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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

CINEMA: "Pai Mãe Irmã Irmão" | Jim Jarmush



CINEMA: “Pai Mãe Irmã Irmão” / “Father Mother Sister Brother”
Realização | Jim Jarmush
Argumento | Jim Jarmush
Fotografia | Frederick Elmes, Yorick Le Saux
Montagem | Affonso Gonçalves
Interpretação | Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Vicky Krieps, Sarah Greene, Indya Moore, Philippe Azoury, Luka Sabbat, Françoise Lebrun, Beatrice Domond, Stephen Ostrowski, Eduardo Hoffman, Dave Murphy, Tom O'Reilly
Produção | Joshua Astrachan, Charles Gillibert, Carter Logan, Atilla Salih Yücer
Reino Unido, Estados Unidos, Itália, França, Irlanda, Alemanha | 2025 | Comédia, Drama | 110 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 8
13 Jan 2026 | ter | 16:15


“Pai Mãe Irmã Irmão” marca o regresso de Jim Jarmusch ao formato do tríptico narrativo para observar, com ironia e alguma melancolia, as fracturas silenciosas no seio das famílias contemporâneas. Dividido em três episódios autónomos - “Pai”, “Mãe” e “Irmã Irmão” - o filme acompanha encontros tardios entre adultos e os seus familiares mais próximos, em três geografias distintas, mas unidos por uma mesma sensação de distanciamento emocional. Fiel ao seu cinema, Jarmusch filma o banal - uma viagem de carro, um brinde com água ou com chá, uma expressão fora de moda - como território de tensões não resolvidas, onde o que não se diz pesa mais do que qualquer revelação explícita. É um cinema de silêncios, de pequenos gestos e de embaraços prolongados, que confirma o realizador como um cronista atento da incomunicabilidade moderna, agora mais interessado na passagem do tempo e na impermanência do que na pose fria e distante que marcou obras anteriores.

No primeiro episódio, Adam Driver e Mayim Bialik interpretam dois irmãos que visitam o pai viúvo, corporizado por um Tom Waits magistralmente esquivo, numa cabana isolada. Convictos de que vive na miséria e na confusão mental, os filhos projectam no pai as suas próprias ansiedades urbanas, num encontro marcado por condescendências e equívocos. O segundo episódio, seguramente o mais corrosivo em matéria de humor, reúne Charlotte Rampling e as filhas Cate Blanchett e Vicky Krieps para um chá anual em Dublin, onde afectos reprimidos se disfarçam de boas maneiras e narrativas de sucesso cuidadosamente ensaiadas. Krieps destaca-se como a filha que mente para sobreviver, enquanto Rampling encarna uma frieza tão elegante quanto devastadora. Mais contido e emocionalmente aberto, o derradeiro episódio acompanha dois gémeos - Indya Moore e Luka Sabbat - na forma como aprendem a lidar com o legado enigmático dos pais falecidos, numa Paris invernosa onde a memória se revela um puzzle incompleto.

No seu conjunto, “Pai Mãe Irmã Irmão” propõe uma contemplação serena sobre o envelhecimento, a herança afectiva e a impossibilidade de conhecer verdadeiramente aqueles que nos são mais próximos, sugerindo que a intimidade plena é muitas vezes um constructo retrospectivo. Num gesto de depuração formal e conceptual, o filme afirma-se como uma das obras mais meditativas de Jim Jarmusch, menos interessada na anedota do que na ressonância dos intervalos, aquilo que se acumula entre frases de circunstância, olhares desviados e silêncios prolongados. A opção por uma encenação assumidamente artificial, visível nos enquadramentos rigidamente compostos, não é um capricho estético, mas uma estratégia de distanciamento que expõe o carácter performativo das relações familiares. Sem a radicalidade de títulos mais experimentais, esta obra revela-se, paradoxalmente, uma das mais generosas e elegíacas de Jarmusch, sobrepondo a melancolia ao cinismo e transformando-a um delicado exercício de escuta.

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