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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Turn Around - Um olhar sobre a Coleção de Arte Fundação EDP” | Vários artistas



EXPOSIÇÃO: “Turn Around - Um olhar sobre a Coleção de Arte Fundação EDP”,
de Adriana Proganó, Ana Jotta, Bruno Cidra, Gabriel Abrantes, Joana Vasconcelos, João Ferro Martins, João Paulo Feliciano, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, José Pedro Croft, Luisa Cunha, Maria Beatriz, Rodrigo Oliveira, Sérgio Pombo, Tiago Baptista (1.ª parte) e Álvaro Lapa, Ana Cardoso, Ana Hatherly, Ana Vieira, Ângelo de Sousa, António Areal, António Palolo, Augusto Alves da Silva, Diogo Pimentão, Eduardo Batarda, Fernanda Fragateiro, Fernando Calhau, Gonçalo Barreiros, Helena Almeida, João Onofre, João Queiroz, Joaquim Bravo, Jorge Martins, Jorge Molder, José Almeida Pereira, José Barrias, José Loureiro, José Pedro Cortes, José Pedro Croft, Julião Sarmento, Leonor Antunes, Lourdes Castro, Luísa Jacinto, Manuel Baptista, Manuel Rosa, Maria Beatriz, Maria Capelo, Maria José Oliveira, Mariana Gomes, Noronha da Costa, Paulo Nozolino, Pedro Calapez, Rosa Carvalho, Rui Chafes, Rui Sanches, Salomé Lamas, Sara Bichão, Sara Chang Yan, Susanne S. D. Themlitz (2.ª parte)
Curadoria | João Pinharanda, Margarida Almeida Chantre, Sérgio Mah
MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia
11 Fev 2026 > 25 Jan 2027 (1.ª parte)
29 Abr 2026 > 11 Jan 2027 (2.ª parte)


“Turn Around – Um Olhar sobre a Colecção de Arte Fundação EDP” parte de uma premissa tão simples quanto exigente: olhar para uma colecção é também olhar para a história que a tornou possível. Reunindo cerca de noventa obras de cinquenta e oito artistas, a exposição percorre mais de seis décadas de criação contemporânea em Portugal, mas recusa a confortável tentação de se apresentar como uma narrativa linear. Em vez de uma história arrumada por gerações, movimentos ou cronologias, propõe uma sucessão de encontros, atritos e reverberações. É nesse confronto que a exposição ganha espessura: entre a herança conceptual e as linguagens mais recentes, entre o corpo e a sua ausência, entre o negro e a cor, entre a matéria e aquilo que nela se procura fazer desaparecer. A voz de Luisa Cunha, que recebe o visitante, funciona quase como uma senha para esse percurso de avanços e recuos, enquanto obras de Jorge Molder, Rui Chafes, Rui Sanches ou Julião Sarmento estabelecem desde logo uma atmosfera de estranheza e inquietação. O mérito está menos na dimensão da mostra do que na capacidade de fazer uma colecção institucional funcionar como matéria crítica, revelando continuidades inesperadas e, sobretudo, as fracturas de uma arte contemporânea portuguesa que nunca coube inteiramente numa única narrativa.

A arquitectura da Central Tejo desempenha um papel que vai muito além do de simples cenário. Na galeria Baixa Pressão Norte, onde a antiga estrutura industrial se encontra domesticada pela disposição museológica das salas, as obras podem ser vistas com maior concentração e num regime de relações mais próximo do habitual. Já na Baixa Pressão Sul, o edifício regressa à condição de presença física: as estruturas de ferro, a escala e a memória de um lugar concebido para a produção entram em choque com objectos que pertencem a uma outra economia, a da representação, do desejo e da crítica. É particularmente feliz a opção por deixar que esse confronto produza tanto tensão como humor. A cabina de marinheiros de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, o kitsch produtivo de Joana Vasconcelos, o monumental e absurdo “Marmitex, Guggenheim ibérico”, de Rodrigo Oliveira, ou o diálogo impossível entre dois candeeiros em João Paulo Feliciano mostram como a arte pode ocupar o espaço industrial sem o neutralizar, ainda que a abundância de propostas ameace nivelar diferenças e transformar o percurso numa sucessão de estímulos. É um risco inerente a qualquer exposição de colecção, mas aqui a própria arquitectura ajuda a contrariá-lo: obriga o olhar a mudar de escala, de ritmo e de disposição.

O título “Turn Around” ganha então um sentido mais amplo do que o de simples instrução ao visitante. Mandar virar, voltar atrás, olhar de novo: eis o gesto que melhor define uma exposição onde a memória não é apresentada como património imóvel, mas como algo que se reconfigura a cada aproximação. As obras mais antigas não surgem como relíquias de uma história já encerrada, nem as mais recentes como confirmação automática de uma suposta evolução. António Palolo pode dialogar com Luísa Jacinto; Lourdes Castro encontra ecos em pesquisas posteriores sobre o corpo, a paisagem ou a linha; Ana Jotta e José Pedro Croft continuam a pôr em causa a dignidade convencional do objecto artístico. E é justamente nessa instabilidade que a exposição se torna mais interessante. A colecção da Fundação EDP, com as suas cerca de duas mil e quinhentas obras, não é aqui celebrada apenas pela dimensão ou pela representatividade: é posta à prova. O que esta selecção demonstra é que uma colecção só ganha verdadeira relevância quando deixa de ser inventário e passa a questionar. Entre o rigor histórico e a liberdade associativa, “Turn Around” consegue, na maior parte do tempo, fazer isso: devolver as obras ao presente, onde podem voltar a incomodar, surpreender e contrariar aquilo que julgávamos já saber sobre elas.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

EXPOSIÇÃO: “Terra Poética” | Anna Maria Maiolino



EXPOSIÇÃO: “Terra Poética”,
de Anna Maria Maiolino
Curadoria | João Pinharanda e Sérgio Mah
MAAT - Museu de Arte Arquitetura e Tecnologia
25 Mar > 31 Ago 2026


“As instalações da série ‘Terra Modelada’ são obras em processo, estruturadas por armazenamento de formas simples, produtos da ação do gesto, que, por ser natureza, não se repete [...]. Estas primas-formas têm a medida da mão que as molda - a medida do homem - e lembram-nos certos aspetos de comemorações, de rituais. O ancestral é revivido no fazer primeiro, no ritual do trabalho apresentado.”
Anna Maria Maiolino

Visita-se “Terra Poética” como quem atravessa um território. Na Galeria Oval do MAAT - Museu de Arte Arquitetura e Tecnologia, Anna Maria Maiolino transforma a arquitectura num campo de forças onde desenho, escultura e instalação se contaminam, fazendo do barro não apenas uma matéria, mas uma espécie de linguagem anterior às palavras. A exposição reúne obras realizadas entre 1975 e 2025 e percorre mais de cinco décadas de uma prática que nunca separou o corpo da memória, nem a experiência íntima da dimensão política. Nascida em Itália em 1942, emigrada para a Venezuela e depois para o Brasil, Anna Maria Maiolino traz para a obra uma experiência de deslocação que não é meramente biográfica: é uma condição de existência. Desde a participação na Nova Objectividade Brasileira, em plena ditadura militar, até à consagração internacional, o seu trabalho tem procurado formas de dar corpo ao que resiste à representação. O Leão de Ouro de carreira atribuído na Bienal de Veneza de 2024 veio reconhecer uma trajectória singular, mas “Terra Poética” mostra que a importância de Maiolino está menos na consagração do que na radicalidade com que continua a interrogar a matéria.

