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sábado, 17 de janeiro de 2026

LIVRO: “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” | Luísa Sobral



LIVRO: “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé”,
de Luísa Sobral
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 2025 (12.ª edição, Novembro de 2025)


“Há plantas que rasgam o asfalto. Deixam para trás uma fissura como prova da sua força, do caminho percorrido, da agonia que sufoca antes da golfada de ar. Com o passar do tempo, a planta que fura o asfalto torna-se também ela asfalto. Fica a fissura para nos relembrar de que é possível dançar em contramão. É possível a terra ser o início e não o fim.”

A estreia de Luísa Sobral na ficção com “Nem Todas as Árvores Morrem de Pé” diz-nos que a sua voz autoral vai além do território da música, encontrando na literatura um espaço igualmente firme, expressivo e livre. Figura mediática consagrada enquanto compositora e intérprete, Luísa Sobral tem para oferecer um romance intimista, narrado na primeira pessoa, de revisitação de um dos períodos mais sombrios da História do século XX: A divisão da Alemanha no contexto da Guerra Fria. A construção do Muro de Berlim surge não apenas como acontecimento histórico, mas como ferida simbólica que atravessa gerações e condiciona destinos individuais. A protagonista, identificada apenas por M., cresce na Alemanha de Leste, separada da mãe e da tia, num espaço político e emocional delimitado pela propaganda do regime socialista. Sem recorrer a excessos didácticos, a autora inscreve o drama pessoal no quadro mais vasto da oposição entre Leste e Ocidente, mostrando como as grandes decisões geopolíticas se refletem silenciosamente na vida quotidiana dos cidadãos comuns.

O romance distingue-se pela forma como retrata a experiência de viver sob uma ditadura, sob vigilância constante da polícia política e sentindo de que forma a repressão do pensamento crítico condiciona comportamentos, afectos e relações familiares. A máquina ideológica do Estado exalta os valores do colectivo e demoniza o capitalismo ocidental, criando uma realidade paralela que M. aceita como única possível durante grande parte da sua vida. Este choque de culturas, omnipresente mas nunca ostensivo, é trabalhado com subtileza narrativa, permitindo ao leitor apreender o absurdo e a violência do sistema sem que esse seja o tema explícito do livro. A meio da obra, a introdução de cartas trocadas entre personagens funciona como um dispositivo narrativo eficaz para preencher silêncios, expandir pontos de vista e aprofundar conflitos interiores. Embora não seja um recurso inovador, revela-se particularmente feliz numa história que atravessa várias décadas e exige uma gestão rigorosa do ritmo e da progressão psicológica das personagens.

Outro elemento singular do romance tem a ver com a presença recorrente de um vasto conjunto de plantas medicinais, cujos desenhos abrem cada um dos capítulos e que remetem para a preparação de tisanas e remédios caseiros. Aparentemente decorativo, este detalhe ganha densidade simbólica, associando-se à ideia de cuidado, resistência e sobrevivência em ambientes de uma grande hostilidade. Tal como as árvores evocadas no título, nem todas resistem de pé, mas algumas persistem, adaptam-se e encontram formas de continuar a viver. Luísa Sobral demonstra uma notável capacidade de construir personagens psicologicamente consistentes, em especial figuras femininas marcadas pela desilusão, pela perda e pelo silêncio imposto. O resultado é um romance contido, empático e maduro, que evita o maniqueísmo e convida o leitor a refletir sobre memória, identidade e liberdade. Uma estreia literária segura, que transforma a história recente num exercício de escuta atenta das vidas que ficaram presas entre muros, as mais das vezes invisíveis.

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