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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

INSTALAÇÃO: “Cultura do Corpo: Edição Porto” | Augustas Serapinas



INSTALAÇÃO: “Cultura do Corpo: Edição Porto”,
de Augustas Serapinas
Curadoria | João Laia
Galeria Municipal do Porto
11 Jul > 11 Out 2026


Pelas mãos do artista visual Augustas Serapinas, uma vasta secção da Galeria Municipal do Porto está transformada, por estes dias, numa espécie de academia impossível, onde a história da arte e a cultura física se encontram sob o signo da repetição. “Cultura do Corpo: Edição Porto” parte de uma ideia simples, mas fértil: tanto o treino artístico tradicional como o exercício físico assentam na disciplina do corpo, na reprodução de gestos e na persistência como formas de aperfeiçoamento. A instalação põe essa genealogia em evidência sem a ilustrar de modo didáctico. Mais de sessenta réplicas da colecção de escultura do Museu Nacional Soares dos Reis ocupam o lugar que, num ginásio convencional, seria reservado aos pesos. Entre elas está “O Desterrado”, de Soares dos Reis, cuja presença introduz uma estranha solenidade no cenário de máquinas, exercícios e corpos em esforço. A operação tem uma dimensão cómica, mas o humor não desarma a questão central: que modelos de corpo, de beleza e de conhecimento continuam a ser reproduzidos pelas instituições? Serapinas não responde directamente. Prefere criar uma situação em que a própria arquitectura da exposição obriga o visitante a confrontar-se com essa herança e com os mecanismos de disciplina que a mantêm viva.

A força de Augustas Serapinas está, precisamente, em não tratar as esculturas como objectos intocáveis, mas como instrumentos dentro de uma nova coreografia. O visitante pode desenhar, treinar, correr ou praticar fisioculturismo. A exposição deixa de ser apenas algo que se contempla para se tornar uma estrutura que se activa com o uso. É uma escolha coerente com uma prática artística interessada nas funções dos espaços, nos seus códigos de acesso e nas hierarquias que normalmente passam despercebidas. A antiga Academia de Arte de Vilnius, onde Serapinas estudou, constitui aqui uma referência decisiva: o desenho de modelo vivo, a cópia de esculturas e o domínio laborioso das técnicas clássicas são colocados em paralelo com a rotina do ginásio. O título lituano, “Kūno kultūra”, acentua o jogo entre educação física e formação cultural. A provocação é eficaz porque desloca a ideia de Academia para um território simultaneamente familiar e absurdo. Há, contudo, um risco nesta estratégia: a analogia entre o treino artístico e o treino corporal pode tornar-se demasiado evidente, sobretudo quando a instalação assume a aparência literal de um ginásio. É a participação do público, e não a metáfora por si só, que impede que o projecto se esgote nesse jogo de correspondências.

É na sua inscrição no Porto que “Cultura do Corpo” ganha maior interesse. Ao substituir os objectos genéricos das versões anteriores por réplicas da colecção do Museu Nacional Soares dos Reis, Serapinas abandona a tentação de uma obra universal e aceita a resistência de um lugar concreto, com a sua história e os seus próprios cânones. A escultura académica portuguesa passa assim a integrar uma máquina crítica que não a ridiculariza nem a celebra inteiramente: expõe a autoridade dos seus modelos ao mesmo tempo que lhes altera a função. “O Desterrado”, convertido em equipamento de exercício, é a imagem mais eloquente dessa inversão. O corpo representado pelo escultor oitocentista deixa de ser apenas objecto de contemplação e passa a participar, indirectamente, no esforço dos corpos presentes. É uma imagem de grande poder, embora também revele a ambiguidade de uma exposição que depende fortemente da inteligência da sua premissa. Augustas Serapinas trabalha melhor quando permite que o absurdo material da situação produza pensamento sem o explicar em excesso. No Porto, essa estratégia encontra uma escala particularmente feliz: entre museu, academia e ginásio, a exposição pergunta quem educa o corpo, quem define a sua forma ideal e que modelos continuamos a repetir. A resposta, prudentemente, fica entregue ao “exercício” de cada visitante.

sábado, 16 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO: “Lúcido Devaneio”



EXPOSIÇÃO: “Lúcido Devaneio”
Panorama da Arte Contemporânea Portuguesa
Vários artistas
Curadoria | Hiuwai Chu & Raphael Fonseca
Galeria Municipal do Porto
12 Jul > 12 Out 2025


“Quem molda a cena artística portuguesa? O que impulsiona estes artistas — suas questões, preocupações, materiais e modos de produção? O que significa trabalhar em Portugal hoje? Quais são as vantagens e limitações desse contexto? Que prazeres e traumas um artista traz em sua identidade e/ou vínculo territorial com o país? Quantos Portugais existem em Portugal? Os artistas que vivem nas ilhas dos Açores e da Madeira têm as mesmas oportunidades que aqueles que vivem em Portugal continental? É possível ter uma carreira consistente sem se mudar para grandes cidades como Lisboa e Porto?”

