Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

INSTALAÇÃO: “If We Stay, We Stay Awake”, de Sagg Napoli



INSTALAÇÃO: “If We Stay, We Stay Awake”,
de Sagg Napoli
Curadoria | Inês Grosso
Galeria Contemporânea do Museu de Serralves
03 Jul > Nov 2026


Em “If We Stay, We Stay Awake”, Sagg Napoli prolonga uma investigação que tem vindo a desenvolver em torno da relação entre corpo, território e poder, deslocando o foco da figura individual para um corpo colectivo construído através dos espaços habitados, dos objectos quotidianos e das relações que neles se estabelecem. Nascida em Nápoles em 1991, a artista tem definido a sua prática a partir da noção de “South Aesthetics”, uma reflexão crítica sobre os modos como o Sul é representado, classificado e frequentemente desvalorizado no interior das narrativas culturais dominantes. O seu trabalho não procura apenas reivindicar uma identidade regional, mas revelar os mecanismos sociais e históricos que determinam aquilo que é reconhecido como belo, contemporâneo ou legítimo. Em Serralves, esta investigação encontra um contexto de particular ressonância: a partir da habitação social, das ilhas e dos processos de autoconstrução que ainda prevalecem na cidade do Porto, Sagg Napoli observa formas de inteligência quotidiana que raramente entram nos arquivos oficiais da arquitectura. A casa surge como uma extensão do corpo e como um espaço onde se inscrevem necessidades, desejos, limitações económicas, memórias familiares e formas de resistência silenciosa.

A instalação transforma materiais associados ao uso doméstico em elementos de uma composição espacial e sonora que questiona os critérios através dos quais se atribui valor cultural. O chão de cortiça, os ventiladores e as cortinas de plástico não são apresentados como objectos neutros, mas como portadores de histórias e práticas colectivas. A artista interessa-se particularmente pela ventilação enquanto fenómeno social: o ar que circula transporta sons, conversas e informações, estabelecendo uma relação entre interior e exterior, privacidade e comunidade. Em oposição a modelos de conforto cada vez mais individualizados e controlados, estes elementos evocam uma experiência partilhada do espaço, onde o ambiente é constantemente negociado entre as pessoas e o lugar. Esta atenção ao quotidiano permite compreender como gestos aparentemente banais - reparar uma parede, adaptar uma janela, escolher uma cortina ou cuidar de uma entrada - constituem formas de regulação autoral. Tal como o corpo, também a casa é frequentemente julgada através de códigos de gosto que escondem diferenças de classe e de acesso aos recursos. Sagg Napoli evidencia que aquilo que é classificado como improvisação pode conter conhecimento, criatividade e uma profunda relação de cuidado com o território.

A importância de “If We Stay, We Stay Awake” reside precisamente na capacidade de aproximar experiências geograficamente distintas, revelando um Sul entendido não como uma fronteira fixa, mas como uma condição histórica e cultural marcada por desigualdades, adaptações e formas específicas de habitar. O diálogo entre Nápoles e o Porto permite pensar uma Europa contraditória, construída simultaneamente sobre a promessa de circulação e sobre fronteiras que distribuem de modo desigual possibilidades de permanência, mobilidade e reconhecimento. Ao convocar referências como o processo SAAL -  programa pioneiro de habitação social e participação pública em Portugal no pós-25 de Abril -, Sagg Napoli recupera uma ideia de arquitectura como prática colectiva e política, onde os habitantes participam na definição dos espaços que ocupam. A exposição propõe, assim, uma atenção activa ao que permanece invisível: o trabalho diário de quem mantém uma casa habitável, a memória inscrita nos bairros e os saberes transmitidos fora das instituições. “Ficar acordado” significa, neste contexto, recusar uma observação distante e reconhecer que os lugares são feitos por pessoas, gestos e relações. A obra de Sagg Napoli afirma-se como uma reflexão contemporânea sobre dignidade, pertença e direito ao espaço, mostrando que a estética nunca é indissociável das condições materiais e sociais que a produzem.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Wrong Answers” | Jenny Holzer



EXPOSIÇÃO: “Wrong Answers”,
de Jenny Holzer
Curadoria | Philippe Vergne
Museu e Biblioteca de Serralves
18 Jun > 01 Nov 2026


A retrospectiva “Wrong Answers”, patente no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, confirma aquilo que há muito distingue Jenny Holzer no panorama da arte contemporânea: a capacidade de transformar a linguagem num campo de batalha. Desde finais da década de setenta que a artista desloca as palavras do território confortável da leitura para o espaço físico, obrigando-as a disputar a nossa atenção em cartazes, painéis electrónicos, bancos de pedra ou projecções monumentais. Contudo, a exposição não se limita a revisitar esse percurso; propõe antes uma leitura sombria do presente, marcada pela erosão da confiança na linguagem. Se os célebres “Truisms” nasceram para desmontar lugares-comuns e expor a fragilidade das certezas ideológicas, hoje essas mesmas frases regressam a um mundo onde a circulação incessante da informação já não esclarece, antes obscurece. A exposição revela uma artista que compreendeu cedo que o poder político reside tanto naquilo que se diz como naquilo que se omite. Em Serralves, essa intuição ganha uma actualidade inquietante: censura, manipulação, desinformação e automatização da palavra surgem como sintomas de uma cultura em que a velocidade da comunicação anulou grande parte da sua capacidade de significar. Jenny Holzer não oferece respostas; limita-se, como sempre fez, a colocar a linguagem diante de si própria, revelando as suas contradições e a violência silenciosa que frequentemente encerra.

A montagem acentua essa leitura ao construir um percurso onde a palavra parece atravessar sucessivos estados de degradação. Os textos gravados na pedra evocam permanência e memória, enquanto os LED robotizados introduzem uma instabilidade quase nervosa, como se a linguagem tivesse perdido definitivamente qualquer possibilidade de repouso. Particularmente impressiva é a instalação em que mensagens de Donald Trump dialogam com reformulações produzidas por inteligência artificial. Mais do que um comentário circunstancial à política norte-americana, trata-se de uma reflexão sobre o modo como a tecnologia amplifica discursos até estes perderem qualquer referente humano. O efeito é profundamente desconfortável: a repetição incessante, o movimento mecânico e o ruído dos dispositivos convertem a leitura numa experiência física de saturação. Também as pinturas realizadas a partir de documentos censurados recusam qualquer sedução formal desligada do seu conteúdo. A beleza das superfícies convive com o apagamento deliberado da informação, lembrando que toda a censura produz uma imagem tão eloquente quanto o texto que pretende ocultar. Mesmo a colaboração com Kilos evita o gesto decorativo; o graffiti recupera a dimensão urbana que sempre pertenceu ao trabalho de Jenny Holzer, devolvendo-o ao espaço de conflito de onde originalmente emergiu.