O percurso começa nas paredes, onde “Tempestade de Ideias” reúne mais de uma centena de desenhos produzidos entre 1990 e 2025. São rabiscos, esquemas, impulsos, pequenas arquitecturas ainda por nascer: um inventário aparentemente desordenado que funciona, afinal, como uma cartografia do pensamento. A artista não apresenta a escultura como objecto acabado, mas como possibilidade, processo e hesitação. Os desenhos são sementes de formas, enquanto as pequenas esculturas e fotografias introduzem outras escalas de percepção. Na arena, porém, é a argila que toma conta do espaço. As obras da série “Terra Modelada”, iniciada em 1993, foram concebidas para a galeria e produzidas no local, prolongando uma investigação em que o gesto elementar de amassar, enrolar, dividir, acumular, adquire uma dimensão quase ritual. A matéria é moldada pela mão, mas também pela passagem do tempo: a argila crua desidrata, muda de cor, endurece e aproxima-se da pedra. O que parecia instável ganha permanência sem deixar de anunciar a sua própria transformação. Nessa tensão entre nascimento e ruína, entre o provisório e o ancestral, encontra Maiolino uma das suas imagens mais poderosas.

Há algo de profundamente corporal em “Terra Poética”. As formas remetem para alimentos, entranhas, sementes, órgãos, respirações; parecem guardar no seu interior uma memória doméstica e arcaica, como se a escultura pudesse regressar ao instante inaugural em que fazer e sobreviver eram o mesmo gesto. O feminino surge menos como tema do que como experiência incorporada: a mão que trabalha, a matéria que cede, a repetição paciente de tarefas tradicionalmente associadas ao espaço doméstico e que a artista desloca para o território da arte. Mas seria redutor ler Maiolino apenas através de uma chave feminista. O que a exposição propõe é uma política mais funda da matéria, onde o corpo individual se encontra com o colectivo e onde a experiência migrante se transforma numa procura de raízes. “Terra Poética” não é, afinal, uma exposição sobre a terra, mas sobre aquilo que ela nos ensina: que toda a forma é provisória, que todo o corpo é matéria em transformação e que, entre a mão e o mundo, existe sempre a possibilidade de começar de novo. É nessa simplicidade - simultaneamente ancestral e contemporânea - que reside a força de uma artista cuja obra continua a transformar o gesto mais elementar numa pergunta sobre a existência.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

EXPOSIÇÃO: Colecção do Museu Bordalo Pinheiro



EXPOSIÇÃO: Colecção do Museu Bordalo Pinheiro
Museu Bordalo Pinheiro
Inauguração a 15 Jan 2026. Exposição de Longa Duração


No passado dia 15 de Janeiro, o Museu Bordalo Pinheiro abriu as portas à sua nova Exposição de Longa Duração, propondo uma leitura renovada da vida e obra de Rafael Bordalo Pinheiro. Logo na sala inaugural, “A Situação… pela Lente de Bordalo”, o visitante é transportado para a segunda metade do século XIX, tempo de revoluções tecnológicas, expansão da imprensa e intensificação das trocas internacionais. É nesse mundo em aceleração que o artista constrói o seu olhar crítico. A monarquia constitucional, a alternância partidária e o peso da Igreja surgem como alvos recorrentes da sua crónica humorística semanal, onde texto e imagem se entrelaçam numa análise mordaz da actualidade. Bordalo acompanha atentamente conflitos europeus, ambições coloniais e tensões diplomáticas, revelando um patriotismo inflamado, simultaneamente crítico dos governos e atento ao papel económico das colónias. Liberal, anti-monárquico e socialmente comprometido, sonha com a República e com um país mais justo, mas fá-lo sem abdicar da complexidade das suas posições. O riso, aqui, não é mero entretenimento: é ferramenta de intervenção, lente de aumento das fragilidades do sistema e convite insistente à mudança.

Em “Jogos de Humor: do Desenho à Cerâmica” e “Figuras e Personagens”, as duas salas seguintes, a exposição aprofunda a dimensão inventiva de Bordalo e a amplitude do seu talento. Mestre da caricatura, atento às correntes internacionais e dotado de sólido conhecimento técnico, desenvolve uma linguagem gráfica própria, marcada por exageros expressivos, metamorfoses surpreendentes e composições arrojadas que exploram o potencial narrativo da página. O visitante acompanha o processo que vai da figura isolada à construção de sequências, antecipando soluções da banda desenhada moderna. Muitos desses jogos visuais transitam para a cerâmica, onde personagens e símbolos ganham volume e presença física. Entre as criações mais emblemáticas destaca-se o Zé Povinho, síntese irónica do povo português, simultaneamente ingénuo, resignado e capaz de súbita irreverência. Ao seu lado surge a Maria da Paciência, figura que oscila entre o comentário moral e a voz da tradição lisboeta. Políticos, escritores e actores são retratados com acuidade física e psicológica, renovando-se a cada situação desenhada ou modelada. Nesta galeria de tipos e personagens percebe-se como Bordalo construiu um universo próprio, a sátira transformada em crónica social e a arte em memória crítica de um tempo.

A cidade ganha protagonismo em “Os Palcos de Lisboa” e “Comédia Político-Burlesca”, onde se percebe como Rafael Bordalo Pinheiro transforma o quotidiano num grande cenário crítico. Lisboa é simultaneamente tema, palco e personagem: uma capital em mutação, que se quer moderna e cosmopolita, mas onde persistem bolsas de pobreza, desigualdades profundas e marcas de ruralidade. Bordalo observa-a por dentro - nos teatros, nas redacções, nas ruas, nas procissões e nos arraiais - e por fora, atento às suas transformações urbanas, às montras, aos cartazes, às novas sociabilidades burguesas. A política surge como uma encenação permanente, uma “comédia político-burlesca” em vários actos, onde ministros e deputados vestem papéis conforme a conveniência e trocam de máscara ao sabor das maiorias parlamentares. O teatro funciona como metáfora estruturante: há palcos e bastidores, ilusões e truques de cena, aplausos e vaias. Nesse grande espetáculo do absurdo, o Zé Povinho tanto aparece adormecido na plateia como reage com o célebre manguito, gesto que se tornaria ícone de contestação. A sátira à dívida pública, às obras faraónicas, às eleições manipuladas ou às crises governativas convive com referências às modas, aos costumes e às festas populares, compondo um fresco vibrante e mordaz da sociedade portuguesa oitocentista.

O percurso culmina em “Tragicomédia sem Limites” e “O Lápis como Arma”, núcleos que sublinham a dimensão mais combativa e, simultaneamente, mais incómoda da obra de Bordalo. Nada nem ninguém escapa ao seu olhar: instituições, figuras públicas, práticas religiosas, preconceitos sociais e raciais, estereótipos de género. Algumas dessas imagens, hoje confrontadas com novas sensibilidades, obrigam o visitante a questionar os limites do humor e a reconhecer nelas o espelho de uma mentalidade do século XIX. A exposição não as oculta; contextualiza-as, convidando à reflexão crítica sobre o riso como arma ambivalente, libertadora e, por vezes, violenta. Num período de crescente repressão, com a imprensa sob ameaça de censura e o espaço público vigiado, Bordalo assumiu o desenho como instrumento de intervenção cívica. O lápis tornou-se metáfora e prática de resistência. Denunciou abusos de poder, expôs incoerências, celebrou feitos anónimos e instigou a mudança. Mais do que uma retrospectiva biográfica, esta nova Exposição de Longa Duração afirma a actualidade de um criador total - caricaturista, ceramista, empresário, homem de teatro - cujo humor continua a interpelar-nos. Ao sair, o visitante percebe que rir, em Bordalo, nunca foi um gesto inocente: foi sempre uma forma de pensar o país e de o imaginar diferente.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

