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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

EXPOSIÇÃO: “10 Anos d’ESTAU”



EXPOSIÇÃO: “10 Anos d’ESTAU”
ESTAU - Estarreja Arte Urbana
Design expositive e projecto gráfico | Mistaker Maker - Plataforma de Intervenção Artística
Casa Municipal da Cultura de Estarreja
12 Set > 31 Out 2026


“As grandes escolas de Arte Plástica são os museus. Quisera um em cada cidade, em cada vila e em cada aldeia, para que o povo se elevasse na comunhão espiritual do belo.”
Professor Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina

Foi em 2016, na primeira edição do ESTAU, que aprendi a olhar para a Arte Urbana. Ou talvez seja mais exacto dizer que foi aí que aprendi a olhar para a cidade. Guiado por Lara Seixo Rodrigues, descobri que uma parede pode ser muito mais do que uma parede e que uma obra de arte pode não pedir apenas para ser contemplada, mas habitar um lugar, conversar com quem passa, escutar uma paisagem, acordar uma memória. Desde então, acompanhei religiosamente o ESTAU, regressando a cada edição com a expectativa de quem sabe que algo de misterioso e belo faz com que a cidade mexa — e, seguramente, alguma coisa dentro de nós mexa também. Vi paredes ganhar outras vidas, lugares esquecidos reencontrarem-se consigo próprios, histórias antigas descobrirem novas linguagens. E fui percebendo que esta é uma das grandes forças do ESTAU: acrescentar à cidade não apenas cor ou beleza, mas espessura. Histórias. Memórias. Significados. Fazer do território um livro que se pode percorrer a pé, onde cada esquina pode esconder uma narrativa e cada obra é uma possibilidade de ver de novo aquilo que julgávamos conhecer. Dez anos depois, Estarreja é também esse museu sem portas nem horários, onde a Arte se mistura com a vida e onde a cidade, sem deixar de ser cidade, se tornou lugar de descoberta.

Guardo imagens. Uma folha que se desprende da sua natureza para se transformar em pássaro. A precisão desconcertante de uma radiografia aberta sobre uma parede. Rostos que parecem querer libertar-se da pedra e conduzir o olhar para lá de si mesmos, até aos arrozais imensos, onde a paisagem se demora. Guardo conversas com artistas, tardes de trabalho, o silêncio de quem observa uma parede antes que ela deixe de ser apenas parede. Guardo também a surpresa de encontrar uma obra onde antes nada havia e a estranha sensação de que, depois dela, deixou de ser possível regressar ao lugar anterior. Foi assim que o ESTAU me ensinou que a Arte pode ser uma forma de pertença. É essa a razão pela qual, ao longo destes dez anos, tenha encontrado nele muito mais do que um festival: um ponto de encontro de vontades, de saberes, de geografias. E de pessoas. Um lugar onde o Baixo Vouga lagunar — a água, o arroz, o bunho, os barcos, os ofícios, as fábricas, as histórias — deixa de ser apenas património para se tornar matéria de criação. O ESTAU não inventou este território. Fez talvez algo mais difícil: ensinou-nos a reconhecê-lo. A aproximarmo-nos dele. A perceber que uma comunidade também pode construir a sua identidade através do seu imaginário.

E depois há o que desaparece. Há obras que já não estão lá. O tempo levou-as, a chuva gastou-lhes as cores, uma parede mudou, uma intervenção cumpriu o seu destino de ser passageira. E houve, confesso, alguma mágoa em vê-las desaparecer. Como se perdêssemos qualquer coisa que julgávamos nossa. Mas é justamente aí que a exposição “10 Anos d'ESTAU” começa a fazer sentido. Porque estas fotografias, estes objectos, estas imagens não são apenas documentos: são vestígios que nos surgem como que colados à pele. Pequenas provas de que estivemos ali. De que alguém criou, alguém olhou, alguém se emocionou. A memória tem também a sua própria arquitectura e, por vezes, aquilo que já não existe é o que mais profundamente permanece. Dez anos de ESTAU são, por isso, dez anos de marcas - algumas inscritas nas paredes, outras na paisagem, outras ainda, talvez as mais importantes, dentro de nós. Esta exposição é feita dessas marcas e das histórias que elas guardam. É uma exposição sobre o tempo, sobre a Arte e sobre a vida, mas sobretudo sobre aquilo que acontece quando as três se encontram. Porque uma cidade não é apenas aquilo que permanece de pé. É também aquilo que recordamos. E, se o ESTAU transformou Estarreja num museu a céu aberto, talvez a sua obra maior seja ter transformado também a nossa memória num lugar onde estas histórias continuamente acontecem.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Olhos Múltiplos” | Patricia Domínguez, Ines Doujak, Lubaina Himid



EXPOSIÇÃO: “Olhos Múltiplos”,
de Patricia Domínguez, Ines Doujak, Lubaina Himid
Curadoria | Nuria Enguita, Rafael Barber Cortell
MAC / CCB - Museu de Arte Contemporânea
14 Mai > 25 Out 2026


Na generalidade, as exposições pedem-nos para olhar. “Olhos Múltiplos”, no MAC/CCB, pede-nos algo mais desafiante: que desconfiemos daquilo que vemos. Entre as obras de Patricia Domínguez, Ines Doujak e Lubaina Himid abre-se um território onde nenhuma história parece possuir o direito de ser a última. Oriundas de geografias e gerações distintas, as três artistas trabalham sobre aquilo que ficou de fora do relatos oficiais - memórias sem monumento, saberes transmitidos à margem, corpos que a História preferiu não reconhecer. Mas não se trata simplesmente de recuperar o que foi esquecido. Trata-se de lhe devolver uma possibilidade de existência no presente. A exposição organiza-se como uma espécie de viagem sem mapa, em que as obras se aproximam e afastam, se respondem e contradizem, criando uma desorientação que é menos um defeito do que um método. O visitante perde-se, e talvez seja essa a primeira coisa que lhe é pedida: abandonar a confortável ideia de que olhar é reconhecer. Aqui, olhar implica escutar, aceitar o estranho, deixar que uma imagem nos afecte antes de sabermos exactamente o que ela quer dizer.

Lubaina Himid sabe que também se pode reescrever a História através da delicadeza. Nas suas pinturas, as figuras negras outrora ausentes dos grandes relatos reaparecem sem alarde. Conversam, trabalham, habitam interiores, ocupam lugares que lhes foram negados. A cor não disfarça a violência da história colonial; pelo contrário, torna-a mais complexa, restituindo humanidade onde antes havia silêncio. Himid não ergue monumentos: prefere a intimidade, o doméstico, o decorativo, como se soubesse que há uma política profunda em permitir que certas vidas simplesmente estejam. Ines Doujak escolhe o excesso. Os seus corpos híbridos, feitos de matéria humana, animal, vegetal e mecânica, parecem ter escapado a qualquer sistema de classificação. O monstro torna-se uma figura política: não uma aberração exterior à ordem, mas o seu produto. Há humor, ferocidade e uma espécie de beleza incómoda nessas assemblagens que fazem do capitalismo um corpo que devora corpos. Doujak não oferece conforto nem soluções ao deixar-nos perante aquilo que preferíamos não reconhecer. Entre a ternura de Himid e a violência satírica de Doujak, a exposição encontra uma das suas tensões mais fecundas.