O momento mais perturbador da exposição encontra-se, porém, na relação entre corpo e linguagem. “Bone Works” recorda que há experiências — a guerra, a tortura, a violência sexual — que resistem a qualquer elaboração discursiva. Quando a artista envolve ossos humanos com fragmentos de texto, reconhece simultaneamente a insuficiência e a necessidade da palavra. É precisamente nessa tensão que reside a força da sua obra. Num tempo em que tantos artistas recorrem à inteligência artificial como demonstração de novidade tecnológica, Jenny Holzer utiliza-a para denunciar a degradação contemporânea do discurso público, preservando intacta a dimensão ética do seu trabalho. Talvez seja esse o aspecto mais relevante desta exposição: não celebra a linguagem, nem lamenta nostalgicamente a sua perda; confronta-nos antes com a responsabilidade de continuar a ler criticamente quando tudo parece concebido para impedir a leitura. “Wrong Answers” demonstra que a obra de Jenny Holzer permanece extraordinariamente actual não porque antecipa o presente, mas porque insiste em recordar que nenhuma sociedade democrática subsiste quando as palavras deixam de possuir peso, memória e responsabilidade. Em Serralves, essa lição adquire uma clareza rara, fazendo desta exposição um dos acontecimentos imperdíveis deste Verão.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Espasmo Quadrado” | Pedro Henriques



EXPOSIÇÃO: “Espasmo Quadrado”,
de Pedro Henriques
Curadoria | Ricardo Nicolau
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
22 Mai > 11 Out 2026


A obra de Pedro Henriques ocupa um lugar singular na arte contemporânea portuguesa porque parte de uma questão que atravessa silenciosamente as últimas duas décadas: o que significa produzir imagens num mundo em que elas deixaram de ser objectos para passarem a existir como fluxos, dados, projecções e superfícies permanentemente mutáveis? Desde muito cedo, o artista recusou instalar-se num território disciplinar estável. Desenha como quem constrói esculturas; imprime como quem desenha; faz da tridimensionalidade um problema gráfico e da superfície um espaço de profundidade. Em vez de afirmar certezas formais, prefere criar zonas de instabilidade onde categorias tradicionalmente entendidas como opostas deixam de funcionar. O manual e o industrial, o analógico e o digital, o espontâneo e o programado, o material e o imaterial coexistem sem hierarquias, tornando evidente que a experiência contemporânea já não cabe em divisões estanques. Num tempo marcado pela circulação incessante de imagens, Pedro Henriques não procura representar esse fenómeno: trabalha a partir dele. As suas obras revelam a imagem como matéria em permanente transformação, sujeita a sucessivas operações de tradução, compressão, repetição e desvio, fazendo da própria instabilidade o seu verdadeiro campo de investigação.

É precisamente essa recusa das fronteiras que confere consistência a um percurso iniciado há quase vinte anos e hoje reconhecido como um dos mais consequentes da sua geração. Embora recorra a tecnologias digitais, programas obsoletos, sistemas de impressão mecânica ou processos industriais, a dimensão manual permanece sempre decisiva. Cada obra resulta de uma negociação contínua entre controlo e acidente, cálculo e improvisação, automatismo e gesto. A tecnologia nunca surge como promessa de progresso, mas como um território de falhas, resíduos, atrasos e imperfeições, onde a mão do artista continua a encontrar espaço para agir. Esta posição afasta Pedro Henriques tanto do entusiasmo tecnológico como da nostalgia artesanal. O que lhe interessa é precisamente o intervalo onde ambos se contaminam. Nesse sentido, o seu trabalho dialoga com algumas das questões centrais da produção artística internacional do século XXI: a desmaterialização dos objectos, a proliferação das imagens, a transformação da percepção visual e a redefinição do estatuto físico das obras numa cultura dominada pela reprodução infinita. Poucos artistas portugueses conseguiram desenvolver uma investigação tão coerente sobre estas matérias sem nunca abdicar da intensidade plástica que distingue cada peça.

“Espasmo Quadrado” sintetiza exemplarmente esse percurso. O próprio título funciona como um programa: reúne duas ideias aparentemente incompatíveis — impulso e disciplina, descontrolo e geometria — para anunciar uma prática construída sobre paradoxos produtivos. A exposição não se organiza segundo uma lógica retrospectiva nem estabelece uma narrativa linear da evolução do artista. Pelo contrário, coloca em convivência obras realizadas em momentos distintos, pertencentes a séries diversas e produzidas através de meios muito diferentes, permitindo que dialoguem entre si como partes de um mesmo sistema aberto. O visitante encontra relações inesperadas entre esculturas, desenhos, impressões e dispositivos espaciais, percebendo que cada trabalho prolonga questões presentes nos restantes. Também a iluminação concebida especificamente para as galerias participa dessa estratégia, funcionando simultaneamente como infraestrutura invisível e como presença escultórica. O resultado é uma exposição que não procura resolver contradições, mas habitá-las. Num momento histórico em que o pensamento tende a reduzir a complexidade do mundo a oposições simplificadoras, Pedro Henriques lembra-nos que é precisamente nos espaços intermédios - onde as categorias vacilam, os sistemas falham e as imagens mudam de estado - que a arte continua a encontrar uma das suas mais profundas razões de existir.

EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: "O Século de Gehry" | Frank Gehry



EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: “O Século de Gehry”,
de Frank Gehry
Comissário | António Choupina
Museu de Arte Contemporânea de Serralves - Ala Álvaro Siza
13 Jun > 30 dez 2026


“O Século de Gehry”, exposição comissariada por António Choupina, é mais uma jóia a ocupar a Ala Siza Vieira do Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Trata-se de uma exposição que não se limita a percorrer a longa trajectória de um dos arquitectos maiores dos séculos XX e XXI, antes propõe uma reflexão sobre aquilo que a arquitectura ainda pode ser quando se recusa a transformar-se numa simples resposta técnica ou numa imagem consumível. Através de desenhos, maquetas, fotografias, filmes e objectos vários, a exposição devolve-nos um Frank Gehry menos próximo do ícone mediático e mais próximo do investigador inquieto que sempre foi. A sua importância histórica não reside apenas nas formas inesperadas que introduziu na paisagem urbana, mas na maneira como restituiu à arquitectura a capacidade de experimentar. Antes do titânio do Guggenheim de Bilbau ou das superfícies ondulantes do Walt Disney Concert Hall, percebemos uma atenção quase artesanal à matéria, ao fragmento e ao acaso. Gehry dizia interessar-se pela energia dos edifícios ainda em construção, pela sua rudeza e pelo seu carácter imediato. Essa afirmação contém, talvez, a chave de toda a sua obra: a arquitectura não como objecto acabado, mas como processo vivo, no qual a dúvida e a descoberta participam tanto quanto o rigor do projecto.

Desde a sua casa em Santa Mónica até aos grandes edifícios que marcam cidades de vários continentes, o arquitecto construiu uma linguagem singular a partir da tensão entre elementos aparentemente incompatíveis. A madeira, o cartão, o metal, o vidro ou o titânio nunca foram simples materiais de revestimento, mas meios para compreender novas possibilidades espaciais. Embora dialogue intensamente com a escultura, a sua arquitectura não é verdadeiramente escultórica. Uma escultura concentra o espaço à sua volta; Frank Gehry procura antes transformá-lo, alterando a luz, o movimento e a percepção de quem o percorre. O fragmento, nos seus projectos, não significa ruptura, mas a busca de uma nova unidade. No Guggenheim de Bilbau, as superfícies curvas e reflectoras não são um mero exercício formal: fazem do edifício uma presença em permanente mutação, dependendo da hora, da claridade do céu, da sensibilidade e apuro do olhar. No Walt Disney Concert Hall, como o próprio arquitecto explicou, cada elemento conserva a sua individualidade antes de participar numa composição colectiva. A arquitectura torna-se assim uma espécie de música construída, cuja harmonia nasce não da uniformidade, mas da relação entre os elementos que a distinguem.

Uma das ideias mais interessantes reveladas pela exposição é a distância entre a imagem pública de Gehry e a complexidade real do seu pensamento. Frequentemente associado ao fenómeno da “arquitectura-espectáculo”, Gehry foi, paradoxalmente, um arquitecto profundamente atento ao contexto. A afirmação de que era “um contextualista convicto” não pode ser entendida como mera defesa circunstancial, mas como uma convicção permanente: cada edifício nasce de uma relação específica com o lugar, a cultura e a memória que o envolve. É nesse ponto que o diálogo com Álvaro Siza, por exemplo, adquire particular significado. Apesar das diferenças formais evidentes, ambos partilham a recusa de uma arquitectura indiferente às circunstâncias. Se Siza procura revelar a continuidade escondida de um lugar, Gehry procura revelar as suas possibilidades latentes. O projecto não construído para o Parque Mayer, em Lisboa, surge na exposição como testemunho de uma relação afectiva com a cidade e de uma vontade de responder ao seu carácter singular. António Choupina compreende essa dimensão ao organizar uma exposição que não apresenta apenas obras acabadas, mas os caminhos, as hesitações e as colaborações que lhes deram origem.

