homens encostados à parede, braços no ar, transformados num corpo coletivo suspeito. “Criar um inimigo é uma tarefa sofisticada”, diz Lucrécia Martel: “Mais complexa do que ir à Lua”. Aqui, o inimigo nasce da divisão, da abstracção e da retirada de contexto. A imagem não fala, mas é trabalhada até à exaustão por uma gramática do ódio que dispensa factos e exclui vozes. O teatro surge, então, como contra-campo: um espaço de grau zero onde a imagem é devolvida à carne, ao tempo e à palavra, por uma vez a história a ser escrita também pelos vencidos.
A Rua do Benformoso não é um acaso geográfico, mas um palimpsesto de segregações sucessivas. Da comuna moura medieval ao gueto implícito da imigração contemporânea, o bairro foi sendo marcado pela ideia de confinamento do outro. Hoje, ali vivem e trabalham comunidades do Bangladesh, do Nepal, da Índia e do Paquistão, ocupando empregos essenciais e invisíveis, habitando casas sobrelotadas, esperando por um reagrupamento familiar adiado até à eternidade. A operação policial de 19 de dezembro de 2024 expôs essa ferida: uma acção desproporcionada, sem fundamentação clara, que tratou trabalhadores como suspeitos colectivos. A Provedoria da Justiça viria a confirmar a violação da dignidade e dos direitos fundamentais, mas o dano simbólico estava consumado. Aqueles corpos perfilados tornaram-se a prova visual de uma narrativa pré-existente: a de que os migrantes são a origem da insegurança, da degradação urbana, do medo difuso. O espectáculo parte dessa violência inaugural para a desmontar, recusando a lógica do número e devolvendo espessura humana a quem foi reduzido a uma ameaça e tornado num número.
Essa devolução faz-se, antes de mais, pelos nomes: Amin, Dil, Janit, Kamal, Niraj, Rajib, Sabera, Sharker, Shohel. Dizer nomes é um gesto político. Cada um traz consigo uma infância reconhecível, feita de sons, cheiros e rituais que nos são estranhamente familiares: a voz da mãe, a chuva no telhado, o mercado, a música, a oração. Essas memórias comuns desmontam a ficção da alteridade radical. Mas o percurso de vida que se segue é marcado pela violência estrutural, pela pobreza, pela morte e pela perda. A travessia, a que chamam “O Jogo”, é uma metáfora cruel: um jogo de vida ou morte onde se aposta tudo num futuro possível chamado Europa. Desertos, mares, fronteiras e máfias compõem esse caminho. No palco, os corpos sabem disso antes das palavras: abrigam-se instintivamente, movem-se como quem está dentro de água, falam sozinhos para não desaparecer. A saudade, mais do que o medo, atravessa-os. De uma réstia de confiança no outro emerge, numa confissão, uma palavra que fere mais do que mil facas: Medo.
Ao colocar estes migrantes no centro da cena, Marco Martins inverte a acusação inscrita no título. O inimigo do povo não são eles, mas a maioria que precisa de os transformar numa ferida para fugir aos seus problemas e não se ver na obrigação de encarar as suas próprias contradições. Em Portugal, os factos desmentem o discurso populista: os imigrantes contribuem mais do que recebem, sustentam setores-chave da economia e tornam possível o modo de vida que a maioria defende. Ainda assim, são alvo de slogans, insultos e operações exemplares. O espetáculo não moraliza nem absolve: Expõe. Olhos nos olhos, obriga-nos a reconhecer a massa humana que, na sua diversidade, preferimos não ver. Como em Ibsen, não há heróis puros. Há indivíduos frágeis, contraditórios, solitários. Mas há também uma certeza incómoda: enquanto continuarmos a confundir imagem com verdade e maioria com razão, iremos continuamente entregarmo-nos à construção de mais e mais inimigos para justificar a violência. O teatro, aqui, não oferece soluções, mas devolve-nos a responsabilidade de olhar. E de agir!
[Foto: © Lais Pereira / Theatro Circo | https://www.teatromunicipaldoporto.pt/pt/programa/marco-martins-arena-ensemble-um-inimigo-do-povo/]
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