É Patricia Domínguez quem abre a porta para outro modo de imaginar a cura. Plantas, animais, dispositivos tecnológicos, objectos banais e referências espirituais encontram-se nas suas instalações como partes dum mesmo organismo. A artista aproxima saberes ancestrais e tecnologias contemporâneas, não para idealizar o passado, mas para questionar a hierarquia que colocou o humano no centro e transformou a natureza em recurso. As suas obras parecem dizer que talvez tenhamos esquecido que o mundo não é cenário, antes relação. É também aqui que “Olhos Múltiplos” deixa de ser apenas uma exposição sobre narrativas divergentes e se torna uma reflexão sobre a própria possibilidade de viver em comum. As três artistas partilham a convicção de que cuidar da terra, da memória ou do outro é uma forma de resistência. Por vezes, contudo, o discurso curatorial pesa sobre as obras, como se sentisse necessidade de lhes explicar antecipadamente o significado. Quando isso acontece, a experiência perde alguma da sua liberdade. Mas quando o discurso recua e deixa que as imagens respirem, o olhar deixa de procurar uma resposta única e começa a aceitar a dúvida, a diferença, a contaminação. Talvez seja essa a sua proposta mais consequente: num tempo em que vemos cada vez mais, aprender a olhar continua a ser uma tarefa por cumprir.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA E VÍDEO: “Cloud of Confusion” | Frida Orupabo



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA E VÍDEO: “Cloud of Confusion”,
de Frida Orupabo
Curadoria | Marta Mestre
MAC/CCB - Museu de Arte Contemporânea
03 Jun > 01 Nov 2026


Frida Orupabo chega ao MAC/CCB com uma exposição que parece começar onde termina o gesto automático de percorrer um ecrã. Em “Cloud of Confusion”, a artista norueguesa transforma o seu vasto arquivo de imagens digitais num território de confronto, onde fotografias, fragmentos e objectos deixam de valer pela sua autonomia para adquirir sentido através da montagem. O percurso linear pelas oito secções da exposição transpõe para o espaço físico a lógica do “scroll”: uma imagem chama a seguinte, mas a continuidade depressa se revela ilusória, feita de cortes, choques e lacunas. É nessa fricção entre fluxo e interrupção que Orupabo instala o seu olhar crítico. As imagens, muitas delas provenientes de arquivos coloniais, dos media, da cultura popular ou da circulação indiferenciada da internet, carregam histórias de violência e de apropriação. Ao serem recortadas, ampliadas, justapostas e deslocadas, deixam de ser apenas documentos de um olhar sobre os corpos negros para passarem a confrontar esse mesmo olhar. Não se trata de pacificar as imagens, antes fazê-las regressar, alteradas, ao espectador, devolvendo-lhes uma capacidade de resistência.

A “nuvem” do título é, por isso, menos um lugar de armazenamento do que uma condição contemporânea de existência das imagens. Na “cloud”, memória e esquecimento convivem; tudo pode ser guardado, reproduzido e reencontrado, mas também perdido no excesso. Orupabo explora precisamente esse paradoxo, fazendo da acumulação uma forma de crítica. O arquivo não surge como depósito neutro, mas como espaço atravessado por relações de poder: quem fotografou, quem foi fotografado, quem teve o direito de olhar e quem ficou reduzido a objecto desse olhar. A montagem funciona então como uma espécie de contra-arquivo, capaz de interromper narrativas herdadas e produzir outras associações. Daí a recorrência de questões ligadas à raça, ao género, à maternidade, à sexualidade e à violência, mas também à domesticidade e ao corpo enquanto lugar político. Mesmo quando a imagem parece fragmentária ou enigmática, há nela uma tensão entre exposição e recusa, mostrar e esconder, revelar e silenciar. A confusão a que alude o título não é apenas a do excesso informativo; é também a dificuldade de separar memória, desejo, trauma e representação quando todos circulam dentro do mesmo regime visual.

É neste ponto que a passagem do “feed” para o Museu ganha verdadeira espessura. Nas redes sociais, a sucessão de imagens tende a ser instantânea, solitária e potencialmente infinita; no MAC/CCB, Frida Orupabo obriga o corpo do espectador a entrar nessa sequência e a experimentar fisicamente as relações que a edição propõe. O tempo da visita substitui a velocidade do “scroll” e aquilo que no ecrã poderia ser consumido num segundo ganha uma duração incómoda. A exposição pede, assim, mais do que reconhecimento: pede disponibilidade para permanecer diante de imagens que não se deixam resolver facilmente. A sua força está menos numa mensagem fechada do que na capacidade de produzir desconforto e devolver perguntas ao visitante. Que memória construímos a partir de imagens que nos chegam já carregadas de violência? Que corpos continuam a ser vistos através de representações que os reduziram a tipos, sintomas ou objectos? E o que acontece quando esses corpos, através da colagem e da montagem, parecem devolver o olhar? “Cloud of Confusion” não oferece respostas tranquilizadoras. Faz melhor, problematizando o próprio acto de olhar.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Zona da Meia-Noite" | Maria Constanza Ferreira



EXPOSIÇÃO: “Zona da Meia-Noite”,
de Maria Constanza Ferreira
Curadoria | Constança Pupo Cardoso
Centro Português de Fotografia
08 Nov 2025 > 08 Mar 2026


“Zona da Meia-Noite”, misto de exposição fotográfica e vídeo-instalação da autoria de Maria Constanza Ferreira, ocupa duas enxovias do Centro Português de Fotografia, transformando-as num espaço de suspensão entre a luz e a penumbra, entre o corpo e a memória. Num primeiro momento, o azul profundo dos cianótipos — resultado de um processo fotográfico tão químico quanto ritual — envolve doze corpos-imagem que parecem flutuar fora do tempo. São formas devocionais, fragmentos de ausência, objectos que já não existem, mas insistem em permanecer. Nestes trabalhos, a artista convoca uma temporalidade expandida nos quais a fotografia deixa de ser mero registo para se transformar em testemunho espiritual, mediando a tensão entre presença e desaparecimento. Num outro momento, a vídeo-instalação “Alminha” funciona como rito de passagem, um gesto de cuidado que liga o mundo dos vivos ao dos mortos e conduz o visitante até “Midnight Zone”, obra em dois canais que combina película de 16 mm e vídeo digital, revelando-se como uma pintura em movimento, marcada por rituais, práticas populares e uma escuta atenta do incorpóreo.

O conceito de “Zona da Meia-Noite”, tomado da oceanografia - o lugar onde a luz solar já não chega -, é aqui reapropriado como metáfora de um território liminar, onde “ver” implica outros modos de percepção. Tal como os seres bioluminescentes das profundezas marinhas, capazes de gerar a sua própria luz, Maria Constanza Ferreira procura iluminar o que escapa ao olhar directo: crenças, gestos, saberes e histórias transmitidas no interior de uma comunidade. A artista ancora esta pesquisa numa genealogia pessoal iniciada em 2022 e no território específico do Repolão, em Oliveira do Bairro, onde o sagrado se infiltra no quotidiano através de alminhas do purgatório, procissões, romarias, flores, orações e trabalhos manuais. A meia-noite deixa então de ser apenas um ponto científico ou cronológico e torna-se um lugar de divisão e encontro: entre vida e morte, céu e inferno, peso e leveza, matéria e espírito.

Neste espaço intermédio, encontra a exposição a sua força mais sensível. O purgatório, entendido como estado de espera e cuidado, atravessa todo o corpo de trabalho, tanto nos materiais — ferro, mármore, cera, fio, água, luz — como nos gestos documentados no filme: mulheres que limpam túmulos, preparam altares, benzem corpos, cuidam da memória. A dimensão doméstica e feminina surge como guardiã de um saber ancestral, onde o ritual se confunde com a rotina e o afecto com a devoção. O croché, em particular, ganha um papel simbólico central, tornado objecto íntimo, herdado, repetitivo, que marca ciclos de vida e luto e que a artista reinventa ao colocá-lo em diálogo com o movimento e a instabilidade do cianótipo. Assim, “Zona da Meia-Noite” constrói-se como um ensaio visual sobre o tempo e a persistência, um trabalho que não procura respostas, mas permanece atento, no escuro fértil onde é possível encontrar a luz.