Também por isso, “O Século de Gehry” ultrapassa a condição de homenagem e adquire uma dimensão crítica mais ampla. A exposição recorda-nos uma época em que a arquitectura ainda era entendida como uma forma de conhecimento, uma maneira de pensar o mundo através do espaço e da matéria. Hoje, quando tantos edifícios parecem submetidos à lógica da imagem imediata, da eficiência absoluta ou da repetição globalizada, a obra de Frank Gehry conserva uma pergunta essencial: poderá a arquitectura continuar a surpreender-nos? A sua resposta nunca foi teórica, mas construída. Está na luz que percorre as fachadas de Bilbau, no movimento aparente das superfícies de Düsseldorf, na delicadeza inesperada de uma estrutura metálica no coração das vinhas ou na capacidade de um edifício de transformar a experiência de uma cidade. Percebemos, então, que o verdadeiro legado de Frank Gehry não está nas formas que criou, mas na liberdade que defendeu: a liberdade de imaginar que, mais do que uma solução, um edifício pode ser uma descoberta. E é essa possibilidade - a de uma arquitectura ainda capaz de pensar, emocionar e interrogar o mundo - que permanece como a grande motivação para revisitar a sua obra.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Beautifully Imperfect” | Alice Neel



EXPOSIÇÃO: “Beautifully Imperfect”,
de Alice Neel
Curadoria | Inês Grosso
Museu de Arte Contemporânea de Serralves - Ala Álvaro Siza
16 Jul 2026 > 31 Jan 2027


Hoje considerada uma das mais importantes artistas do século XX, Alice Neel (1900–1984) construiu uma das obras mais singulares da pintura moderna ao permanecer fiel à figura humana numa época em que a abstracção dominava o panorama artístico norte-americano. Durante mais de seis décadas, transformou o retrato num lugar de observação social, onde a intimidade se cruza permanentemente com a história. A Grande Depressão, a Segunda Guerra Mundial, os movimentos pelos direitos civis, o feminismo ou a libertação gay atravessam a sua pintura não como acontecimentos ilustrados, mas através das vidas de quem os viveu. Familiares, vizinhos, trabalhadores, artistas, activistas, crianças, imigrantes ou figuras públicas recebem exactamente o mesmo olhar atento e desarmante, revelando uma profunda convicção de que todas as pessoas merecem ser vistas. Durante décadas, Neel permaneceu praticamente à margem do reconhecimento institucional, recusando adaptar a sua pintura às modas ou às exigências do mercado. Quando esse reconhecimento finalmente chegou, nos anos 1970, a sua obra impunha-se já como uma das vozes mais livres e originais da arte norte-americana, influência que continua hoje a marcar sucessivas gerações de artistas.

O título "Beautifully Imperfect" sintetiza a visão de uma artista para quem a imperfeição nunca representou um desvio à beleza, mas a sua expressão mais autêntica. Nos retratos de Alice Neel, os rostos raramente obedecem a cânones clássicos, os corpos recusam qualquer idealização e a passagem do tempo permanece visível, sem disfarce nem sentimentalismo. A própria pintura assume essa condição: contornos interrompidos, áreas de tela deixadas em aberto e uma pincelada vibrante tornam evidente o gesto e preservam a intensidade do encontro entre artista e modelo. Não por acaso, Neel definia-se como uma "coleccionadora de almas". O que procurava não era a semelhança física, mas a verdade psicológica de cada pessoa. É essa capacidade de tornar visível a complexidade humana que confere à sua obra uma surpreendente actualidade. Muito antes de conceitos como inclusão, diversidade ou representação ocuparem o centro do debate contemporâneo, Neel soube pintar aqueles que a história da arte tantas vezes ignorou: comunidades negras e porto-riquenhas do Spanish Harlem, artistas queer, mulheres grávidas, corpos envelhecidos, doentes ou simplesmente distantes dos modelos convencionais de beleza.

Distribuída por núcleos temáticos que cruzam diferentes momentos da carreira da artista, a exposição privilegia afinidades e ressonâncias em detrimento de uma leitura cronológica, revelando a extraordinária coerência de uma obra construída sempre em torno das pessoas. O percurso inicia-se com o poderoso auto-retrato realizado em 1980, quando Alice Neel tinha oitenta anos: nua, frontal e desprovida de qualquer idealização, a artista apresenta-se ao visitante com uma honestidade quase desconcertante, transformando a sua própria imagem numa declaração de liberdade. Em redor deste quadro, um conjunto de cartas inéditas escritas por artistas, escritores, músicos e outras figuras contemporâneas prolonga o diálogo iniciado pela correspondência preservada no arquivo familiar, testemunhando a vitalidade do seu legado. Obras, documentos, fotografias, livros da biblioteca pessoal, materiais de arquivo e dispositivos de consulta compõem um retrato expandido da artista e do seu tempo. Mais do que uma retrospectiva, “Beautifully Imperfect” propõe um encontro com uma pintura que continua a desafiar convenções estéticas e sociais, lembrando que toda a grande arte nasce, antes de mais, da capacidade de olhar o outro e de o gravar no seu mais íntimo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Abrir Janelas à Pedrada” | Fernanda Fragateiro



EXPOSIÇÃO: “Abrir Janelas à Pedrada”,
de Fernanda Fragateiro
Curadoria | Inês Grosso e Isabel Braga
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
19 Set 2025 > 2027


Fernanda Fragateiro (Montijo, 1962), uma das mais relevantes personalidades da arte contemporânea portuguesa, construiu ao longo de mais de três décadas uma obra singular onde escultura, instalação e arquitectura se cruzam numa reflexão persistente sobre memória, espaço e política. Partindo de uma linguagem formal depurada, herdeira do minimalismo e da tradição modernista, a artista reutiliza materiais provenientes da construção civil, arquivos e vestígios urbanos para produzir objectos que interrogam os processos de transformação das cidades, as narrativas da História e os mecanismos de exclusão inscritos no território. A sua investigação articula referências à arquitectura do século XX, ao pensamento feminista e ao revisionismo histórico, recuperando frequentemente legados de autoras marginalizadas pelas narrativas dominantes. Com uma carreira amplamente reconhecida em instituições de referência na Europa e nas Américas, Fragateiro afirma-se como uma das vozes mais consistentes da arte contemporânea internacional, desenvolvendo uma prática onde a matéria nunca é neutra, mas portadora de memória, conflito e possibilidade crítica. É neste contexto que surge Abrir janelas à pedrada (2025), obra concebida para a ponte que liga o edifício principal do Museu de Serralves à Ala Álvaro Siza, integrada no ciclo de encomendas inaugurado após a abertura desta nova ligação arquitectónica.

Suspensa ao longo do corredor, a instalação apresenta-se como um muro irregular de blocos de cimento leve que parece desafiar simultaneamente a gravidade e a ordem arquitectónica do espaço. Construída a partir de fragmentos de edifícios demolidos no centro de Lisboa, recolhidos pela artista ao longo de vários anos, a obra transforma restos de gesso, reboco, tijolo e cimento numa poderosa arqueologia do presente. Cada elemento conserva as marcas da sua origem e testemunha os efeitos da gentrificação, da especulação imobiliária e da crescente pressão turística que, nas últimas décadas, redesenharam profundamente a cidade. Mais do que documentar essas transformações, Fragateiro converte-as numa experiência física, onde o visitante é confrontado com uma barreira simultaneamente sólida e permeável. Os blocos parecem prestes a ruir, mas sustentam-se mutuamente, deixando frestas por onde passam a luz, o olhar e o próprio corpo. A artista não procura reconstruir o que desapareceu; organiza antes os fragmentos de uma destruição contínua para revelar aquilo que se perde sempre que um edifício é demolido: não apenas matéria, mas memórias, formas de habitar, relações comunitárias e histórias colectivas apagadas em nome de uma ideia abstracta de progresso.

