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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

LUGARES: Mosteiro de Tibães



LUGARES: Mosteiro de Tibães
Rua do Mosteiro, 59 – Mire de Tibães
Horários | De terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00
Ingressos | € 4,00 (bilhete normal)


Fundado na Idade Média e profundamente transformado a partir do século XVII, o Mosteiro de São Martinho de Tibães ocupa um lugar central na história do monaquismo português por ter sido, durante mais de um século, a casa-mãe da Congregação Beneditina Portuguesa. Foi essa condição institucional que justificou a vasta campanha de obras que redefiniu o conjunto, adaptando-o às exigências espirituais, administrativas e simbólicas de uma Ordem em plena afirmação. A igreja constitui o ponto de partida natural da visita e o espaço onde essa ambição se manifesta com maior clareza. Reconstruída segundo os cânones do barroco nacional, apresenta uma nave única de grande clareza espacial, pensada para envolver os fiéis numa ampla experiência emocional. No coro alto impõe-se o magnífico cadeiral, executado em madeira de castanho, verdadeira obra-prima da talha barroca portuguesa. As figuras esculpidas — santos, doutores da Igreja e alegorias morais — organizam-se num discurso visual coerente, a arte ao serviço da Regra de São Bento numa exaltação da ordem, da hierarquia e da disciplina. A monumentalidade não é excessiva, antes controlada, reflectindo uma espiritualidade que une a beleza e a contenção.

Da solenidade da igreja passa-se para o claustro, espaço nuclear da vida monástica e elemento estruturante do edificado. É nele que se percebe o equilíbrio fundamental da espiritualidade beneditina entre oração, leitura e trabalho. Arquitectonicamente, o claustro de Tibães revela uma sobriedade estudada: a repetição rítmica dos arcos, a moderação decorativa e as proporções harmoniosas, criam um ambiente de recolhimento e circulação contínua. Este contraste com a exuberância da igreja não é acidental, mas programático. Em torno do claustro organizam-se as principais dependências conventuais, entre as quais se destaca a cozinha, um dos espaços mais surpreendentes do mosteiro. De grandes dimensões e marcada por uma chaminé monumental, a cozinha revela um notável cuidado funcional e uma clara hierarquização dos espaços de trabalho. Pensada para servir uma comunidade numerosa, afirma-se como exemplo de como a arquitectura utilitária, no contexto monástico, assume dignidade formal e expressiva, integrando-se plenamente na lógica global do edifício.

O espólio artístico do Mosteiro de Tibães desempenha um papel decisivo na construção da sua identidade, sendo o azulejar um dos elementos mais expressivos desse património integrado. Distribuídos por corredores, salas e dependências diversas, os painéis de azulejo azul e branco, maioritariamente dos séculos XVII e XVIII, cumprem uma função que vai muito além da decoração. Representando cenas bíblicas, episódios hagiográficos e alegorias morais, estes conjuntos funcionavam como instrumentos de ensino e meditação, acompanhando o quotidiano dos monges. A azulejaria articula-se com a arquitectura de forma exemplar, reforçando ritmos, delimitando espaços e criando sequências narrativas. Em diálogo com a talha dourada, a pedra e a madeira, os azulejos contribuem para uma ambiência visual coerente, onde cada material desempenha um papel específico. Em Tibães, a noção de espólio não pode ser dissociada da arquitectura: trata-se de um sistema unitário, pensado para comunicar valores, ordenar comportamentos e estruturar o tempo monástico.

A compreensão plena do conjunto só se completa com a visita à sua Cerca, elemento essencial da vida beneditina e expressão concreta do princípio “ora et labora”. Este vasto território murado, cuidadosamente organizado, integrava hortas, pomares, vinhas, bosques e complexos sistemas de água, garantindo a autossuficiência da comunidade. A cerca é uma paisagem construída, moldada ao longo de séculos, em cujos limites o trabalho agrícola se articulava com a contemplação e o ritmo das estações. Caminhar por estes espaços é perceber como o mosteiro se estende para além dos seus muros edificados, projectando uma lógica de ordem e racionalidade sobre a natureza envolvente. A escala aqui é diferente, menos monumental, mas igualmente reveladora: a do quotidiano, do esforço físico e da relação directa com a mãe-natureza. Igreja, dependências conventuais e cerca formam, assim, um conjunto de notável coerência, arquitetura, arte e paisagem unidas numa das mais completas expressões do património monástico português.

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