[Texto baseado na Folha de Sala, com redacção de Constança Pupo Cardoso]

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

EXPOSIÇÃO: “Objeto, Corpo, Espaço: A Revisão dos Géneros Artísticos a partir da Década de 1960”



EXPOSIÇÃO: “Objeto, Corpo, Espaço: A Revisão dos Géneros Artísticos a partir da Década de 1960”
Vários artistas
MAC/CCB – Museu de Arte Contemporânea e Centro de Arquitetura
Exposição permanente


A arte das segundas vanguardas do século XX — surgidas a partir da década de 1960 na Europa e nos Estados Unidos, como na América Latina — retoma a missão essencial de repensar o objecto artístico, questionando os seus limites, os seus processos criativos e a sua relação com o espectador. Este movimento não se traduz numa simples rejeição das formas tradicionais, mas numa reinvenção das linguagens artísticas, que passa pela libertação da escultura do pedestal, colocando-a em diálogo directo com o espaço arquitectónico, e pela transformação radical da pintura, que ora se reduz aos seus elementos essenciais — cor e forma —, ora se funde com o quotidiano e com a vida real. O corpo torna-se protagonista, individual ou colectivo, e a fotografia emerge como meio privilegiado para registar acções, movimentos e relações com o mundo, marcando uma nova concepção da arte como experiência e intervenção, mais do que como objecto estético.

A exposição “Objeto, Corpo e Espaço”, que reúne obras das colecções Berardo, Holma/Ellipse, Teixeira de Freitas e CACE, propõe um percurso não cronológico que parte dos grandes movimentos da década de 1960 — como o minimalismo, a arte povera ou o conceptualismo –, mas que rapidamente se foca nas trajectórias singulares de artistas que, ao longo do tempo, se foram afastando de uma pertença formal a correntes ou grupos. Apesar da diversidade estética, é possível identificar temas transversais que estruturam o conjunto: a crescente internacionalização da produção artística e a abertura a geografias e culturas antes marginalizadas; e o forte envolvimento político de muitos artistas, que respondem aos conflitos sociais e às lutas pelos direitos civis e das minorias. Esta pluralidade de vozes e visões reflete uma arte comprometida, que se pensa como intervenção crítica no mundo e não apenas como expressão subjectiva.

A montagem da exposição favorece o diálogo entre obras diversas, que, apesar de contrastarem formalmente, partilham afinidades temáticas: a crítica ao colonialismo e ao racismo, a exploração da sexualidade, a evocação da memória, o uso da palavra como matéria artística ou a desconstrução do objecto enquanto centro da obra. Mais do que um percurso linear, cada sala da exposição constitui um ponto de interrogação, uma provocação ou uma narrativa aberta, desafiando o visitante a construir relações e leituras próprias. As obras expostas propõem uma visita por este percurso e os seus desenvolvimentos posteriores, encontrando também, noutras geografias e latitudes, diferentes declinações das mesmas preocupações críticas, oriundas de outros contextos culturais. Trata-se, portanto, de um convite a repensar o papel da arte como lugar de confronto, memória e transformação.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO: “Chantal Akerman. Travelling”



EXPOSIÇÃO: “Chantal Akerman. Travelling”
Curadoria | Laurence Rassel
MAC / CCB – Museu de Arte Contemporânea e Centro de Arquitectura
17 Abr > 07 Set 2025


Chantal Akerman (1950–2015) firmou-se como uma das mais singulares vozes do cinema contemporâneo, ao explorar temas como a intimidade, a solidão, o luto, as injustiças sociais e a herança familiar, muitas vezes marcados pela herança judaica, experiência do exílio e memórias do Holocausto. A sua abordagem autodidata e radical surgiu desde cedo, com “Saute ma ville” (1968), curta-metragem que realizou aos 18 anos em Bruxelas, cidade natal e matriz afetiva da sua obra. No início dos anos 1970, viveu em Nova Iorque, onde teve contacto com o cinema experimental americano, incorporando uma linguagem contemplativa do tempo e do espaço. Foi aí que amadureceu a estética que levaria a filmes como “Je tu il elle” (1974) e a aclamada obra-prima “Jeanne Dielman, 23, quai du Commerce, 1080 Bruxelles” (1975), hoje considerada um marco da modernidade cinematográfica e da causa feminista, tendo sido nomeada o melhor filme de todos os tempos pela revista “Sight & Sound”, em 2022.

Chantal Akerman manteve uma carreira inquieta e multifacetada, expandindo os limites do cinema ao transitar entre géneros como o drama, a comédia, o documentário, a adaptação literária e a comédia musical. Filmes como “D’Est” (1993), “Sud” (1999) e “De l’autre côté” (2002) formam uma trilogia que observa muros, fronteiras e o sofrimento humano com um olhar poético e político. Desde meados da década de 1990, a cineasta também se destacou no campo das artes plásticas, criando cerca de 17 instalações de vídeo exibidas em importantes museus, revelando novas formas de relação com a imagem, o som e o texto. A exposição “Chantal Akerman. Travelling” reflecte esta trajectória complexa, apresentando filmes, instalações, documentos de produção e arquivos inéditos da Fundação Chantal Akerman, conservados pela Cinemateca Real da Bélgica. A mostra sublinha ainda o papel central da escrita na sua obra, revelando Akerman como uma autora que cruzou cinema e literatura com igual profundidade.

Organizada em diferentes núcleos temáticos e cronológicos, a exposição começa por Bruxelas, lugar de origem e primeira experimentação artística, e percorre geografias diversas — da Europa de Leste aos desertos norte-americanos —, reflectindo a amplitude do olhar da cineasta. Entre os destaques estão obras pouco conhecidas como “Hanging Out Yonkers” (1972), bem como as suas instalações mais emblemáticas, de “D’Est, au bord de la fiction” (1995) a “Now” (2015). A última sala reúne arquivos de produção, materiais de trabalho da Paradise Films — produtora fundada por Akerman — e testemunhos da sua rede de colaboradores, oferecendo uma perspetiva íntima sobre os processos criativos da artista. O programa associado à exposição, que inclui sessões na Cinemateca Portuguesa e eventos no MAC/CCB, convida o público a (re)descobrir uma obra radical e multifacetada, cuja influência permanece viva entre cineastas e artistas contemporâneos. Akerman, que faleceu em Paris em 2015, deixou um legado inestimável, marcado por uma sensibilidade profundamente pessoal e um compromisso inabalável com a liberdade artística.

sábado, 16 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO: “Lúcido Devaneio”



EXPOSIÇÃO: “Lúcido Devaneio”
Panorama da Arte Contemporânea Portuguesa
Vários artistas
Curadoria | Hiuwai Chu & Raphael Fonseca
Galeria Municipal do Porto
12 Jul > 12 Out 2025


“Quem molda a cena artística portuguesa? O que impulsiona estes artistas — suas questões, preocupações, materiais e modos de produção? O que significa trabalhar em Portugal hoje? Quais são as vantagens e limitações desse contexto? Que prazeres e traumas um artista traz em sua identidade e/ou vínculo territorial com o país? Quantos Portugais existem em Portugal? Os artistas que vivem nas ilhas dos Açores e da Madeira têm as mesmas oportunidades que aqueles que vivem em Portugal continental? É possível ter uma carreira consistente sem se mudar para grandes cidades como Lisboa e Porto?”