A presença desta obra na ponte desenhada por Álvaro Siza reforça a tensão entre duas formas de pensar a arquitectura e a cidade. Num espaço marcado pela autoridade do modernismo, Fragateiro introduz matéria precária, desgastada e excluída dos circuitos de valorização patrimonial, confrontando a perfeição da geometria arquitectónica com a fragilidade dos seus resíduos. O título convoca um gesto simultaneamente violento e libertador: abrir uma janela à pedrada significa romper uma superfície fechada para criar uma possibilidade de passagem. A referência às janelas do SESC Pompeia, projecto de Lina Bo Bardi para uma antiga fábrica em São Paulo, aproxima duas autoras que partilham uma atenção comum à ruína, ao inacabado, às práticas vernaculares e à dimensão social da arquitectura. Como em grande parte da produção de Fernanda Fragateiro, a instalação recusa qualquer nostalgia ou reconstrução idealizada do passado. Em vez disso, transforma a ruína num instrumento de pensamento crítico, afirmando que a memória se constrói tanto a partir do que permanece como daquilo que sucessivamente desaparece. As fendas abertas neste muro deixam passar a luz e o olhar, sugerindo que mesmo perante a violência das transformações urbanas continua a existir espaço para imaginar outras formas de habitar, recordar e construir a cidade.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Fun ist ein Stahlbad” | Anne Imhof



EXPOSIÇÃO: “Fun ist ein Stahlbad”,
de Anne Imhof
Curadoria | Inês Grosso
Museu e Parque de Serralves
12 Dez 2025 > 19 Abr 2026


“Fun ist ein Stahlbad” marca a primeira apresentação de Anne Imhof em Portugal e afirma-se como uma exposição de contenção e tensão, com tanto de silenciosa como de espectacular. Concebida maioritariamente para o espaço de Serralves, a mostra parte da célebre formulação de Adorno — “o divertimento é um banho de aço” — para interrogar a proximidade entre lazer, disciplina e controlo na contemporaneidade. A artista apropria-se dessa crítica à indústria cultural e actualiza-a num presente dominado pela aceleração, pela economia da atenção e pela promessa ilusória de liberdade. Desde o início do percurso, o visitante é confrontado com espaços que suspendem o tempo e corpos que não se movem, criando uma atmosfera de inquietação difusa que espelha um mundo saturado de estímulos e, paradoxalmente, esvaziado de escolha real. Imhof não denuncia de forma panfletária; constrói antes um campo de forças onde a sensação de autonomia convive com a internalização de rotinas, normas e expectativas. A exposição propõe-se assim como uma reflexão crítica sobre o modo como o entretenimento, longe de funcionar como pausa, se tornou a continuação do trabalho por outros meios.

No centro simbólico da exposição está “Stahlbad” (2025), uma piscina vazia em ferro negro instalada no exterior do museu. Privada de água e de qualquer possibilidade de uso, a escultura funciona como um negativo do imaginário moderno do lazer. A forma permanece, mas a função desaparece, transformando a piscina num corpo pesado e severo, mais próximo de um vestígio arqueológico do que de um equipamento recreativo. A obra convoca tanto a memória das piscinas públicas do pós-guerra europeu, ligadas a ideais de racionalidade e bem-estar colectivo, como de imagens de infra-estruturas abandonadas, promessas falhadas de progresso. A referência ao “banho de aço” adquire aqui densidade material e aquilo que prometia revitalização converte-se em endurecimento. Esta lógica prolonga-se na plataforma de saltos instalada no interior do museu, inspirada na piscina abandonada de Pripyat, em Chernobyl. Subida, impulso e mergulho são apenas imaginados, nunca realizados. O corpo é convocado, mas mantido em suspensão. Entre piscina e torre, Imhof constrói um sistema fechado onde o gesto previsto não acontece, expondo a falência da promessa de recreação.

Esse vocabulário de estruturas subtraídas ao uso estende-se a “Arena” (2025), composta por barreiras metálicas que desenham um anel fechado logo à entrada. Reconhecíveis do espaço público - concertos, eventos, controlo de multidões -, estas estruturas transportam consigo uma lógica disciplinar mesmo quando desligadas da sua função original. O visitante ajusta o corpo, mede distâncias, regula a velocidade: a experiência torna-se física antes de ser conceptual. Piscina, plataforma e arena formam um tríptico rigoroso que trabalha a profundidade, o impulso e a circulação, sem permitir a sua realização plena. Entre estas esculturas surgem relevos em bronze com corpos andróginos, presos à parede, e um conjunto de pinturas atmosféricas que introduzem outro ritmo no percurso. Ondas, explosões e superfícies líquidas surgem suspensas, como acontecimentos interrompidos. Estas obras aliviam o peso da matéria, mas não oferecem redenção; mantêm-se, tal como as esculturas, num tempo intermédio, melancólico, onde a energia permanece latente e o devir não se cumpre.

O percurso culmina com “Citizen”, filme que prolonga a performance “Doom – House of Hope” e introduz corpos em movimento num espaço que parecia até então dominado pela imobilidade. Aqui, dança, canto e fala surgem como gestos de resistência num enquadramento que expõe, subtilmente, os mecanismos de visibilidade e exclusão próprios da cultura contemporânea. A promessa de acesso universal revela-se condicionada por arquitecturas físicas e simbólicas que filtram e hierarquizam. A crítica de Adorno ressoa com particular nitidez: o lazer tornou-se produtivo, mensurável, optimizado. O “banho de aço” já não é choque, mas atmosfera. Sem recorrer ao excesso visual que marcou outros momentos do seu percurso, Imhof apresenta em Serralves uma exposição depurada, quase austera, que testa os limites da ideia de liberdade num mundo onde o entretenimento opera segundo a mesma lógica do trabalho. Não há facilidades nem consolo, mas há insistência. Entre formas duras e corpos obstinados, “Fun ist ein Stahlbad” deixa em aberto a possibilidade de outro tempo. Frágil, sem brilho, mas ainda assim objecto de reflexão.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: “Beleza Apesar de Tudo” | Manuel Aires Mateus e Francisco Aires Mateus



EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: “Beleza Apesar de Tudo”,
de Manuel Aires Mateus e Francisco Aires Mateus
Curadoria | Nuno Crespo
Museu de Arte Contemporânea de Serralves - Ala Siza Vieira
27 Nov 2025 > 19 Abr 2026


“Construímos casas para acolher intimamente o bocado do mundo – feito de coisas, pessoas, animais, plantas, atmosferas, eventos, imagens e lembranças – que torna a nossa felicidade possível.”
Emanuele Coccia, Filosofia da casa

A exposição “Beleza Apesar de Tudo” não se apresenta como uma retrospectiva da obra dos arquitectos Aires Mateus, mas como uma investigação aprofundada sobre as ideias que têm orientado o seu pensamento ao longo de duas décadas. Mais do que mostrar edifícios concretos, a exposição propõe uma imersão nas pesquisas espaciais, materiais e conceptuais que estruturam o trabalho do atelier. Reunindo noventa e uma representações espaciais, o projecto expositivo assume-se como um verdadeiro laboratório sensorial, marcado por intensas variações de escala, diversidade de materiais e experiências tácteis. Organizada em cinco áreas - jardim, matéria, tempo, lugares e geografias -, a exposição não propõe um percurso linear nem pretende representar realidades reconhecíveis. Cada espaço funciona como uma composição autónoma, formada por objectos, imagens e desenhos que criam tensões e relações abertas à experimentação. O visitante é convidado a penetrar nestes ambientes como um “explorador inesperado”, testando sensações e percepções num conjunto de experiências espaciais que privilegiam a dimensão física, sensível e poética da arquitectura.