EXPOSIÇÃO: "Complexo Brasil"



EXPOSIÇÃO: “Complexo Brasil”
Vários artistas
Curadoria | José Miguel Wisnik, Milena Britto, Guilherme Wisnik
Fundação Calouste Gulbenkian
14 Nov 2025 > 17 Fev 2026


Num tempo de fronteiras tensas e discursos inflamados sobre a imigração, tempo em que brasileiras e brasileiros sentem na pele e na alma o peso da desconfiança e da estigmatização, a Fundação Calouste Gulbenkian abre as portas a um gesto raro, o de olhar a História sem fazer dela arma de arremesso. Pensada aquando do bicentenário da Independência, “Complexo Brasil” nasce desse desconforto mútuo, desse estranhamento antigo entre dois povos que revelam um desconhecimento recíproco profundo. Com o intuito de colmatar lacunas e lançar luz sobre as muitas sombras que persistem, foi lançado o convite a José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik para assumirem a curadoria da exposição e explicarem um Brasil que não é só praias, futebol e Carnaval. A ousadia foi aceite como quem aceita decifrar uma esfinge. O Brasil não é para principiantes, não é para estagiários da alma. É um imenso pedaço de terra e água, amado e complexo, feito de heranças caleidoscópicas, de sincretismos que se entranham, de contradições que não pedem licença.

A arquitectura modernista da Gulbenkian vê-se inundada por uma chuva de cor, penas e cipós, redes e mantos, vozes e batuques. Antes dos chamados “descobrimentos”, já havia mundo: povos originários, cosmologias, mantos tupinambás resgatados da diáspora dos museus europeus. O tapuia de Eckhout encara-nos sob um céu cinzento importado da Holanda; ao lado, o manto refeito por Glicéria Tupinambá restitui o azul ao firmamento. Entre um corpo que é rua e a emoção à flor da pele, ergue-se o espectro da escravatura, ferro e fogo que ainda arde. Debret expõe a crueldade doméstica; Portinari dá ao lavrador pés desmedidos e cabeça exígua; “A Redenção de Cam” encena o branqueamento como promessa sinistra. Nuno Ramos rasga a cruz na areia; os orixás erguem o machado-cruz de Xangô; o candomblé responde ao sino. Se há antropofagia, é fusão e rito; se há dor, é memória que não se consente esquecer. “Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas dos escravizados.” E, contudo, a felicidade insiste como sentimento colectivo, a “gostosura” de viver atravessa fotografias e pinturas, enquanto baldes de plástico azul, verde e amarelo nos transportam de Lisboa a qualquer esquina do Brasil.

Entre Brasília — ousadia erguida na terra vermelha, alma que não faz sombra no chão — e a Amazónia, alfa e ómega de um país a mil velocidades, a mostra tece miscigenações como redes de baloiço. Parte do que ali está também imigrou: obras espalhadas pelo mundo regressam para contar a diáspora inscrita no ADN brasileiro. Vídeos convocam o visitante a sentar-se nos degraus e a ver o pescador abraçar o peixe agonizante, o consolo e o respeito num gesto só. Instalações fazem dialogar o construtivismo com o transe: o “Manto da Apresentação” de Arthur Bispo do Rosário prepara-se para o Juízo Final com nomes e fios azuis arrancados ao confinamento. Nossa Senhora Aparecida é negra e veste manto bordado a prata. Mães de santo, mães de filhos, mulheres de cabelo erguido entre a vergonha e o orgulho, benzem crianças. Nem ajuste de contas, nem libelo acusatório, “Complexo Brasil” é um enredo, um ponto de vista, de encontro e entendimento, capaz de incluir o outro em si, em vez de o excluir como ameaça. E talvez, entre colonizadores e colonizados, o espelho devolva menos culpa e mais complexidade. Está dito.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo” | Carlos Olivera



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo”,
de Carlos Olivera
Curadoria | Saúl Ponce Valdivia
XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2025
Museu de Aveiro / Santa Joana
18 Out 2025 > 18 Jan 2026


“Abordei a cerâmica com o entusiasmo de uma criança, o mesmo entusiasmo que me move em todos os processos criativos nos vários suportes que utilizo no meu trabalho; claro que recebi bons conselhos dos meus amigos ceramistas sobre o comportamento dos materiais minerais a mais de mil graus e estou-lhes grato. Deixo os rigores factuais da química pura para os especialistas e não me envergonho de ser um questionador constante. Não faço cerâmica por opção, apenas gosto de brincar e tento não perder a frescura. Para mim, será sempre uma questão de magia.”
Carlos Olivera

Desde tempos imemoriais que a argila tem sido cúmplice das mãos humanas, encontrando nelas o gesto de quem procura traduzir o caos natural em formas elementares. Exemplos desta realidade não faltam, cabendo-me hoje traduzir por palavras uma exposição fantástica do ceramista peruano Carlos Oliveira, intitulada “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo”. Aquilo que as peças expostas exprimem é o regresso de Olivera a esse ponto zero da criação, a uma cerâmica que emerge da ancestralidade cósmica e que faz do barro matéria e metáfora: Corpo frágil, ventre criador, espelho de um universo em perpétua mutação. Cada peça é a prova de que o barro é uma entidade viva, dócil e sagrada, que aceita estiletes, cicatrizes, pigmentos e estados de alma, como se cada intervenção estabelecesse um pacto com forças invisíveis. O artista faz do barro um ser mediúnico, capaz de incorporar espiritualidades andinas, memórias do fogo, respirações do vento e gestos humanos que procuram a catarse, a cura ou a revelação. Nesse território táctil, onde a matéria absorve emoções com uma clareza quase mística, o barro deixa de ser simples recurso para se tornar em agente de transfiguração. E o olhar que nos devolve é duplo: mostra-nos tanto o esplendor quanto a sombra que transportamos, lembrando, a cada forma, que também nós somos seres de terra amassada, dependentes de uma mão que nos sustém e de um fogo que nos completa.

Em “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo”, o gesto cerâmico de Olivera encontra um prolongamento vital na experiência vivida na Fábrica Grestel, em Vagos, onde o artista e o assistente Wilfredo Cruz se viram como “duas crianças numa fábrica de brinquedos”. Ali, no seio de uma comunidade de artesãos hábeis, atentos e disponíveis, a matéria voltou a surpreender, abrindo caminhos inesperados. O ambiente fabril — monumental, disciplinado e tecnicamente exigente — funcionou como laboratório alquímico onde as altas temperaturas e os processos coloidais redefiniram a forma e a identidade das peças. Para Olivera, que sempre cultivou a vertigem criativa, o risco e a imprevisibilidade foram combustíveis do fogo criador: cada fornada foi uma iniciação, cada falha um desvio fértil, cada descoberta um pacto silencioso entre o artista, o barro e a chama. Dessa convivência de dois meses nasceram objectos híbridos, marcados pela cumplicidade com os trabalhadores e pelo entendimento de que a cerâmica pode ser simultaneamente disciplina e desobediência. A residência artística, enraizada na tradição industrial mas atravessada por pulsões espirituais andinas, tornou possível um conjunto de obras que parecem carregadas de uma certa aura benjaminiana — uma aparição irrepetível que se mantém à distância, mesmo quando está ao alcance da mão. É nesse encontro entre técnica rigorosa e imaginação indomada que se consolida a poética de Olivera: um modo de criar que aceita o abismo e que transforma o ofício em ritual.