O Panorama da Arte Contemporânea Portuguesa é uma nova iniciativa da Galeria Municipal do Porto. Inspirado no Panorama da Arte Brasileira, o projecto ambiciona apresentar com regularidade um recorte da produção contemporânea em Portugal. Outro objetivo é fortalecer a visibilidade da cena artística portuguesa através de colaborações com figuras da curadoria internacional. Para esta primeira edição a escolha recaiu em Hiuwai Chu e Raphael Fonseca, curadores com uma ampla experiência e activos em territórios como a Espanha, o Brasil e os Estados Unidos da América. “Lúcido Devaneio” é um fragmento visível de um projeto muito maior de interacção com a cena artística portuguesa, dando a ver o trabalho de um conjunto de artistas com práticas fortes e consistentes, mas que permanecem pouco reconhecidas internacionalmente. O que se vê nesta exposição é apenas uma pequena parte de um processo mais amplo: uma constelação de obras que atravessam gerações, disciplinas e meios. São designados por fragmentos, porquanto o cerne do projecto reside no que permanece invisível — as inúmeras visitas dos curadores a estúdios e as conversas com artistas que ressoam para lá da exposição.

O grupo de artistas apresentado é uma das múltiplas selecções possíveis e resulta dos interesses combinados dos curadores, explorados ao longo de cerca de um ano de pesquisa. O conjunto de vinte participantes ilustra a vitalidade e diversidade da cena artística nacional, traduzida no título poético e paradoxal da exposição. Este é o resultado de uma jornada que teve início no Porto, no final de abril de 2024, com inúmeras visitas a exposições em museus, galerias, festivais e espaços independentes, e conversas com curadores, mas, acima de tudo, com cerca de uma centena de artistas. Da profícua troca de ideias foi possível construir uma compreensão em primeira mão, muito peculiar e assimétrica, do panorama artístico contemporâneo, trabalhando desde o chão o entendimento do que está a fermentar na parte ocidental da Península Ibérica. Artistas nascidos, criados e que continuam a trabalhar em Portugal, artistas de outros lugares que fizeram de Portugal o seu lar e artistas portugueses que vivem no exterior e que mantêm fortes ligações à sua terra natal, a representação é diversificada nos interesses existenciais que a cercam, e permite reflectir sobre o porquê de alguém poder ainda criar imagens no presente.

São de Ana Vidigal, André Sousa, Andreia Santana, Belén Uriel, Dayana Lucas, Francisco Trêpa, Gonçalo Sena, Ilídio Candja, Joana Escoval, João Gabriel, João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira, Mané Pacheco, Mariana Caló & Francisco Queimadela, Sara Bichão, Sara Chang Yan, Silvestre Pestana, Sofia Borges, Teresa Murta, Tiago Madaleno e Tiago Mestre as obras que podem agora ser vistos na Galeria Municipal do Porto. Além de apresentar os trabalhos em si, a montagem da exposição privilegia a sua sobreposição, abrindo espaço ao diálogo em matéria de história e memória, corpo e lugar. No seu conjunto, os trabalhos desta vintena de artistas abre perspectivas que jogam de diferentes maneiras com um certo sentido de metamorfose e ficção. Em retrospectiva, as suas práticas artísticas quase nunca deixam clara uma “identidade portuguesa”, seja lá o que isso for, respondendo à falácia de qualquer projecto curatorial com abordagem nacional. É vendo a exposição que essa percepção surge como um “devaneio lúcido”, resultado talvez inesperado de um exaustivo processo de pesquisa curatorial, pronto para instalar no visitante um sentimento de ambiguidade, dúvida e inquietação.

[Baseado no texto curatorial inserto na Folha de Sala da exposição, em https://www.galeriamunicipaldoporto.pt/ficheiros/eventos/GMP_LcidoDevaneio_FolhaSala_web.pdf]

sábado, 9 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Lázaro"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lázaro”,
de Bárbara Fonte, Bruno Silva, Estefânia r. e Veredas
Centro Português de Fotografia
19 Jul > 26 Out 2025


Bárbara Fonte, Bruno Silva, Estefânia r. e Veredas apresentam Lázaro, instalação desenvolvida a partir de um processo colaborativo que teve início em 2021 e se prolongou até 2025. Tomando o Jardim de São Lázaro, no Porto, como ponto de partida, o grupo trabalhou com fotografia, performance e paisagem sonora para escutar e transfigurar o espaço público entendido aqui como lugar de fricção, memória, resistência e fabulação. Para todos, este jardim foi, e continua a ser, um lugar de fantasia visual. Entrou nas suas vidas antes da idade adulta, num tempo ainda por definir entre a infância e juventude. Lugar real, mas também moldura imaginária, Lázaro emerge agora como espaço de reencontro com esse tempo, com os seus enigmas, os seus afectos e a sua potência de reinvenção.

Nada aqui é suposto. Tudo se aventura no desequilíbrio, num território onde o caos não é ruína, mas princípio organizador. A exposição não propõe uma síntese nem uma unidade, mas uma convivência densa entre linguagens, corpos e imaginários. O colectivo afirma-se não como fusão, mas como campo de tensão onde cada gesto se inscreve com a sua singularidade. Lázaro não representa: convoca. Recria um espaço onde o real e o imaginado se contaminam, onde a cidade se torna matéria viva de escuta e reconfiguração. A instalação emerge como corpo aberto, numa espécie de organismo em variação contínua, onde dispositivos e narrativas se implicam mutuamente, sem hierarquia. Entre camadas visíveis e latências sonoras, entre presença e rasto, entre anjos caídos e promessas de ressurreição, Lázaro evoca uma entrega radical: talvez uma petite mort, talvez uma folia, talvez o abandono necessário à metamorfose.

[Extraído da Folha de Sala da exposição]

domingo, 3 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO: “Analogias à Geometria e ao Orgânico”,



EXPOSIÇÃO: “Analogias à Geometria e ao Orgânico”,
de Cheila Peças
Museu do Vinho de Alcobaça - Adega dos Balseiros
17 Jul > 17 Ago 2025


“Sugo-te o conhecimento raivoso, impaciente. Questiono-me quem sou. Que parte de mim sou? Quando eu sou? Quando tu és? Vagueando entre raízes duras que me sugam a inocência, agradeço as palavras que lhes saem entornadas. Sou uma tela como todas as outras, o ar continua a derreter os passos que dou e faz-me inspirá-los para dentro do meu ser. Escuto os pelos arrepiados pelos sons que já não podem ouvir da mesma forma que antes. Tomo a decisão e uso-os como pincel, são agora o meu instrumento invisível”.

Imaginação, intuição, experimentação e aceitação são vectores maiores de “Analogias à Geometria e ao Orgânico”, exposição da artista plástica alcobacense Cheila Peças no âmbito do seu trabalho de doutoramento em Belas Artes. Multifacetada, entre o desenho, a pintura, a instalação, a fotografia e o vídeo, a mostra resulta do trabalho directo com utentes do Centro de Educação Especial, Reabilitação e Integração de Alcobaça e das Cooperativas de Ensino, Reabilitação, Capacitação e Inclusão de Peniche e da Nazaré, focando-se na experiência do sair de si e abdicar da personalidade própria para viver a realidade do outro através da arte. Entre a inquietação de nos percebermos e percebermos o outro, e a surpresa das narrativas que, extravasando os limites da tela, servem de base à criação artística, é no instante e na persistência, na cumplicidade e na partilha, que se perfila o corpo de trabalho da artista.

Reflexo da importância do primário e elementar sobre o complexo e elaborado, a exposição pretende destacar as múltiplas dimensões do objecto artístico, secundarizando a sua organização racional e lógica, em favor da linguagem emocional e do poder da imaginação de quem observa. “Na sua individualidade, o objecto artístico, vivendo para si, surge das impressões que retemos do mundo”. Esta afirmação de Cheila Peças alcança uma significado profundo ao atentarmos no trabalho que a artista desenvolveu com pessoas no espetro do autismo, fazendo da partilha de experiências, em áreas como a percepção ou o reconhecimento, o ponto de partida de um percurso para a criação de algo que se dá às mais variadas interpretações. O resultado pode ser surpreendente, pelo que convoca de alterações profundas na forma como olhamos o mundo, mas também como nos olhamos a nós mesmos e, por conseguinte, olhamos o fazer artístico.