Cada elemento exposto - maquetes, desenhos, imagens ou objetos - desempenha uma dupla função. Por um lado, questiona de forma radical o estatuto da representação em arquitectura, sem abdicar dos seus formatos tradicionais. Esse questionamento estende-se à própria capacidade das representações de dizer o real. Por outro lado, esses elementos não são entendidos como substitutos de obras ausentes, mas como experiências de pensamento, instrumentos para explorar possibilidades no campo disciplinar. Como sublinham os próprios arquitectos, “o trabalho da arquitectura é pensar”. Embora seja possível reconhecer referências a projectos emblemáticos do estúdio, das casas de Alenquer e Azeitão ao Centro de Investigação das Furnas, da sede da EDP aos museus em Lausanne e Tours, a exposição não pretende revisitar essas obras. O objectivo é antes revelar um léxico arquitectónico em construção, feito de volumetrias, escalas e ritmos que reaparecem sem se repetirem, configurando um modo de pensar que ultrapassa a obra dos Aires Mateus e contribui para o debate mais amplo da arquitectura contemporânea.

Num plano mais profundo, “Beleza Apesar de Tudo” enfrenta a própria impossibilidade de expor arquitectura. Não apenas porque os edifícios não podem ser transportados para o Museu, mas porque a arquitectura, como defendem os autores, nunca está concluída: é uma plataforma para a vida, permanentemente em aberto. Esta visão aproxima-se do pensamento de Aldo Rossi, para quem falar de arquitetura é falar da vida, da morte e da imaginação. A exposição assume, assim, uma ambição humanista, resgatando a arquitetura de uma leitura estritamente técnica e afirmando-a como saber cultural, estético e social. Num contexto marcado pela crise climática, pela desumanização das cidades e pela crescente desigualdade no acesso ao espaço construído, a arquitectura surge aqui como um gesto de resistência. Ao suspender, ainda que momentaneamente, a lógica da urgência e da destruição, a exposição propõe a beleza como possibilidade de vida. Uma beleza que, apesar de tudo, persiste.


sábado, 3 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Sussurro” | Maurizio Cattelan



EXPOSIÇÃO: “Sussurro”,
de Maurizio Cattelan
Curadoria | Philippe Vergne
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
04 Jul 2025 > 18 Jan 2026


Maurizio Cattelan, um dos artistas mais provocadores e influentes da arte contemporânea desde os anos 1990, apresenta em Serralves a retrospetiva “Sussurro”, uma exposição que ocupa esse notável expoente da Art Déco que é a Casa de Serralves e se estende aos espaços do Parque. Nascido em Pádua, em 1960, Cattelan construiu uma obra marcada tanto pelo humor e pela ironia, quanto pela apropriação de imagens simbólicas amplamente reconhecíveis. Em “Sussurro”, o artista propõe um percurso que cruza arte, arquitectura e paisagem, explorando momentos de transição entre a infância e a idade adulta, a vida e a morte, o riso e a tragédia, que se tornam centrais na sua iconografia. As obras seleccionadas revelam o seu interesse pelos traumas da História e pela fragilidade dos sistemas de poder, transformando episódios suspensos e ambíguos em imagens icónicas, passíveis de gerar desconforto e empatia em simultâneo. O visitante é conduzido por cenários cuidadosamente encenados, onde nada é neutro: o espaço, o enquadramento e a ordem das obras são parte essencial da narrativa construída pelo artista.

A exposição assume uma lógica quase teatral, composta por breves momentos encenados, habitadas por figuras históricas, autorretratos, animais e personagens da cultura popular. Logo à entrada, os cavalos suspensos de “Novecento” anunciam um presságio de queda e desintegração, subvertendo símbolos tradicionais de poder e glória. Ao longo do percurso surgem obras emblemáticas como “All”, “La Nona Ora” e “Him”, nas quais Cattelan aborda a vulnerabilidade da autoridade, a memória do mal e a persistência do trauma histórico. “Sem título”, réplica em escala reduzida da Capela Sistina, dialoga com a tradição da cópia enquanto transmissão de conhecimento. “Comedian”, a famosa banana colada à parede, surge como um ponto de ruptura: mais do que objecto, a obra afirma-se como evento, gesto conceptual e fenómeno mediático. Esta peça consolidou Cattelan como um criador que compreende profundamente os mecanismos do espectáculo, da circulação de imagens e da controvérsia, transformando o debate público em parte integrante da obra.

No exterior, o Parque de Serralves prolonga esta reflexão com esculturas que cruzam humor, melancolia e crítica social, como o Pinóquio afogado de “Daddy Daddy” ou a mão obscena de “L.O.V.E.”, símbolo ambíguo de protesto e poder. Apesar de trabalhar sobretudo com escultura, Cattelan afirma-se acima de tudo como um criador de imagens: figuras que habitam a fronteira entre representação e imitação, extraídas de um vasto arquivo colectivo que inclui a história da arte, a religião, o cinema e a cultura de massas. Tal como nas “Tentações de Santo Antão” de Bosch, evocadas como paralelo curatorial, “Sussurro” constrói um espectáculo do grotesco e do absurdo, onde o riso funciona como resposta ao mal-estar contemporâneo. As imagens de Cattelan são intrusivas, desconfortáveis e memoráveis, obrigando o público a confrontar-se com os seus próprios tabus. No fim, o sussurro de Cattelan revela-se tudo menos discreto: é um eco persistente da nossa relação ambígua com a História, o poder e a própria Humanidade. Para ver só até ao próximo dia 18 de Janeiro.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: "Aalto" | Alvar Aalto



EXPOSIÇÃO DE ARQUITECTURA: “Aalto”,
de Alvar Aalto
Curadoria | António Choupina
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
18 Jul 2025 > 04 Jan 2026


Antecipando o cinquentenário da morte de Alvar Aalto, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves apresenta uma exposição monográfica que vai muito além da celebração de um nome consagrado. “Aalto” oferece uma leitura emocional e crítica da arquitectura moderna através de uma das suas vozes mais sensíveis. O texto curatorial de António Choupina, que guia o visitante, sublinha o carácter colectivo da criação - a tríade formada por Alvar e pelas suas duas esposas, Aino e Elissa Aalto - e o modo como o seu trabalho redefiniu a vertente humanista do modernismo. O percurso, estruturado cronologicamente e impregnado de simbolismo, revela uma obra que nasce do diálogo com a natureza e com o corpo humano. O gesto inaugural - atravessar a “medalha” de Aalto, reinterpretada como portal expositivo - traduz essa dimensão íntima e táctil, evocando a Casa Experimental de Muuratsalo, onde o arquitecto deixou a sua impressão digital. Esta abertura é mais do que um dispositivo cénico: é a metáfora perfeita para um criador que via na Arquitectura não um estilo, mas uma forma de vida.

Entre as décadas de 1920 e 1960, a narrativa expositiva acompanha a transformação da Finlândia em nação moderna, uma epopeia cultural em que a arquitectura se tornou instrumento de identidade. Aalto foi influenciado pelo funcionalismo e pelo diálogo com os modernistas europeus e o círculo da Bauhaus, mas a sua obra transcendeu rótulos. Onde outros viam uniformidade, ele via complexidade e emoção; onde o racionalismo impunha rigidez, ele introduziu organicidade. Obras como a Biblioteca de Viipuri, hoje na Rússia, a Villa Mairea, na Finlândia, a Baker House, nos Estados Unidos, a Maison Carré, em França, ou o Sanatório de Paimio, testemunham essa fusão entre técnica e poesia — edifícios que respiram, acolhem e curam. Este último, projectado no advento da antibioterapia, é exemplar na forma como o espaço se converte em cuidado: a luz, o ar, o som e até o silêncio constituem matéria de projecto. É por isso que o Sanatório figura entre os treze edifícios de Aalto nomeados a Património Mundial da UNESCO, e que o seu nome continua a definir a ideia de “arquitectura humanizada” que hoje tanto se reivindica.