A compreensão deste universo exige que atentemos no percurso do escultor peruano, cuja biografia revela uma constância rara. Desde a infância em Cusco, com exposições de plasticina aos dez anos, até às grandes esculturas em pedra instaladas em Lima e Barranco, o seu trabalho estabeleceu desde sempre um diálogo entre tradição, espiritualidade e experimentação formal. Olivera atravessou formações em restauro, conviveu com comunidades artísticas norte-americanas, participou em simpósios internacionais e criou obras monumentais que hoje habitam espaços públicos do Peru. Essa multiplicidade de vivências ecoa directamente no que agora apresenta: figuras em transe, rostos desdobrados, criaturas que parecem moldadas tanto pelo gesto humano quanto por forças telúricas. Em “Curandeiros e Feiticeiros do Fogo”, a cerâmica torna-se síntese desta trajectória, um palco onde se misturam a disciplina industrial aveirense e os espíritos dos Andes, a memória das rochas que esculpiu e a vontade incessante de se colocar “à beira do precipício”. A exposição não é apenas um conjunto de peças: É um campo sensorial onde matéria, história e ritual se interligam, convidando o espectador a entrar num jogo lúdico e iniciático. Aqui, Olivera parece dissolver-se no próprio barro, como se devolvesse à matéria aquilo que a matéria sempre lhe ofereceu, a possibilidade infinita de renascer.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "Fragilidade" | Paula Bastiaansen



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Fragilidade”,
de Paula Bastiaansen
XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística Aveiro 2025
Museu Arte Nova
18 Out 2025 > 18 Jan 2026


Há artistas cuja obra nasce de um instante inaugural, uma epifania silenciosa que se prolonga no tempo. No caso de Paula Bastiaansen, esse momento foi o encontro com uma pequena taça de porcelana chinesa, cuja delicadeza extrema parecia contrariar a ideia de fragilidade. A partir daí, a ceramista holandesa construiu um corpo de trabalho onde a porcelana é menos matéria do que estado: leve, translúcida, resistente ao tempo. A natureza surge como aliada conceptual - os ritmos das marés, os padrões repetidos, a força invisível dos fenómenos naturais -, traduzida não por imitação, mas por ressonância. Em “Fragilidade”, patente no Museu Arte Nova no âmbito da Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro, essa memória primeira reaparece como fio condutor: objectos que parecem ter sempre existido, suspensos entre permanência e desaparecimento, convocam o olhar para uma atenção lenta, quase meditativa.

A exposição revela a evolução profunda do pensamento espacial de Bastiaansen. Taças, fragmentos, volumes reconhecíveis, aquilo que começou por ser forma, foi progressivamente cedendo lugar ao espaço enquanto matéria central. A artista desloca o foco do objecto para o vazio que o atravessa, até ao ponto em que o centro desaparece e o próprio espaço se torna protagonista. Esta viragem, intuitiva mas inevitável, marca a maturidade de um trabalho que se recusa a fixar-se. Em Aveiro, a porcelana não se impõe; expande-se, instala-se, respira, embrenha-se na arquitectura de um edifício singular. As obras deixam de ser apenas tridimensionais para se tornarem experiência sensorial e corpórea, ocupando as superfícies e dialogando com a luz e com o silêncio. A fragilidade aqui não é fraqueza, mas tensão, esse equilíbrio subtil entre risco e permanência.

Nos desenvolvimentos mais recentes, a cor introduz uma nova pulsação na obra de Bastiaansen. Vermelhos intensos, amarelos vivos e azuis delicados atravessam a porcelana, não como ornamento, mas como energia vital. O processo técnico - folhas finíssimas de porcelana colorida enroladas até quase se confundirem - reforça a ideia de camadas de tempo e de gesto. A cor amplia o campo semântico da obra, acrescentando-lhe força emocional sem lhe retirar contenção. Em “Fragilidade”, essa expansão cromática convive com a delicadeza estrutural, criando um paradoxo fértil em torno de objectos que parecem prestes a quebrar, mas que afirmam a sua presença com convicção. Paula Bastiaansen lembra-nos que a verdadeira fragilidade é, afinal, uma forma elevada de resistência, uma arte de permanecer leve num mundo pesado.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: "Do Vermelho ao Vermelho" | Heitor Figueiredo



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: “Do Vermelho ao Vermelho”,
de Heitor Figueiredo
Curadoria | Patrícia Sarrico, Heitor Figueiredo
XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística Aveiro 2025
Galeria da Antiga Capitania
18 Out 2025 > 18 Jan 2026


A Casa de Heitor Figueiredo é um território habitado por estórias, sonhos e objectos que parecem ter encontrado ali um lugar provisório antes de se tornarem escultura. Entre brinquedos usados, fragmentos de ferro, madeira e palavras inscritas, constrói-se um universo onde o sonhado parece surgir em busca de uma fissura para se evadir. É dessa tensão entre o íntimo e o material, entre o jogo e a construção, que nasce a sua obra. Tal como Jorge Vieira desenhava os sonhos para que não se perdessem, Heitor trabalha a partir da imaginação como quem brinca seriamente: modela, cola, grava, equilibra volumes frágeis que se erguem no espaço com o mínimo apoio. As suas peças não imitam o real, antes o insinuam, convocando torres, casas, naves ou seres indefinidos que existem num limiar poético, onde ver é já um acto sensorial pleno, uma circulação de emoção.

A cerâmica é o eixo primordial deste trabalho, entendida não apenas como técnica, mas como herança viva. O barro vermelho, rude e pesado, aprendido com os mestres da Asseiceira e de Beringel, ou nos cursos de férias do CENCAL com ceramistas estrangeiros, é trabalhado com a liberdade de quem conhece profundamente a tradição e por isso a pode subverter. O trabalhar o “barro rude e pesado, cheio de areia”, a impressão de texturas encontradas, as palavras fragmentadas, os desenhos esgrafitados e os vidrados desenhados, compõem um léxico visual que se completa com títulos irónicos e sugestivos, abrindo a obra à interpretação do espectador. Após secagens e cozeduras sucessivas, a montagem final integra restos de ferro, paus, arames, tubos de plástico ou objetos banais, num jogo de associações imprevistas que dá sentido ao desperdício e transforma o efémero em permanência poética.

Com um percurso sólido e discreto, Heitor Figueiredo afirma-se como uma das vozes mais singulares da cerâmica contemporânea portuguesa. Formado no Porto, profundamente ligado ao Alentejo, percorreu centros fundamentais da cerâmica internacional - de Sargadelos a La Bisbal, de Faenza à Dinamarca - sem nunca perder a modéstia nem o espírito colectivo. A sua obra, eclética e multifuncional, estende-se para além da cerâmica, incorporando fotografia, instalação e gesto crítico, muitas vezes atravessado por humor e ironia. Prémios, exposições e a integração na Academia Internacional de Cerâmica confirmam um percurso que não se impôs pelo aparato, mas pela consistência. Em “Do Vermelho ao Vermelho”, a terra regressa à terra, lembrando-nos que, sendo finitos, é na arte e na argila moldada pela mão que deixamos vestígios duradouros do que fomos e do que sonhámos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

INSTALAÇÃO: “Heliotropismo: Do Centro Negro que é Tudo” | Lisa Barbosa



INSTALAÇÃO: “Heliotropismo: Do Centro Negro que é Tudo”,
de Lisa Barbosa
Curadoria | Lisa Barbosa, Patrícia Sarrico
XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2025
Estação de Aveiro
18 Out 2025 > 18 Jan 2026

