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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Espasmo Quadrado” | Pedro Henriques



EXPOSIÇÃO: “Espasmo Quadrado”,
de Pedro Henriques
Curadoria | Ricardo Nicolau
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
22 Mai > 11 Out 2026


A obra de Pedro Henriques ocupa um lugar singular na arte contemporânea portuguesa porque parte de uma questão que atravessa silenciosamente as últimas duas décadas: o que significa produzir imagens num mundo em que elas deixaram de ser objectos para passarem a existir como fluxos, dados, projecções e superfícies permanentemente mutáveis? Desde muito cedo, o artista recusou instalar-se num território disciplinar estável. Desenha como quem constrói esculturas; imprime como quem desenha; faz da tridimensionalidade um problema gráfico e da superfície um espaço de profundidade. Em vez de afirmar certezas formais, prefere criar zonas de instabilidade onde categorias tradicionalmente entendidas como opostas deixam de funcionar. O manual e o industrial, o analógico e o digital, o espontâneo e o programado, o material e o imaterial coexistem sem hierarquias, tornando evidente que a experiência contemporânea já não cabe em divisões estanques. Num tempo marcado pela circulação incessante de imagens, Pedro Henriques não procura representar esse fenómeno: trabalha a partir dele. As suas obras revelam a imagem como matéria em permanente transformação, sujeita a sucessivas operações de tradução, compressão, repetição e desvio, fazendo da própria instabilidade o seu verdadeiro campo de investigação.

É precisamente essa recusa das fronteiras que confere consistência a um percurso iniciado há quase vinte anos e hoje reconhecido como um dos mais consequentes da sua geração. Embora recorra a tecnologias digitais, programas obsoletos, sistemas de impressão mecânica ou processos industriais, a dimensão manual permanece sempre decisiva. Cada obra resulta de uma negociação contínua entre controlo e acidente, cálculo e improvisação, automatismo e gesto. A tecnologia nunca surge como promessa de progresso, mas como um território de falhas, resíduos, atrasos e imperfeições, onde a mão do artista continua a encontrar espaço para agir. Esta posição afasta Pedro Henriques tanto do entusiasmo tecnológico como da nostalgia artesanal. O que lhe interessa é precisamente o intervalo onde ambos se contaminam. Nesse sentido, o seu trabalho dialoga com algumas das questões centrais da produção artística internacional do século XXI: a desmaterialização dos objectos, a proliferação das imagens, a transformação da percepção visual e a redefinição do estatuto físico das obras numa cultura dominada pela reprodução infinita. Poucos artistas portugueses conseguiram desenvolver uma investigação tão coerente sobre estas matérias sem nunca abdicar da intensidade plástica que distingue cada peça.

“Espasmo Quadrado” sintetiza exemplarmente esse percurso. O próprio título funciona como um programa: reúne duas ideias aparentemente incompatíveis — impulso e disciplina, descontrolo e geometria — para anunciar uma prática construída sobre paradoxos produtivos. A exposição não se organiza segundo uma lógica retrospectiva nem estabelece uma narrativa linear da evolução do artista. Pelo contrário, coloca em convivência obras realizadas em momentos distintos, pertencentes a séries diversas e produzidas através de meios muito diferentes, permitindo que dialoguem entre si como partes de um mesmo sistema aberto. O visitante encontra relações inesperadas entre esculturas, desenhos, impressões e dispositivos espaciais, percebendo que cada trabalho prolonga questões presentes nos restantes. Também a iluminação concebida especificamente para as galerias participa dessa estratégia, funcionando simultaneamente como infraestrutura invisível e como presença escultórica. O resultado é uma exposição que não procura resolver contradições, mas habitá-las. Num momento histórico em que o pensamento tende a reduzir a complexidade do mundo a oposições simplificadoras, Pedro Henriques lembra-nos que é precisamente nos espaços intermédios - onde as categorias vacilam, os sistemas falham e as imagens mudam de estado - que a arte continua a encontrar uma das suas mais profundas razões de existir.

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