A exposição culmina com Elissa Aalto, encerrando um ciclo criativo e biográfico, mas também lançando um olhar sobre o futuro da Arquitectura enquanto arte de cuidado e crença. A organização em torno de referências bíblicas - um gesto invulgar no contexto moderno - reforça a leitura espiritual de uma obra que dialoga com a fé luterana e, mais amplamente, com a fé no humano. Ao mesmo tempo, estabelecem-se pontes com a contemporaneidade, recordando a influência de Alvar Aalto em arquitectos como Álvaro Siza, laureado com a Medalha Alvar Aalto em 1988. A relação entre ambos - o mestre distante e o discípulo que transforma o legado em nova sensibilidade - confere à mostra uma densidade rara: não é apenas um arquivo, mas uma meditação sobre a continuidade da modernidade. “Aalto”, em Serralves, é menos uma retrospectiva e mais uma revelação: a de que, entre o concreto e a luz, ainda pulsa a possibilidade de uma arquitectura que respira como um ser vivo.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “A Vida das Abelhas” | Helena Ramos



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “A Vida das Abelhas”,
de Helena Ramos
Curadoria | Ricardo Nicolau
Novo Banco Revelação 2025
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
21 Out 2025 > 05 Abr 2026


A exposição de Helena Ramos, vencedora da edição de 2025 do Prémio Novo Banco Revelação, propõe um diálogo subtil entre o humano e o colectivo, entre o gesto individual e a pulsação das comunidades que habita e observa. A jovem artista, formada em Arquitectura e natural de São Paulo, trabalha a fotografia como uma forma de encontro — com amigos, corpos, espaços e afectos —, construindo um arquivo visual da convivência. No centro da sua prática está a ideia de relação, uma ética e uma estética do “viver junto” que a aproxima, paradoxalmente, das abelhas de Maeterlinck: seres cuja sobrevivência depende da presença do outro. Tal como o dramaturgo belga via na colmeia uma metáfora da sociedade, Ramos vê na fotografia uma maneira de prolongar os laços que definem a experiência humana. A artista transforma a câmara num instrumento de cuidado e escuta, fazendo das suas imagens uma cartografia afectiva das pequenas comunidades urbanas contemporâneas.

O Prémio Novo Banco Revelação, instituído por Serralves em parceria com o banco homónimo, tem-se afirmado como uma das plataformas mais relevantes de apoio à nova geração de fotógrafos. Ao distinguir Helena Ramos – o que acontece pela primeira vez com um artista estrangeiro -, o júri reconhece não apenas a força de um olhar em formação, mas também uma concepção da imagem como espaço de comunhão e partilha. A artista retoma, de modo profundamente contemporâneo, a dimensão simbólica da fotografia: cada registo é simultaneamente documento e relação, marca e encontro. Nas suas séries dedicadas às festas, concertos e bastidores de uma juventude que vive e cria colectivamente, Helena Ramos encontra uma poética da atenção, em que o acto de fotografar se confunde com o desejo de pertencer. O prémio reforça, assim, a sua função essencial, a de revelar não só novos talentos, mas novas formas de ver e de estar no mundo, inscrevendo esta exposição na genealogia de um projecto que tem sabido actualizar o papel da arte como espaço de reconhecimento e de comunidade.

No núcleo mais recente da sua obra, Helena Ramos expande o seu território visual, explorando outras metáforas do encontro — como a das imagens a preto e branco de esgrimistas, que evocam um duelo coreográfico entre aproximação e distância, acção e reacção. Tal como na esgrima, a fotografia é aqui um exercício de atenção, um “en garde!” perante o instante e o outro. Cada disparo é diálogo e cada imagem uma forma de habitar o espaço comum que o olhar inaugura. Ao integrar o Prémio Novo Banco Revelação do corrente ano, esta exposição em Serralves reafirma a importância de sustentar percursos emergentes que interrogam, com rigor e delicadeza, o lugar da arte na construção do colectivo. Helena Ramos é, nesse sentido, uma “artista-abelha”: o seu trabalho não se fecha sobre si mesmo, antes entretece-se a partir das relações que o tornam possível. Como favos de luz, as fotografias da artista recordam-nos que viver — e criar — é sempre um gesto partilhado.

sábado, 19 de abril de 2025

EXPOSIÇÃO: “Y’a Hamam Yalla Ma Tnam, Ma Tnam”



EXPOSIÇÃO: “Y’a Hamam Yalla Ma Tnam, Ma Tnam”,
de Mounira Al Solh
Curadoria | João Mourão, Luís Silva
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
28 Fev > 31 Ago 2025


Mounira Al Solh nasceu em Beirute em 1978 e actualmente vive entre a cidade natal e Amesterdão. A sua prática artística abrange vídeo, instalação, pintura, desenho, têxteis, texto e performance. O seu trabalho explora paisagens sociais e políticas complexas, com foco em temas feministas, narrativas micro-históricas e os efeitos do conflito e da migração. A abordagem de Al Solh conjuga o envolvimento social com uma combinação singular de crítica política e escapismo poético. Em vez de adoptar um estilo documental, as suas obras tendem para o ficcional e, por vezes, o fantástico, recorrendo a histórias orais, colaborações interdisciplinares e jogos de linguagem para explorar histórias íntimas, especialmente as de mulheres. Estas obras investigam temas como resistência, deslocamento, perda e memória com sensibilidade e empatia, criando um corpo de trabalho com ressonâncias emocionais que convida o público a reflectir sobre os desafios contemporâneos enfrentados por comunidades marginalizadas.

Intitulada “Y’a Hamam Yalla Ma Tnam, Ma Tnam” (“Oh Pombo, Não Durmas, Não Durmas”), verso de uma canção de embalar muito popular no Líbano e na Síria, a exposição reúne obras que nunca foram apresentadas juntas, criando uma narrativa única que explora o profundo envolvimento de Al Solh com micro-histórias e a ação política. O eixo central da exposição é formado por “Nami Nami Noooom, Yalla Tnaaam” ("Dorme, Dorme, Dorme, Vamos Dormir"), uma poderosa instalação de grande escala que ancora o fluxo emocional e narrativo da exposição. Esta é uma obra profundamente pessoal, inspirada na infância de Al Solh durante a Guerra Civil Libanesa. Em criança, passando noites sem dormir devido ao barulho incessante das bombas que caíam pela cidade, a artista fazia buracos nos seus pijamas como forma de se distrair dos sons da guerra. Um dia, a sua mãe sugeriu que, em vez de simplesmente remendar as roupas, ela bordasse à volta desses buracos, transformando a atividade num ritual calmante. Esta prática meditativa tornou-se um refúgio, permitindo-lhe encontrar breves momentos de paz no meio do caos.

Os prolongados conflitos no Médio Oriente intensificaram-se recentemente, transformando-se numa enorme tragédia humana e criando uma ferida que atravessa gerações e afecta milhões de vidas. Este ciclo incessante de violência tem provocado perdas inimagináveis, com inúmeras vidas ceifadas, famílias desfeitas e comunidades inteiras a viver sob a constante sombra do medo e do sofrimento. Por entre as ruínas, as pessoas enfrentam traumas profundos que continuarão a afectar gerações futuras. Profundamente marcada por estes conflitos, Mounira Al Solh canaliza as suas experiências através da arte, convidando à reflexão sobre a necessidade de paz, empatia e um compromisso com a justiça que honre os direitos e a dignidade de todos os envolvidos. Através do seu trabalho, Al Solh responde ao apelo urgente para acabar com o sofrimento e reforça a determinação em promover um futuro alicerçado no respeito e na humanidade partilhada.


quarta-feira, 16 de abril de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: Zanele Muholi



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: Zanele Muholi
Curadoria | Inês Grosso, Filipa Loureiro
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
10 Abr > 12 Out 2025


“Ao exagerar a escuridão do meu tom de pele, estou a reclamar a minha negritude, que sinto ser constantemente representada pelo outro privilegiado. A minha realidade é que não imito essa negritude; é a minha pele, e a experiência de ser negra está profundamente enraizada em mim. Nós estamos aqui; temos as nossas próprias vozes; temos as nossas próprias vidas.”
Zanele Muholi

Zanele Muholi, activista visual e artista da África do Sul, retrata nas suas obras as vidas e experiências de pessoas negras LGBTQIA+ (Lésbica, Gay, Bissexual, Transgénero, Queer, Intersexo, Agénero, Assexual), tanto no seu país natal como em várias partes do mundo. Através da fotografia, e ao longo de vários anos, Muholi tem-se dedicado a dar visibilidade a comunidades frequentemente sub-representadas ou mal compreendidas, revelando as injustiças sociais e políticas a que estão sujeitas. Ao colocar as vivências e as lutas destas comunidades no centro da sua prática artística, Muholi transcende o simples registo visual ou documental, questionando, inspirando e reivindicando o espaço que estas comunidades merecem no panorama global da arte e da sociedade. Além de retratar histórias de luta e resiliência, Muholi serve-se da câmara para criar autorretratos que exploram questões de raça e a força do olhar negro, entre os quais se destaca a célebre série “Somnyama Ngonyama” (“Viva a Leoa Negra”), que catapultou a sua obra para o reconhecimento internacional.