Vestido de branco e pintado de azulejos, o edifício da antiga Estação dos Caminhos de Ferro de Aveiro acolhe, por estes dias, “Heliotropismo: Do Centro Negro que é Tudo”, instalação de Lisa Barbosa que se integra na XVII Bienal Internacional de Cerâmica Artística de Aveiro 2025. Numa sala envolta em penumbra, um conjunto de girassóis atrai o olhar e a reflexão do visitante. A artista parte das memórias de infância, dos lugares campestres, do barro, para reconstruir um território onde gesto e emoção se fixam e desmultiplicam. Aqui, cada pétala endurecida pelo fogo guarda a vulnerabilidade daquilo que nasce para desaparecer, lembrando-nos que a beleza é sempre, tal como a flor, uma aparição fugaz, uma forma de luz ancorada na experiência humana. Nesse encontro entre tradição e escultura contemporânea, a flor não é ornamento, antes veículo: Condensa afectos, traduz ausências, transporta o peso simbólico de celebrações, lutos e renascimentos. Como quem reaviva um vocabulário esquecido, Lisa Barbosa convoca a flor como testemunho da nossa busca insistente pelo belo, uma busca que, longe de ser superficial, é a forma mais honesta de manter vivo aquilo que em nós insiste em florescer.

Núcleo visceral da instalação, o campo de girassóis negros prolonga esta reflexão e desloca-a para o território da comunidade e do cuidado. A cor do carvão, onde tudo termina e tudo recomeça, acolhe hastes firmes que perseguem a luz sabendo que só o confronto da sombra lhes permite erguer-se e perseverar. A artista reinscreve o heliotropismo como metáfora ética, dizendo-nos que crescer é procurar a claridade, mas também reconhecer o lado oculto que sustenta o movimento. Na rigidez suspensa das flores, há um eco de brisa que perpassa, fricção que desinquieta e se oferece ao olhar para desmontar certezas e guiar o espectador aos lugares da sua própria interioridade. O amarelo vibrante que vemos com a imaginação no topo de cada uma das flores ressoa como promessa de alegria, de partilha, de pertença, enquanto o negro que se impõe ao nosso olhar devolve à obra a sua dimensão cíclica e trágica. Aqui, cada caule é uma biografia em construção no amparo das raízes entrelaçadas, prova de que a flor só se cumpre plenamente quando é, também, comunidade.

A instalação avança então para o terreno íntimo da semente, esse lugar onde origem, aposta e risco coabitam. Em cada girassol, Lisa Barbosa expõe a fragilidade das relações humanas, o semear no outro o que temos a mais, mas também o que nos falta. Ali, as sementes repousam sobre um solo incapaz de nutrir, espelhando a tentação de investir afectos em terras inférteis, num gesto de devoção cega que desfaz o equilíbrio do dar e receber. A cerâmica, ao fixar esse instante de falha e de esperança, afirma a semente como território ético. Germinar implica humildade, aceitar a espera, resistir com coragem. A artista utiliza a cerâmica para materializar esse instante crítico, tornando visível o que normalmente permanece abstracto: A escolha dos solos afectivos onde investimos, a linha ténue entre generosidade e devoção cega, a exaustão de quem se oferece de forma desmedida. As sementes pousam sobre um solo de carvão estéril, imagem que sintetiza o perigo de esquecer o próprio centro e de ignorar as necessidades internas. Ao reencenar este ciclo com precisão escultórica, Lisa Barbosa amplia o alcance ético da instalação: O crescimento emocional não depende apenas da luz que procuramos, mas da lucidez com que escolhemos onde semear e da coragem de reconhecer terrenos estéreis.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Intimismo” | Juan Ricardo Nordlinger



EXPOSIÇÃO DE PINTURA: “Intimismo”,
de Juan Ricardo Nordlinger
Casa Comum
24 Set > 22 Nov 2025


Juan Ricardo Nördlinger nasceu em Buenos Aires, em 1949, e tem actualmente o seu atelier em Santo Ovídio, Vila Nova de Gaia. A formação em Belas Artes no seu país natal, a Argentina, e a convivência com mestres como Elba Bairon ou Marcia Schwartz moldaram um percurso artístico tardio, mas profundamente consciente do gesto e da cor. Na pintura, como na gravura e na cerâmica, evidencia-se uma busca constante entre o exterior e o interior, uma tensão entre o mundo que o cerca e a introspecção que o habita. Nördlinger pinta como quem escava o próprio tempo: os objectos e figuras que surgem nas suas telas parecem emergir de uma névoa de recordações, um território em que a memória se confunde com a inspiração. Essa dimensão introspectiva nunca é fria nem analítica: é uma escuta visual, uma respiração emocional que o artista traduz através de manchas, rasgos e transparências que desafiam qualquer narrativa linear.

No cerne da sua obra reside um expressionismo vivo, de pulsação visceral, em que se adivinham ecos do surrealismo e da arte naïf, não pela ingenuidade formal, mas pela liberdade com que o artista assume o espanto perante o quotidiano. Ainda que reconhecíveis, os objectos, as figuras eos interiores aparecem deformados pela intensidade emotiva e pela vibração da cor, o que lhes confere uma energia que oscila entre o sonho e a confissão. Nördlinger trabalha a superfície da tela como um campo de batalha entre o que se vê e o que se pressente: cada mancha é uma tentativa de fixar o indizível. O uso exuberante da cor — os vermelhos que queimam, os azuis que ferem, os amarelos quase líquidos — transforma os seus quadros em lugares de alegria e vitalidade insuspeitada, mesmo quando os temas remetem à solidão ou à ausência. É essa contradição, entre a dor e a celebração, que dá corpo à sua pintura e a torna profundamente humana.

Na exposição “Intimismo”, patente até 22 de Novembro nesse lugar único de partilha de saberes que é a Casa Comum, Nördlinger propõe um regresso ao espaço doméstico e simbólico. O visitante é convidado a entrar “de mansinho”, a percorrer os corredores invisíveis de um refúgio interior, onde cadeiras, sofás e poltronas se tornam personagens silenciosas. A densidade humana, paradoxalmente ausente, sobrevive nos vestígios de uso, na vibração da cor, nas manchas que respiram memória. Aqui, o pintor faz do quotidiano matéria poética, diluindo as fronteiras entre o visível e o sugerido. Cada tela é uma confissão aberta, um espelho do que resta depois do ruído, uma meditação sobre o que significa habitar o mundo. Plena de lirismo e tensão, a pintura de Nördlinger devolve-nos a ideia de que o íntimo não é o que se esconde, antes o que se partilha através da cor e do traço.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: Portugal Cerâmico



EXPOSIÇÃO DE CERÂMICA: Portugal Cerâmico
Vários artistas
Associação Portuguesa de Cidades e Vilas de Cerâmica
Galeria António Lopes - Covilhã
07 Ago > 28 Set 2025


A cerâmica em Portugal possui raízes muito antigas, remontando ao período pré-romano, com vestígios de produção cerâmica datando da Idade do Ferro. Contudo, foi com a romanização da Península Ibérica que a cerâmica se consolidou como actividade estruturada, quer para fins utilitários — ânforas, talhas, utensílios domésticos —, quer para fins decorativos. Durante a Idade Média, sobretudo com a influência árabe, a cerâmica portuguesa enriqueceu-se tecnicamente, com o aperfeiçoamento do torno e o uso de vidrados e motivos geométricos ou vegetalistas. No período moderno, a produção diversificou-se ainda mais, acompanhando as necessidades do mundo rural e urbano: panelas, alguidares, potes, mas também azulejos e loiça artística. A tradição manteve-se viva nas aldeias e vilas, passada de geração em geração, com saberes empíricos e técnicas adaptadas aos recursos locais — como o barro vermelho, amarelo ou branco. Esta persistência ao longo dos séculos faz da cerâmica uma das expressões mais autênticas do património cultural imaterial português.