Experiência intuitiva que fala mais do sentimento do que da razão e abre novas perspectivas à compreensão do mundo e da vida, “Analogias à Geometria e ao Orgânico” é a viagem ao encontro do outro que antecede o reencontro da artista consigo mesma. As transformações pessoais sofridas nesta viagem acrescentam valor ao processo criativo e espoletam novas narrativas, mas é sobretudo a consciência que o espectador tem de si no momento de interpretação da obra que importa, num exercício que é também de auto-observação. É esse o desafio que Cheila Peças lança, num exercício que supõe entrega, atenção e tempo. Desdobramento sobre momentos artísticos e sobre processos construídos, “Analogias à Geometria e ao Orgânico” é a demonstração prática do poder comunicativo, interpretativo ou de reconhecimento do objecto artístico, na relação íntima entre a arte e a pessoa. Para ver até 17 de Agosto.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

EXPOSIÇÃO: “O Arquipélago que Ressoa” | Fernando José Pereira



EXPOSIÇÃO: “O Arquipélago que Ressoa”,
de Fernando José Pereira
Curadoria | Andreia Magalhães
Centro de Arte Oliva
04 Jul > 12 Out 2025


Duas obras, separadas por 28 anos, balizam o intervalo temporal da exposição “O Arquipélago que Ressoa”. A mais antiga, de 1997, “A Utopia do Exílio”, foi realizada a partir de um facto: a permanência, há então 15 anos, no corredor da morte do militante negro Mumia Abu ‑Jamal (membro dos Black Panthers). Hoje, passados 28 anos, continua preso. Já são 43 anos. A mais recente, de Maio deste ano, “Os silêncios escondidos”, é especial já que o ano que estamos a viver confronta ‑nos, ao vivo e a cores, com algo com que nunca tínhamos presenciado: o genocídio de um povo. Do povo palestiniano. Daí que a obra se insinue como uma espécie de um marcador triste do tempo. Deste tempo da exposição; deste tempo quase sem tempo; deste tempo em que a instantaneidade nos permite assistir ao inimaginável. À indignidade com que convivemos diariamente, ao silêncio comprometido que carrega consigo a Nakba que não queremos ver. Um espectro que não nos deixará nunca.

No filme “O Olhar de Ulisses”, de Theo Angelopoulos, há uma cena fulcral em que o ecrã permanece completamente branco durante vários minutos, ouvindo ‑se apenas sons. As imagens revelam uma camada densa de nevoeiro sobre Sarajevo, durante o cerco na guerra dos anos 90 do século passado. Os sons que se escutam são de metralha, que, adivinhamos pelas cenas anteriores, correspondem a um fuzilamento colectivo. Mais à frente, ainda sob o manto de nevoeiro, ouvem ‑se os sons de uma orquestra a tocar. Diz um dos músicos que o nevoeiro assim o permite, pois os atiradores furtivos nada conseguem ver. Estas duas polaridades da realidade – a violência e a morte, mas também a esperança e a resistência – são eixos centrais da construção desta exposição. Os vapores brancos que sobem do interior da natureza islandesa num dos vídeos da exposição, confrontam‑se com o negro do carvão e da grafite dos muitos desenhos presentes. Uma dualidade que transcende o cromatismo da realidade: o branco e o negro como metáforas do presente.

Há já alguns anos foi lançado um álbum da compositora francesa Éliane Radigue. Intitula‑‑se “L’Île re‑sonante”. Também há algum tempo, o texto curatorial da Trienal de Londres afirmava que um arquipélago é um conjunto de ilhas unido por aquilo que as separa. Fragmentos, portanto. Esta exposição intitula ‑se, por isso, o arquipélago que ressoa. Trata‑se de uma mostra constituída por uma selecção de obras – também elas dispersas no tempo e no espaço – todas realizadas num determinado momento e em circunstâncias precisas. Um tríptico apresenta ‑se, no seu negro carregado pelo carvão que o compõe, como uma espécie de “statement”. Afirma: “No neutral options”. Tinha razão Nanni Moretti, no seu filme “Santiago, Itália”, quando, na única cena em que aparece, se dirige a um militar preso após a queda da ditadura de Pinochet – um homem que tenta agarrar‑se a ele para justificar a sua detenção. Moretti apenas diz: “Mas eu não sou imparcial” – e sai de cena. Fiquemos com o seu exemplo e com a força da sua frase. Parece pouco, mas não é. Nem sequer é um parecer. É.

[Extraído do texto de Fernando José Pereira que acompanha a Folha de Sala da exposição, em https://centrodearteoliva.pt/wp-content/uploads/2025/06/07-03-folha-de-sala-A4-digital.pdf]

sexta-feira, 11 de julho de 2025

EXPOSIÇÃO: "Ante + Post" | Rui Paes



EXPOSIÇÃO: “Ante + Post”,
de Rui Paes
Artistas convidados | Nadja Maya, Xavier Paes, Inês Tartaruga Água
Museu Escolar Oliveira Lopes
24 Mai > 20 Set 2025


“Porque tem de ser que ninguém saiba (ou suspeite)
Para que entre vós e eu não se levante
Uma inútil e alheia espada
Oculta em cada caule de cada flor lançada
À minha fronte”
Glória de Sant’Anna

No âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Glória de Sant’Anna, o Museu Escolar Oliveira Lopes acolhe “Ante + Post”, mostra do pintor, escultor, ilustrador e muralista Rui Paes, filho da escritora. Nesta exposição, o artista abre as portas do seu mundo, mas não está só: Nadja Maya, Inês Tartaruga Água e Xavier Paes são três convidados muito especiais - e não apenas por fazerem parte da família de Rui Paes -, transformando a exposição num espaço privilegiado de diálogo intergeracional em torno da pintura, escultura, vídeo e desenho. Incidindo em trabalhos da segunda metade da década de 1980 e seguinte, anos aos quais Rui Paes se refere como o seu “período brutalista”, a mostra tem a particularidade de trazer ao olhar do visitante um conjunto de obras pouco conhecidas, mas particularmente significativas da sua carreira. Entre elas avulta “Memória do Arquitecto” (1987), uma pintura de grandes dimensões em gel acrílico e pigmentos sobre algodão que domina um dos topos da galeria. Em tons de vermelho, ela atrai o visitante e serve de guia e fio condutor para a fruição plena dos restantes trabalhos.

Um dos elementos contrastantes desta exposição tem a ver com a escala, já que “Memória do Arquitecto”, mas também “Todos os Fogos, o Fogo” ou o magnífico “A Segunda Caixa do Homem-Medicina (Shaman)”, ambas de 1990, impressionam pela sua dimensão, sem com isso deixarem de dialogar com as séries de 1989, “Casos de Amor” e “Cruzes de Amor”, conjuntos de cinco obras cada, de pequenas dimensões. Podemos ainda apreciar “Ícone”, “O Devorador de Ícones” ou “A Requintada Expressão do Sofrimento”, obras realizadas em 1989 e que congregam elementos arquitectónicos e estéticos dos trabalhos referidos, ao mesmo tempo que servem de campo de experimentação para uma mais vasta paleta de cores. A ladear a impactante “Memória de Arquitecto”, “Coming for You, Coming for Me” e “Inside You, Inside Me”, distam desta mais de três décadas e são duas obras que parecem fechar um ciclo numa espécie de regresso aos lugares da memória (de arquitecto). As cores suaves e uma figuração anatomista impõem-se em obras como “A Ciência e o Desengano” ou no muito belo “O Desenho”, ambas de 1995. “O Caminho do Poeta (Caixa Sonora)” (2009) e “Solilóquio” (2007) são duas esculturas simbolistas que tiram partido dos cravos de ferrar sobre dois objectos que podemos ver como apetrechos de trabalho do artista.