O Panorama da Arte Contemporânea Portuguesa é uma nova iniciativa da Galeria Municipal do Porto. Inspirado no Panorama da Arte Brasileira, o projecto ambiciona apresentar com regularidade um recorte da produção contemporânea em Portugal. Outro objetivo é fortalecer a visibilidade da cena artística portuguesa através de colaborações com figuras da curadoria internacional. Para esta primeira edição a escolha recaiu em Hiuwai Chu e Raphael Fonseca, curadores com uma ampla experiência e activos em territórios como a Espanha, o Brasil e os Estados Unidos da América. “Lúcido Devaneio” é um fragmento visível de um projeto muito maior de interacção com a cena artística portuguesa, dando a ver o trabalho de um conjunto de artistas com práticas fortes e consistentes, mas que permanecem pouco reconhecidas internacionalmente. O que se vê nesta exposição é apenas uma pequena parte de um processo mais amplo: uma constelação de obras que atravessam gerações, disciplinas e meios. São designados por fragmentos, porquanto o cerne do projecto reside no que permanece invisível — as inúmeras visitas dos curadores a estúdios e as conversas com artistas que ressoam para lá da exposição.

O grupo de artistas apresentado é uma das múltiplas selecções possíveis e resulta dos interesses combinados dos curadores, explorados ao longo de cerca de um ano de pesquisa. O conjunto de vinte participantes ilustra a vitalidade e diversidade da cena artística nacional, traduzida no título poético e paradoxal da exposição. Este é o resultado de uma jornada que teve início no Porto, no final de abril de 2024, com inúmeras visitas a exposições em museus, galerias, festivais e espaços independentes, e conversas com curadores, mas, acima de tudo, com cerca de uma centena de artistas. Da profícua troca de ideias foi possível construir uma compreensão em primeira mão, muito peculiar e assimétrica, do panorama artístico contemporâneo, trabalhando desde o chão o entendimento do que está a fermentar na parte ocidental da Península Ibérica. Artistas nascidos, criados e que continuam a trabalhar em Portugal, artistas de outros lugares que fizeram de Portugal o seu lar e artistas portugueses que vivem no exterior e que mantêm fortes ligações à sua terra natal, a representação é diversificada nos interesses existenciais que a cercam, e permite reflectir sobre o porquê de alguém poder ainda criar imagens no presente.

São de Ana Vidigal, André Sousa, Andreia Santana, Belén Uriel, Dayana Lucas, Francisco Trêpa, Gonçalo Sena, Ilídio Candja, Joana Escoval, João Gabriel, João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira, Mané Pacheco, Mariana Caló & Francisco Queimadela, Sara Bichão, Sara Chang Yan, Silvestre Pestana, Sofia Borges, Teresa Murta, Tiago Madaleno e Tiago Mestre as obras que podem agora ser vistos na Galeria Municipal do Porto. Além de apresentar os trabalhos em si, a montagem da exposição privilegia a sua sobreposição, abrindo espaço ao diálogo em matéria de história e memória, corpo e lugar. No seu conjunto, os trabalhos desta vintena de artistas abre perspectivas que jogam de diferentes maneiras com um certo sentido de metamorfose e ficção. Em retrospectiva, as suas práticas artísticas quase nunca deixam clara uma “identidade portuguesa”, seja lá o que isso for, respondendo à falácia de qualquer projecto curatorial com abordagem nacional. É vendo a exposição que essa percepção surge como um “devaneio lúcido”, resultado talvez inesperado de um exaustivo processo de pesquisa curatorial, pronto para instalar no visitante um sentimento de ambiguidade, dúvida e inquietação.

[Baseado no texto curatorial inserto na Folha de Sala da exposição, em https://www.galeriamunicipaldoporto.pt/ficheiros/eventos/GMP_LcidoDevaneio_FolhaSala_web.pdf]