A exposição, organizada cronologicamente e estruturada em núcleos temáticos, acompanha o percurso de Muholi desde que começou a sua actuação como ativista, no início de 2000, até à actualidade. Com mais de duzentas fotografias, representa a maior retrospectiva da sua trajectória até ao momento e assinala a primeira grande apresentação da sua obra em Portugal. Além de oferecer uma visão abrangente da prática de Muholi, a exposição revisita momentos marcantes da história da África do Sul, desde os anos sombrios do apartheid até à luta contínua pela igualdade e pelos direitos humanos. Em Portugal, onde o legado colonial continua profundamente enraizado na sociedade, esta mostra oferece uma oportunidade única para uma reflexão crítica sobre as implicações históricas e culturais da discriminação e opressão, enquanto nos lembra da urgência de debater questões como a identidade de género e cultural, a memória e a justiça social.

Muholi nasceu em 1972 e cresceu sob o regime do apartheid, um sistema político e social de segregação racial que garantiu o domínio da minoria branca sobre a maioria negra. Formalmente institucionalizado em 1948 pelo Partido Nacional, além de impor a segregação racial, este regime perpetuava discriminações de género e orientação sexual. Embora o apartheid tenha terminado oficialmente em 1994, com a transição democrática liderada por Nelson Mandela, e a Constituição de 1996 tenha sido um passo significativo ao proibir a discriminação baseada na orientação sexual, a comunidade LGBTQIA+ sul-africana continua a ser vítima de preconceito, crimes de ódio e violência de forma reiterada. Zanele Muholi é uma voz incontornável na arte contemporânea e no ativismo social. A sua obra combate de forma ativa o preconceito e a discriminação e convida-nos a refletir sobre a urgência de uma sociedade mais inclusiva e equitativa, inspirando novas perspectivas e diálogos necessários em matéria de igualdade, resistência e humanidade.


sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

EXPOSIÇÃO: “Offering Cloud of Scattered Genitalia”



EXPOSIÇÃO: “Offering Cloud of Scattered Genitalia”,
de Devendra Banhart
Curadoria | Philippe Vergne
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
21 Nov 2024 > 18 Mai 2025


Músico, poeta e artista visual internacionalmente aclamado, Devendra Banhart é considerado um dos pioneiros dos movimentos freak folk e New Weird America, tendo colaborado com artistas consagrados como Yoko Ono, Caetano Veloso, Beck e outros. Paralelamente a esta carreira bem-sucedida no campo da música, tem uma carreira singular como artista visual, feita essencialmente de desenhos e pinturas, os quais podem agora ser vistos pela primeira vez em Portugal na exposição “Offering Cloud of Scattered Genitalia”. Além de explorar a proximidade entre as expressões musical e visual de Devendra Banhart, a exposição integra também excertos da sua poesia, revelando o universo artístico de Banhart na sua integralidade. Através do desenho, o artista desenvolve um sistema de traços caligráficos/ modernistas, incorporando figuras imaginárias sexualizadas e caricaturais e gestos caligráficos abstratos. As suas séries desenvolvem-se, a cada trabalho, numa lógica de acréscimos, repetições e distorções dentro das restrições autoimpostas e das limitações da superfície do papel e das suas características.

As primeiras obras (do início dos anos 2000) em papel azul ou cor de pêssego exibem uma minúcia caligráfica e simbólica, bem como uma planura hieroglífica. Todas partilham um conjunto muito claro de formas — um vocabulário de figuras e caracteres, desde o padrão repetitivo de um elemento da Coluna Interminável de Constantin Brancusi até à invocação de figuras monstruosas/divinas que lembram relevos de templos maias ou a cultura underground das tatuagens, incorporando elementos como o desgaste natural do papel e a representação de recipientes moldados para acolher o universo. Estes desenhos, ora repletos de uma iconografia semi-mitológica, ora habitados pelo “quase nada”, deixam entrever traços de tinta e marcas simétricas quase imperceptíveis na superfície do papel, como notas musicais perdidas. A exposição contempla a série Sphinx Interiors (2014), que capta o ethos de transformação da obra do artista. Este conjunto de 14 desenhos explora a figura mitológica da esfinge, remetendo para épocas e culturas antigas, do Egito à Grécia, da Mesopotâmia às pinturas neoclássicas de Ingres, bem como para o simbolismo de Gustave Moreau, Odilon Redon e Oscar Wilde.

Um mantra consiste numa palavra, num som ou numa frase que se acredita ter um poder espiritual e que é repetido nas orações e na meditação. A repetição ajuda a acalmar a mente e a limpar os pensamentos e a negatividade, com vista a um estado de iluminação. A repetição e variação em série está na base do conjunto de desenhos abstratos saturados de 2014. Nessas obras, a reiteração de um gesto de apagamento e obliteração gera o oposto do vazio e do desaparecimento: um espaço de serenidade gráfica. Essa ação de acrescento, desenho após desenho, é o denominador comum das obras gráficas de Banhart. Sapatos de salto alto, explosões caricaturais de símbolos-líquidos, rostos distorcidos, meio humanos, meio animais, lábios vermelhos, globos oculares salientes, genitais insólitos, pernas e coxas imponentes revestidas de grotescas meias de rede figuram no papel, levam à construção progressiva e constante de uma cacofonia de formas, um teatro alucinado de exultação do corpo.

No extremo oposto, as aguarelas recentes de Banhart (2024) são tão abstratas e caligráficas quanto possível, embora continuem a seguir uma lógica de acrescento estrutural, articulando-se em torno de um conjunto definido de marcas coloridas aquosas, linhas em ziguezague, linhas diagonais, pontos e salpicos em forma de estrela em expansão. Estas obras partilham uma familiaridade estética com algumas das linhas mais caligráficas de Joan Miró — linhas por vezes pouco visíveis ou pouco presentes que sugerem uma atitude filosófica de “não- -intervenção” consciente ou, pelo menos, de intervenção mínima e sem esforço, embora com uma intenção. No campo eclético visual que sustenta as obras visuais de Banhart, a atenção plena pode ser o elemento de ligação — uma concepção que combina elementos de espiritualidade, humor, desejo, anseio, luxúria e amor, sensações negativas e positivas, a vontade de dar e receber, de partilhar, de magoar e agradar e, em última análise, de atingir o estado de consciência incongruente e em conflito que caracteriza “Offering Cloud of Scattered Genitalia”.