Num outro espaço, Nadja Maya apresenta um conjunto de doze “Decomposições” (aguarela, acrílico e séria sobre papel de algodão) e que a artista considera “uma espécie de ‘desintelectualização’, para voltar a confiar no meu espírito, na minha intuição e no meu instinto, explorando e expandindo aquele ponto na criatividade em que um projecto se sustenta e prospera sem a minha supervisão”. De difícil definição, estas “decomposições” abrem-se ao olhar do visitante, pedindo-lhe que as considere e aprecie. Artista transdisciplinar sediado no Porto, Xavier Paes mostra-nos “Passage to Crystallization”, uma obra que se traduz “num exercício rítmico com riscadores, que explora as relações entre música, ruído e notação musical, criando uma meta-partitura, uma paisagem neumática onde gesto, movimento, sequências e acumulações temporais são cristalizados no plano”. Enfim, Inês Tartaruga Água oferece-nos “Variações para piões n.º 2”, obra gráfica que surge como registo visual de uma investigação multidisciplinar centrada no pião enquanto objecto sonoro. Diria que esta peça tem um significado muito particular para todos quantos tiveram oportunidade de assistir, no início de 2023, à curiosíssima performance “Variações para Piões”, apresentada neste mesmo espaço e que pode ser recordada AQUI.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA E VÍDEO: "Palestine Here and There" | Ahlam Shibli



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA E VÍDEO: “Palestine Here and There”,
de Ahlam Shibli
Artistas convidados | Ares Massalha, Ftama Hassona, Mohamed Harb, Monther Jawabreh, Rehaf Al Batniji
Curadoria | Paula Parente Pinto
RAMPA - Associação Cultural
12 Abr > 21 Jun 2025


Em solidariedade com a reivindicação de autonomia e liberdade do povo palestiniano e a exigência do fim da ocupação colonial da Palestina por Israel, a RAMPA - Associação Cultural convidou a artista Ahlam Shibli a apresentar o trabalho fotográfico que tem vindo a desenvolver sobre a reconstrução da identidade palestina nesse contexto de ocupação e militarização que provocou o êxodo do seu povo e constitui a principal causa do conflito árabe-israelita. Perante o fracasso das figuras centrais da política internacional e a desumanização dos media, a estética documental de Ahlam Shibli apresenta-se como uma ferramenta de reflexão crítica e uma forma de resistência. Justapondo registos sobre expropriação colonial, exclusão social, privação familiar e alienação sócio-sexual que caracterizam as condições de vida dos palestinianos e expandindo-os para outros contextos geopolíticos e sociais, Ahlam Shibli convoca uma nova geração a intervir e tomar consciência de uma construção imperialista e colonial repressora, com consequências humanamente devastadoras. Mas se a devastação pretende causar paralisia, a dialética e a constante viagem entre lugares, tempos e experiências são reveladoras da percepção fotográfica da artista, enformada pela capacidade de identificar outras e diferentes perspectivas de futuro, furtando-se a uma leitura unívoca e única.

Exemplar do valor da acção na esfera cultural, “Palestine Here and There” resulta do convite que Ahlam Shibli estendeu a Aref Massalha, Fatma Hassona, Mohamed Harb, Monther Jawabreh e Rehaf Al Batniji para sublinhar a importância de chamar a atenção mundial para novas e diferentes narrativas sobre os direitos do povo palestiniano e reivindicar a mudança como um sinónimo da sua resistência. Perante o exponencial confinamento entre muros, vedações e pontos de controlo, a destruição de vilas e cidades, a deslocação ou o aniquilamento de comunidades inteiras, a destruição de universidades e arquivos, o obscurecimento de histórias e narrativas, o apagamento de vozes e experiências e a recusa de reconhecer a igualdade de direitos para todos, nada parece mudar, mas o que muda é a consciência desta realidade. A consciência da conflituosa contradição de viver exilado e confinado nos muros erguidos pelo medo e acalentar a ténue esperança de um diálogo capaz de desatar um nó cada vez mais apertado. Além de documentarem a tragédia humana local, os artistas reunidos nesta exposição denunciam os limites da liberdade enquanto restrições éticas da condição humana.

Enquanto o mundo testemunha o êxodo e a massiva destruição da população palestiniana na Faixa de Gaza, uma nova geração de fotojornalistas, onde se incluí Fatma Hassona, reivindica a visibilidade de gestos silenciados que sobrevivem. No filme “Broken Dreams”, Mohamed Harb retrata também a experiência de uma nova geração palestiniana que, face a todas as adversidades políticas, económicas, sociais e de género, reivindica novas perspectivas para o futuro. Mesmo depois de ter perdido a casa e o seu estúdio num ataque aéreo israelita, Harb apresenta-nos uma série de fotografias dos seus filhos a desenhar na tenda onde vive actualmente com a família. Harb leva o projecto fotográfico para o seu espaço pessoal. A sua câmara percorre o estúdio danificado pela guerra em busca de imagens que retratem a tristeza e o desgosto que o assombram. Fotografa a catástrofe exposta na sua casa, passando depois para o convívio da sua família, numa privacidade de sem-abrigo. Rehaf Al Batniji utiliza diferentes experiências visuais para explorar narrativas e histórias. Em 2023, utiliza a câmara do seu telemóvel para captar e registar momentos do quotidiano familiar no meio da guerra e da decorrente destruição. Os acontecimentos podem ser banais, mas estão repletos de sugestões de medo e da ameaça de perda e morte.

Através do contexto simultaneamente específico e geral, privado e colectivo, local e internacional da pandemia da COVID 19, Aref Massalha, enfermeiro especialista numa unidade de cuidados intensivos em Jerusalém, alerta para a necessidade de construir um ambiente saudável, em vez de combater os problemas quando estes estão fora de controlo. O que nos chama a atenção ao passarmos pelas suas imagens é a relação inerente entre o aparelho e o corpo humano, o controlo do tempo e da morte. Nas imagens de Massalha, o corpo palestiniano tornou-se indefeso, agrilhoado e amarrado a estes aparelhos, incapaz de se mover. Trabalhando no contexto do activismo no espaço público da Cisjordânia, Monther Jawabreh explora os modos como a resistência e as suas formas de expressão são moldadas pelos principais desafios regionais e locais. “Onde há casa não há lar, onde há lar não há casa” é a expressão usada por Ahlam Shibli para resumir a situação do seu povo. Mais do que janelas abertas que permitem olhar de um lado para o outro, daqui para ali, as obras destes seis artistas tentam ser portas, estabelecer interiores e exteriores que, para além de olharem uns para os outros, permitem o movimento, o movimento livre entre aqui e ali, reversível e acolhedor. Uma exposição de visita obrigatória e urgente, para ver só até ao próximo dia 21 (visitas de quarta a sábado, das 15:00 às 19:00).

[Baseado em textos da Folha de Sala que acompanha a exposição]

quarta-feira, 23 de abril de 2025

EXPOSIÇÃO: “O Sal da Democracia. Mário Soares e a Cultura”



EXPOSIÇÃO: “O Sal da Democracia. Mário Soares e a Cultura”
Curadoria | José Manuel dos Santos, Pedro Marques Gomes
Casa de Serralves
06 Dez 2024 > 01 Jun 2025


“Foi o amor à cultura, foi a relação constante e visceral que a ela sempre me ligou, que fez com que a minha vida política se tivesse sempre entrelaçado com a minha constante paixão pela liberdade.”
Mário Soares

Figura fundamental da nossa história contemporânea, tudo o que Mário Soares fez na política — na resistência à ditadura, nos combates da democracia e nos altos cargos públicos que ocupou — decorreu de uma atitude cultural forte e funda. Nascido em 1924, viveu a adolescência e a juventude durante a Guerra Civil de Espanha e a Segunda Guerra Mundial. Os mestres intelectuais que então teve, a começar pelo pai, foram também os seus mestres cívicos, morais e políticos. Com eles, aprendeu a conhecer Camões, Kant, Antero de Quental, Eça de Queiroz, Rembrandt ou Columbano, mas também a ganhar consciência do que estava em causa naqueles trágicos acontecimentos decisivos para o destino da liberdade. Para ele, a política e a cultura passaram a ser inseparáveis. Um dia, disse: “A cultura é o sal da democracia.” É esta afirmação que dá título a esta exposição.