Os principais centros cerâmicos em Portugal distribuem-se por várias regiões, reflectindo a diversidade geológica e cultural do país. Destacam-se, a norte, Bisalhães (Vila Real), famoso pela sua olaria negra — hoje Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO —, e Barcelos, onde a cerâmica assume uma vertente mais decorativa e comercial. No centro, destaca-se o concelho de Tondela, também com produção de barro negro, Condeixa e Caldas da Rainha, que combinaram a olaria tradicional com a cerâmica artística, sobretudo a partir do legado de Rafael Bordalo Pinheiro, neste último caso. No Alentejo, os núcleos de Viana do Alentejo, Redondo, Reguengos de Monsaraz e Estremoz mantêm uma forte tradição, com peças utilitárias e decorativas, muitas vezes pintadas à mão e com motivos florais. Nos Açores destaca-se Vila Franca do Campo, graças ao trabalho de recuperação de uma actividade que se mostra hoje em expansão, tanto nas peças utilitárias como de intenção artística. 

Actualmente, a cerâmica portuguesa enfrenta desafios sérios, que vão do envelhecimento dos mestres oleiros à dificuldade às alterações nos hábitos de consumo. Contudo, há também sinais positivos que apontam para a sua revitalização, com a criação de projectos de design colaborativo, turismo criativo, certificações de origem e iniciativas de educação patrimonial — e que mostram um futuro possível, onde tradição e inovação possam conviver em equilíbrio. Fundada em 2018, a Associação Portuguesa de Cidades e Vilas de Cerâmica insere-se nesta dinâmica de promoção do património cultural associado à atividade cerâmica, integrando até à data trinta e um municípios associados. “Portugal Cerâmico”, a exposição que por estes dias pode ser vista na Galeria António Lopes, no coração da Covilhã, é o corolário lógico deste trabalho de promoção da cerâmica nacional, dando a ver um conjunto de peças representativas de cada um destes territórios, levando o visitante a desfrutar de uma viagem de descoberta e conhecimento do património português.

sábado, 16 de agosto de 2025

EXPOSIÇÃO: “Lúcido Devaneio”



EXPOSIÇÃO: “Lúcido Devaneio”
Panorama da Arte Contemporânea Portuguesa
Vários artistas
Curadoria | Hiuwai Chu & Raphael Fonseca
Galeria Municipal do Porto
12 Jul > 12 Out 2025


“Quem molda a cena artística portuguesa? O que impulsiona estes artistas — suas questões, preocupações, materiais e modos de produção? O que significa trabalhar em Portugal hoje? Quais são as vantagens e limitações desse contexto? Que prazeres e traumas um artista traz em sua identidade e/ou vínculo territorial com o país? Quantos Portugais existem em Portugal? Os artistas que vivem nas ilhas dos Açores e da Madeira têm as mesmas oportunidades que aqueles que vivem em Portugal continental? É possível ter uma carreira consistente sem se mudar para grandes cidades como Lisboa e Porto?”

O Panorama da Arte Contemporânea Portuguesa é uma nova iniciativa da Galeria Municipal do Porto. Inspirado no Panorama da Arte Brasileira, o projecto ambiciona apresentar com regularidade um recorte da produção contemporânea em Portugal. Outro objetivo é fortalecer a visibilidade da cena artística portuguesa através de colaborações com figuras da curadoria internacional. Para esta primeira edição a escolha recaiu em Hiuwai Chu e Raphael Fonseca, curadores com uma ampla experiência e activos em territórios como a Espanha, o Brasil e os Estados Unidos da América. “Lúcido Devaneio” é um fragmento visível de um projeto muito maior de interacção com a cena artística portuguesa, dando a ver o trabalho de um conjunto de artistas com práticas fortes e consistentes, mas que permanecem pouco reconhecidas internacionalmente. O que se vê nesta exposição é apenas uma pequena parte de um processo mais amplo: uma constelação de obras que atravessam gerações, disciplinas e meios. São designados por fragmentos, porquanto o cerne do projecto reside no que permanece invisível — as inúmeras visitas dos curadores a estúdios e as conversas com artistas que ressoam para lá da exposição.

O grupo de artistas apresentado é uma das múltiplas selecções possíveis e resulta dos interesses combinados dos curadores, explorados ao longo de cerca de um ano de pesquisa. O conjunto de vinte participantes ilustra a vitalidade e diversidade da cena artística nacional, traduzida no título poético e paradoxal da exposição. Este é o resultado de uma jornada que teve início no Porto, no final de abril de 2024, com inúmeras visitas a exposições em museus, galerias, festivais e espaços independentes, e conversas com curadores, mas, acima de tudo, com cerca de uma centena de artistas. Da profícua troca de ideias foi possível construir uma compreensão em primeira mão, muito peculiar e assimétrica, do panorama artístico contemporâneo, trabalhando desde o chão o entendimento do que está a fermentar na parte ocidental da Península Ibérica. Artistas nascidos, criados e que continuam a trabalhar em Portugal, artistas de outros lugares que fizeram de Portugal o seu lar e artistas portugueses que vivem no exterior e que mantêm fortes ligações à sua terra natal, a representação é diversificada nos interesses existenciais que a cercam, e permite reflectir sobre o porquê de alguém poder ainda criar imagens no presente.

São de Ana Vidigal, André Sousa, Andreia Santana, Belén Uriel, Dayana Lucas, Francisco Trêpa, Gonçalo Sena, Ilídio Candja, Joana Escoval, João Gabriel, João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira, Mané Pacheco, Mariana Caló & Francisco Queimadela, Sara Bichão, Sara Chang Yan, Silvestre Pestana, Sofia Borges, Teresa Murta, Tiago Madaleno e Tiago Mestre as obras que podem agora ser vistos na Galeria Municipal do Porto. Além de apresentar os trabalhos em si, a montagem da exposição privilegia a sua sobreposição, abrindo espaço ao diálogo em matéria de história e memória, corpo e lugar. No seu conjunto, os trabalhos desta vintena de artistas abre perspectivas que jogam de diferentes maneiras com um certo sentido de metamorfose e ficção. Em retrospectiva, as suas práticas artísticas quase nunca deixam clara uma “identidade portuguesa”, seja lá o que isso for, respondendo à falácia de qualquer projecto curatorial com abordagem nacional. É vendo a exposição que essa percepção surge como um “devaneio lúcido”, resultado talvez inesperado de um exaustivo processo de pesquisa curatorial, pronto para instalar no visitante um sentimento de ambiguidade, dúvida e inquietação.

