EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: “Beleza Apesar de Tudo”,
de Manuel Aires Mateus e Francisco Aires Mateus
Curadoria | Nuno Crespo
Museu de Arte Contemporânea de Serralves - Ala Siza Vieira
27 Nov 2025 > 19 Abr 2026
“Construímos casas para acolher intimamente o bocado do mundo – feito de coisas, pessoas, animais, plantas, atmosferas, eventos, imagens e lembranças – que torna a nossa felicidade possível.”
Emanuele Coccia, Filosofia da casa
A exposição “Beleza Apesar de Tudo” não se apresenta como uma retrospectiva da obra dos arquitectos Aires Mateus, mas como uma investigação aprofundada sobre as ideias que têm orientado o seu pensamento ao longo de duas décadas. Mais do que mostrar edifícios concretos, a exposição propõe uma imersão nas pesquisas espaciais, materiais e conceptuais que estruturam o trabalho do atelier. Reunindo noventa e uma representações espaciais, o projecto expositivo assume-se como um verdadeiro laboratório sensorial, marcado por intensas variações de escala, diversidade de materiais e experiências tácteis. Organizada em cinco áreas - jardim, matéria, tempo, lugares e geografias -, a exposição não propõe um percurso linear nem pretende representar realidades reconhecíveis. Cada espaço funciona como uma composição autónoma, formada por objectos, imagens e desenhos que criam tensões e relações abertas à experimentação. O visitante é convidado a penetrar nestes ambientes como um “explorador inesperado”, testando sensações e percepções num conjunto de experiências espaciais que privilegiam a dimensão física, sensível e poética da arquitectura.
Cada elemento exposto - maquetes, desenhos, imagens ou objetos - desempenha uma dupla função. Por um lado, questiona de forma radical o estatuto da representação em arquitectura, sem abdicar dos seus formatos tradicionais. Esse questionamento estende-se à própria capacidade das representações de dizer o real. Por outro lado, esses elementos não são entendidos como substitutos de obras ausentes, mas como experiências de pensamento, instrumentos para explorar possibilidades no campo disciplinar. Como sublinham os próprios arquitectos, “o trabalho da arquitectura é pensar”. Embora seja possível reconhecer referências a projectos emblemáticos do estúdio, das casas de Alenquer e Azeitão ao Centro de Investigação das Furnas, da sede da EDP aos museus em Lausanne e Tours, a exposição não pretende revisitar essas obras. O objectivo é antes revelar um léxico arquitectónico em construção, feito de volumetrias, escalas e ritmos que reaparecem sem se repetirem, configurando um modo de pensar que ultrapassa a obra dos Aires Mateus e contribui para o debate mais amplo da arquitectura contemporânea.
Num plano mais profundo, “Beleza Apesar de Tudo” enfrenta a própria impossibilidade de expor arquitectura. Não apenas porque os edifícios não podem ser transportados para o Museu, mas porque a arquitectura, como defendem os autores, nunca está concluída: é uma plataforma para a vida, permanentemente em aberto. Esta visão aproxima-se do pensamento de Aldo Rossi, para quem falar de arquitetura é falar da vida, da morte e da imaginação. A exposição assume, assim, uma ambição humanista, resgatando a arquitetura de uma leitura estritamente técnica e afirmando-a como saber cultural, estético e social. Num contexto marcado pela crise climática, pela desumanização das cidades e pela crescente desigualdade no acesso ao espaço construído, a arquitectura surge aqui como um gesto de resistência. Ao suspender, ainda que momentaneamente, a lógica da urgência e da destruição, a exposição propõe a beleza como possibilidade de vida. Uma beleza que, apesar de tudo, persiste.
[Texto baseado no Roteiro da Exposição, em https://cdn.bndlyr.com/nsa343pdfl/_assets/2511_roteiro_airesmateus_site.pdf]
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