A visão que tinha de Portugal, da Europa e do mundo era política e era cultural. Foi construída pela reflexão e pelo conhecimento da história, da literatura, da arte, do pensamento crítico. No longo tempo da sua vida, Soares viveu sempre rodeado de livros (os que escreveu, leu e reuniu como bibliófilo) e de obras de arte (as que, com a mulher, Maria Barroso, colecionou). Celebrando o centenário do seu nascimento, esta exposição mostra a intimidade inspiradora de Soares com a cultura e com aqueles que a criam através de uma seleção antológica de obras das suas coleções de arte (pintura, desenho, escultura, tapeçaria, gravura) e de bibliofilia (livros raros, primeiras edições, manuscritos). Mostrando obras de grande significado pessoal, qualidade artística e representatividade cultural, esta exposição revela faces desconhecidas de uma personalidade fascinante — português universal, cidadão do mundo, viajante incansável, dotado de uma curiosidade infinita, que fez da aventura da sua vida uma criação prodigiosa e um testemunho de liberdade livre.

A Casa de Serralves cria as condições para que a exposição se possa apresentar na fidelidade ao carácter pessoal e privado destas colecções, evidenciando a subjectividade das escolhas, guiadas pelo gosto, pela amizade e pelo conhecimento. A colecção de arte, de que a exposição é uma antologia representativa, inicia-se cronologicamente com os naturalismos (António Carneiro, Alfredo Keil, Abel Salazar, Veloso Salgado) e depois com os modernismos (Francis Smith, Almada, Stuart, Barradas, António Soares, Júlio, Alvarez, Carlos Botelho, Bernardo Marques, Tagarro) e alcança a contemporaneidade (Ângelo de Sousa, Noronha da Costa, Álvaro Lapa, Jorge Martins, Batarda, Ana Vieira, Palolo, Julião Sarmento, Graça Morais, Mário Botas, Cabrita Reis, Carlos Nogueira, Ilda David, Ana Vidigal, Miguel Branco). Nela, estão representados alguns dos artistas mais importantes das correntes, escolas e tendências fundamentais que configuraram a arte portuguesa do século XX e do início do século XXI.

O destaque vai para a importância da presença na colecção das obras de Maria Helena Vieira da Silva e de Júlio Pomar. A primeira manteve com Soares um entendimento e uma amizade que, em larga medida, estão na origem da reaproximação a Portugal da grande artista naturalizada francesa e hostilizada longamente pelo governo de Salazar. Com Pomar, Soares esteve preso em Caxias, quando ambos eram muito jovens, e o pintor fez-lhe o primeiro retrato. Esta proximidade pessoal e artística ligava-se a uma grande cumplicidade política que se manteve toda a vida. Nesta coleção e nesta exposição, têm natural destaque os artistas das gerações mais próximas de Soares, com quem ele tinha laços pessoais e políticos muito fortes: Dacosta, Hogan, Resende, Pomar, Nadir, Nikias Skapinakis, Cesariny, Cruzeiro Seixas, Manuel Cargaleiro, Fernando Lanhas, Menez, Lima de Freitas, Paula Rego, Eduardo Luís, Escada, Cutileiro, João Vieira, Lourdes Castro.

Como bibliófilo, o político e homem de cultura colecionava primeiras edições, livros raros, manuscritos e correspondência. A escolha dos autores era presidida por critérios de admiração intelectual e até de genealogia político-literária. Soares era um político-escritor, com uma obra vasta, da qual fazem parte alguns livros fundamentais da nossa literatura de ideias e da nossa memorialística. Considerava a palavra, escrita e falada, como um instrumento fundamental de ação e persuasão. A presença na biblioteca da Casa de uma das secretárias onde escreveu e leu durante as décadas finais da sua vida simboliza este seu trabalho verbal incansável. Estes interesses e estas afinidades, que fundam uma visão do mundo, tiveram também uma importante repercussão na sua ação de homem público e marcam, direta ou indiretamente, a nossa história contemporânea.


sábado, 19 de abril de 2025

EXPOSIÇÃO: “Y’a Hamam Yalla Ma Tnam, Ma Tnam”



EXPOSIÇÃO: “Y’a Hamam Yalla Ma Tnam, Ma Tnam”,
de Mounira Al Solh
Curadoria | João Mourão, Luís Silva
Museu de Arte Contemporânea de Serralves
28 Fev > 31 Ago 2025


Mounira Al Solh nasceu em Beirute em 1978 e actualmente vive entre a cidade natal e Amesterdão. A sua prática artística abrange vídeo, instalação, pintura, desenho, têxteis, texto e performance. O seu trabalho explora paisagens sociais e políticas complexas, com foco em temas feministas, narrativas micro-históricas e os efeitos do conflito e da migração. A abordagem de Al Solh conjuga o envolvimento social com uma combinação singular de crítica política e escapismo poético. Em vez de adoptar um estilo documental, as suas obras tendem para o ficcional e, por vezes, o fantástico, recorrendo a histórias orais, colaborações interdisciplinares e jogos de linguagem para explorar histórias íntimas, especialmente as de mulheres. Estas obras investigam temas como resistência, deslocamento, perda e memória com sensibilidade e empatia, criando um corpo de trabalho com ressonâncias emocionais que convida o público a reflectir sobre os desafios contemporâneos enfrentados por comunidades marginalizadas.

Intitulada “Y’a Hamam Yalla Ma Tnam, Ma Tnam” (“Oh Pombo, Não Durmas, Não Durmas”), verso de uma canção de embalar muito popular no Líbano e na Síria, a exposição reúne obras que nunca foram apresentadas juntas, criando uma narrativa única que explora o profundo envolvimento de Al Solh com micro-histórias e a ação política. O eixo central da exposição é formado por “Nami Nami Noooom, Yalla Tnaaam” ("Dorme, Dorme, Dorme, Vamos Dormir"), uma poderosa instalação de grande escala que ancora o fluxo emocional e narrativo da exposição. Esta é uma obra profundamente pessoal, inspirada na infância de Al Solh durante a Guerra Civil Libanesa. Em criança, passando noites sem dormir devido ao barulho incessante das bombas que caíam pela cidade, a artista fazia buracos nos seus pijamas como forma de se distrair dos sons da guerra. Um dia, a sua mãe sugeriu que, em vez de simplesmente remendar as roupas, ela bordasse à volta desses buracos, transformando a atividade num ritual calmante. Esta prática meditativa tornou-se um refúgio, permitindo-lhe encontrar breves momentos de paz no meio do caos.