[Baseado no texto curatorial inserto na Folha de Sala da exposição, em https://www.galeriamunicipaldoporto.pt/ficheiros/eventos/GMP_LcidoDevaneio_FolhaSala_web.pdf]

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

EXPOSIÇÃO: “Vozes da Fábrica – Vista Alegre e as Suas Gentes”



EXPOSIÇÃO: “Vozes da Fábrica – Vista Alegre e as Suas Gentes”
Curadoria | Margarida Campolargo, Pedro Rocha
Fábrica e Museu da Vista Alegre
04 Jul > 31 Dez 2024


“Já ali viveram, a par, os avós e os pais tanto de uns como de outros.
Todos se conhecem, é tudo uma família. Há o verdadeiro respeito pelos senhores da Fábrica,
Mas há também, da parte destes, o tradicional capricho de considerar afectuosamente
Todos os seus operários como companheiros, seus amigos, seus leais colaboradores.
A vida da povoação gravita em volta da vida industrial da fábrica.
Todos têm interesses nos resultados da laboração, todos se ocupam do que ali se passa.”
João Teodoro F. Pinto Basto, Livro do Centenário, 1924

Fundada em 1824, a Fábrica de Porcelana da Vista Alegre foi a primeira unidade industrial dedicada à produção da porcelana em Portugal. Para a fundação e sucesso deste arriscado empreendimento industrial foi determinante o espírito de persistência do seu fundador, José Ferreira Pinto Basto. Figura de destaque na sociedade portuguesa do século XIX, proprietário agrícola, comerciante audaz, incorporou sabiamente o ideário liberal do século, tendo-se tornado “o primeiro exemplo de livre iniciativa” em Portugal. Dos primeiros períodos de laboração, com a produção do vidro e cerâmica "pó de pedra" face ao desconhecimento da composição da pasta de porcelana até aos dias de hoje, a história da Vista Alegre faz-se de persistência, engenho, criatividade e algum sofrimento, mas sobretudo do saber-fazer dos operários e de um genuíno apego às tradições centenárias da empresa. São eles que fazem da Fábrica aquilo que ela é hoje, cotando-se entre as grandes manufacturas europeias.

Lugar social e de memória, a mostra leva o visitante à descoberta da Vista Alegre pelas vozes de quatro personagens colectivas, representativas da família Pinto Basto e das famílias operárias do Bairro. São elas que, no decurso do século XX, nos conduzem aos lugares mais íntimos da família, do trabalho, das festas e do bairro operário. Através de histórias da vida quotidiana, que misturam racionalidade empresarial e humanismo, partilham-se as dificuldades e esperanças da vida, o sentimento de pertença e a vontade de mudar. De um lado encontraremos José Ferreira Pinto Basto e o seu desejo de “proporcionar a todos roupa, educação, alimentação e casa”. Do outro, operárias e operários falam das suas conquistas ou permitem-se desabafar, contando histórias sombrias ou de final feliz. No Refeitório ou na Cooperativa, na Barbearia, na Sede do Futebol ou na Fonte dos Amores, as suas memórias dão nota de uma comunidade trabalhadora que rapidamente se converteu numa enorme família. Ao longo dos séculos.

Baseado no pressuposto de que a melhoria das condições de vida dos trabalhadores se traduziria numa maior produtividade da empresa, o fundador pôs em marcha um projecto revolucionário. Tendo a fábrica como cerne do complexo industrial, uma micro-cidade foi nascendo e crescendo à sua volta, com uma oferta à comunidade de trabalhadores que, além da habitação, oferecia infantário e escola para as crianças, uma cooperativa agrícola onde podiam adquirir os produtos a preços mais acessíveis, serviços de primeiros-socorros e de assistência médica, barbeiro, quiosque e um corpo de bombeiros (criado a 1 de Outubro de 1880, é o mais antigo corpo privativo do país); mas também um teatro, uma banda filarmónica, uma capela e uma equipa de futebol. É disto que os painéis que compõem a exposição nos falam, da creche criada em 1926 ao cinematógrafo surgido no mesmo ano, de “O Galego Lorpa”, a primeira peça representada no teatro da Vista Alegre, ao desafio do Vista Alegre com o Operário, cuja receita se destinou “em benefício do jogador Arménio, que, devido a um desastre se encontra impossibilitado de trabalhar”.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

EXPOSIÇÃO: “Liberdade - 50 anos, 50 mulheres, 50 dias”



EXPOSIÇÃO: “Liberdade - 50 anos, 50 mulheres, 50 dias”
Vários artistas
Museu Municipal de Espinho
08 Mar > 27 Abr 2024


Evocando a Revolução dos Cravos, o Museu Municipal de Espinho apresenta “Liberdade - 50 anos, 50 mulheres, 50 dias”, exposição onde se cruzam a pintura, o desenho, a escultura, a fotografia, a gravura, a cerâmica e a instalação. São 50 obras de 50 mulheres que, ao longo dos anos, deram a Espinho o privilégio de aqui apresentarem os seus trabalhos e que, para esta mostra, aceitaram partilhar o próprio sentir de liberdade. Tendo o 25 de Abril como mote das mais variadas formas de entendimento e expressão de um tempo aberto à igualdade, à justiça e à democracia, as artistas dão-se a ver no que têm de criatividade e sensibilidade, ousadia e irreverência. Ainda que de forma indirecta, são trabalhos que se inscrevem numa iconografia vasta e impressiva, assumindo-se como meios de intervenção no espaço social e político, no que neles há de denúncia e protesto, de reivindicação e afirmação.

Espaço aberto a todos os géneros, sensibilidades e formas de expressão artística, o Museu Municipal de Espinho e os seus responsáveis sempre tiveram para com as mulheres artistas uma especial deferência. Se provas fossem precisas, bastaria lembrar que um dos momentos mais altos da programação deste espaço é, em anos ímpares, a Bienal Internacional de Arte de Espinho, a qual, nas suas primeiras quatro edições, teve a designação de “Bienal Internacional Mulheres d’Artes” e destinava-se a um público exclusivamente feminino. Neste que é “o tempo das mulheres” (nome de uma exposição - e um livro - de Alfredo Cunha, outro artista que, com as suas fotografias, já ocupou as paredes das galerias Amadeo de Souza-Cardoso), deixemo-nos fascinar pela diversidade e beleza dos trabalhos expostos, abarcando com o pensamento a multiplicidade de propostas e vendo no seu conjunto um abraço a quem nos deu “o dia inicial inteiro e limpo”.

A minha visita à exposição foi um momento de afectos nesse reencontro com muitos dos trabalhos aqui apresentados, evocando lugares e contextos diferentes, do Museu Júlio Dinis à Casa da Cultura de Estarreja, da Zet Gallery à Cooperativa Árvore, do Auditório Municipal de Gondomar à Fiação de Lever e aos momentos sempre belíssimos da Bienal Internacional de Arte de Gaia, passando, naturalmente, por muitas das exposições que têm ocupado as galerias do Museu Municipal de Espinho. Foi um tempo feliz, um tempo de voltar a abraçar Manuela Mendes da Silva, Susana Bravo, Ana Torrie, Balbina Mendes, Elizabeth Leite, Yola Vale, Ana Aragão, Lauren Maganete, Ana Maria Pintora, Cristina Troufa, Alvarenga Marques, Inês Pargana, Maria Afonso, Celeste Ferreira, Graça Martins ou Maria Do Carmo Vieira. Mas também de conhecer - e guardar - novas artistas. Até ao dia 27 de Abril, é obrigatório passar por lá.

quarta-feira, 20 de março de 2024

LUGARES: Museu José Malhoa



LUGARES: Museu José Malhoa
Parque D. Carlos I, Caldas da Rainha
Horário | 10h00-12h30 e 14h00-17h30; encerra às segundas
Ingressos | € 3,00 (bilhete normal)


Primeiro edifício a ser projetado para fins museológicos em Portugal, o Museu José Malhoa integra o maior núcleo reunido de obras do seu patrono e em seu torno organizam-se as colecções de pintura, desenho, escultura, medalhística e cerâmica das Caldas, de finais do século XIX a meados do século XX, apresentando-se com um museu do Naturalismo português. Nascido a 28 de Abril de 1855, nas Caldas da Rainha, José Malhoa frequentou a Academia Real de Belas-Artes de Lisboa entre 1867 e 1875 e, a partir de 1881, integrou o Grupo do Leão. A sua obra fundamenta-se no estudo da luz e do sol, como expressões privilegiadas de uma observação ao ar livre. Explorou intensamente a paisagem, desde as composições iniciais ainda ligadas aos ensinamentos românticos, até aos pequenos formatos, mais adequados aos registos dos percursos pelo campo. Repartindo a sua actividade entre Lisboa e Figueiró dos Vinhos, foi inspirado pelos campos e gentes desta última região, permitindo-lhe traçar o retrato dum país rural e simples.