[Extraído do Roteiro da Exposição, de Philippe Vergne, o qual pode ser lido na íntegra em https://cdn.bndlyr.com/nsa343pdfl/_assets/2411_devendrabanhart_roteiro_v2_site.pdf]

sábado, 14 de dezembro de 2024

EXPOSIÇÃO: "Ⓐmo-te" | Francisco Tropa



EXPOSIÇÃO: Ⓐmo-te,
de Francisco Tropa
Curadoria | Ricardo Nicolau
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
08 Nov 2024 > 11 Mai 2025


“Ⓐmo-te” é a maior exposição monográfica de Francisco Tropa (Lisboa, 1968) alguma vez apresentada. Autor de uma obra complexa, que combina de forma surpreendente um amplo leque de meios (escultura, desenho, performance, gravura, fotografia e filme) e referências (em que se destacam figuras dos mundos antigo e moderno, oriundas da arte, da ciência e da literatura), o artista construiu nos últimos trinta anos um universo muito próprio em que se evidenciam uma série de reflexões alimentadas por diferentes tradições da escultura, da literatura e da mitologia. Estas reflexões centram-se frequentemente em questões metafísicas e temas antropológicos e filosóficos, nomeadamente sobre a natureza, a origem e a finalidade da arte e do acto criativo. Apesar de se organizar em torno de projectos do artista realizados em cada década do seu percurso, entendidos como momentos fundamentais da sua prática, a exposição deve ser entendida como uma espécie de grande máquina, na qual ao longo do percurso o visitante é sistematicamente confrontado com algumas das preocupações fundamentais do artista, nomeadamente a forma como as obras de arte são legitimadas, percepcionadas, analisadas e transmitidas.

Dividida em três grandes núcleos - os “protótipos” maioritariamente produzidos nos anos 1990 e início dos anos 2000, apresentados no mezanino da Biblioteca de Serralves, “A Assembleia de Euclides”, que manteve o artista ocupado durante grande parte dos anos 2000 e “O Enigma de RM”, o seu trabalho mais recente - a exposição apela a que nos interroguemos sobre as noções de originalidade e de criatividade. Francisco Tropa assume que, ao invés de procurar o novo, prefere tirar partido da repetição e da reutilização de elementos de obras antigas. Para o artista, é mais interessante acrescentar informação a um objecto, motivo ou referência com que trabalhe recorrentemente – “só invento algo novo se não puder usar alguma coisa com que já tenha trabalhado; repetir objectos em situações diferentes enriquece-os” –, e explorar associações catalisadas por contextos de apresentação passados. Ao mesmo tempo, a pluralidade de referências garante que cada trabalho seja sempre polifónico, que diga simultaneamente várias coisas diferentes.

Intencional e paradoxalmente, esta multiplicidade de possíveis interpretações – este “ruído controlado”, como lhe chama Tropa –, pode conduzir a uma incapacidade de esgotar a “leitura” da obra, a uma interpretação assente nas menções mais ou menos inesgotáveis, mais ou menos explícitas, mais ou menos eruditas que arrola e/ou convoca. O objectivo: fazer com que reste ao visitante “simplesmente” ver. “Ⓐmo-te”, além de uma máquina potenciadora de ecos, reenvios, ressonâncias e reverberações, é uma mostra que interroga e explora o próprio formato-exposição: porque apresenta projectos que são autênticas exposições dentro da exposição; porque enfatiza a importância dos contextos em que os objectos são apresentados para uma determinada leitura; porque, a começar pelo título, posiciona o visitante no centro de uma experiência da qual é o verdadeiro protagonista. Um adequado complemento à declaração que dá nome à exposição pode bem ser uma frase normalmente associada a amores desesperados, mas que, neste contexto, elucida exemplarmente o papel principal conferido ao espectador: “Sem ti, eu não existo!”

[Baseado no texto da exposição, o qual pode ser lido em https://www.serralves.pt/ciclo-serralves/0811-francisco-tropa-mo-te/]

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

EXPOSIÇÃO: "Ricochetes" | Francis Alÿs



EXPOSIÇÃO: “Ricochetes”,
de Francis Alÿs
Curadoria | Florence Ostende
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
18 Out 2024 > 16 Mar 2025


Visitar a exposição “Ricochetes” é entrar num espaço de sonho e de magia. É mergulhar num mar de risos e correrias e deixar-se envolver pelo fascínio das brincadeiras das crianças, pela sua capacidade inventiva e generosidade ilimitada, pela partilha, pela amizade. Mesmo nas situações mais duras, o tempo de brincadeiras surge-nos aqui como um tempo de evasão, de cumplicidade e entrega, que traz sorrisos aos lábios e esperança aos corações. Foi isto que senti em cada uma das salas de Serralves pelas quais a exposição de Francis Alÿs se distribui, certo de um sentimento generalizado, de tal forma as expressões nos rostos dos restantes visitantes espelhavam a sua emoção e uma imensa felicidade. “Ricochetes” é o resultado de um trabalho iniciado em 1999, na Cidade do México, onde Alÿs reside desde 1986. Foi nessa imensa metrópole que, rompendo com os seus trabalhos iniciais, deu início à série “Children’s Games”, a qual coloca as crianças no papel de protagonistas. É este o cerne da exposição, uma instalação imersiva feita de múltiplas telas onde vão sendo reproduzidos dezenas de pequenos filmes que retratam o acto de jogar em muitas partes do mundo. Complementando este universo, a exposição apresenta uma vasta selecção de pinturas, trabalhos de animação e espaços especialmente dedicados a actividades lúdicas.

Cidade do México, 1999. Na colina sobre a cidade, um menino pontapeia uma garrafa de plástico meio cheia de líquido, subindo uma rua íngreme feita de luz e sombra. A música que sai de uma casa ou de uma loja espalha-se no ar, enquanto uma camioneta sobe com dificuldade em direcção ao topo. Jogando consigo ou contra si próprio, o menino abraça o desafio de chegar lá acima chutando a garrafa e voltando a chutá-la sempre que ela inverte o rumo. A criança brinca com e contra a gravidade, enquanto a garrafa flutua, desvia-se, ziguezagueia. A certa altura é interceptada por um cão e abocanhada por alguns instantes. No final, as apostas sisíficas do jogo tornam-se claras quando a garrafa foge e, com um gemido, o menino corre atrás dela. Chama-se “Caracoles” e este é o primeiro de quase cinco dezenas de pequenos filmes que compõem a série. Neles encontramos uma série de jogos que nos são familiares, como a dança das cadeiras no México, o jogo do eixo no Iraque, os castelos de areia na Bélgica, o jogo do elástico em França, o saltar à corda em Hong Kong ou as corridas de carrinhos de rolamentos em Cuba. Mas há também o Hopscotch, no campo de refugiados de Sharya, no Iraque, ou o Imbu. O Nzango ou o Kisolo jogados em Tabacongo, na República Democrática do Congo. Todos diferentes, todos iguais.

A assinatura distintiva de Alÿs como pintor é a utilização de óleo sobre tela montada em pequenos painéis de madeira maciça, apenas ligeiramente maiores do que cartões-postais. Iluminadas por intensos feixes de luz, cada obra é uma janela que revela um lugar no tempo, e que pontua o sombrio ambiente cinematográfico dos Jogos Infantis. Pintadas entre 1990 e 2024, estas obras íntimas têm os títulos das cidades por onde Alÿs viajou, registando cenas testemunhadas pelo artista no espaço público. O olhar é cativado pelas figuras –principalmente crianças – no centro das telas, retratadas tanto em grupo como sozinhas. As paisagens exuberantes e as composições urbanas simplificadas aparentam serenidade, enquanto eventos mundiais se desenrolam nestas cenas em miniatura, frequentemente refletindo a resiliência da vida quotidiana em zonas de conflito ou de agitação social. Desde a violência narcótica no México à pandemia de COVID-19, as pinturas são diretamente inspiradas em desenhos e esboços dos cadernos de Alÿs, retratando os contextos geopolíticos dos locais por onde passou. A história do jogo, desde a antiguidade até aos nossos dias, pode ser encontrada numa das salas, com um conjunto de curiosidades que não deixarão ninguém indiferente. E há, ainda, uma bancada onde podemos assistir - e vibrar - com um emotivo jogo de futebol em Mossul, no Norte do Iraque. 

[Todos os filmes desta série são do domínio público e podem ser vistos em https://francisalys.com/category/childrens-games/]