Os prolongados conflitos no Médio Oriente intensificaram-se recentemente, transformando-se numa enorme tragédia humana e criando uma ferida que atravessa gerações e afecta milhões de vidas. Este ciclo incessante de violência tem provocado perdas inimagináveis, com inúmeras vidas ceifadas, famílias desfeitas e comunidades inteiras a viver sob a constante sombra do medo e do sofrimento. Por entre as ruínas, as pessoas enfrentam traumas profundos que continuarão a afectar gerações futuras. Profundamente marcada por estes conflitos, Mounira Al Solh canaliza as suas experiências através da arte, convidando à reflexão sobre a necessidade de paz, empatia e um compromisso com a justiça que honre os direitos e a dignidade de todos os envolvidos. Através do seu trabalho, Al Solh responde ao apelo urgente para acabar com o sofrimento e reforça a determinação em promover um futuro alicerçado no respeito e na humanidade partilhada.


domingo, 2 de fevereiro de 2025

TEATRO: "War Maker"



TEATRO: “War Maker”
Direcção | Husam Abed
Dramaturgia | Marek Turošik
Direcção artística | Astrid Mendez
Cenografia | Katarina Cakova, Astrid Mendez
Produção | Dafa Theatre
50 Minutos | Maiores de 12 Anos
A SEDE
31 Jan 2025 | sex | 2130


“Sabes exactamente o que deixaste para trás: um passado que não figura em canções sobre os novos troianos, dos quais nada é dito a não ser o que os inimigos relatam. Mas eles não raptaram Helena nem causaram a guerra. Eram bondosos e pacíficos, o seu único crime foi terem nascido em encostas comparadas às escadas que conduziam a Deus. Eram corajosos sem espada, espontâneos sem retórica, pelo que alquebraram diante dos tanques, foram deslocados e espalhados pelo vento sem perderem a fé no dia em que a ferida da História sararia. // Portanto, quem és tu nesta viagem? Um poeta troiano que escapou ao massacre para contar a história, ou uma mistura de troiano e grego que se perdeu a caminho de casa?”
Mahmoud Darwish, in Na Presença da Ausência

Baseado na história real do artista palestiniano Karim Shaheen, “War Maker” é um exercício de teatro simples e eficaz, relevante na sua genuinidade, determinante na sua autenticidade, significativo na sua mensagem. Acompanhando o percurso de exílio de Karim - do Iraque ao Kuwait, da Síria à antiga Jugoslávia, da Hungria aos Estados Unidos - a peça faz-se de memórias estilhaçadas, onde se cruzam os namoros e o sofrimento de quem perdeu um braço, as sirenes que anunciam os ataques aéreos e um balde de pipocas, crianças recrutadas para servir no exército e soldadinhos de chumbo, o som dos bombardeamentos e a saga da Guerra das Estrelas. Sozinho em palco, rodeado de malas que são, como veremos, lugares de passagem num trajecto marcado por violentos conflitos armados, Husam Abed opta pela língua árabe (com legendas em inglês e português) para contar os sonhos e pesadelos de uma criança obrigada a fugir constantemente da guerra que tudo queima em redor, o que a leva a questionar-se se não será ela uma “war maker”, a grande causadora de tudo o que acontece à sua volta, para onde quer que se desloque.

Encenador, realizador, intérprete, marionetista, músico e produtor, Husam Abed conheceu Karim Shaheen no campo de refugiados de Yarmuk, em Damasco, na Síria. Foi aí que soube da sua enorme paixão por filmes de ficção científica e do seu sonho de vir a tornar-se um designer de efeitos visuais na Estados Unidos da América. Deportado da Síria em 2000, deu por si exilado na Jugoslávia e na Rússia, depois na Ucrânia, na Roménia e na Hungria, até chegar aos Estados Unidos, o país com que sempre sonhou, graças ao seu labor artístico e ao reconhecimento do seu trabalho. Mas será que a história acaba aqui, conhecidas que são as políticas da administração Trump em matéria de imigração? Um respeitador silêncio toma conta da sala. Ante o olhar do público, é o drama de milhões de refugiados que se concentra numa só pessoa, dividida entre o amor, os sonhos e as ligações familiares. Memórias da guerra, questões identitárias e exemplos da fragilidade humana fazem do palco uma verdadeira caixa de ressonância, chamando a atenção para uma realidade que constitui uma mancha vergonhosa na face da Humanidade.

Estreada em 2022, “War Maker” combina performance teatral, arte visual, teatro de objectos e meios multimédia. É uma forma de teatro alternativo, que documenta e ficciona, ao encontro de uma prática pública que pretende expressar e abordar questões e preocupações que se colocam às comunidades onde é apresentada. Mais do que uma forma de entretenimento puro e simples, a peça é um meio de auto-expressão, que desafia estereótipos, promove a consciencialização cívica e conecta pessoas por meio do teatro. A produção é do Dafa Theatre, companhia sediada em Praga, na Chéquia, e cujo nome, “Dafa”, provém do árabe e significa “calor”. Um calor que conforta e que se estendeu ao público que, n’A SEDE, foi livre de imaginar, sonhar e reforçar a convicção de que é urgente agir em prol da construção de uma sociedade mais justa e solidária. “Dafa” é, assim, o oposto de isolamento e alienação. É o que resiste quando os direitos humanos são violados, quando falham a educação e a saúde, quando a água e o ar são contaminados, quando os recursos naturais estão nas mãos de apenas alguns. Contra tudo isto, o Teatro resiste. O Teatro é liberdade!

[Foto: Dafa Theatre | https://dafatheater.com/]

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

EXPOSIÇÃO: "Linha de Maré"



EXPOSIÇÃO: “Linha de Maré. Coleção do CAM”
Vários artistas
Curadoria | Ana Vasconcelos, Helena de Freitas, Leonor Nazaré
Centro de Arte Moderna - Fundação Calouste Gulbenkian
21 Set 2024 > 11 Mai 2026


“Linha de Maré” parte da Revolução de 25 de Abril de 1974 para chegar aos dias de hoje, reflectindo sobre as revoluções em curso, sobretudo as relacionadas com o planeta. Organizada em torno de grandes instalações, a exposição define-se pelo ritmo que estas imprimem e pela ligação que estabelecem com outras obras na sua vizinhança. Estas instalações correspondem, de forma fluida, a um conjunto de ideias que enquadraram a escolha das obras: transgressão (em relação à ditadura portuguesa), manifesto (o primeiro manifesto ecológico artístico português), interioridade (da experiência proposta pela obra), mutação (tecnológica, pós-humana) e evocação (de uma ligação real com o mundo vivo). A maioria das obras contemporâneas presentes dialoga com uma seleção de obras modernistas, ilustrando a amplitude temporal da coleção do Centro de Arte Moderna e criando linhas de tensão entre os diferentes períodos que abrange. 

O título da exposição é inspirado numa obra de Hamish Fulton, Tide Line (1994-2005), que dá as boas-vindas ao público ainda antes da entrada da galeria, e evoca a marca que surge na superfície da água devido à confluência de correntes no alto mar. O encontro destas correntes gera uma linha orgânica de espuma, de maior ou menor turbulência, e que deve ser atravessada com precaução. A ideia da confluência de correntes, assim como o enorme leque de ressonâncias literais e metafóricas que evoca, são transversais a títulos, representações, conceitos e emoções trabalhados pelos artistas. Podem ser utilizadas para falar da natureza, da vida interior das pessoas, das fronteiras impostas, da destruição ou das revoluções. E projectam-se no espaço, transformando a galeria num lugar orgânico no qual se pretende resgatar a relação com o mundo vivo num planeta em que o artificial se vai tornando norma.

“Linha de Maré”  inclui obras em pintura, desenho, vídeo, fotografia e escultura e, das 99 obras expostas, muitas são aquisições recentes nunca antes apresentadas no Centro de Arte Moderna. São disto exemplo as obras de Mónica de Miranda, Filipa César, Graça Pereira Coutinho e Paulo Nozolino, postas em diálogo com trabalhos de artistas como Graça Morais, António Dacosta, Rui Chafes, Lourdes Castro ou Ana Hatherly. A presença de algumas obras modernistas, datadas da primeira metade do século XX, sublinha a importância da dinânima geradora de rupturas e cumplicidades inerente a toda a criação artística. Entre os dois extremos temporais desta “Linha de Maré”, uma chamada de atenção para “Apocalipse à Portuguesa”, livro de artista de Hein Semke que ilustra a sua visão do período imediatamente seguinte ao 25 de Abril de 1974, e ainda para “Bardo Loop”, de Gabriel Abrantes, conjunto de quatro pequenos filmes que figuram o desastre civilizacional em curso.