Num percurso circular ao longo de vários espaços expositivos, os primeiros olhares recaem no chamado Romantismo Tardio e no pré-Naturalismo, graças ao trabalho de pintores como Tomás de Anunciação, Ângelo Lupi ou Alfredo Keil e de escultores como Soares dos Reis e Simões de Almeida. Percebe-se que os episódios tradicionais da Mitologia e da História Nacional, tão ao gosto Romântico, vão cedendo lugar ao quotidiano, embora os motivos permaneçam tratados em atelier, segundo uma visão idealizada. O núcleo seguinte evoca o “Grupo do Leão” – nome que tem a sua origem na Cervejaria Leão d’Ouro, em Lisboa –, articulado em torno de Silva Porto e que agrupava nomes como Columbano, Rafael Bordalo Pinheiro, José Malhou, Moura Girão e outros. É com ele que assiste a um corte com os esquemas românticos e académicos de produção artística portuguesa para dar lugar a uma nova aceitação da natureza e da realidade, tomadas como modelo, objecto de estudo e de observação directa.

Outra sala leva-nos ao encontro do Centro Artístico Portuense, responsável por muita da animação da vida cultural da cidade Invicta no último quartel do século XIX. É lá que encontramos os pintores Marques de Oliveira, Artur Loureiro e Henrique Pousão, e o escultor Teixeira Lopes, entre outros. Com o Naturalismo a impôr-se como tendência artística dominante até meados do século XX, definindo um longo ciclo na vida artística nacional, as salas seguintes dão a ver um conjunto de obras de pintores como Carlos Reis, Luciano Freire, Veloso Salgado, Falcão Trigoso, Eduarda Lapa, Jaime Isidoro e de escultores como João da Silva, Henrique Moreira ou Anjos Teixeira. Para o final está reservado um olhar sobre aquilo que é designado por “sinais de mudança” e que nos diz da crescente disponibilidade de artistas para explorar uma variedade de experiências modernistas. São os casos das experiências geometrizantes nas paisagens de Fred Kraldorfer, da escultura abstracta de João Fragoso, da influência cubista na pintura de Delfim Maya ou das preocupações sociais de Manuel Filipe, em estreita vinculação com o Neo-Realismo de então.

As propostas do Museu José Malhoa, no entanto, não se quedam por aqui. Os amantes da aguarela vão poder apreciar obras de Alberto Sousa, António Vitorino, Alfredo Roque Gameiro ou do próprio Rei D. Varlos. No âmbito do retrato, há trabalhos notáveis de Eduardo Malta, Henrique Medina e do próprio José Malhoa. Nas experiências modernistas sobressaem uma extraordinária “Composição” de Eduardo Viana, um nu de Rui Roque Gameiro, o cromatismo de Sousa Lopes, a matriz neocézanneana de Dórdio Gomes ou os tratamentos geometrizantes das naturezas-mortas de Abel Manta e Henrique Franco. Há ainda uma sala dedicada a Rafael Bordalo Pinheiro e à arte do barro nas Caldas da Rainha, na qual se podem apreciar as cerca de sessenta figuras da “Paixão de Cristo” (1887-1899), encomenda do Estado a Rafael Bordalo Pinheiro, originalmente destinadas às Capelas dos Passos da Mata do Buçaco. A colecção transborda os limites do edifício e inclui uma exposição de esculturas no Parque D. Carlos I, onde se situa o Museu. Entre as árvores e os jardins do Parque, os visitantes podem conhecer trabalhos de vários artistas e gerações, como Leopoldo de Almeida, Leonor de Albuquerque Bettencourt e João Fragoso.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

EXPOSIÇÃO: "O Atelier sem o seu Artista: Uma Ode a Francisco Félix"



EXPOSIÇÃO: “O Atelier sem o seu Artista: Uma Ode a Francisco Félix”,
Fotografia | João Falcão
Museu da Olaria - Sala da Capela
10 Jan > 31 Mar 2024


Lugar de visita obrigatória em qualquer deslocação a Barcelos, o Museu da Olaria tem para oferecer, por estes dias, “O Atelier sem o seu Artista: Uma Ode a Francisco Félix”. Trata-se de uma exposição onde coabitam o atelier, a obra, e o que ficou por terminar. Tal é possível graças às imagens capturadas por João Falcão nos últimos dois anos do atelier após a partida de Francisco, seu avô. Cada imagem revela as peças inacabadas, os espaços agora vazios, os utensílios que ainda guardam a marca do artista, e até o par de sapatos com que trabalhava e que permanece como um eco silencioso da sua presença. Exposição do domínio dos sentidos, esta “ode a Francisco Félix” leva o visitante ao encontro das peças que compõem o seu legado. Cada obra é mais do que argila moldada; é a expressão da criatividade de Francisco Félix que transcende o tempo e a ausência física.

Pequenos galos de Barcelos em barro cru ou pintados de todas as cores, músicos no coreto ou em arruada, moldes, presépios, cabeçudos, uma virgem sem cabeça (ou será um Santo António?), uma Santa Isabel, um capacete da corporação de bombeiros de Barcelos. No coração da exposição encontramos as peças que Francisco Félix deixou, muitas delas por concluir. Todas são promessas por cumprir, formas que aguardam a transformação no calor do forno. Este é o atelier como um palco da criatividade. A sensação de ausência intensifica-se nos retratos que pendem da parede, o olhar nostálgico do fotógrafo a render homenagem a um tempo e um lugar habitados por um ser único que tanto lhe diz. Reter aquelas imagens e juntar-lhe os objectos que se oferecem ao nosso olhar é perceber quanto amor existe em cada peça saída das mãos do artista. É ver a paixão com que se dá forma, cor e vida a um pedaço de barro. É celebrar o processo criativo que transcende a vida de Francisco Félix e se torna signo e símbolo de toda uma região.

Falecido em 2021 com a idade de 87 anos, Francisco Félix foi uma figura multifacetada, autor conhecido por criar peças de artesanato únicas. Cresceu numa família com tradição na cerâmica e acompanhou, desde muito novo, os seus pais na produção e venda de cerâmica em feiras por todo o país. Depois de casado, estabeleceu a sua própria oficina no lugar de Aldeia, em Galegos Santa Maria e mais tarde trabalhou na fábrica familiar “Sociedade Decorativa de Louças de Barcelos, Lda.” em Manhente. Quando se aposentou, criou o seu próprio ateliê, onde continuou a criar peças únicas. Com a ajuda da esposa, especialista em pintura, dedicou-se então à produção de peças de decoração, nomeadamente o Galo de bico aberto, tão característico, mas também os coretos, os músicos, os presépios, e as estatuetas. Francisco Félix foi, sem dúvida, um artesão talentoso, que contribuiu significativamente para a promoção e preservação da tradição figurativa em Barcelos, tendo colaborado com outros artistas e deixado um legado duradouro no mundo do artesanato.